Díli submersa: chuvas prolongadas expõem fragilidade do sistema de drenagem

Na aldeia de Becusse Centro, a chuva da noite de terça-feira transformou a estrada numa ribeira, elevando o nível da água à altura de uma pequena ponte existente/Foto: Diligente

Sempre que chove mais de duas horas, a cidade de Díli volta a ficar submersa. Trinta pessoas chegaram a dormir no primeiro andar de uma casa, enquanto objetos foram arrastados pela corrente, equipamentos ficaram danificados e residências sofreram estragos. O problema repete-se ano após ano, e os planos de alargamento das estradas não parecem oferecer solução.

Após a chuva intensa de domingo, 22 de fevereiro, a água voltou a cair de forma prolongada durante a noite de terça-feira, 24 de fevereiro até à manhã de hoje. Nuvens densas continuam a cobrir Díli e outros municípios, enquanto a comunidade de várias zonas relata danos provocados pelas inundações.

Não é apenas a proximidade de uma ribeira que coloca famílias em risco. Qualquer local onde as canalizações não consigam escoar a água acaba por acumular volume suficiente para provocar inundações.

José Falo, morador em Becora, voltou a ser afetado. A sua casa situa-se junto à ribeira Maufelo. A água, proveniente de várias valetas, juntou-se à ribeira já sobrecarregada, atingindo a cintura e submergindo quase completamente seis motas da família, que ficaram danificadas. Todos os objetos dentro de casa foram atingidos, principalmente os fogões e as panelas utilizadas diariamente para preparar os “pentolans”, negócio que garante o sustento da família.

“A água subiu de repente. A chuva começou às 19h e, por volta das 3h da madrugada, a corrente forte levou algumas coisas”, relatou José Falo. Entre os objetos perdidos estavam bacias utilizadas no negócio familiar. Felizmente, conseguiram salvar parte dos pertences antes que fossem arrastados para a ribeira. O jovem e os outros nove membros da família passaram a noite acordados, sem conseguir descansar, e algumas roupas foram levadas pela água.

Na casa de José Falo, a inundação registada na quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026, deixou água pela altura dos joelhos/Foto: Serafino Caunan

Esta foi a quinta vez que a família Falo foi atingida por inundações desde que se mudou para a residência no ano passado. Com os fogões e as motas danificados, a família não conseguiu manter o seu negócio no dia da inundação e terá de gastar algum dinheiro para reparar os danos. “Não pensamos em mudar, porque talvez não conseguíssemos encontrar um lugar com o mesmo preço”, explicou José Falo.

A casa de dois quartos acolhe dez pessoas, que se ajudam mutuamente para gerir o negócio. O risco das inundações e a falta de alternativas acessíveis mantêm a família na mesma residência. Por um lado, desejam mudar para um local mais seguro; por outro, receiam não encontrar um espaço barato para tantas pessoas.

Solidariedade comunitária salva famílias vulneráveis

Em Fatuhada, a chuva intensa que durou mais de três horas afetou principalmente a aldeia 01 – Mataruak, situada perto de uma grande valeta que acumula água proveniente da direção de Comoro. A localidade alberga cerca de 420 famílias, sendo que 45 casas foram atingidas pela inundação de domingo.

A água chegou à altura do peito e transformou a estrada numa verdadeira ribeira. “A nossa aldeia é a mais afetada. Contactei a APC para evacuar a minha vizinha, que estava sozinha com os seus bebés, mas ao domingo ninguém trabalha”, contou Afliana Soares, chefe da aldeia 01 – Mataruak.

A líder comunitária teve então de procurar ajuda entre os moradores. Um vizinho, com uma casa de dois andares, ofereceu abrigo para cerca de 30 pessoas naquela noite. Afliana Soares salientou que as inundações são recorrentes na aldeia, afetando especialmente mães grávidas e que amamentam.

Naquela noite, as crianças mais pequenas dormiram num único andar da casa do vizinho, sobre tapetes, todas numa só sala. Os restantes adultos permaneceram acordados a noite inteira para limpar a lama das casas e preparar o espaço para que as crianças pudessem ir à escola no dia seguinte. Apesar do esforço, algumas crianças não conseguiram ir  às aulas porque as roupas ficaram sujas.

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A chuva intensa de domingo, que se prolongou por mais de três horas, deixou grandes quantidades de água acumuladas nas estradas, como na área de Bebora, Díli/Foto: Ajhu

Os estragos foram significativos: arroz e outros produtos alimentares estragados, colchões cobertos de lama, máquinas de água avariadas, entre outros bens. Uma família perdeu os peixes que guardava para o seu negócio, depois do frigorífico ter sido virado pela força da água.

“Os carros e as motas foram deslocados para locais mais altos antes que a água chegasse aos joelhos, porque aprendemos com a experiência de 4 de abril que a água cobre tudo. Na altura, entrou nos carros e ficaram todos avariados”, relatou Afliana Soares, chefe da aldeia 01 – Mataruak.

Recorde-se que, na inundação de 4 de abril de 2021, a comunidade sofreu perdas consideráveis, incluindo veículos e motas. A própria chefe da aldeia teve de deitar fora duas das suas motas. “Os estragos não são de 100 ou 200 dólares. Quando as motas avariam, o reparo pode custar até 500 dólares. As camas e os armários que ficaram submersos pela água ficam praticamente inutilizáveis”, lamentou.

Desta vez, a limpeza das casas demorou três dias, com grandes quantidades de bens deitados ao lixo. Afliana Soares estima que as perdas ultrapassem mil dólares. Atualmente, as famílias conseguem descansar nas próprias casas, mas ainda dormem em cima de tapetes, uma vez que os colchões lavados continuam húmidos.

Sistema de drenagem exige intervenção urgente

Quase todos os anos, durante a época das chuvas, esta aldeia e outras em Fatuhada ficam inundadas. Para Afliana Soares, a recorrência deste problema evidencia a necessidade urgente de reparação e melhoria das valetas e ribeiras da região.

“Pedimos que seja dada prioridade à ribeira ou valeta que vem da direção da JL Vila, porque quase todos os anos sofremos com as inundações. O que se pode fazer para que esta comunidade deixe de ser vítima?”, indagou a líder comunitária.

A comunidade não pede grandes obras: apenas melhoria do sistema de drenagem, uma responsabilidade do Estado. Segundo Afliana, a valeta principal não é profunda e não consegue acumular a quantidade de água que cai durante as chuvas prolongadas. Para facilitar a intervenção do Governo, a comunidade concordou em ceder cerca de um metro dos seus terrenos para reparação da valeta.

Além disso, as pequenas valetas da aldeia estão em condições precárias e necessitam de manutenção. A líder comunitária explicou que algumas desapareceram após a crise de 2016, quando houve construção de casas nos locais originais das valetas, deixando a comunidade vulnerável às cheias.

“A comunidade não exige que o Governo devolva os bens que perdemos, mas que previna que isto volte a acontecer. Em 2026, temos mesmo de resolver esta situação. Quero encontrar o ministro para apresentar as nossas necessidades”, concluiu Afliana Soares, reforçando que sem ação, os moradores continuarão expostos às mesmas situações.

Construção de estrada e ponte põe casa em risco em Becora

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Uma casa em Becusse perdeu parte da parede e corre risco de colapso durante as chuvas/Foto: Diligente

Em Becora, uma casa foi parcialmente destruída devido à escavação de terra com máquinas pesadas, durante a reconstrução da ponte Maufelo. Segundo Blandina Luruk, moradora, a vibração do terreno causada pelas máquinas provocou a queda de parte da parede da sua residência.

A casa, de apenas dois quartos, alberga 14 pessoas. Com a estrada recentemente construída mais alta do que o terreno, a residência ficou ainda mais baixa em relação ao solo. A queda parcial da parede ocorreu na terça-feira e, com a chuva da noite seguinte, a família viveu momentos de medo, temendo que a casa pudesse desabar sobre eles.

“Quando chove, levo as crianças para fora, porque por baixo desta casa não há nada. Temos medo que aconteça uma desgraça”, contou João Soares, filho da moradora.

As autoridades já recolheram os dados sobre a situação, mas ainda não se sabe se a família receberá algum apoio do Governo. Segundo os moradores, em episódios anteriores de inundação, nunca houve assistência estatal.

Ação urgente é crucial para proteger a população

A chuva pode ser reconfortante quando a habitação é segura, mas para famílias como a de Becora representa um alerta constante para possíveis desastres. A comunidade deposita a sua esperança no Governo, esperando intervenções que melhorem as valetas e ribeiras, capazes de suportar grandes volumes de água. Sem uma ação imediata, a população continuará vulnerável durante a época das chuvas.

O Governo tem investido em infraestruturas com metas como “mitigar cheias, inundações e outros desastres naturais através da construção de sistemas de drenagem”. O Orçamento Geral do Estado (OGE) de 2026 destinou cerca de 300 milhões de dólares para o Fundo de Infraestrutura, dos quais 10 milhões vão para água e saneamento e 17 milhões para manutenção, reabilitação e resposta a estruturas danificadas por calamidades.

O Plano Nacional de Ordenamento do Território de Timor-Leste (PNOT), elaborado em 2022, classificou a modernização do sistema de tratamento de água, saneamento e drenagem em Díli como prioridade de curto prazo.

O compromisso com a melhoria do saneamento e da drenagem em Díli remonta ao passado, concretamente a 2009, quando começou a ser elaborado o Dili Sanitation and Drainage Master Plan (Plano Diretor de Saneamento e Drenagem de Díli). A primeira fase da elaboração do plano contou com a colaboração do Governo australiano e com um investimento de 1,5 milhões de dólares por parte do Governo timorense.

No documento da segunda fase do plano, publicado em 2018, prevê-se reabilitação de vários canais em toda a cidade, totalizando 64 mil metros de comprimento. Na extensa lista de canais a reparar incluem-se os situados em Becora, Bemori, Bidau, Comoro, Caicoli, Ai-mutin e em quase todos os locais onde as inundações ocorrem com frequência. No entanto, este plano parece ter caído no esquecimento.

Mesmo assim, é possível observar atualmente a construção de valetas em algumas zonas da cidade. Enquanto se aguarda a implementação completa do plano e o cumprimento da meta de melhorar a vida da população, importa perguntar: que medidas urgentes ainda faltam para impedir que as inundações voltem a devastar a cidade?

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