Quase mil casos de dengue em apenas dois meses, sete mortes confirmadas e hospitais sob pressão voltam a colocar Timor-Leste perante um surto que se repete todos os anos. Enquanto o Governo é acusado de falhar na prevenção estruturada, famílias, líderes comunitários e escolas assumem medidas básicas para travar o mosquito.
Os casos de dengue em Timor-Leste continuam a subir e a ser uma ameaça persistente à saúde pública, sobretudo para as crianças. Dados do Ministério da Saúde indicam que entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 foram reportadas cerca de mil infeções, incluindo mais de 350 no Hospital Nacional Guido Valadares (HNGV), com sete mortes confirmadas em todo o território nacional. A maioria dos doentes são crianças entre os 0 e os 15 anos, aumentando o medo e a vigilância das famílias.
Especialistas e autoridades internacionais recordam que a dengue é endémica no país e atinge o seu pico na época das chuvas, entre dezembro e abril, e que esta não é a primeira vez que Timor-Leste enfrenta altas taxas de transmissão.
Em 2022, por exemplo, o país registou mais de 5.500 casos e 58 mortes, um dos maiores surtos da última década. Entre 2018 e 2022, mais de 6.200 casos e 55 mortes foram notificados no município de Díli, com picos que exigiram até a adaptação de espaços criados para a COVID-19 para atendimento de doentes de dengue.
Apesar destas tendências conhecidas e da existência comprovada de medidas de controlo, famílias, líderes comunitários e professores dizem que as ações permanentes de prevenção e controlo ainda são insuficientes.
Prevenção começa em casa
Para muitas mães, a prevenção começa em casa: limpeza dos quintais, eliminação de água parada, uso de mosquiteiros e repelentes.
“Disseram-nos para limpar os arredores, colocar os filhos a dormir dentro do mosquiteiro, usar repelente, vestir roupas que cubram o corpo”, afirmou Abelita Correia, moradora de Kuluhun. Apesar disso, vive perto de uma ribeira com água estagnada e lixo, condições propícias para o mosquito Aedes aegypti.
“Tenho medo pelos meus filhos, porque não há fumigação aqui. Disseram que se houver um caso confirmado no bairro, então vão fumigar.”
Para proteger os filhos, Abelita Correia evita, na maior parte do tempo, que as crianças brinquem ao ar livre. “Raramente deixo os meus filhos a brincar no exterior. De acordo com as orientações dos profissionais de saúde, costumo trocar a água dos tanques, verificar a água acumulada em qualquer recipiente, arrumar as roupas e tomar outras medidas preventivas”, explicou.
Quanto à prevenção, a mãe defendeu que o Ministério da Saúde deveria ter implementado medidas há muito tempo. “Esta situação não é inédita e volta a repetir-se este ano”, lamentou Abelita Correia.
Outras mães, como Andriani Magalhães, de 28 anos, dizem saber das medidas preventivas através de redes sociais e televisão, mas consideram que as campanhas ainda não são suficientemente eficazes nem abrangentes.
“Só campanhas de sensibilização, fumigação e distribuição de redes mosquiteiras não têm sido suficientes no combate à dengue.”
Andriani aponta ainda problemas causados por vizinhos que não limpam valetas, provocando acumulação de água suja que ameaça a saúde de toda a comunidade.
Escolas e sucos tentam travar o mosquito
Enquanto a resposta pública ao nível nacional é criticada, as comunidades e escolas tentam preencher lacunas.
A contribuição do suco, segundo o chefe de Kuluhun, Deus Martins, centra-se na prevenção da dengue entre os habitantes locais. Todas as sextas-feiras, o suco mobiliza a população para limpar toda a zona de Becora. “Os chefes da aldeia também comunicam com os moradores, incentivando-os a cuidar dos seus espaços e das suas crianças. Esta é a nossa contribuição para reduzir a transmissão”, explicou o chefe do suco.
Relativamente aos avisos do Ministério da Saúde, Deus Martins afirmou que a instituição deveria deslocar-se diretamente às comunidades para fornecer mais informações sobre a prevenção da dengue e realizar ações de fumigação.
A professora do Ensino Básico Filial Nu-Laran, Madalena da Silva, explicou que sente a responsabilidade de informar os alunos sobre a dengue, doença transmitida pela picada de mosquitos e que representa um risco sério para os mais novos. “É muito importante que as crianças saibam mais sobre a dengue, porque vemos, no dia a dia, que são elas que sofrem mais”, afirmou.
A docente sublinhou ainda que, na sua escola, a prevenção começa no ambiente escolar, com medidas simples, mas eficazes, para evitar a proliferação de mosquitos. “É preciso manter sempre os arredores da escola limpos, tanto dentro como fora das salas de aula, para que os mosquitos não proliferem em locais escuros e com lixo”, explicou.
Madalena da Silva garantiu que as crianças também aplicam estas medidas de prevenção em casa, envolvendo toda a família no combate à dengue. “A educação é uma ferramenta fundamental para reduzir os casos de dengue. Crianças bem informadas tornam-se agentes de mudança nas suas famílias e comunidades”, concluiu a professora.
Críticas políticas e alerta da OMS
A deputada da bancada da FRETILIN, Nurima Ribeiro Alkatiri, alertou para a gravidade do aumento dos casos de dengue em Timor-Leste, sublinhando que a situação reflete falhas na prevenção e na gestão do setor da saúde por parte do Governo.
A parlamentar recordou que a dengue não é uma doença nova no país e que o seu combate não depende de “pensamento positivo”, mas sim de ações concretas e de um planeamento eficaz. “Existem formas comprovadas de prevenção e controlo da doença, aplicadas com sucesso noutros países. O que falha não é a doença, mas quem tem a obrigação de proteger o povo”, afirmou.
Segundo Nurima Ribeiro Alkatiri, a falta de medidas preventivas cria condições para a proliferação do mosquito transmissor, agravando o sofrimento da população. “Pessoas doentes sem camas, famílias com medo, crianças a sofrer e profissionais de saúde sem meios para ajudar. Isto não é normal. Isto não devia acontecer em 2026”, disse, recordando que o Governo atual prometeu ser melhor do que o anterior.
A deputada destacou que um Governo sério deve preparar-se antes do pico da doença, reforçar os hospitais, garantir recursos humanos e materiais e proteger especialmente as crianças e os grupos mais vulneráveis. “Quando faltam camas, remédios e médicos, mas não falta dinheiro para contratos, negócios e carros, então as prioridades estão trocadas. Alguém está a ganhar enquanto o povo sofre. A saúde não pode ser um negócio. A saúde não pode ser brincadeira. A saúde é vida”, afirmou.
Nurima Alkatiri apelou à elaboração de um plano sério e sustentável para travar a dengue, com foco não apenas na resposta imediata, mas também na prevenção e erradicação a longo prazo. A deputada defendeu ainda que os responsáveis por falhas na gestão da saúde pública devem ser responsabilizados. “Cada pessoa que morre por não receber assistência é uma falha. Cada criança que não recebe cuidados dignos é uma injustiça. E isso não pode ser tratado como algo normal”, frisou.
Para concluir, Nurima Ribeiro Alkatiri garantiu que a FRETILIN continuará a denunciar a situação e a exigir responsabilidades ao Governo. “Quem governa deve cuidar do povo. Quem não cuida do povo tem de responder. A luta continua!”, encerrou.
Por sua vez, a deputada do CNRT, Virgínia Ana Belo, apelou à ação imediata do Ministério da Saúde para antecipar os problemas da dengue com a chegada da época das chuvas. “Fizemos uma audiência com o ministério e disseram que iam realizar a fumigação. Mas, na realidade, nada acontece. Espero que possamos salvar vidas, sobretudo as das crianças”, afirmou, destacando a necessidade de reforço dos hospitais de Tasi Tolu e Lahane.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) já tinha alertado para a gravidade da dengue em Timor-Leste desde o final de 2021, quando o país começou a registar um aumento invulgar de casos. Em 2020, foram notificados 1.451 casos e 10 mortes, e em 2021 registaram-se 901 casos e 11 mortes. No entanto, só em janeiro de 2022, Timor-Leste reportou 1.286 infeções num único mês, das quais 61% ocorreram em crianças com menos de 14 anos. Nesse período, foram identificados 142 casos graves e registadas 20 mortes.
A OMS sublinha que a dengue é uma doença endémica no país, com transmissão durante todo o ano, mas com maior incidência entre dezembro e abril, durante a época mais quente e chuvosa. A organização alerta que a atual estação das monções tende a aumentar a densidade de mosquitos e, consequentemente, o risco de novos surtos, tornando esta uma ameaça recorrente e previsível.
Apesar de a dengue não ser inesperada em Timor-Leste, a OMS considera “invulgar” o aumento diário significativo de casos e a elevada taxa de hospitalização observada em surtos recentes. A organização lembra ainda que infeções sucessivas aumentam o risco de dengue grave, uma vez que existem quatro serótipos do vírus e a imunidade adquirida contra um deles não protege contra os restantes.
Outro ponto destacado é a fragilidade da vigilância epidemiológica e laboratorial. Em surtos anteriores, entre 2005 e 2012, foram identificados dois serótipos em circulação (DENV-1 e DENV-3), mas desde 2012 não existe informação atualizada sobre os serótipos presentes no país, o que dificulta a monitorização e a resposta atempada.
A OMS insiste que não existe tratamento específico para a dengue e que a redução da mortalidade depende do reconhecimento precoce e de cuidados clínicos adequados. No entanto, reforça que o combate à doença deve centrar-se sobretudo na prevenção, através do controlo do mosquito transmissor. “A prevenção e o controlo da dengue dependem do controlo eficaz dos vetores”, afirma a organização, defendendo a eliminação de água parada, a gestão correta do lixo, a mobilização comunitária e medidas de proteção individual, como redes mosquiteiras, repelentes e vestuário protetor.
O surto, conclui a OMS, demonstra a necessidade de reforçar a vigilância de mosquitos, aumentar a capacidade hospitalar e criar locais sentinela para testar sistematicamente e identificar os vírus em circulação. A organização recomenda que as ações de controlo se concentrem em todos os espaços onde existe contacto entre pessoas e mosquitos — casas, escolas, locais de trabalho e hospitais —, lembrando que a prevenção só é eficaz quando é contínua e comunitária, e não apenas uma resposta de emergência.
Medidas inovadoras têm sido introduzidas em Timor-Leste, como a utilização de mosquitos portadores da bactéria Wolbachia, que reduz a transmissão de dengue. Programas piloto com Wolbachia têm começado em parceria com organizações internacionais, procurando reduzir casos a longo prazo.
No entanto, com a época das chuvas ainda longe de terminar, Timor-Leste volta a enfrentar um inimigo conhecido, previsível e evitável. Entre quintais limpos por mães, campanhas feitas por professores e alertas repetidos pela OMS, a pergunta mantém-se: quantos surtos mais serão necessários até que a prevenção deixe de ser uma responsabilidade das famílias e passe a ser uma prioridade permanente do Estado?


