Benjamim Corte-Real: Sem educação de qualidade, Timor-Leste será visto como “o menor” na ASEAN

Benjamin Corte-Real é doutorado em Linguística e licenciado em Direito. Leciona na Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL) desde 2001/Foto: Diligente

Com a entrada de Timor-Leste na ASEAN, a divulgação recente dos resultados dos exames nacionais e a aproximação de um novo ano letivo, o docente da UNTL defende uma aposta urgente em professores qualificados, pensamento crítico e formação orientada para a emancipação do cidadão.

Timor-Leste vive um momento decisivo no seu percurso político, social e educativo. A adesão recente à Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) veio reforçar a inserção internacional do país, somando-se à sua participação em organizações regionais e multilaterais como a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Ao mesmo tempo, foram recentemente divulgados os resultados dos exames nacionais e aproxima-se a entrada de novos estudantes no primeiro ano das licenciaturas nas várias universidades do país, num contexto marcado por desafios persistentes na qualidade do ensino.

É neste cenário que o debate sobre a educação ganha particular relevância. Para Benjamim Corte-Real, docente permanente da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL), a educação é a base fundamental para que os timorenses se possam afirmar com confiança no plano regional e internacional, evitando que o país seja visto como “o menor” ou “o menos preparado” nos espaços a que agora passa a pertencer.

Corte-Real defende uma reflexão profunda sobre o sistema educativo timorense, sublinhando a necessidade urgente de investir em professores qualificados, métodos de ensino centrados na autonomia e no pensamento crítico, e numa maior articulação entre a formação académica e as necessidades do país. O académico falava no primeiro dia da 3.ª Jornada Científica da Faculdade de Educação, Artes e Humanidades da UNTL, realizada esta quinta-feira, 18 de dezembro, sob o tema Política educativa de Timor-Leste na perspetiva da integração global e regional: desafios e perspetivas no contexto da CPLP e da ASEAN.

Nesta entrevista, Benjamim Corte-Real reflete sobre o papel da educação na integração regional, os limites do currículo atual, a preparação dos graduados para o mercado de trabalho e a importância da língua portuguesa como elemento distintivo de Timor-Leste no seio de uma ASEAN maioritariamente anglófona.

A educação é importante para que os timorenses possam competir melhor na ASEAN e também na CPLP. De que forma se deve investir neste setor?

O primeiro sentimento que nos atravessa enquanto timorenses é o de não querermos ser os últimos, os menores ou os menos relevantes nesses agrupamentos, tanto na ASEAN como na CPLP. Por isso, a primeira grande aposta deve ser o reforço de cada cidadão, através da educação. O cidadão e a cidadã timorenses, quando se apresentam nesses espaços, devem fazê-lo com a vontade e a capacidade de estar habilitados, aptos e preparados para interagir, comunicar e apresentar ideias.

A adesão à ASEAN e a pertença à CPLP devem ser encaradas como um forte motivo para reforçar a nossa determinação em investir na área da educação. Não queremos que os nossos cidadãos, ao integrarem essas organizações, sejam vistos como os mais fracos, os menos capazes ou os mais deficitários. Não podemos projetar o nosso país para esse nível. Pelo contrário, devemos alimentar a ambição de projetar os nossos cidadãos para os mais elevados patamares.

Com algum orgulho, já assistimos a sinais positivos, como o facto de Timor-Leste, por exemplo, em competições desportivas, conseguir vencer algumas seleções da região. A Seleção Nacional de Timor-Leste tem vindo a superar e a ganhar a outras seleções regionais, o que é um bom sinal. Mas por que razão não alargar esta ambição e esta capacidade a outros setores, nomeadamente à educação?

Atualmente, isso só será possível se promovemos uma educação de qualidade para os nossos cidadãos, sobretudo para os mais jovens e para as nossas cidadãs, de modo a que se possam apresentar ao mundo com autoconfiança, porque estão, de facto, bem preparados. Sem educação, aí sim, seremos realmente os menores.

Neste momento, Timor-Leste encontra-se envolvido em vários processos simultâneos. Um deles é um processo de conformação, no sentido de adotar padrões internacionais de qualidade na educação. Isto significa que não concebemos a nossa educação apenas com base em critérios nacionais, domésticos ou internos. Pelo contrário, desenvolvemo-la com atenção ao que está a acontecer no mundo, noutros blocos regionais e noutros países, para não perdermos relevância no cenário internacional. Os nossos cidadãos têm o direito e o dever de adquirir uma educação que os habilite a conviver e a participar de forma confortável no contexto internacional. Esta conformação passa também pela adoção das melhores práticas educativas a nível mundial, em articulação com organizações como a UNESCO, a UNICEF e as Nações Unidas.

Timor-Leste está igualmente num outro processo, que é o processo de autoafirmação perante a alteridade. Perante o outro, o país afirma-se para dizer: eu sou eu, assim como tu és tu. Esta autoafirmação consubstancia todas as razões políticas, históricas e culturais que sustentam a independência e a soberania do Estado timorense. Assim, Timor-Leste vive um processo contínuo de afirmação da sua identidade perante o exterior.

Existe ainda um terceiro processo, o da autoemancipação histórica. Quando o país ascende à independência no palco internacional, traz consigo uma pesada herança histórica de séculos de domínio estrangeiro. Falar de educação é, por isso, falar também de um processo de autoemancipação.

É necessário emancipar o povo. A educação implica criar mecanismos que permitam essa emancipação, combatendo a ignorância hereditária, a iliteracia e a inumeracia. O povo precisa de estar esclarecido e educado para compreender os processos nacionais, exercer plenamente a sua cidadania e maximizar a sua vida cívica e política. É neste sentido que a educação desempenha um papel fundamental: o de emancipar o povo.

Considera que o currículo atualmente em vigor é adequado para que Timor-Leste alcance esses objetivos?

Penso que, mais do que o currículo — que tem, de facto, várias fragilidades —, a questão central passa por colocar na sala de aula professores competentes. Digo isto com toda a seriedade. Não se trata do professor que fala alto ou que impõe autoridade pelo tom, mas daquele que domina a sua área de conhecimento, que sabe interagir com os alunos, conduzir a aula e manusear o currículo recorrendo aos diversos mecanismos didáticos disponíveis.

A psicologia assume aqui um papel muito importante, sobretudo nos níveis de ensino mais baixos. Numa fase em que a criança, muitas vezes, não consegue manter a atenção durante mais de alguns minutos, é fundamental que o professor saiba estruturar e canalizar a explicação de forma clara e eficaz, para que a mensagem seja apreendida pelo aluno sem dispersão.

É, por isso, essencial investir numa formação sólida dos professores, para que saibam gerir a sala de aula, manter o interesse e a atenção dos alunos e garantir a qualidade do conteúdo que transmitem. Gostaria de sublinhar, em particular, a prioridade que deve ser dada ao desenvolvimento do raciocínio crítico. Todo o cidadão deve ser incentivado a pensar de forma crítica.

Atualmente, existe o risco de as pessoas se tornarem dogmáticas, influenciadas por doutrinas falsas e por formas de propaganda frágeis. É fundamental promover um conhecimento assente no raciocínio crítico e no pensamento lógico. Habituar a criança a realizar trabalho autónomo, com base nesse raciocínio crítico, é essencial para lhe dar autonomia na progressão dos seus estudos para níveis mais elevados. Se esse hábito não for adquirido desde cedo, torna-se muito difícil desenvolvê-lo mais tarde.

A educação deve, portanto, ser sempre encarada como um processo longo e cuidadosamente acompanhado, de modo a garantir o aproveitamento intelectual de quem aprende. Para o professor, a maior recompensa deve ser ver o progresso dos seus alunos e acompanhar, no dia a dia, o seu sucesso. A escola não pode ser um espaço onde se cumpre um horário, se transmite qualquer conteúdo e depois se responsabiliza o aluno pelo insucesso. Hoje em dia, é demasiado fácil culpar o aluno por não ter aprendido, quando muitas das falhas têm origem, na verdade, na atuação do próprio professor.

Devemos questionar-nos constantemente: estamos a praticar a educação de forma correta? Estamos a transmitir a informação de maneira adequada? Estamos a ensinar bem, para garantir o verdadeiro aproveitamento dos jovens? Estas devem ser perguntas permanentes na mente de cada professor e de cada professora. Não se entra numa sala de aula durante uma hora e meia ou duas horas para despejar informação, sem refletir sobre o que o aluno levará consigo ao sair.

Tem de existir uma diferença clara entre o momento em que o aluno entra na sala de aula e aquele em que sai. Ao sair, deve levar consigo uma bagagem adicional, fruto do esforço do professor, da sua preparação prévia e do objetivo de produzir, no cidadão, um verdadeiro efeito de emancipação. Todos os dias, o aluno deve sair satisfeito por ter aprendido algo novo.

É igualmente necessário que o Governo e o Estado saibam criar os instrumentos legislativos adequados, adotar programas e políticas públicas, disponibilizar meios e promover ações que permitam, através da educação, formar o cidadão timorense como um indivíduo apto, capaz e respeitado quando se apresenta no cenário internacional.

Considera que os graduados da UNTL estão, de facto, preparados para o mercado de trabalho, tendo em conta que muitos chegam ao Ensino Superior com lacunas provenientes do ensino secundário?

O perfil do graduado da UNTL depende muito da configuração do próprio mercado de trabalho. Muitas vezes, tende-se a encarar o produto académico como algo diretamente ajustado às necessidades imediatas do mercado. No contexto timorense, porém, essa relação não se verifica de forma linear.

Em Timor-Leste, existe uma preocupação fundamental em garantir formação aos jovens cidadãos, independentemente de existir ou não, à partida, um campo de trabalho à sua espera. Por essa razão, muitos graduados acabam por procurar empregos que nem sempre correspondem à sua área de formação.

Contudo, a prioridade de formar os jovens não pode depender exclusivamente da existência imediata de oportunidades de emprego. O cidadão, em qualquer circunstância, merece ter acesso à formação. Cabe ao Estado assumir a responsabilidade de articular os ramos de formação com os setores de atividade económica e profissional que o país deve promover.

Há, portanto, ainda um longo caminho a percorrer no que diz respeito à correspondência entre as prioridades das áreas de formação e o campo de trabalho que o país necessita de desenvolver. Neste momento, penso que ainda não existe um esforço sério e estruturado nesse sentido. Como resultado, muitos jovens concluem os seus cursos e ficam entregues à sorte de encontrar, ou não, um emprego.

Mesmo quando encontram trabalho, muitas vezes este não corresponde à formação que receberam na universidade. São poucos os graduados que saem do Ensino Superior e conseguem uma colocação imediata na sua área.

Em três ou quatro anos de licenciatura, existe o risco de se privilegiar a quantidade de diplomas em detrimento da qualidade da formação, acentuando essas fragilidades?

Esse é um risco muito real. Quando o principal objetivo passa a ser cumprir um prazo temporal para a formação de um graduado — quatro ou cinco anos, por exemplo — sem uma exigência rigorosa do cumprimento de todos os requisitos académicos, a tendência é que, ao fim desse período, o estudante conclua o curso sem garantias de o ter feito com a qualidade necessária.

Por outro lado, muitos dos cursos atualmente oferecidos em Timor-Leste não correspondem a uma procura imediata no mercado de trabalho. Ainda assim, não é simples encerrar essas formações, porque, numa perspetiva de desenvolvimento normal de um país, esses cursos podem e devem ter o seu lugar.

O verdadeiro problema reside na falta de articulação entre o número de estudantes que ingressam nesses cursos e o número real de vagas existentes no mercado de trabalho. Quantas oportunidades existem, por exemplo, nas áreas da Engenharia, da Agricultura, do Ambiente ou mesmo para professores do Ensino Básico e do Ensino Secundário?

Se não houver vagas suficientes e continuarmos a admitir um número excessivo de jovens nessas áreas, é previsível que, dentro de quatro ou cinco anos, exista um elevado número de graduados à espera de emprego. Este é um dilema que ainda não conseguimos evitar. Por um lado, temos a obrigação de formar os jovens, que aspiram legitimamente ao Ensino Superior. Por outro, o Estado ainda não dispõe da capacidade necessária para criar campos de trabalho suficientes ou, em alternativa, espera-se que cada graduado, de forma criativa, consiga empreender e gerar a sua própria atividade profissional, absorvendo força de trabalho.

Existe, assim, um movimento constante de responsabilidades partilhadas entre decisores políticos e educadores. As universidades entendem que a sua missão é formar. O Governo, por sua vez, considera que quem forma deve também assumir a responsabilidade de criar condições para a integração no mercado de trabalho ou, pelo menos, de articular a formação com a criação de emprego.

O próprio graduado é frequentemente chamado a assumir a capacidade de criar o seu próprio campo de trabalho. Trata-se, porém, de uma exigência que é feita de forma mútua e recíproca entre todos os intervenientes deste processo.

Qual é a importância da língua portuguesa para Timor-Leste enquanto membro da ASEAN, uma região maioritariamente anglófona?

Se olharmos para a questão do ponto de vista da singularidade de Timor-Leste, a sua adesão à ASEAN representa também um fator de enriquecimento para a própria organização, uma vez que contribui para aumentar a sua diversidade. Ao integrar a ASEAN, Timor-Leste traz consigo novos elementos distintivos, sendo um deles, precisamente, a língua portuguesa.

A determinação de autoafirmação de Timor-Leste não fica fragilizada nem condicionada pela adesão à ASEAN. Pelo contrário, essa dimensão integra o conjunto da sua identidade ao ser aceite como novo membro da organização. A ASEAN torna-se, assim, mais diversa e mais rica. Nessa medida, não deve existir qualquer sentimento de conflito, rivalidade ou competição.

O que se reforça é, antes, uma maior consciência das mais-valias que Timor-Leste possui no contexto internacional. Destacam-se, por um lado, a sua experiência de convivência regional, em grande parte moldada pelo período de domínio indonésio, e, por outro, a sua projeção internacional resultante da luta pela independência. Durante os 24 anos desse processo, Timor-Leste manteve-se presente nas agendas internacionais.

Assim, as mais-valias e as valências de Timor-Leste reafirmam-se sempre que o país passa a integrar uma nova associação ou um novo bloco regional.

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  1. Os argumentos e reflexões feitas pelo Prof. Benjamim são muito consistentes e pertinentes. Passar da fase da organização e implantação de um sistema educacional interno e integrar uma comunidade de nações requer novas formas de conceber e fazer educação. Dar-se conta dessa nova realidade e pensar esse novo cenário é um desafio que demanda muitos esforços por parte do governo, professores e comunidade timorense. Está certo o Prof. Benjamim em destacar a urgente necessidade de qualificar os professores como política permanente,diante do cenário de globalização em que Timor Leste se insere.

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