Becora à beira da seca: população paga caro por direito básico

"Cooperámos com o Governo na remoção das nossas residências, por isso, o Governo também deve cumprir a sua parte e garantir o fornecimento de água”, disse Domingas Guterres. /Foto: Diligente

A falta de abastecimento regular de água nas aldeias do suco de Becora, em Díli, está a forçar famílias e autoridades locais a recorrer à compra de água em camiões-cisterna e à perfuração de poços para garantir as necessidades básicas. Moradores denunciam despesas elevadas e exigem soluções, enquanto aguardam resposta da empresa pública de abastecimento.

Às seis da manhã, Lúcia Canossa, moradora de Becussi Centro, enche baldes de plástico com a água que acabou de comprar por 12 dólares. Em Becussi Centro, a torneira está seca há semanas.

A escassez de água nas aldeias de Becussi Kraik, Becussi Centro e Rumit tem agravado as dificuldades da população. Sem abastecimento regular, muitos moradores são obrigados a comprar água a fornecedores privados, adquirir aos vizinhos ou perfurar poços para suprir as necessidades diárias.

Lúcia Canossa conta que desde o final de janeiro passou a comprar água de camiões-cisterna. Cada fornecimento varia entre 12 e 25 dólares.

“Por semana, compramos cerca de 2.000 litros de água por 12 dólares, duas vezes. Somos seis pessoas em casa e utilizamos essa água para cozinhar, lavar roupa e tomar banho. Às vezes, levamos a roupa para lavar em casa de familiares em Manleuna e Bebonuk”, relatou. Segundo a moradora, até ao momento já gastou mais de 200 dólares apenas na compra de água.

O custo da água para as famílias de Becora representa uma despesa significativa no orçamento doméstico. Uma família como a de Lúcia Canossa, que compra cerca de 4.000 litros por mês a um custo total de 24 dólares por semana, gasta aproximadamente 96 dólares mensais apenas para ter água para cozinhar, lavar roupa e tomar banho.

Ao longo de um ano, este valor ultrapassa os 1.000 dólares, uma quantia elevada para muitas famílias locais, especialmente considerando que algumas vivem com rendimentos irregulares ou empregos ocasionais. Esta situação evidencia que a escassez de água não é apenas um problema de infraestrutura, mas também um fardo económico real para os moradores.

Também Miguel Caldas, residente em Becora, afirma que a sua família enfrenta o problema de falta de água desde 2023 e sublinha que “este não é um problema recente”.

“Há muito tempo que vivemos sem um abastecimento regular, enquanto continuamos a ouvir promessas de melhorias e investimento público. Ano após ano, o Orçamento Geral do Estado é aprovado, os recursos são atribuídos à empresa pública Bee Timor-Leste (BTL, E.P.), mas, na realidade, nada muda”, afirmou.

Entre 2023 e 2025, a sua família comprou regularmente água por 25 dólares por tanque, quantidade que durava cerca de duas semanas. “Somos obrigados a comprar água para garantir o mínimo necessário para viver com dignidade. Gastamos dinheiro extra todos os meses, enquanto o custo de vida aumenta”, explicou.

De acordo com Miguel Caldas, a situação levou a que, em 2025, quatro a cinco famílias se juntassem. “Tivemos de contribuir com mais de mil dólares do nosso bolso, porque já não acreditamos que a solução chegue rapidamente das autoridades responsáveis”, disse Miguel Caldas, questionando: “É justo que os cidadãos assumam uma responsabilidade que pertence ao Estado?”

O morador recorda que existe uma entidade pública encarregada do abastecimento de água. “Existe uma empresa pública responsável pelo abastecimento de água, a BTL, que recebe orçamento público todos os anos. Pergunto diretamente: está realmente a trabalhar para todos ou apenas para algumas áreas? Porque é que Becora continua esquecida?”, interrogou.

Citando a Constituição da República Democrática de Timor-Leste, Miguel Caldas sublinhou que o acesso à água é um direito fundamental.

“A Constituição afirma que o Estado deve promover o bem-estar do povo e garantir condições de vida dignas. Sem água não há saúde, não há higiene, não há dignidade. Não estamos a pedir luxo, estamos a exigir um direito básico”, enfatizou.

A posição defendida por Miguel Caldas encontra respaldo na Constituição da República Democrática de Timor-Leste. O artigo 6.º estabelece como um dos objetivos do Estado “promover a edificação de uma sociedade com base na justiça social, criando o bem-estar material e espiritual dos cidadãos”.

Por sua vez, o artigo 1.º consagra Timor-Leste como um Estado de direito democrático, assente na vontade popular e no respeito pela dignidade da pessoa humana. Neste contexto, o acesso à água potável não pode ser visto como um privilégio, mas como uma condição essencial para garantir dignidade, saúde e bem-estar à população.

O morador apelou ainda às autoridades por “respostas claras, transparência na utilização dos recursos públicos e um plano concreto com prazo definido para resolver definitivamente esta situação. Becora não pode permanecer invisível enquanto o país fala de desenvolvimento”.

A chefe da aldeia de Becussi Kraik, Alice Amaral, afirmou que cerca de dois mil habitantes da sua aldeia necessitam urgentemente de água potável. Segundo explicou, muitos moradores são obrigados a comprar água a vizinhos ou a fornecedores privados.

“No meu caso, também sou dona de casa e compro água ao meu vizinho de três em três dias, porque ele tem um poço perfurado. Cada compra custa três dólares para encher os tanques da casa de banho, jerricans e baldes da cozinha. Somos 13 pessoas a utilizar essa água”, contou.

Relativamente à compra de água por 25 dólares em camiões-cisterna, a responsável afirmou que nunca recorreu a essa solução. “Graças ao meu vizinho, consigo satisfazer as necessidades da minha família. Recebo salário de três em três meses, seria impossível pagar 25 dólares de três em três dias. Muito menos para algumas famílias da minha aldeia que não têm emprego”, explicou.

Alice Amaral afirmou ainda que já apresentou um pedido formal à Bee Timor-Leste para resolver a situação. “Até agora, nada aconteceu. Antes, a água corria normalmente. Agora, devido à construção da estrada, as torneiras estão secas”, lamentou.

Por sua vez, Domingas Guterres, chefe da aldeia de Rumit, relatou que, nos últimos seis meses do ano passado, o abastecimento tornou-se irregular e que atualmente está totalmente interrompido.

Segundo explicou, a aldeia solicitou apoio à BTL, que disponibilizou dois tanques com capacidade para 1.100 litros cada. A empresa assegura o abastecimento duas vezes por dia.

“Mesmo assim, a água não é suficiente. Já pedimos mais dois tanques, mas ainda não obtivemos resposta. Cooperámos com o Governo na remoção das nossas residências, por isso o Governo também deve cumprir a sua parte e garantir o fornecimento de água”, criticou.

O chefe do suco de Becora, António Soares, explicou que o suco é composto por 10 aldeias, das quais pelo menos nove enfrentam atualmente falta de água.

“Desde 2025, com a aplicação do despejo administrativo, a população começou a reclamar cada vez mais. No meu caso, desde o início do ano passado compro semanalmente 5.000 litros de água por 20 dólares”, afirmou.

Segundo o responsável, quase diariamente a população apresenta queixas às autoridades locais. “Submetemos pedidos à BTL, mas até agora não houve qualquer resposta”, acrescentou.

Em resposta, o Ministro das Obras Públicas, Samuel Marçal, reconheceu a falta de água para a população de Becora, causada pelo alargamento da estrada, e garantiu que o processo da obra está em curso.

“Não estamos apenas a enterrar os canos, mas também os cabos de fibra ótica e de eletricidade. Reconheço que alguns canos foram danificados pelos equipamentos de construção. Com todo este problema, é preciso ter paciência para melhorar a nossa nação”, afirmou o responsável.

Questionado sobre o prazo para que a população volte a ter acesso normal à água, o governante assegurou que o problema será resolvido em breve. “Não posso indicar o dia exato, mas o Governo tem a responsabilidade de canalizar água para a comunidade afetada”, concluiu Samuel Marçal.

De acordo com o relatório orçamental a que o Diligente teve acesso, o Governo de Timor-Leste previu, para 2026, a atribuição de subsídios estratégicos às empresas públicas, com o objetivo de garantir a prestação de serviços essenciais à população. Entre as principais alocações, estão previstos seis milhões de dólares para a Bee Timor-Leste (BTL, E.P.), destinados à expansão da infraestrutura hídrica no país e ao reforço do acesso seguro e fiável à água.

O Diligente tentou contactar várias vezes o diretor de Operação e Manutenção da Bee Timor-Leste, Aleixo dos Santos, mas não obteve resposta, uma vez que o responsável se encontrava fora do escritório a participar em diversos encontros.

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