Água escassa em Díli: residentes ainda enfrentam falta de abastecimento

Moradores a transportarem água/Fonte: Diligente

Em pleno século XXI, os habitantes de Díli continuam a percorrer longas distâncias em busca de água potável, revelando falhas crónicas no abastecimento da capital.

Sob um sol escaldante, à sombra das poucas árvores disponíveis, moradores de vários bairros de Díli aguardam pacientemente a sua vez para encher baldes e bidões com água. Esta cena, comum na capital, denuncia uma realidade chocante: depois de mais de 250 anos como centro político e 23 anos de governação própria, a cidade ainda não garante o acesso a um dos direitos humanos mais básicos — água potável.

Apesar de ser o centro de decisões políticas e investimentos, Díli continua longe de assegurar condições dignas a todos os seus habitantes. Em várias zonas, a população enfrenta dificuldades crónicas no acesso a necessidades fundamentais, como água, saneamento, habitação adequada e infraestruturas básicas.

Especialistas e líderes comunitários alertam que, enquanto a atenção do governo se concentrar sobretudo no desenvolvimento físico e em obras visíveis, problemas estruturais como este continuarão a colocar em risco a saúde pública e a qualidade de vida, sobretudo nas áreas mais pobres e desassistidas.

A água não é apenas essencial para beber e cozinhar. É vital para a higiene, a limpeza e para sustentar atividades económicas como a agricultura e a criação de animais. Em comunidades que dependem das suas hortas e do gado para sobreviver, a escassez de água compromete não só o rendimento das famílias, mas também a segurança alimentar local.

A população exige que o atual e os futuros governos tratem o acesso a água como prioridade absoluta, garantindo soluções duradouras que acabem com uma crise que, em pleno século XXI, é inaceitável para qualquer capital.

Fonte de água Belukenu/Foto: Diligente /

Os residentes da Aldeia Aidak-Bihare, no suco Camea, continuam a depender de uma fonte tradicional conhecida como Belukenu, utilizada pela comunidade desde tempos antigos e que permanece como a única fonte de água limpa disponível.

A fonte Belukenu situa-se próxima da estrada principal, numa zona quase plana, o que obriga os habitantes das colinas a descerem a encosta para abastecerem os seus depósitos de água. A maioria das famílias vive longe da nascente, tornando necessário percorrer longas distâncias diariamente para garantir o abastecimento.

Domingos dos Santos Soares explicou que a nascente existe “desde tempos imemoriais”. “Antigamente, a população da zona era pequena, pelo que a comunidade não enfrentava grandes dificuldades. Com o aumento do número de habitantes, os moradores passaram a esforçar-se mais para ter acesso à água”, disse.

O acesso limitado à água potável continua a ser um desafio para a comunidade, especialmente durante a estação seca, quando a procura aumenta e os níveis da nascente podem diminuir significativamente.

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Fonte de água Be Bedaur Fatuk Mateus /Foto: Diligente

A poucos quilómetros da nascente de Belukenu, encontra-se a nascente Bedaur Fatuk Mateus, utilizada pela comunidade desde tempos imemoriais e que continua a beneficiar os habitantes locais. Todos os dias, os residentes revezam-se para recolher água, especialmente durante a estação seca, quando o volume disponível diminui. Esta situação preocupa, devido ao impacto que pode ter na vida quotidiana da população.

O delegado da aldeia de Ai-dak, em Bihare, José Ferreira, revelou que o seu partido apresentou repetidamente propostas ao governo para garantir um abastecimento de água adequado, mas até ao momento não obteve resposta.

“Para manter a fonte limpa, a comunidade construiu um muro à sua volta. Todos os dias, os moradores enchem a fonte de forma alternada e equilibrada, para evitar problemas”, explicou José Ferreira.

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Morador de Ailele-hun a encher os garrafões com água/Foto: Diligente

Os moradores da aldeia de Ai-Lele Hun, no suco Camea, Posto Administrativo de Cristo Rei, em Díli, continuam a enfrentar dificuldades significativas no acesso a água potável. Até recentemente, dependiam exclusivamente da água do rio, percorrendo longas distâncias para a recolher, especialmente durante a estação seca.

Agora, a comunidade passou a ter acesso a um tanque de água potável localizado na aldeia de Bedois, uma infraestrutura construída com o apoio da paróquia local, embora o acesso seja pago. Cada família paga entre 1 e 5 dólares, dependendo do volume de água retirado: 1 dólar para recolher água no próprio local e até 5 dólares para entrega direta em casa. Os fundos arrecadados destinam-se à manutenção do sistema.

Joanina Soares Lopes, residente da aldeia, afirmou: “Esta água vem do tanque construído com o apoio da paróquia de Bedois, e é muito útil para nós. Antes, tínhamos de ir ao rio, e em alguns dias era difícil, porque muitas pessoas precisavam de água. Agora, mesmo pagando, pelo menos temos acesso mais próximo.”

Apesar do avanço, esta instalação é considerada uma solução temporária. Os moradores esperam que, no futuro, o governo possa garantir acesso equitativo, gratuito e contínuo a água limpa, assegurando as necessidades básicas de toda a comunidade.

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Fonte de água Bee Matan /Foto: Diligente

A aldeia de Suku Laran enfrenta uma situação semelhante à dos habitantes de Ai-Lele Hun, obrigados a percorrer longas distâncias para recolher água na nascente conhecida como Bee Matan. A distância entre o assentamento e a nascente obriga os moradores a sair de madrugada para garantir o abastecimento diário.

Gracinda de Fátima Soares, residente em Suku Laran, explicou que esta realidade não é nova e se intensifica principalmente durante a época seca, embora na estação das chuvas ainda seja possível recolher água com mais facilidade.

“Temos de ir ao Bee Matan buscar água de madrugada, porque todos aqui dependem dela. Além disso, o nível da água começa a baixar e ainda temos de enfrentar filas”, disse Gracinda.

A moradora acrescentou que esta situação obriga a comunidade a lutar para garantir água potável para as necessidades básicas do dia a dia.

 

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Moradores a transportarem água/Fonte: Diligente

A comunidade de Paiol, situada em Lahane Ocidental, no Posto Administrativo de Vera Cruz, Município de Díli, continua a enfrentar dificuldades no acesso à água. Os residentes dependem inteiramente de um poço perfurado localizado no complexo da Escola Primária de Paiol para satisfazer as suas necessidades diárias.

Derson Ximenes, morador local, explicou que todos os dias, por volta das 16h, os habitantes vão à escola buscar água proveniente do poço, gerido e utilizado pela comunidade.

“Esta situação arrasta-se há muito tempo. Os meios de comunicação social já noticiaram o problema, mas não houve uma solução concreta. Todas as tardes, muitos moradores, incluindo crianças, vêm buscar água a esta fonte. Quase todos na aldeia utilizam esta torneira”, afirmou Derson.

Este cenário evidencia que, mesmo estando no centro da capital, muitas comunidades continuam a enfrentar sérios desafios no acesso a água potável. De acordo com o censo de 2022, apenas uma em cada dez famílias possui uma torneira própria, enquanto 39% das residências têm acesso a torneiras públicas em alguma parte do país. O mesmo levantamento revela que mais da metade das famílias em Timor-Leste continua a depender de fontes de água desprotegidas ou de procedência incerta, recorrendo frequentemente à proximidade de rios, ribeiras e lagoas para obter água.

Apesar das pequenas melhorias, como tanques comunitários ou poços perfurados, a realidade continua a ser dura para milhares de moradores de Díli. O acesso à água potável permanece irregular, com longas filas, deslocações diárias e soluções temporárias que não resolvem o problema estrutural.

Especialistas alertam que, sem investimentos consistentes em infraestruturas, saneamento e abastecimento equitativo, a saúde pública, a educação e a segurança alimentar da capital continuarão a estar em risco. A população espera que o governo trate o acesso à água como prioridade absoluta, garantindo soluções duradouras que transformem este direito básico numa realidade para todos.

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