Agricultura continua subfinanciada apesar da forte dependência de Timor-Leste das importações

.”Se temos terra, essa terra também precisa de funcionar e ser utilizada de forma produtiva”/Foto: DR

Timor-Leste importa cerca de 60% dos cereais que consome, enquanto a agricultura recebeu apenas 1,5% do crédito bancário e 1,9% do Orçamento Geral do Estado de 2026. A La’o Hamutuk propõe que a produção nacional passe a satisfazer metade das necessidades de consumo até 2028. O Governo aponta a falta de irrigação, a baixa fertilidade dos solos e o subaproveitamento das terras como alguns dos principais obstáculos.

A agricultura é apontada como um dos setores com maior potencial para aumentar a produção nacional e reduzir a dependência de produtos importados. Mas os recursos destinados ao setor continuam reduzidos.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Timor-Leste recorre às importações para satisfazer cerca de 60% das suas necessidades de cereais. O arroz representa a maior parte dessas compras e é importado principalmente da Índia, China e Vietname. No entanto, até junho deste ano, a agricultura recebeu apenas 1,5% do crédito concedido pelos bancos, enquanto, segundo a La’o Hamutuk, o setor ficou com apenas 1,9% do Orçamento Geral do Estado de 2026.

Os números mostram a distância entre a importância atribuída à agricultura nos discursos sobre diversificação económica e os recursos públicos e privados que chegam efetivamente ao setor.

A La’o Hamutuk defende uma mudança estrutural na economia e propõe que a produção nacional consiga satisfazer metade das necessidades de consumo do país até 2028.

A organização considera que aumentar a produção agrícola exige mais investimento público, apoio aos pequenos produtores, melhoria das sementes, sistemas de irrigação, armazenamento, transformação dos produtos e melhores condições de transporte e acesso aos mercados.

A transformação da produção agrícola também poderá permitir acrescentar valor a produtos como café, cacau, coco, bambu e tamarindo, criando novas oportunidades para o setor privado e para o emprego, sobretudo entre os jovens.

Mas o Governo reconhece que existem obstáculos significativos. Luís Pereira, Diretor Nacional de Pesquisa da Direção-Geral de Estatística, do Ministério da Agricultura, Pecuária, Pescas e Florestas, considera positivas as recomendações apresentadas pela La’o Hamutuk e afirma que os dados utilizados pela organização são credíveis.

Entre os principais problemas identificados pelo Ministério estão as dificuldades relacionadas com a terra, a qualidade dos solos, a irrigação, as sementes e a disponibilidade de recursos humanos e financeiros.

Em relação à terra, o Ministério da Justiça está a avançar com processos de certificação e atribuição de títulos de propriedade. Mas, para o Ministério da Agricultura, a regularização fundiária, por si só, não resolve o problema.

“Não podemos falar apenas do título da terra. Se temos terra, essa terra também precisa de funcionar e ser utilizada de forma produtiva”, salienta Luís Pereira.

Outro problema apontado pelo Ministério é a qualidade dos solos. Estudos realizados pelo Governo indicam que grande parte dos solos do país apresenta baixa fertilidade, o que limita a produtividade agrícola.

O Ministério identifica três fatores fundamentais para aumentar a produção: o acesso à terra, a qualidade das sementes e a disponibilidade de recursos humanos e financeiros.

A falta de sistemas de irrigação é outro dos principais constrangimentos, sobretudo para a produção de arroz. Atualmente, são cultivados cerca de 37 mil hectares de arroz em Timor-Leste. Apesar do potencial de produção nacional, o arroz continua a representar uma parte importante das importações do país.

O cereal é um dos alimentos mais consumidos pela população e, por isso, a procura interna continua elevada. As importações de milho são menores, em parte devido à redução do seu consumo.

O Governo diz estar a procurar reativar e utilizar de forma mais produtiva áreas com potencial agrícola, particularmente zonas de arrozais. Mas aumentar a produção exige também modernizar as técnicas agrícolas, melhorar a qualidade das sementes, ampliar os sistemas de irrigação e reforçar a capacidade dos agricultores.

O setor privado demonstra interesse em investir na agricultura, mas enfrenta dificuldades no acesso ao capital.

Os dados do Banco Central de Timor-Leste mostram que, até junho de 2026, o crédito total concedido pelos bancos atingiu cerca de 768 milhões de dólares. A agricultura recebeu apenas 1,5% desse montante, enquanto a indústria transformadora recebeu 0,9%. O crédito continua concentrado sobretudo nos particulares, no comércio e finanças e na construção.

A questão colocada pelos dados é saber por que razão os setores considerados essenciais para a diversificação económica continuam a receber uma parcela tão pequena do financiamento disponível.

Para a La’o Hamutuk, o aumento da produção nacional não depende apenas da existência de terras agrícolas. É necessário criar condições para que essas terras sejam produtivas e para que os agricultores tenham acesso a água, tecnologia, financiamento, assistência técnica e mercados.

A organização defende ainda o reforço das cooperativas produtivas e de um setor privado capaz de investir na transformação e comercialização dos produtos agrícolas, evitando uma dependência permanente de subsídios públicos.

O desafio passa, assim, por transformar a agricultura de um setor de subsistência num setor produtivo, capaz de abastecer uma maior parte do mercado interno e, no futuro, gerar produtos com valor acrescentado para exportação.

A meta proposta pela La’o Hamutuk: fazer com que a produção nacional satisfaça metade das necessidades de consumo até 2028, coloca pressão sobre o Governo para acelerar o investimento, melhorar as infraestruturas e criar condições para que os agricultores possam produzir mais e de forma sustentável.

A questão central é se Timor-Leste conseguirá transformar o potencial agrícola em produção efetiva e reduzir a dependência das importações, num momento em que a economia procura novas fontes de crescimento para além do petróleo.

Comente ou sugira uma correção

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *