O aumento do preço do querosene em Timor-Leste está a agravar as dificuldades das famílias de baixos rendimentos em Díli. O combustível, amplamente utilizado para cozinhar, duplicou de preço nas embalagens de 1,5 litros e nos bidões de 5 litros, levando muitos agregados familiares a recorrer novamente à lenha, apesar dos riscos ambientais associados.
Em Timor-Leste, a maioria das famílias utiliza querosene para cozinhar. No entanto, o preço deste combustível registou recentemente um aumento significativo. Uma garrafa de 1,5 litros, que antes custava cerca de 2 dólares, passou para 4 dólares, enquanto o bidão de 5 litros subiu de cerca de 9 dólares para quase 20 dólares.
O aumento dos preços está relacionado com a escalada do conflito no Médio Oriente e com a subida global do preço dos combustíveis. Em resposta, o Governo aprovou, através do Conselho de Ministros, um subsídio de 168,8 milhões de dólares destinado à empresa ETO, com o objetivo de garantir o abastecimento de 80 milhões de litros de gasóleo e estabilizar temporariamente os preços.
Famílias voltam a recorrer à lenha
O aumento do preço do querosene já está a afetar diretamente a população, sobretudo as pessoas que dependem deste combustível para cozinhar. Vários moradores afirmam enfrentar dificuldades crescentes para garantir as necessidades básicas do agregado familiar.
Uma residente de Manleuana, Eulália Leite, afirma que a subida dos preços está a agravar a situação económica da sua família, de baixos rendimentos, uma vez que o orçamento tem de ser dividido entre alimentação e combustível. “O dinheiro não chega para sustentar a família e agora também temos de comprar comida e querosene, que está mais caro”, disse.
Segundo Eulália, a família foi obrigada a voltar a utilizar lenha para cozinhar, procurando madeira nas montanhas e junto aos rios para reduzir despesas. “Somos obrigados a procurar lenha nas montanhas e junto aos rios para conseguir cozinhar”, afirmou. A cidadã espera que o Governo tome medidas urgentes para estabilizar o preço do querosene e aliviar o impacto sobre as famílias mais pobres.
Queixas semelhantes foram apresentadas por Lúcia Antonieta, residente no Bairro Pité. Segundo explica, a sua família depende totalmente do fogão a querosene, pelo que o aumento dos preços agravou ainda mais as despesas domésticas.
“Se o preço do querosene continuar a subir, seremos obrigados a voltar a usar lenha para cozinhar”, afirmou. Lúcia refere que o preço das garrafas de 1,5 litros aumentou de cerca de 2 dólares para 4 dólares, enquanto o bidão de 5 litros passou de cerca de 9 dólares para quase 20 dólares.
Segundo Lúcia, esta situação está a dificultar cada vez mais a vida das famílias de baixos rendimentos. Como alternativa, os cidadãos começaram novamente a recorrer à lenha, apesar dos riscos ambientais associados. “Se os preços continuarem a subir, pode haver mais desflorestação e impactos negativos no ambiente”, alertou.
Lúcia defende que o Governo deve intervir rapidamente para estabilizar os preços e garantir que o querosene continue acessível às famílias mais vulneráveis.
O aumento do preço do querosene também está a afetar pequenos comerciantes em Timor-Leste, que consideram que a subida agrava ainda mais o custo de vida e as dificuldades económicas das famílias.
Uma pequena comerciante, Aljira da Silva, afirma que o preço do combustível continua a aumentar, tornando as despesas diárias cada vez mais pesadas. “O preço do querosene está muito caro e continua a aumentar”, afirmou.
A comerciante diz não compreender as razões da subida dos preços e pede ao Governo maior atenção à situação da população mais vulnerável. Apesar dos lucros reduzidos, garante continuar a trabalhar para sustentar a família. “Temos apenas pequenos lucros, mas continuamos a trabalhar arduamente para sustentar a família”, disse.
Vendedores responsabilizam distribuidores e políticas governamentais
Vendedores de querosene em Díli afirmam que o aumento dos preços não resulta de decisões dos comerciantes, mas dos valores definidos pelos distribuidores e pelas políticas governamentais.
A vendedora Adélia Amaral dos Reis afirma que os comerciantes apenas seguem os preços estabelecidos pelos postos de abastecimento. “Nós não definimos o preço do querosene. Apenas vendemos de acordo com o preço estabelecido pelos postos de abastecimento”, afirmou.
Segundo Adélia, anteriormente um barril de querosene podia ser adquirido por cerca de 360 dólares, mas atualmente custa cerca de 500 dólares, situação que levou ao aumento do preço de venda ao público.
A comerciante explica ainda que os vendedores costumam adquirir o combustível na ETO Hali-Laran ou nos terminais de combustível localizados na zona do aeroporto.
La’o Hamutuk critica ausência de controlo sobre o querosene
A organização da sociedade civil La’o Hamutuk sublinha que o aumento do preço do querosene está a penalizar significativamente as famílias de baixos rendimentos e os pequenos comerciantes que dependem deste combustível no quotidiano.
Segundo a organização, o problema resulta do facto de o querosene não estar incluído no Decreto-Lei n.º 13/2026 relativo às medidas temporárias de subsídio aos combustíveis.
De acordo com a investigadora Marta da Silva, o regulamento estabelece limites de preço para gasolina, gasóleo, combustível de aviação e gás de petróleo liquefeito (GPL), mas não inclui o querosene. “No decreto-lei, o governo regula apenas a gasolina, o gasóleo, a aviação e o gás. O querosene não é mencionado, o que cria uma lacuna que permite a subida contínua dos preços”, explicou.
Segundo Marta da Silva, muitas famílias em Díli continuam a depender do querosene porque nem todas têm acesso a fogões elétricos ou a gás. “Muitas famílias em Díli usam querosene para cozinhar porque é difícil utilizar lenha nas zonas urbanas. Por isso, o aumento do preço pesa muito sobre a população”, afirmou.
A organização alerta ainda para possíveis consequências sociais e ambientais. Caso as famílias deixem de conseguir comprar querosene, poderão recorrer novamente à lenha, contribuindo para o aumento da desflorestação nas zonas montanhosas.
Além disso, o aumento do custo do combustível poderá provocar também a subida dos preços da comida em pequenas lojas e restaurantes.
A La’o Hamutuk considera ainda que a fraca fiscalização contribui para a falta de controlo do mercado, permitindo ajustes de preços conforme a oferta e a procura. “Quando o stock é baixo, o preço sobe imediatamente. Quando há mais stock, o preço pode descer. Sem controlo claro, os comerciantes podem manipular os preços”, alertou.
A organização pede ao Governo e aos ministérios competentes, incluindo o Ministério do Petróleo e Recursos Minerais (MPRM), que revejam a política de subsídios e incluam o querosene no sistema oficial de controlo de preços.
A La’o Hamutuk solicita ainda às entidades de defesa do consumidor, às autoridades locais e à PNTL o reforço da fiscalização nos mercados. “O querosene é uma necessidade básica. O Governo deve garantir preços estáveis e disponibilidade no mercado”, sublinhou.
Segundo a organização, os conflitos internacionais e a forte dependência de Timor-Leste das importações de combustíveis também contribuem para a volatilidade dos preços internos.
Governo diz que querosene deixou de ser prioridade
O ministro do Petróleo e Recursos Minerais, Francisco da Costa Monteiro, afirmou que o Governo está atualmente concentrado na discussão de um decreto-lei considerado prioritário e urgente.
Segundo o governante, o querosene deixou de ser uma prioridade devido à redução gradual do seu consumo. “De momento, estamos a tratar de um decreto-lei e as questões imediatas e urgentes são as que estão a ser prioritárias”, afirmou.
O ministro acrescentou que as políticas internacionais incentivam atualmente a redução do uso do querosene devido aos possíveis impactos para a saúde. “A política mundial encoraja a diminuição do uso do querosene porque pode ter efeitos nocivos para a saúde. Além disso, 98% do consumo de combustíveis em Timor-Leste corresponde ao gasóleo e à gasolina, por isso damos prioridade a questões com maior impacto social”, explicou.
Francisco da Costa Monteiro afirmou ainda que esta abordagem pretende garantir que as políticas governamentais respondam às principais necessidades da população e do setor energético nacional.


