CONTEÚDO PATROCINADO

BNU leva vencedora do Prémio de Língua Portuguesa a curso de verão em Portugal

Vencedora do primeiro prémio recebe o certificado do Diretor-geral do BNU Timor, patrocinador do prémio/Foto: Diligente

“Saudade” foi o tema que levou dezenas de jovens timorenses a escrever sobre infância, família, ausência e futuro. A edição mais participada de sempre do Prémio de Língua Portuguesa terminou com uma viagem a Portugal para a vencedora e com sinais claros de um interesse crescente pela escrita em português em Timor-Leste.

“Tinha saudades de ser a criança do meu pai e da minha mãe.” Foi com esta memória simples e profundamente pessoal que Deniva Guterres Neves Pereira conquistou o primeiro prémio da 12.ª edição do Prémio de Língua Portuguesa, vencendo um curso de verão em Portugal patrocinado pelo BNU Timor. A edição deste ano, dedicada ao tema “Saudade”, foi a mais concorrida de sempre e revelou uma nova geração de jovens timorenses cada vez mais próxima da escrita em português.

O auditório da Fundação Oriente voltou a encher-se na tarde de 7 de maio de 2026. Estudantes, universitários, professores, docentes, funcionários e representantes diplomáticos, incluindo embaixadores, diretores e secretários de Estado de Portugal, marcaram presença na cerimónia de entrega do XII Prémio de Língua Portuguesa.

O Prémio de Língua Portuguesa é uma iniciativa da Fundação Oriente, criada em 2013, que consiste num concurso de escrita criativa em língua portuguesa dirigido a jovens timorenses entre os 18 e os 28 anos. O objetivo é incentivar a aprendizagem e o uso da língua portuguesa entre a juventude.

O anúncio dos vencedores desta 12.ª edição coincidiu com a Semana da Língua Portuguesa, organizada pelas embaixadas de Portugal, do Brasil e de Angola, no âmbito das celebrações do Dia Mundial da Língua Portuguesa. A edição ganhou ainda maior simbolismo por ocorrer no ano em que se assinalam os 30 anos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Desde o seu lançamento, centenas de jovens participaram no concurso e 22 já foram premiados com cursos de verão de língua e cultura portuguesas. Nesta edição, o Banco Nacional Ultramarino (BNU) Timor, parceiro da iniciativa desde o início, patrocinou integralmente o primeiro prémio: um curso de verão de língua e cultura portuguesas em Portugal.

Os segundo e terceiro prémios foram monetários, no valor de 500 e 300 dólares, respetivamente, patrocinados pela Embaixada de Portugal. Os sete finalistas terão ainda acesso a um curso de escrita criativa, a realizar no dia 23 de maio, orientado pela diretora do Centro de Formação Escolar Abut, Dulce Turquel.

“Saudade” inspira edição mais participada de sempre

Segundo Joana Saraiva, delegada da Fundação Oriente, os prémios são um incentivo importante, mas o crescimento do interesse dos jovens timorenses pela língua portuguesa é já visível.

Referindo-se ao tema desta edição, Joana Saraiva descreveu “saudade” como “uma das palavras mais belas e intraduzíveis da língua portuguesa”. Para a delegada da Fundação Oriente, este crescimento resulta do trabalho conjunto de várias instituições.

Além do BNU, da Embaixada de Portugal e da Abut, a 12.ª edição contou com o apoio do Ministério do Ensino Superior, Ciência e Cultura (MESCC) e do Centro de Língua Portuguesa da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL), que integraram o júri juntamente com a Abut e a Embaixada de Portugal.

Paulo Lopes, diretor-geral do BNU Timor, durante a sua intervenção/Foto: Diligente

“Falar português é uma mais-valia”, afirma BNU

Paulo Lopes, diretor-geral do BNU Timor, sublinhou na sua intervenção o papel da literatura como forma de conhecimento e viagem.

Referiu autores como Jorge Amado, Paulo Coelho e Mário de Andrade, associados ao Brasil; José Saramago e António Lobo Antunes, a Portugal; Pepetela, a Angola; e Mia Couto, a Moçambique, destacando a capacidade da literatura de transportar os leitores para diferentes realidades.

O responsável reforçou ainda que “falar em português é uma mais-valia”, por se tratar de uma língua que facilita o acesso ao conhecimento e que é amplamente falada no hemisfério sul, onde se inclui Timor-Leste.

“Continuem a investir no português, a sonhar em português, porque sonhar em português não é a mesma coisa que sonhar noutra língua”, concluiu.

O BNU sublinhou ainda o seu compromisso com a promoção da língua portuguesa em Timor-Leste, defendendo que o investimento neste domínio contribui para o desenvolvimento do país, sobretudo através da qualificação dos recursos humanos.

Segundo o diretor-geral, cerca de 90% dos quadros do banco tiveram uma evolução positiva por ter a língua portuguesa como base da sua aprendizagem e formação.

Cooperação institucional reforça ensino da língua

O embaixador de Portugal em Díli, Duarte Bué Alves, felicitou os participantes e destacou o trabalho do júri, sublinhando a importância da cooperação institucional na promoção da língua portuguesa.

O diretor do Ensino Superior e Ciência do MESCC, Domingos Barros, afirmou que o prémio incentiva os jovens a melhorar o uso do português, bem como a criatividade e o gosto pela leitura e escrita.

“Cada texto submetido representa esforço, dedicação e coragem. Através dos vossos textos, vocês ajudaram também a revelar sentimentos, memórias, histórias e aspetos da cultura timorense”, afirmou.

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Uma multidão de jovens e convidados acompanhou com entusiasmo o anúncio dos vencedores /Foto: Diligente

“Saudade” domina edição com maior número de participantes

O tema “Saudade” esteve no centro das reflexões desta edição, a mais concorrida de sempre.

Joana Saraiva mostrou-se surpreendida com o número de participantes, enquanto o diretor-geral do BNU e o embaixador de Portugal destacaram o caráter profundamente português do tema.  “Há quem diga que não tem paralelo no vocabulário de outras línguas”, afirmou Paulo Lopes.

O diretor do MESCC, Domingos Barros, considerou que a palavra é difícil de traduzir, mas fácil de compreender. “Falamos da ausência, da memória, da ligação familiar, da infância, dos que partiram, mas também da esperança do reencontro.” Para o responsável, a “saudade” está profundamente ligada à identidade timorense.

A presidente do júri, Susana Mendonça, destacou que o aumento de participação não se deve apenas ao tema, mas também ao maior interesse pela escrita. “Sobretudo a perda da vergonha, porque os timorenses, em geral, têm muita vergonha de falar e escrever em português”, afirmou.

Jovens entre ansiedade e conquista

Antes da cerimónia, os jovens concorrentes já se encontravam no auditório da Fundação Oriente. O ambiente era calmo, mas carregado de expectativa. Um dos jovens encontrava-se sentado na última fila, de cabeça baixa, a olhar para uns papéis nas mãos e a mexer nervosamente os pés. Quando foi abordado, reagiu como se tivesse acabado de despertar dos seus pensamentos. Estava ansioso por conhecer os resultados do concurso.

Antes de serem anunciados os vencedores, os sete finalistas foram chamados ao palco para apresentar excertos dos seus contos. O jovem sentado no fundo do auditório também foi chamado.

Os jovens ocuparam as sete cadeiras no palco e, um a um, leram os seus textos. As histórias transportaram o auditório para memórias de infância, ausência e reencontro, despertando emoções e sentimentos de saudade.

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Os sete finalistas pertencem a diferentes estabelecimentos de ensino/Foto: Diligente

Foram então anunciados os três vencedores do XII Prémio de Língua Portuguesa.

A vencedora do primeiro prémio foi Deniva Guterres Neves Pereira, estudante da Universidade Nacional Timor Lorosa’e, com o conto intitulado “De 15 em 15 dias”. O anúncio provocou surpresa na jovem e uma forte salva de palmas no auditório.

“Não esperava ser a vencedora, porque os outros textos também eram excelentes. Quando ouvi o meu nome, fiquei perdida. Senti-me agradecida e honrada por esta excelente oportunidade”, partilhou com entusiasmo.

A obra vencedora contou um momento específico vivido com os pais e que a autora gostaria de reviver. As frases descrevem a vida na aldeia durante a infância, quando partilhava uma mota com os pais e um irmão. Cada saudação e cada gesto simples observados naquele tempo foram recordados e descritos de forma detalhada.

O auditório permaneceu em silêncio, atento à leitura da jovem no palco. A história comoveu os presentes. Houve quem, logo após ouvir o texto, comentasse que aquele deveria ser o vencedor. E acertou.

Deniva Pereira é estudante universitária e tem o hábito de escrever num diário. Regista acontecimentos do quotidiano, sentimentos e pensamentos sob a forma de contos, poesias ou simples textos em tétum, português e inglês. Um dia, percebeu que aquilo que sentia não era apenas uma observação comum, mas uma emoção profunda. “Tinha muitas saudades de ser a criança do meu pai e da minha mãe. Foi por isso que escrevi no meu diário que tinha saudades do tempo em que era criança”, contou a estudante de Direito da UNTL.

Ao rever e enriquecer o texto, Deniva contou com o apoio do pai na reorganização das frases, preservando sempre as ideias originais. Durante esse processo, aprendeu novos vocabulários, organizou melhor as ideias e melhorou a sua capacidade de leitura em português, já que precisava de ler muito para conseguir escrever.

Deniva Pereira acredita que a oportunidade de viajar a Portugal para conhecer a cultura e a língua portuguesas vai contribuir para elevar a sua competência linguística. Acrescentou ainda que continuará a escrever no diário, “uma amiga” que a ajuda a sentir-se mais tranquila e a escrever cada vez mais em português.

Saudades do futuro

Jelia Vicunha Lay Sarmento, estudante da Escola Portuguesa de Díli, conquistou o segundo prémio com a obra “O Regresso”. Confessou que se sentia muito nervosa antes de subir ao palco. “Há tanta gente e esta foi a primeira vez que estive num palco”, partilhou.

Quando ouviu o seu nome anunciado como vencedora do segundo prémio, ficou muito feliz e surpreendida. Jelia soube da existência do concurso apenas seis dias antes do fim do prazo de candidatura.

“Ao ver o tema, pensei logo em escrever sobre a escola. Sobre como será terminar os meus estudos e depois voltar novamente à escola”, contou. Este é o seu último ano e imaginava frequentemente como se sentiria ao concluir os estudos e regressar à escola secundária já bem-sucedida. Era uma espécie de saudade antecipada do futuro.

Com pouco tempo disponível, a jovem encontrou dificuldades em tornar o texto mais sentimental e estruturado, mas conseguiu concluir tudo sozinha e ainda conquistar um prémio. Depois desta experiência, “pretendo ler mais, melhorar a escrita e voltar a concorrer.”

Mouzinho Zeca Morano Xavier, estudante da Universidade Católica Timorense, venceu o terceiro prémio. Foi o jovem que permanecia sentado na última fila, com os pés trémulos e os olhos fixos num papel com o título “A Casa”, mesmo depois de ter sido chamado ao palco para integrar o grupo dos sete finalistas.

“Senti-me um pouco nervoso e não imaginava que pudesse estar entre os sete finalistas”, confessou. Contou que, durante o tempo em que esteve no palco, sentiu uma mistura de ansiedade, medo e outras emoções difíceis de descrever.

Ao ouvir os outros seis participantes lerem os seus textos, acreditou que não conseguiria qualquer prémio, pois considerava todos os trabalhos excelentes. “Depois de ouvir o meu nome, percebi que estava a viver um momento inesquecível da minha vida, da minha vida de estudante. Sou estudante de Literatura e este é o meu primeiro passo.”

Mouzinho demorou uma semana a concluir o texto, passando inclusive uma noite sem dormir. A sua obra, “A Casa”, retrata a experiência de ter deixado o lar para continuar os estudos num colégio. “Tive saudades da minha casa, do lar, dos sentimentos, da família. Quando não temos a nossa mãe e o nosso pai, deixamos de ter um lar.”

O vocabulário e a gramática foram os maiores desafios, mas procurou apoio em livros de gramática e junto dos professores da universidade. O Prémio despertou-lhe ainda mais vontade e iniciativa para continuar a escrever e aprofundar a sua paixão pela literatura.

Entre as 75 obras submetidas, destacaram-se ainda os textos de José Ricardo Fernandes, Juliano Rodrigues Subha, Serafina dos Santos da Silva e William Ronaldinho Ximenes.

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A iniciativa da Fundação Oriente conta com a parceria do BNU Timor desde 2013/Foto: Diligente

Melhoria na qualidade da escrita

O júri é composto por cinco elementos: dois representantes do Ministério do Ensino Superior, Ciência e Cultura, uma representante do Centro de Língua Portuguesa da Universidade Nacional Timor Lorosa’e, uma representante da Embaixada de Portugal e uma representante do Centro de Conhecimento e Aprendizagem Abut.

Para a presidente do júri, Susana Mendonça, os textos desta edição foram os mais competitivos de sempre devido à elevada qualidade apresentada, o que dificultou o processo de seleção, sobretudo na primeira fase.

“A primeira seleção consiste em eliminar os textos que não cumprem os critérios ou que, numa leitura inicial, percebemos que não têm qualidade. E este foi o primeiro ano em que praticamente não excluímos textos logo na primeira leitura.”

Numa segunda fase, foram selecionados 12 textos. Entre estes, o júri escolheu sete finalistas, que passaram também por uma entrevista. A docente sublinhou que esta fase é fundamental para perceber até que ponto os textos receberam ajuda externa, seja através de inteligência artificial, de professores ou de outras pessoas.

“Não há problema na correção. O problema é que, muitas vezes, quem corrige altera aspetos que pertencem ao autor. As ideias podem deixar de ser do autor. E a fase da entrevista é, de facto, essencial para perceber isso.”

Por esse motivo, acrescentou, “nunca eliminámos textos apenas por conterem erros, porque isso demonstra que o autor escreveu o texto de forma autónoma.” Concluiu ainda que os melhores textos serão publicados.

Além de terem conseguido produzir bons textos, os vencedores e os restantes distinguidos terão agora a oportunidade de melhorar e aprofundar as suas competências de escrita com Dulce Turquel, no curso de escrita criativa que será realizado ainda este mês.

Mais do que um concurso, o Prémio de Língua Portuguesa tornou-se um espaço onde jovens timorenses transformam memórias, medos e sonhos em literatura. Entre a ansiedade do palco, a descoberta da escrita e a possibilidade de viajar até Portugal, a edição deste ano mostrou que a língua portuguesa continua a ganhar novos autores em Timor-Leste.

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