Conflito no Médio Oriente expõe fragilidades económicas e diplomáticas de Timor-Leste

“Penso que não sou a única a enfrentar esta situação, todos os estudantes estão a passar por isto”/Foto: Diligente
“Penso que não sou a única a enfrentar esta situação, todos os estudantes estão a passar por isto”/Foto:Diligente

O conflito no Médio Oriente está a ter repercussões em Timor-Leste, com especialistas e jovens a alertarem para o impacto na economia, no custo de vida e na estabilidade diplomática do país, num debate realizado em Díli.

As preocupações foram expressas num debate promovido pelos Alumni do Parlamento Foinsa’e de Timor-Leste (APFTL), realizado em Díli ontem, 9 de abril, onde oradores analisaram o impacto das dinâmicas geopolíticas internacionais na economia e na política externa timorense.

O diplomata Joaquim da Fonseca afirmou que, apesar da distância geográfica, Timor-Leste sente diretamente os efeitos do conflito. Defendeu que a análise de crises internacionais deve considerar a sua evolução histórica e criticou a perda de eficácia das instituições multilaterais, em particular da Organização das Nações Unidas (ONU), criada no pós-Segunda Guerra Mundial para garantir a paz e a segurança internacional.

“Em vários conflitos, como na Líbia, no Sudão e na Síria, observa-se essa fragilidade. Os sinais dessa perda de eficácia já eram visíveis desde 1991, quando a comunidade internacional falhou em prevenir a invasão do Iraque”, afirmou.

Com base na sua experiência como representante de Timor-Leste em Genebra, o diplomata referiu que a diplomacia tradicional, centrada na prevenção de conflitos e na proteção dos direitos humanos, tem vindo a ser substituída por abordagens mais militarizadas. “Começámos a ouvir expressões como ‘boots on the ground’, que contrariam o verdadeiro papel da diplomacia, que é resolver problemas por vias pacíficas”, disse.

Joaquim da Fonseca apontou ainda divisões entre países ocidentais na forma como têm reagido ao conflito no Médio Oriente, comparando essas posições com as adotadas na guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Segundo afirmou, a coerência internacional tem sido desigual entre diferentes crises.

No plano da segurança internacional, o diplomata sublinhou que a sobrevivência dos pequenos Estados depende de um sistema internacional baseado em regras. “Um país pequeno como o nosso só pode sobreviver com o respeito pelas regras internacionais. Timor-Leste não tem capacidade para projetar força militar”, afirmou, recordando que o processo de independência beneficiou precisamente desse enquadramento normativo.

Ainda assim, alertou para o enfraquecimento desse sistema. “O mundo caminha para uma nova fase, em que o poder económico e político das grandes potências ganha maior peso do que as regras multilaterais”, disse, sublinhando que este contexto exige atenção aos impactos económicos globais, incluindo o aumento dos preços dos combustíveis.

O diplomata advertiu também para os riscos de decisões internacionais imprevisíveis e recorreu a exemplos externos para ilustrar a fragilidade do sistema global, questionando até que ponto pequenos Estados conseguem confiar na proteção das regras internacionais.

Defendeu, por isso, um reforço do compromisso de Timor-Leste com o multilateralismo. “Timor-Leste deve contribuir para a revitalização do multilateralismo, de forma a restaurar um sistema internacional mais equilibrado e justo para os países pequenos”, afirmou.

Sobre a adesão do país à ASEAN, alertou que o processo exigirá maior coordenação diplomática e alinhamento regional, sublinhando a necessidade de decisões mais cuidadosas e consistentes.

Dependência de importações agrava vulnerabilidade económica

A investigadora da organização La’o Hamutuk, Marta da Silva, afirmou que Timor-Leste continua fortemente dependente das importações, o que o torna particularmente vulnerável a choques externos, numa tendência agravada desde a pandemia de COVID-19.

Segundo a investigadora, a atual conjuntura internacional evidencia fragilidades estruturais na economia timorense. “A situação que vivemos é alarmante, porque países maiores, como os Estados Unidos, estão a desrespeitar as leis internacionais e os padrões globais. Isso afeta diretamente países mais pequenos, como o nosso”, afirmou.

Criticou ainda a falta de planeamento económico de médio e longo prazo. “O Governo muitas vezes reage apenas quando o problema já está instalado, e essas medidas nem sempre são eficazes e podem criar novos riscos”, disse.

Marta da Silva sublinhou que Timor-Leste depende de importações de países como Indonésia, Singapura, Malásia e Austrália, o que o torna sensível às flutuações dos mercados internacionais, incluindo o preço do petróleo.

“Quando o preço do petróleo sobe, isso tem impacto direto na inflação em Timor-Leste”, explicou, acrescentando que a dependência se estende a fertilizantes e outros bens essenciais para a agricultura.

A investigadora referiu ainda que esta vulnerabilidade se reflete no setor energético, com a necessidade contínua de subsídios estatais à eletricidade. Defendeu maior investimento em setores produtivos e energias renováveis, sublinhando que a diversificação económica permanece mais discursiva do que prática. “Fala-se muito de diversificação económica, mas isso fica muitas vezes no plano do discurso”, afirmou.

Jovens alertam para impacto no custo de vida e na educação

Entre os jovens participantes no debate, a subida dos combustíveis foi apontada como um fator com impacto direto no acesso à educação e ao emprego.

Benvinda Alves afirmou que, apesar de os aumentos parecerem pequenos, têm efeitos acumulados significativos no orçamento das famílias. Frisou que estudantes de famílias com menos recursos poderão enfrentar dificuldades em suportar custos de transporte, o que pode afetar a continuidade dos estudos.

Defendeu ainda medidas para reduzir a necessidade de deslocações, incluindo o reforço do ensino à distância e do trabalho remoto.

Outros participantes sublinharam que o aumento dos combustíveis também contribui para a subida dos preços dos alimentos, devido ao encarecimento do transporte de bens, afetando sobretudo trabalhadores e famílias de baixos rendimentos.

Domingos Mendonça de Jesus salientou que a pressão económica pode levar alguns estudantes a abandonar os estudos, agravando desigualdades sociais existentes. Defendeu também uma política externa equilibrada, que preserve relações internacionais e oportunidades para os jovens, incluindo bolsas de estudo.

“É importante que o Governo tenha cuidado nas suas posições, para não comprometer as relações internacionais já estabelecidas”, afirmou.

Também Efigénia Maria Malik Makikit defendeu que Timor-Leste deve manter um equilíbrio nas suas relações diplomáticas e evitar dependência excessiva de poucos parceiros, sublinhando que as decisões governamentais devem dar prioridade ao interesse nacional e ao bem-estar da população.

Comente ou sugira uma correção

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *