“Esta noite não consegui dormir. O meu vizinho comprou colunas novas e resolveu ouvir música a noite toda. Por volta das quatro e meia, fui até ele. Lá estavam três pessoas. Uma delas a dormir sentada numa cadeira. As outras duas olharam para mim como se eu fosse um intruso. Pedi que baixassem o volume. Ofendido, o meu vizinho respondeu que estava no seu terreno e que tinha o direito de fazer o que quisesse. Voltei para casa, resignado.
Como já estava acordado e precisava de atualizar alguns documentos, saí cedo. Logo na primeira esquina, um carro entrou na minha rua fazendo a curva em contramão. O condutor buzinou, olhou-me de forma repreensiva e seguiu em frente. Continuei o caminho.
Quando cheguei ao lugar onde precisava de entregar os documentos, já lá estavam várias pessoas. A ordem de chegada não parecia ter qualquer importância. Todos a tentar passar uns à frente dos outros. Enquanto esticava o braço, na esperança de que o atendente pegasse os papéis, desloquei o peso do corpo de uma perna para outra e, nesse espaço que não sabia que existia, alguém entrou e passou à minha frente.
Depois de entregar os documentos, voltei para o carro. Lembrei-me que ainda não tinha tomado o primeiro café do dia. Saí determinado a encontrar uma cafetaria.
No trânsito, motas ultrapassavam pela esquerda e pela direita, carros avançavam a quinze quilómetros por hora – alguns por serem antigos, outros porque o condutor admirava a paisagem ou falava ao telemóvel. Depois de algum tempo, consegui ultrapassá-los, mas quase colidi com uma mikrolete que ora parava, ora avançava, sem qualquer sinal de aviso.
Mais à frente, o trânsito estava parado. Passados quase 10 minutos e 50 metros percorridos, percebi o motivo: alguns condutores paravam no meio da estrada, junto aos vendedores de peixe, para não terem de sair do carro.
Quando finalmente cheguei à cafetaria, sentei-me na única mesa que estava vaga. Sentadas à minha esquerda, quatro pessoas conversavam e riam alto. Na mesa à minha frente, uma pessoa assistia a um vídeo no telemóvel com o volume no máximo. Decidi voltar para casa.
A minha rua estava fechada. Vizinhos tinham montado tendas para uma celebração e interditado o trânsito. Estacionei na rua ao lado. Quando cheguei a casa, encontrei dois familiares à porta; tinham vindo da aldeia exclusivamente para buscar o dinheiro que eu regularmente lhes dava.
Lembrei-lhes que estava desempregado há dois meses e que naquele momento não tinha sequer para pagar a escola dos meus filhos. Após alguns segundos de silêncio, a olharem-me com deceção no rosto, disseram que era uma obrigação minha, que deveria ajudar e que não podia ser egoísta ou desrespeitar a família.
À noite, sozinho a pensar sobre o que fazer, percebi que ao longo do dia estive com várias pessoas e que em nenhum momento me perguntaram como me estava a sentir ou se precisava de alguma coisa. Sem saber o que fazer, demorei a dormir.”
Esta história é uma ficção, ou melhor, uma compilação de diversas histórias que me foram narradas por pessoas diferentes, que falam tétum e pertencem a uma Lisan.
O que estou a propor aqui é uma reflexão sobre o sentimento de solidão e desamparo que muitas pessoas experimentam hoje em dia. Aquela sensação de estar rodeado de pessoas e, ainda assim, sentir que ninguém nos vê.
O paradoxo do individualismo coletivo
À primeira vista, tudo parece comunitário: partilhamos opiniões, aderimos a grupos, vivemos próximos uns aos outros, temos os mesmos hábitos e crenças. No entanto, por detrás desta aparente uniformidade, as ações coletivas, em alguns contextos, podem servir para justificar ações individualistas.
Chamemos a isso individualismo coletivo: uma forma de colocar o eu em primeiro lugar enquanto se fala em todos. Este tipo de individualismo é confortável porque permite sentir-se parte de uma sociedade sem assumir as responsabilidades que a vida em comunidade exige. Oferece a sensação de pertencimento sem renúncia, convivência sem cuidado e discurso sem prática.
Dizemos a nós mesmos: “toda a gente faz assim”, “esta é a minha cultura”, “foi assim que aprendi”, “se os outros fazem eu também posso fazer”, “já que fizeram comigo, então farei com os outros” e, nesta dinâmica, podemos, sem nos aperceber, contribuir para reforçar o individualismo coletivo.
O espaço urbano e a sociabilidade podem passar a ser algo por onde transitamos, mas não pertencemos. O outro, neste cenário, pode transformar-se num incómodo, num desafio, num perigo a tolerar e evitar.
Quando o coletivo é usado sobretudo para legitimar o individual, a confiança entre as pessoas tende a enfraquecer lentamente. Deixamos de esperar reciprocidade e passamos a antecipar a deceção. O gesto de ajudar pode tornar-se calculado; a generosidade, condicional; a proximidade, negociada; a gentileza, uma máscara social; e a solidariedade, um investimento à espera de retorno. Não porque as pessoas sejam indiferentes, mas porque aprenderam, pela experiência repetida, a desconfiar antes mesmo de conhecer.
E assim temos o paradoxo: celebra-se o nós precisamente quando cada um age em função do eu. A família, a comunidade, a cultura tornam-se argumentos para exigir dos outros aquilo que não estamos dispostos a oferecer. É nesta distância entre o discurso e a prática que o individualismo coletivo se instala – silencioso, quase invisível, normalizado. Muitos participam. Poucos se reconhecem.
O desconforto da pertença
Todos os meses, inúmeras pessoas vêm ao meu consultório com sintomas de ansiedade ou depressão. Entre os principais problemas que parte delas diz estar a enfrentar estão as exigências de familiares e determinadas obrigações impostas pela Lisan, sobretudo os pedidos constantes de dinheiro.
O medo de perder o emprego, ou de não conseguir pagar as contas, ou de dececionar a família, ou de ser excluído ou amaldiçoado causa-lhes problemas para dormir, pensamentos obsessivos, irritabilidade, dores no estômago, enxaquecas, tristeza e isolamento social. Em casos mais extremos, relatam uma sensação de estar a perder o contacto com a realidade.
A questão que se coloca não é se os costumes têm valor – têm, e muito. A questão é quando uma prática sociocultural deixa de orientar e passa a oprimir. Quando a obrigação substitui a escolha. Quando o medo substitui o respeito. Quando a ameaça substitui o diálogo.
Neste ponto, já não estamos apenas perante uma expressão de cultura, mas sim perante uma forma de controlo. E o facto de ser antigo não garante, por si só, que seja justo ou saudável. Nem o facto de ser partilhado o torna inofensivo.
Um dos fatores que faz este tema difícil de discutir é a sua invisibilidade. Muitas vezes, quem sofre, sofre em silêncio, porque questionar é interpretado como ingratidão, desrespeito, traição ou arrogância. Quem exige, exige com a consciência tranquila, por acreditar estar a preservar algo “que sempre foi assim”, sagrado e herdado.
E, nesse intervalo – entre o que se impõe em nome da tradição e o que se suporta em nome da pertença – instala-se um sofrimento pelo qual poucos se sentem responsáveis e quem sofre, muitas vezes, nem reconhece a dor. Apenas sente, noite após noite, que algo não está bem.
A atualidade dos costumes ancestrais
Valorizar os costumes ancestrais é importante. Eles trazem sentimento de pertença, continuidade, unidade e influenciam a nossa própria perceção de identidade. Mas o que chamamos de cultura são práticas, normas e formas de pensar construídas ao longo do tempo, sujeitas aos contextos históricos, às disputas de poder e às ideologias de cada época.
Algumas regras e práticas culturais são claras e visíveis, como os tabus e rituais das Lisan, o uso do belak, do tais e do kaebauk, as cerimónias do barlake, as histórias de origem, entre outras.
Mas também fazem parte da cultura as práticas do quotidiano que podem não estar associadas às Lisan e que raramente questionamos: a forma como falamos com as mulheres, como educamos as crianças, os hábitos alimentares (comer arroz e ai manas, por exemplo), o que vestimos, a tendência para os castigos físicos, quem manda e quem obedece, como entendemos o que é diferente, as técnicas para sacrificar animais, mastigar de boca aberta ou fechada, o que fazemos para nos divertir e, até mesmo, o hábito de balançar o carro enquanto abastecemos – a lista segue.
Refletir criticamente sobre o que entendemos por cultura ajuda a preservar o que é valioso. Para isso, não precisamos de comparar com outras culturas nem importar costumes de outros lugares. Podemos começar por analisar se as nossas próprias verdades e visões de mundo são inclusivas e estão a promover a saúde emocional e mental das pessoas e das comunidades.
Por exemplo, de tempos em tempos, renovamos a madeira e o telhado das Uma Lulik. Fazemos isto porque os materiais envelhecem, estragam-se e precisam de ser substituídos. Passamos a usar pregos em vez de cordas. Fazemos as vigas mais resistentes, usamos cimento em lugar de apenas madeira. Na construção de barcos aconteceu o mesmo e hoje usamos motores a diesel em vez de remos. Na pesca, o anzol e a rede substituíram os arcos e flechas de bambu.
Com estas mudanças, não estamos a desrespeitar os costumes e os nossos ancestrais. Pelo contrário, mantemos as práticas do passado com algumas adaptações que melhoram a qualidade do que fazemos.
Este é, provavelmente, um dos nossos maiores desafios na atualidade: como fazer a transição do passado para o presente ou como atualizar as nossas tradições. A pergunta que me parece mais interessante não é “isto é diferente do passado?” – tudo muda com o tempo. A questão mais relevante, na minha opinião, é: “isto está a fazer bem às pessoas?”
E nós?
A mudança exige mais do que palavras ou boas intenções. Ela começa nas pequenas atitudes do dia a dia. Uma sociedade não se constrói somente com estradas, estátuas, prédios altos e casas de dois andares. Constrói-se, sobretudo, com a qualidade das relações que as pessoas cultivam entre si, com a forma como se olham, como se escutam, como se tratam e como lidam com as diferenças.
Só quando o respeito deixa de ser um discurso e se torna uma prática é que o coletivo deixa de ser uma máscara para o individualismo e passa a ser um espaço de convivência e encontro. E isso começa em algo simples: qual foi a última vez que perguntou a alguém como se sentia?
Para finalizar, proponho uma reflexão: será que, no Timor-Leste de hoje, o individualismo aprendeu a falar a linguagem da Lisan – instrumentalizando os rituais, o respeito, a família e os costumes ancestrais não para os preservar, mas para deles obter vantagem, prestígio ou poder? O que estamos realmente a proteger quando invocamos a tradição?
Alessandro Boarccaech é psicólogo, especialista em psicologia clínica, psicoterapeuta, semiótico e Ph.D. em antropologia.



Como dizia Lee Kuan Yew, o difícil é fazer com que uma população que se tem comportado como a do terceiro mundo se comporte como a do primeiro mundo.