O corte e a venda clandestina de sândalo desvalorizam uma das maiores riquezas naturais e culturais do país. No mercado negro, vale apenas 30 dólares por quilo, muito abaixo dos 100 dólares do preço internacional.
O comércio ilegal de sândalo continua a desafiar as autoridades timorenses. No mercado internacional, esta madeira aromática pode atingir mais de 100 dólares por quilograma, mas na venda clandestina o preço desce para cerca de 30 dólares por quilo, prejudicando as receitas do Estado e o sustento de comunidades locais.
A informação foi confirmada pelo secretário de Estado das Florestas, Fernandino Vieira da Costa, que reconheceu a dificuldade de travar o corte e a venda ilegal devido à escassez de recursos humanos e às condições económicas das populações locais.
De acordo com o Royal Botanic Gardens Kew, o sândalo (Santalum album L.) é uma árvore nativa da Ásia, presente em Timor-Leste e profundamente enraizada na sua história.
Conhecido como “ouro perfumado”, foi uma das principais razões da cobiça internacional pela ilha, a ponto de Luís de Camões o referir em “Os Lusíadas” como a riqueza timorense.
Segundo o investigador Andrés del Castillo, Timor-Leste foi “quase o único exportador desta madeira até ao final do século XIX”. Hoje, apesar de ser uma espécie legalmente protegida, o sândalo continua em risco de desaparecer.
Desde o período da UNTAET, a exportação está proibida pela Lei n.º 17/2000. Mais tarde, em 2007, foi criado o Parque Nacional Nino Konis Santana, em Lautém, para proteger espécies e habitats. Uma das suas áreas-chave, o posto de Loré, com cerca de 179 quilómetros quadrados — quatro vezes maior do que Díli — já era zona protegida antes da criação do Parque.
Em Loré, o sândalo cresce não apenas na floresta, mas também junto à praia — um fenómeno raro na espécie. “Na teoria, o sândalo não tolera salinidade e as partículas do mar atingem 500 metros da costa. Aqui, cresce a poucos metros da praia. Por isso, é especial”, explicou José Monteiro, técnico do Departamento de Conservação Marinha do Ministério da Agricultura, Pescas, Pecuária e Florestas (MAPPF). O especialista defende que o Governo deve proteger estas árvores, para garantir a sua sobrevivência e possibilitar futuras investigações científicas.
No entanto, o corte clandestino continua, sobretudo no interior da floresta. “Recebemos informações de que foram retirados entre 10 e 20 troncos grandes sem que os responsáveis fossem apanhados. Apesar de algumas detenções, a impunidade persiste”, revelou José Monteiro, alertando para a necessidade de reforçar os guardas florestais.
Outro fator que ameaça a espécie é a mudança climática: a falta de água tem provocado a morte de muitas árvores nos últimos anos. “Antes de 2018, a floresta era rica em sândalos, mas depois muitos morreram”, lamentou Monteiro.
Hoje, estima-se que restem apenas 200 hectares de sândalo, constantemente ameaçados por roubos e exploração ilegal. Para as autoridades, a proteção desta árvore emblemática continua a ser uma corrida contra o tempo.
Falta de meios ameaça o trabalho dos guardas-florestais
A guarda-florestal timorense enfrenta sérias limitações para proteger os recursos naturais do país. A escassez de equipamentos e de pessoal coloca em risco não só o trabalho diário dos guardas, mas também a sua própria segurança.
Mário da Costa, um dos três guardas-florestais destacados para Loré, descreve a vulnerabilidade em que trabalham. “Não temos equipamento para nos proteger. Pelo menos devíamos ter rádios, cassetetes e gás lacrimogéneo”, afirmou. Segundo disse, a área sob responsabilidade da equipa é demasiado extensa para apenas três homens. Apesar das dificuldades, já conseguiram deter madeireiros ilegais. Em meados de 2024, por exemplo, capturaram um indivíduo que transportava 70 quilos de sândalo para venda.
O guarda apela à população para colaborar na proteção dos recursos naturais, lembrando que plantar árvores aromáticas em vez de as cortar é uma forma de assegurar o bem-estar comum, agora e no futuro.
O chefe do Departamento Nacional da Guarda-Florestal, Apolinário Freitas, reconhece as limitações do corpo. Atualmente, existem apenas 309 guardas para todo o país. “O máximo que uma pessoa pode vigiar é cerca de 250 hectares. Aqui, há casos em que um único guarda cobre mais de 500 hectares, o equivalente a 500 campos de futebol. É praticamente impossível garantir vigilância eficaz nestas condições”, admitiu.
A situação agrava-se com a geografia montanhosa de Timor-Leste, marcada por encostas íngremes, cavernas e ribeiras, que dificultam a vigilância. Por isso, muitos pedidos de apoio feitos pelas equipas locais não conseguem resposta imediata, sobretudo quando os cortes ilegais acontecem à noite e não há meios de comunicação ou transporte para agir a tempo.
Além de Loré, foram registados casos em Bobonaro, Viqueque e Liquiçá. Na delegação de Liquiçá, com 19 guardas, chegou a ser impossível intervir em Lisadila, Maubara, por falta de transporte. Só com o apoio da polícia foi possível confiscar alguma madeira, embora em quantidade reduzida. “Os ladrões são mais inteligentes do que nós. Nunca sabemos a que horas atravessam. É por isso que deve haver mais segurança nas fronteiras e no porto — porque só conseguem levar as mercadorias se tiverem facilidade em exportá-las”, frisou Apolinário Freitas.
O secretário de Estado das Florestas, Fernandino Vieira da Costa, admitiu que o sândalo — espécie nativa e altamente valorizada — está em risco de extinção, uma vez que as próprias comunidades recorrem ao corte ilegal para sustentar as famílias.
Segundo explicou, o Governo mantém em curso planos de conservação e reflorestação desde 2012, assim como legislação para a proteção das florestas. Contudo, a escassez de recursos humanos continua a limitar a eficácia dessas medidas. “Não prometo, mas para os próximos cinco anos pretendemos aumentar o corpo da guarda-florestal”, assegurou.
Prejuízo e esforço do Estado
O secretário de Estado das Florestas reconheceu que o sândalo é um recurso florestal de elevado valor económico, comparável, em termos de rentabilidade, ao gás e ao petróleo.
“O sândalo é proibido porque, economicamente, não temos árvores adultas em quantidade suficiente. Vegetativamente, existem muitas, mas ainda são jovens. Logo após a restauração da independência, o Governo plantou cerca de seis hectares em Tilomar e Covalima, mas essas árvores ainda não têm mais de 21 anos”, explicou.
Segundo o governante, na transação ilegal na fronteira o preço varia entre 25 e 30 dólares por quilo, enquanto no mercado internacional o valor ultrapassa os 100 dólares. “Perdemos mais de 60 dólares por quilo. É por isso que proibimos o corte desta riqueza”, lamentou, acrescentando que já houve cidadãos levados a tribunal e obrigados a devolver ao Estado cerca de uma tonelada de sândalo roubado.
Garantiu ainda que o IX Governo está a preparar uma política que permita o corte de sândalo apenas a cidadãos que cultivem as suas próprias árvores. “Se apenas proibirmos, as pessoas continuam a cortar e quem perde é o Estado”, justificou.
De acordo com a proposta, só poderão ser cortadas árvores com cerca de 25 a 30 anos, altura em que já produzem o aroma característico e se tornam uma fonte de rendimento para o país. O governante recordou que o sândalo integra a estratégia do Governo desde o primeiro Executivo como alternativa ao petróleo, tendo sido criados viveiros permanentes em Lautém, Viqueque e Manufahi, além de um centro de viveiros em Maubara-Liquiçá, com a meta de produzir um milhão de árvores por ano.
Apesar disso, reconheceu dificuldades logísticas, como a falta de sacos de plantio para os viveiros, o que atrasou a implementação do plano. “Após a independência, a primeira exportação de sândalo só ocorreu entre 2005 e 2006, com destino à China”, referiu.
Sobre a dependência da lenha, explicou que o Governo pretende reduzir o problema através da promoção de uma agricultura modernizada, evitando o abate de árvores para cultivo de várzeas. Especialistas, técnicos florestais e guardas florestais nos municípios têm também a missão de sensibilizar os agricultores para práticas agrícolas mais sustentáveis.
“Reconheço que ainda é difícil travar o corte ilegal. Alguns cortam apenas para ver se a árvore já está cheirosa e, quando não está, acabam por a estragar”, lamentou, acrescentando que atualmente os armazéns estão cheios de árvores jovens, sem valor de exportação, que acabam usadas apenas como lenha de cozinha.
O secretário recordou ainda práticas antigas, durante o tempo português, quando se verificava a maturidade do sândalo furando a árvore com uma broca. “Se a três ou quatro centímetros de profundidade não tivesse aroma, deixavam a árvore crescer mais tempo, evitando o desperdício e a destruição precoce”, explicou.
O método evitava o desperdício e ajudava a garantir a regeneração natural da espécie — um exemplo de equilíbrio entre exploração e preservação que o país tenta hoje recuperar.
Nota da redação: Mário da Costa, entrevistado para esta reportagem em 2024, faleceu há 3 meses. O Diligente presta homenagem ao seu contributo na proteção das florestas de Timor-Leste.


