Na pele de Isolina: deficiência, discriminação e sobrevivência num mercado sem dignidade

Isolina Sarmento, pessoa com deficiência motora, trabalha como vendedora no mercado de Baucau / Foto: Diligente

Dorme ao lado do quiosque, acorda antes do amanhecer e vende café, noodles e recargas de telemóvel num mercado sem água, casas de banho dignas ou segurança. Isolina Sarmento, pessoa com deficiência motora, resiste diariamente à exclusão, à discriminação e ao abandono institucional no novo mercado de Baucau.

Isolina Sarmento dorme no mercado. A cama está encostada aos produtos que vende todos os dias: café, pop mie, cigarros e recargas de telemóvel. Não há paredes a separar o descanso do trabalho, nem chão sólido sob os pés — apenas terra batida. Dorme ali por necessidade e por medo: a estrada é longa, os transportes escassos e os furtos frequentes.

Todas as madrugadas, a mulher de 38 anos acorda cedo para servir quem chega ainda de noite ao mercado de Tuanau, nos arredores de Baucau. É assim que garante a sobrevivência.

O mercado não é apenas o local onde trabalha. É também onde vive, resiste e tenta sobreviver. Com uma deficiência motora visível e poucos recursos, Isolina enfrenta diariamente uma realidade marcada pela precariedade, pela exclusão social e pela ausência de apoio.

Para aumentar o rendimento, faz o que pode. Para além da venda diária, quando há eventos ou atividades especiais, recebe encomendas e produz guardanapos decorativos de vários modelos. Mudou-se para o novo mercado de Tuanau na sequência das ações levadas a cabo pela Secretaria de Estado dos Assuntos da Toponímia e Organização Urbana (SEATOU), uma mudança que alterou profundamente a sua rotina.

Muitos vendedores vindos de zonas mais remotas chegam ao mercado ainda de madrugada, por volta das duas da manhã. Os dias de maior movimento são às quintas-feiras e aos domingos. “Há pessoas que procuram café, pop mie e até apenas água quente para beber. Por isso, costumo acordar cedo para começar a vender”, relatou.

Mas acordar cedo não significa regressar a casa ao fim do dia. A distância, a falta de transportes públicos e o receio constante de furtos levaram Isolina a tomar uma decisão dura: dormir junto ao quiosque. Entre a rotunda de Vila Nova e o mercado são cerca de mil metros de estrada degradada, marcada por lama, buracos, pedaços de asfalto partido e pedras espalhadas pelo caminho.

“Sinto-me muito triste, porque já tenho esta deficiência e o mau estado da estrada cria ainda mais obstáculos. Como posso regressar a casa com frequência? É muito difícil ter acesso a transportes públicos”, desabafou.

A insegurança é uma presença constante. Num determinado dia, ladrões roubaram chapas de zinco e ferros destinados à construção do quiosque. “Depois dessa experiência, não posso deixar as minhas coisas sozinhas”, contou.

As más condições da estrada dificultam também o transporte de mercadorias. “É muito difícil convencer os motoristas a virem até aqui. Quando aceitam, pedem entre três e cinco dólares, dependendo da quantidade de produtos. Houve dias em que tinha apenas uma cesta pequena, não muito pesada, e tive de a transportar sozinha até ao mercado”, explicou.

Entre o peso da mercadoria, a limitação física e o abandono do espaço público, Isolina percorre todos os dias uma estrada que não foi feita a pensar nela — nem em quem, como ela, tenta sobreviver à margem da cidade.

Sem água, sem casas de banho e sem respostas do Estado

Na pequena estrutura onde Isolina Sarmento vive e trabalha, não há separações. Dentro da sua casinha improvisada, uma cama divide o espaço com os produtos do quiosque. Não existe um quarto separado e o chão é de terra batida. Dorme ali para conseguir descansar entre as vendas e, sobretudo, para proteger o pouco que tem. “Não tenho dinheiro suficiente para fazer tudo ao mesmo tempo. Tenho de fazer as coisas por partes, pouco a pouco”, explicou.

A falta de condições básicas é uma realidade diária no mercado de Tuanau e afeta não só Isolina, mas também outros vendedores e cidadãos. Um dos problemas mais graves é a escassez de água potável e o mau estado das casas de banho.

“Sabemos que, na zona de Vila Nova, é muito difícil ter acesso à água. Algumas vezes, funcionários do município trazem água, mas temos de a usar com muito cuidado, para aguentar até à próxima ajuda”, contou.

Quanto às instalações sanitárias, Isolina recorda que as autoridades de Baucau informaram que seriam colocados guardas para cuidar das casas de banho. No entanto, até hoje, diz não ter visto ninguém a desempenhar essa função.

“O que noto é que, sem água, aquelas casas de banho cheiram muito mal. Já vi pessoas a fazer as suas necessidades em qualquer lugar e, um dia, encontrei até um embrulho de resíduos corporais dentro de um saco de plástico, mesmo em frente ao meu quiosque”, relatou.

A degradação do espaço onde vive e trabalha não surgiu por acaso. Está diretamente ligada à mudança forçada do antigo mercado, no centro da cidade de Baucau, para o novo mercado de Tuanau — uma decisão administrativa que alterou profundamente a vida de Isolina Sarmento.

No mercado antigo, explica, as condições não eram ideais, mas eram significativamente melhores. “Os vendedores estavam perto da estrada, o que facilitava apanhar transportes públicos para ir comprar os produtos em pacotes maiores e depois vendê-los aos poucos”, contou.

No ano passado, o Governo determinou a transferência de todos os vendedores para o mercado de Tuanau, no âmbito de ações conduzidas pela SEATOU. Foi a partir desse momento que, segundo Isolina, começaram os problemas.

“A partir daí, começámos a enfrentar todas as dificuldades que já referi. Além disso, os rendimentos também deixaram de ser os mesmos. Ganhamos menos do que no mercado antigo”, afirmou.

Durante o processo de transição, alguns vendedores não conseguiram transportar todos os seus produtos para o novo espaço. Nesses casos, relatou, a equipa da SEATOU e as autoridades municipais procederam de imediato à apreensão dos bens que ficaram para trás.

“Não fiquei satisfeita com essa atitude. Prometeram alargar e melhorar a estrada, mas até hoje nada aconteceu”, criticou.

No novo mercado, explicou, algumas estruturas comerciais foram construídas pelo Governo, enquanto outras barracas foram erguidas pelos próprios vendedores, com recursos próprios. À equipa da SEATOU e às autoridades de Baucau coube apenas a indicação dos terrenos a utilizar. “Disseram-nos que estamos a usar aquele espaço de forma provisória e que o Governo vai construir mais edifícios. Mas não sabemos quando isso vai acontecer”, sublinhou.

Antes de iniciarem atividade no novo mercado, os vendedores tiveram de se registar para obter um lote de terreno. Todo o material necessário para a construção dos quiosques — chapas de zinco, ferros e outros equipamentos — foi adquirido pelos próprios vendedores.

“Não usamos dinheiro do Governo. Tivemos de nos desenrascar para comprar tudo. E, depois de comprarmos, ainda tivemos de lidar com roubos, porque os ladrões aproveitaram a situação”, contou.

A mudança de mercado, que deveria significar organização e melhores condições, acabou por empurrar Isolina Sarmento e muitos outros vendedores para uma realidade ainda mais precária — marcada pela ausência de serviços básicos, por decisões administrativas sem resposta e por uma sensação constante de abandono.

Da infância pobre à deficiência: uma vida marcada pela perda e pelo trabalho precoce

Isolina Sarmento começou a trabalhar ainda em criança. Cresceu numa zona remota de Uatucarbau, no município de Viqueque, onde vendia rebuçados na escola que frequentava. Quando alguns familiares se deslocavam para a cidade, a mãe dava-lhe dinheiro para comprar pacotes de rebuçados, que depois revendia.

O percurso escolar foi interrompido ainda no segundo ciclo do ensino básico.
“Tomei essa decisão porque ninguém me dava dinheiro para comprar material escolar nem para cobrir as necessidades do dia a dia, mesmo com a escola gratuita. Os meus tios não podiam cuidar de mim, porque também tinham filhos. Os anos 90 foram muito difíceis, durante a ocupação indonésia”, recordou.

Mais tarde, quando os tios passaram a trabalhar na horta, produzindo milho, hortaliças, tomate e batata-doce, Isolina assumia a tarefa de vender os produtos. Regressava depois com o dinheiro, que entregava à família. “Eles partilhavam um pouco comigo”, contou.

Isolina perdeu o pai ainda bebé. “Durante a ocupação indonésia não havia câmaras para tirar fotografias. Os meus familiares contaram-me que o meu pai era professor, adoeceu e acabou por morrer. Não faço ideia de como era o rosto dele”, disse, visivelmente emocionada.

Em 2012, enfrentou outra perda profunda: a morte da mãe, vítima de cancro.
“São momentos muito difíceis de esquecer. Pergunto-me porque tive de perder também a minha mãe. Não tenho irmãos. Fiquei sozinha. Graças a Deus, ainda tenho outros familiares que cuidam de mim”, desabafou.

A deficiência motora teve origem na infância. Aos cinco anos, caiu da cama enquanto dormia. Na altura, não foi levada ao hospital. “A minha mãe chamou apenas uma pessoa para fazer massagens. A situação agravou-se e tive febre durante quase um ano. Foi aí que as minhas costas começaram a mudar”, explicou.

Mais tarde, ao compreender a sua condição, viveu momentos de grande sofrimento emocional. “Fiquei muito stressada quando soube, mas, pouco a pouco, fui aceitando essa realidade”, concluiu.

Discriminação, criatividade e um apelo ao Estado

A vida de Isolina Sarmento é também marcada pela discriminação dirigida às pessoas com deficiência. Segundo relata, os preconceitos assumem várias formas: olhares de desprezo, insultos e classificações cruéis.

“Chamavam-nos de feios, cegos, diziam que eu tinha as costas malformadas. Os próprios familiares diziam isso”, contou. Durante muito tempo, nem sequer existia um termo adequado para designar as pessoas com deficiência. “Quando ainda não havia uma palavra certa para nos tratar, ficava muito triste. Depois, quando surgiu um termo específico, isso ajudou um pouco. Mas ainda há cidadãos que continuam a tratar-nos mal”, lamentou.

No mercado, a discriminação traduz-se também em rejeição económica. “Desprezavam-me e diziam que eu não sabia cuidar de mim, que não sabia arranjar-me ou tratar da minha aparência. Então iam comprar noutros quiosques”, relatou.

Apesar de tudo, Isolina encontrou na criatividade uma forma adicional de garantir rendimento. Para além da venda diária, dedica-se à transformação de guardanapos em diferentes modelos decorativos. Dobra-os e organiza-os em pratos, criando figuras como cestos, peixes, ananases e flores artificiais.

Recebe encomendas através de chamadas telefónicas, mensagens no Facebook e no WhatsApp. Conta que começou a aprender observando mulheres mais velhas em festas, ainda em criança.
“Depois tentei aprender sozinha, até conseguir. Mais tarde, quando conheci o YouTube, o TikTok e outras plataformas, comecei a procurar mais referências e a aperfeiçoar os modelos”, explicou. Cada conjunto decorativo é vendido por valores entre três e nove dólares.

Segundo os dados do Censo de 2022, Timor-Leste tem 17.061 pessoas com deficiência, num universo de cerca de 1,3 milhões de habitantes. Até ao final de 2023, apenas cerca de oito mil beneficiavam de um subsídio estatal. A partir de 2024, passou a ser atribuída uma pensão mensal de 60 dólares.

“Antes do ano passado, recebíamos de seis em seis meses. Agora, recebemos de três em três meses, no total de 180 dólares”, explicou. Ainda assim, o apoio não chega. “Mesmo assim, tenho de fazer outros trabalhos para conseguir comprar comida e medicamentos.”

No final da conversa, Isolina deixou um apelo simples, mas firme: “Quero que o Governo crie centros de formação, para que possamos mostrar o nosso talento e ter outras oportunidades.”

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