A exposição “Lakon Oan” dá voz às mulheres que perderam bebés durante a gravidez. Transformando a dor em arte e memória, a iniciativa procura quebrar o silêncio e o estigma, defendendo mais empatia, apoio psicossocial e políticas mais humanas para as mães afetadas por esta experiência.
O silêncio domina a sala. Nas paredes, imagens delicadas, frases curtas e memórias escritas em papéis convidam os visitantes a parar, respirar e sentir. Não é uma exposição comum: cada obra carrega uma história que muitas vezes permanece escondida dentro das casas, das famílias e, sobretudo, no coração de uma mãe.
Em Timor-Leste, cinco mulheres transformaram a sua experiência mais íntima e dolorosa em arte, memória e palavra. A exposição “Lakon Oan”, inaugurada a 12 de março na Arte Luron Galeria em Díli, estará patente ao público até 18 de abril, com entrada gratuita, oferecendo a todos a oportunidade de olhar, sentir e refletir sobre uma experiência que, embora silenciosa, merece ser reconhecida, compreendida e acolhida.
Entre fotografias, cartas, poesias, vídeos e relatos pessoais, os visitantes encontram não apenas histórias de luto, mas também espaços de escuta e empatia. Não há julgamento, nem culpa. Há apenas um convite à reflexão, ao respeito e à valorização do amor que permanece mesmo quando a vida termina antes de nascer.
A exposição pretende homenagear os bebés que morreram ainda no ventre e as mães que enfrentaram a perda de um filho durante a gravidez. Segundo as organizadoras, esta dor permanece frequentemente invisível e silenciada na família e na sociedade. “Nem todos os bebés vêm ao mundo para caminhar sobre a terra. Alguns vivem para sempre no coração das suas mães.”
A perda de um bebé durante a gravidez é uma realidade vivida por muitas mulheres em todo o mundo, mas continua a ser um tema pouco falado. Por trás de cada estatística existem histórias de amor, esperança interrompida e longos processos de luto e de reconstrução.
“Chegaste muito depressa, trazendo luz e alegria ao coração da tua mãe, mesmo que por um tempo muito curto, como uma bênção que passa rapidamente. A despedida mais difícil é aquela que acontece antes do primeiro olá.”
Histórias de dor, esperança e reconstrução
Desde o dia em que o médico lhe disse que estava grávida, a vida de Abui (nome fictício) encheu-se de alegria e esperança. Fotografia mensal, olhar ao espelho, pequenos registos no trabalho — tudo para acompanhar o crescimento do bebé. Mas, em 2021, perdeu o filho com quatro meses e meio de gestação.
“Não existe sentimento mais pesado neste mundo do que perder um filho. Quando o médico disse que ‘Deus amava tanto este bebé que decidiu levá-lo de volta’, o mundo escureceu e a esperança desapareceu.”
Algumas das fotografias que mostra na exposição foram tiradas por si antes da cirurgia e depois da perda, refletindo o momento doloroso. Com o tempo, Abui encontrou formas de lidar com a dor: exercícios ao final da tarde, momentos junto ao mar e conversas silenciosas consigo mesma.
“Espero que este trabalho crie um espaço onde as mulheres se sintam vistas, ouvidas e apoiadas. A nossa tristeza merece compaixão, as nossas histórias merecem ser contadas e o nosso processo de cura merece dignidade.”
A gravidez de Anoi (nome fictício) durou apenas sete semanas. Ela perdeu o bebé porque este não se desenvolveu.
“Chegaste muito depressa, trazendo luz e alegria ao coração da tua mãe, mesmo que por um tempo muito curto, como uma bênção que passa rapidamente. A despedida mais difícil é aquela que acontece antes do primeiro olá.”
Falar sobre esta perda é também uma forma de defender mudanças sociais. Anoi acredita que, quando uma mulher perde um bebé, precisa de tempo para recuperar física e emocionalmente, e que instituições e Governo deveriam reconhecer isso através de políticas de apoio e licenças adequadas.
Amira (nome fictício) perdeu o filho há dezassete anos, estava grávida de oito meses e meio quando o bebé morreu ainda no útero, uma condição conhecida como morte fetal intrauterina. Durante muito tempo guardou a dor apenas na família. Só cinco anos depois começou a partilhar publicamente a memória do filho nas redes sociais.
Todos os anos, no aniversário do seu filho, publica uma mensagem acompanhada por uma borboleta, símbolo da presença delicada e invisível do filho. Ao longo dos anos, escreveu no diário sobre as fases do luto: silêncio inicial, tentativa de cura, estudos no estrangeiro, memórias que surgem nas noites solitárias e, mais tarde, alegria com a chegada de uma filha.
“Hoje, a irmã mais nova do seu filho participa nas homenagens. No aniversário do irmão que nunca conheceu, acende uma vela e prepara um bolo de chocolate. Mesmo sem o ter visto, sente que ele faz parte da família.”
A perda de Ino ocorreu em 2022, às sete semanas de gestação. Além da dor, enfrentou comentários e julgamentos das pessoas à sua volta. “Ouvi dizer que aconteceu porque viajei de avião ou pensei demasiado nos estudos. Essas palavras pesaram ainda mais na minha mente e no meu coração.”
Sentiu-se isolada e distante da família. “Houve momentos em que senti que já não queria viver e perdi a esperança de continuar.”
Somente após procurar ajuda profissional conseguiu encontrar força para lidar com a situação, compreendendo que as mulheres precisam de apoio, não de julgamento.
Por sua vez, a maternidade da Luna (nome fictício) trouxe-lhe desafios dolorosos: três abortos espontâneos consecutivos, entre 2022 e 2024, marcaram profundamente a sua vida e a da sua família.
“No início, culpava-me por tudo. Perguntava-me se tinha feito exercício a mais, comido algo errado ou bebido álcool antes de saber que estava grávida”, lembrou Luna. Foi uma frase simples que ajudou a quebrar o ciclo de culpa. “Não fizeste nada de errado”, disse.
A fotografia sempre foi uma forma de Luna compreender o mundo. Durante a última perda gestacional, em 2024, captou imagens que registaram a sua experiência, ajudando-a a lidar com o trauma. “Organizar esta exposição também faz parte do meu processo de recuperação”, disse.
Em fevereiro de 2024, às dez semanas de gestação, Luna descobriu que o coração do bebé já não batia. Um médico em Díli diagnosticou um problema no útero, mas o profissional de saúde exigiu que a confirmação fosse feita em Darwin, na Austrália. Sem a companhia do marido e dos filhos, viajou sozinha, enfrentando o medo de uma quarta perda, especialmente por ter mais de 40 anos.
Em Darwin, exames confirmaram a perda, mas o corpo ainda não havia iniciado o processo natural de aborto. O médico ofereceu acolhimento e conforto, dando a Luna um quarto e um lenço para as lágrimas. O procedimento cirúrgico escolhido foi a dilatação e curetagem (D&C), realizado na manhã seguinte, após jejum e preparação hospitalar. “Engoli o comprimido e chorei. Pela primeira vez senti que já não havia esperança, mesmo sabendo racionalmente do diagnóstico”, relatou.
Após a cirurgia, Luna passou cinco horas no hospital, à espera da família. A filha pequena observava curiosa a marca do soro no braço da mãe, sem compreender a gravidade do ocorrido. Os dias seguintes foram de descanso, recuperação e apoio familiar. Pequenos gestos, como cortar o cabelo ou ver filmes de animação com os filhos, ajudaram a restaurar alguma normalidade.
Luna procurou apoio online e descobriu que muitas mulheres que passam por abortos espontâneos não recebem informações sobre cuidados de saúde mental, apesar de existirem organizações especializadas. “A perda de gravidez acontece todos os dias, mas a sociedade ainda não presta atenção suficiente a este assunto”, afirmou.
O regresso a Díli exigiu quase um mês afastada do trabalho, período em que lidou com culpa, trauma e a perceção da desigualdade no acesso à saúde. “Senti uma grande culpa, porque tive acesso a cuidados de saúde muito completos, algo que muitas mulheres timorenses não têm”, lamentou.
Para Luna, depois desta perda, nadar e passar tempo na água ajudaram muito no seu processo de recuperação. “Sinto que a água me aceita sem julgamento. Ela cria espaço para mim e envolve-me com calma. Dentro da água sinto que o peso da dor se torna mais leve”, disse.

“Existem licenças de maternidade e paternidade quando um bebé nasce saudável, mas, em casos de perda gestacional, muitas mulheres são obrigadas a regressar ao trabalho após apenas uma ou duas semanas, como se estivessem a recuperar de uma doença comum”, afirmou.
Quebrar o silêncio e promover mudanças
A perda de um bebé — seja por aborto espontâneo, natimorto ou morte no útero — deixa marcas físicas, emocionais e psicológicas profundas. Muitas mulheres carregam essa tristeza sozinhas, enfrentando olhares críticos, comentários e estigmas que agravam ainda mais a dor.
Na abertura da atividade, a artista e organizadora da exposição, Rosa Cardoso, afirmou que a iniciativa surge como um espaço seguro para dar voz e visibilidade à realidade vivida por muitas mulheres que engravidam e depois enfrentam experiências dolorosas. A exposição procura validar sentimentos, mostrar que cada história importa e sublinhar que a partilha é uma forma de cura, de humanização e de reconhecimento de direitos.
Segundo a organizadora, a exposição utiliza a expressão em tétum “lakon oan”, que significa “perda de um filho”, pois muitas mulheres não se sentem confortáveis com o termo frequentemente utilizado, aborto, ainda associado na sociedade a julgamento e estigma.
Rosa Cardoso explicou que, quando se fala em aborto, muitas vezes a responsabilidade é colocada sobre a mulher, com acusações de que não cuidou adequadamente da gravidez ou da sua saúde. No entanto, sublinhou que a perda de um bebé nem sempre tem culpados. “Esses estigmas ferem profundamente as mulheres e podem ter impactos psicológicos graves”, afirmou.
A exposição, além de sensibilizar o público, funciona também como um espaço de cura para as próprias organizadoras. Ao partilharem as suas histórias através da arte e da palavra, encontram formas de lidar com o sofrimento e o trauma.
“Falar sobre a dor ajuda a torná-la mais leve. Mesmo quando as pessoas apenas escutam, o simples facto de serem ouvidas já traz algum alívio às mulheres que passaram por essa experiência”, explicou Rosa Cardoso.
A artista destacou ainda que a iniciativa procura chamar a atenção das famílias e das instituições para a necessidade de rever políticas relacionadas com licenças de trabalho para mulheres que enfrentam problemas de saúde durante a gravidez ou após a perda de um bebé.
“Existem licenças de maternidade e paternidade quando um bebé nasce saudável, mas, em casos de perda gestacional, muitas mulheres são obrigadas a regressar ao trabalho após apenas uma ou duas semanas, como se estivessem a recuperar de uma doença comum”, afirmou.
Outro problema destacado refere-se às condições nos hospitais. Muitas vezes, nas salas de parto, mães que deram à luz bebés saudáveis partilham o mesmo espaço que mulheres que perderam os seus filhos durante o parto.
“Naturalmente, todos celebram o nascimento de um bebé saudável, mas muitas vezes esquecemos a mãe que acabou de perder o seu filho naquele mesmo momento”, disse. Por isso, as organizadoras defendem a criação de salas separadas, garantindo maior privacidade e respeito.
Além disso, Rosa Cardoso sublinhou a importância de oferecer apoio psicossocial e aconselhamento especializado a estas mães, com profissionais preparados ou redes de encaminhamento capazes de acompanhar as mulheres de acordo com as suas necessidades e com o trauma vivido.
A organizadora lembrou que cada experiência de perda é única. Algumas ocorrem nos primeiros meses de gestação, outras no momento do parto ou quando o bebé deixa de se desenvolver no útero.
“Essas situações afetam não apenas a mulher, mas também as famílias e a sociedade. É fundamental partilhar essas histórias e encorajar todas as pessoas a deixarem de culpar, julgar ou estigmatizar as mulheres que passam por esta experiência”, afirmou Rosa Cardoso.
Segundo a artista, apenas com mais empatia e apoio será possível garantir que as mulheres que vivenciam esta experiência consigam continuar a viver com esperança.
Xian Warner, artista e membro da organização, reforçou que, além da dimensão artística e emocional, a exposição procura chamar a atenção para a necessidade de mudanças em algumas políticas institucionais em Timor-Leste. Entre as preocupações está a ausência de licença laboral específica para mulheres que passam por aborto espontâneo.
“Enquanto existem licenças de maternidade quando um bebé nasce saudável, essa proteção geralmente não se aplica quando ocorre uma perda gestacional”, explicou.
Segundo Xian, muitas mães sentiram necessidade de ausentar-se do trabalho para lidar com o trauma, mas nem sempre encontraram compreensão nos seus locais de trabalho.
“Sentimos que não havia espaço para falar sobre isto, especialmente em Timor-Leste. Havia muito estigma associado a esta situação, que as mulheres que passaram por abortos espontâneos carregavam consigo”, disse.
Outro problema apontado refere-se às condições nos hospitais. Xian relatou que algumas mulheres que sofreram aborto espontâneo tiveram de permanecer nas mesmas salas que mães que acabavam de dar à luz bebés saudáveis. “Isso apenas agravava ainda mais o nosso trauma”, destacou.
Através da arte, de histórias pessoais e de momentos de memória, a exposição procura transformar a forma como a sociedade encara a perda gestacional. A mensagem central da iniciativa é que nenhuma mulher deve sentir-se sozinha ou culpada por passar por esta experiência.
Para tornar o ambiente da exposição mais acolhedor, as organizadoras criaram também um espaço interativo: uma “árvore de reflexões”, onde os visitantes podem escrever pensamentos, experiências ou mensagens de apoio e deixá-las no espaço expositivo.
O impacto emocional e o papel do apoio psicológico
Perder um bebé durante a gravidez ou logo após o parto é uma experiência profundamente dolorosa e traumática. Alessandro Boarccaech, psicólogo, explicou que as reações emocionais mais comuns incluem tristeza intensa, desorientação, atordoamento e um sentimento de vazio.
Acrescentou que muitas mulheres sentem culpa, questionando-se se poderiam ter evitado a perda, enquanto outras experienciam raiva, frustração ou sensação de injustiça. “Não existe uma forma ‘certa’ ou ‘normal’ de reagir. Cada mulher vive esse processo de maneira única”, destacou. Boarccaech.
Para muitas mulheres, a gravidez é também um momento de identificação com o papel de mãe. Alessandro afirmou que a perda do bebé pode interromper esse processo, “gerando sentimentos de inadequação e dúvida em relação ao próprio corpo.” Boarccaech lembrou, porém, que a maternidade não se define apenas pelo resultado da gestação: “O vínculo emocional, a experiência da gravidez e o luto fazem parte da história materna da mulher.”
Embora o luto seja uma resposta natural, algumas mulheres podem desenvolver problemas psicológicos mais persistentes, como depressão, ansiedade, insónia, culpa intensa ou stress pós-traumático, sobretudo quando a perda ocorre de forma súbita ou traumática. “Nessas situações, o acompanhamento psicológico é essencial para a recuperação”, frisou.
“O impacto psicológico não depende apenas do momento da perda, mas também do vínculo estabelecido com o bebé e das expectativas construídas durante a gravidez. Quando a criança nasce e a família já teve contacto direto com ela, o luto tende a ser mais visível e socialmente reconhecido. Ainda assim, mesmo perdas precoces podem provocar sofrimento profundo, pois envolvem sonhos e projetos já em formação”, afirmou.
Segundo o psicólogo, o luto não tem prazo definido. “Para algumas mulheres, os sentimentos mais intensos diminuem gradualmente; para outras, o processo pode levar meses ou anos. Datas simbólicas, como o dia previsto para o nascimento, podem reativar emoções ligadas à perda.”
Boarccaech observa que a experiência também pode afetar o relacionamento com o parceiro. Em alguns casos, o casal aproxima-se; noutros, surgem dificuldades de comunicação. O diálogo e o reconhecimento das diferentes formas de sofrimento são fundamentais para preservar o vínculo.
“É comum que mulheres que sofreram perdas gestacionais sintam medo ou ansiedade em gravidezes posteriores. A psicologia perinatal procura ajudá-las a elaborar o luto anterior, ao mesmo tempo constrói um espaço emocional seguro para uma nova gestação, validando medos e fortalecendo a confiança no próprio corpo”, salientou.
Questionado sobre que tipo de apoio psicológico é mais recomendado após a perda, o psicólogo afirmou que o acompanhamento deve oferecer um espaço seguro de escuta, onde a mulher possa expressar livremente emoções e dúvidas. “Psicoterapia centrada no luto, regulação emocional e fortalecimento da rede de apoio costuma ser eficaz. Grupos de apoio com outras mães que passaram pela mesma experiência podem reduzir o isolamento e reforçar a legitimidade do sofrimento”, disse.
O contexto cultural e religioso influencia fortemente a forma como a mulher lida com a perda. Rituais e crenças espirituais podem oferecer conforto simbólico, enquanto sistemas culturais que minimizam a dor podem dificultar o reconhecimento social do luto.
“Quando a perda gestacional é tratada como um tema que deve ser evitado ou silenciado, muitas mulheres sentem que não têm espaço para expressar a sua dor. Esse silêncio pode gerar isolamento, vergonha ou a sensação de que o sofrimento não é legítimo. Falar sobre o tema de forma aberta e respeitosa contribui para reduzir o estigma e permite que as mulheres recebam o apoio de que necessitam”; disse.
O psicólogo afirmou ainda que o apoio mais importante começa pela escuta empática e reconhecimento da perda. “Os profissionais de saúde devem comunicar com sensibilidade, oferecendo informações claras e respeitando o tempo emocional da mulher e da família. As famílias, por sua vez, podem ajudar ao estar presentes, evitando julgamentos e reconhecendo a legitimidade do luto.”
“Pequenos gestos de cuidado, compreensão e de disponibilidade podem fazer uma diferença significativa no processo de recuperação emocional”, concluiu.
Através da arte, de histórias pessoais e de momentos de memória, a exposição procura transformar a forma como a sociedade encara a perda gestacional. A mensagem central da iniciativa é clara: nenhuma mulher deve sentir-se sozinha ou culpada por passar por esta experiência. Cada lágrima, cada memória partilhada e cada gesto de empatia ajudam a dar voz à dor silenciosa, transformando sofrimento em lembrança, e lembrança em força e esperança.

