“Bater o pé” e gritar contra a injustiça: o alerta de jovens timorenses no Dia Zero Discriminação

Discriminação acontece todos os dias e um trabalho conjunto pode tornar uma sociedade mais inclusiva/Foto: Inteligência artificial

Ser mulher e não herdar. Ser pobre e ficar para trás. Ser diferente e ser alvo de insultos. No Dia da Discriminação Zero, jovens timorenses denunciam as múltiplas formas de discriminação que persistem no país e apelam a reformas profundas, culturais e políticas. 

O dia 1 de março assinala o Dia da Discriminação Zero, promovido pelas Nações Unidas. A iniciativa recorda que todas as pessoas têm igual dignidade e valor, tal como consagrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, e apela aos Estados para que eliminem leis e práticas discriminatórias que limitam o acesso à saúde, à educação, ao emprego e a outros direitos fundamentais. A ONU tem sublinhado que as leis devem proteger — não causar danos — e que a discriminação constitui uma violação dos direitos humanos.

Em Timor-Leste, embora o princípio da igualdade esteja consagrado na Constituição, a discriminação continua a manifestar-se no quotidiano, de forma social, cultural, económica e política. Exclusão, humilhação, desigualdade no acesso a oportunidades, favoritismo e práticas patriarcais são realidades relatadas por jovens que aceitaram partilhar as suas experiências.

Alguns jovens timorenses juntam-se, assim, ao apelo global contra a discriminação, dando rosto e voz a situações que continuam a marcar a sociedade.

“Cada um de nós deve ter consciência de que uma ação discriminatória pode magoar profundamente outra pessoa, podendo mesmo conduzi-la ao isolamento e à depressão, e, em casos extremos, ao suicídio”


Amandina da Silva, ativista de direitos humanos/Foto: Diligente

“A discriminação é um fenómeno complexo. Pode ocorrer entre partidos, entre classes económicas e sociais e até dentro da própria família, entre filhos e filhas. É importante sensibilizar a população, através da educação, para eliminar a discriminação. Cada um de nós deve ter consciência de que uma ação discriminatória pode magoar profundamente outra pessoa, podendo mesmo conduzi-la ao isolamento e à depressão, e, em casos extremos, ao suicídio.

Sofri discriminação várias vezes, mas, com a maturidade, comecei a ignorá-la. Na maioria dos casos, a discriminação baseia-se na classe social. Quando vim de uma área rural para estudar na cidade, encontrei um grupo onde senti discriminação. A forma como me abordavam era diferente. Por exemplo, combinavam ir a determinados locais, ignorando o facto de eu vir do município e não saber como lá chegar. Senti-me excluída e profundamente magoada. Decidi afastar-me do grupo e procurar outros colegas. No entanto, essa experiência fez com que, sempre que encontrava alguém com uma atitude semelhante, me afastasse automaticamente.

Também sofremos discriminação com base na origem. Somos de Baucau; os meus pais faziam negócio e vivíamos em Manatuto. Lá, algumas pessoas discriminavam-nos, dizendo que éramos de Lorosa’e, da parte leste do país, e que éramos diferentes. As oportunidades não eram iguais. Quando havia atividades no suco, muitas vezes não éramos incluídos.

Com o tempo, através da leitura e da maturidade, deixei de me sentir ofendida quando as pessoas optam por outros. Hoje, concentro-me em coisas que me valorizam e me fazem crescer.

No entanto, nesta sociedade patriarcal, a discriminação continua a ser forte e estrutural. Em casa, os homens comem primeiro e as mulheres depois — isso é uma forma de discriminação. No sistema de saúde, por exemplo, as pessoas com mais recursos têm acesso a melhores condições, enquanto as mais pobres não. Na educação, os alunos de famílias com menos recursos acedem, muitas vezes, a um ensino de menor qualidade quando comparados com os de famílias mais abastadas.

O desemprego é também consequência de um sistema e de políticas discriminatórias. Na política, de cinco em cinco anos os governos mudam, mas o poder tende a permanecer nas mãos de quem tem maior força económica. Cria-se uma espécie de oligarquia que concentra riqueza e oportunidades. Os mais pobres continuam pobres porque não existem oportunidades de trabalho suficientes.

Para tornar a sociedade menos discriminatória e mais inclusiva, o Governo tem um papel fundamental, pois dispõe de recursos e poder para criar medidas que promovam a igualdade. Uma política não discriminatória não pode ser apenas uma bela retórica sem implementação concreta.

O Governo deve garantir que todas as pessoas vivam em igualdade, com as mesmas oportunidades e o mesmo acesso a serviços e direitos.

Ao nível dos movimentos e das organizações, é necessário investir em formação, campanhas e educação popular para combater a discriminação.”

“A primeira discriminação que sofremos enquanto mulheres é a exclusão do acesso à herança, nomeadamente de terrenos. Apesar de também sermos descendentes dos nossos pais e, muitas vezes, contribuirmos — por exemplo, investindo na casa da família —, no final, essa casa não é considerada nossa e não somos incluídas nas decisões sobre a sua distribuição”

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Emília Moniz, ativista feminista/Foto: Arquivo pessoal

“A primeira discriminação que sofremos enquanto mulheres é a exclusão do acesso à herança, nomeadamente de terrenos. Apesar de também sermos descendentes dos nossos pais e, muitas vezes, contribuirmos — por exemplo, investindo na casa da família —, no final, essa casa não é considerada nossa e não somos incluídas nas decisões sobre a sua distribuição. É uma discriminação que eu própria sofri enquanto mulher. Existe legislação que permite às mulheres serem proprietárias de terrenos, mas, na prática, isso ainda não acontece plenamente, porque, segundo a cultura patriarcal, quando a mulher casa, sai da casa dos pais. Já os irmãos, quando casam, trazem a esposa para casa e, assim, permanecem com os terrenos e as habitações. E quando uma mulher casa e vai viver com o marido, este, regra geral, não coloca o nome dela como proprietária do terreno. O terreno representa dignidade e sobrevivência. Felizmente, o meu pai tem uma mentalidade aberta e atribuiu-me uma parte. Mas muitas mulheres não têm essa oportunidade.

Em segundo lugar, a cor da pele. Com o padrão de beleza dominante, fortemente influenciado pela colonização, ser bonita é ser branca. Tendo uma pele mais tipicamente timorense, por vezes somos alvo de bullying, sendo constantemente lembradas de que não somos bonitas. Isso gera insegurança.

Quando era criança, disseram-me: ‘Ah, ela é boa, mas é preta.’ Durante muito tempo carreguei essa frase comigo. Foi quando passei a integrar uma organização feminista que comecei a desconstruir essa ideia. Esse envolvimento ajudou-me e abriu-me a mente. Percebi que o que me fizeram era errado. O problema não sou eu.

Existe ainda o cyberbullying. Por exemplo, quando desempenhamos o nosso trabalho enquanto ativistas, ao criticar e questionar situações na sociedade, ficamos expostas a ataques pessoais, insultos e até ameaças.

O facto de o trabalho doméstico — realizado maioritariamente por mulheres — não ser reconhecido nem remunerado constitui uma forma grave de discriminação. Ao associar-se a ideia de que as mulheres são naturalmente mais carinhosas, o cuidado de terceiros, incluindo de idosos no seio familiar, recai quase sempre sobre elas. Trabalham fora durante o dia e, ao regressar a casa, continuam a trabalhar.

Com base na classe económica, também existem formas de discriminação. Embora pessoas privilegiadas possam enfrentá-la, na maioria dos casos são as pessoas das classes mais baixas que sofrem de forma mais intensa. A sua condição económica dificulta a capacidade de enfrentar ou ultrapassar essas situações.

Tenho igualmente observado que colegas da comunidade LGBTQIA+ são alvo de maior discriminação, inclusive no seio das próprias famílias. E quem defende os seus direitos é, muitas vezes, insultado. Mas isso não me impede de continuar.

É importante criar comunidade, ter um círculo de colegas em quem confiamos e com quem nos sentimos confortáveis para partilhar experiências, integrando grupos que contribuam para a nossa luta. Desde que me tornei feminista, deixei de acreditar em padrões de beleza. Esses padrões foram construídos pela sociedade e pelo colonialismo. Todas as pessoas são bonitas.

É também essencial investir na leitura, aprender mais e escutar as experiências de outras pessoas. Isso fortalece-nos, porque percebemos que aquilo que sentimos não é um problema individual, mas sim coletivo.

E não ficar calada. É preciso bater o pé e gritar quando algo está errado. Devemos defender as causas em que acreditamos, pensando que, pelo menos, as gerações futuras não terão de enfrentar os mesmos problemas que enfrentamos hoje. A mudança não acontece no momento em que falamos, mas acontece um dia. A luta pela independência também não se concretizou de um dia para o outro. Mas houve quem acreditasse que, um dia, seria possível alcançá-la.”

“Em Timor-Leste, a discriminação acontece diariamente e é frequente, inclusive no meio político, onde alguns favorecem os seus simpatizantes e discriminam membros de outros partidos. No acesso ao emprego, o favoritismo, o nepotismo e o compadrio são também formas de discriminação”

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Cesário César, coordenador de extensão juvenil, da Asia Justice and Rights (AJAR)/Foto: Arquivo pessoal

Cesário César, coordenador de extensão juvenil, da Asia Justice and Rights (AJAR)

“A discriminação é um conceito amplo. Pode referir-se ao tratamento desigual entre indivíduos e grupos ou à forma como o Estado se relaciona com os seus cidadãos. Pode ocorrer com base na língua, na cor da pele, na origem, na religião ou na pertença a determinados grupos, como ser mulher, integrar a comunidade LGBTQIA+ ou viver com deficiência.

Em Timor-Leste, a discriminação acontece diariamente e é frequente, inclusive no meio político, onde alguns favorecem os seus simpatizantes e discriminam membros de outros partidos. No acesso ao emprego, o favoritismo, o nepotismo e o compadrio são também formas de discriminação. Numa cultura patriarcal, a discriminação mais persistente continua a ser contra as mulheres, que muitas vezes são vistas como subordinadas aos homens, que se consideram detentores de maior poder.

Verifica-se igualmente que os licenciados formados no país são, por vezes, considerados inferiores aos que estudaram no estrangeiro, sendo classificados como menos competentes. Essa perceção limita o acesso a oportunidades de trabalho. Mesmo entre os que estudaram no país, existem distinções. Os diplomados de universidades privadas tendem a não receber a mesma confiança que os formados pela Universidade Nacional Timor Lorosa’e, frequentemente vista como uma instituição de ensino superior de maior qualidade.

As consequências são diversas. No caso do nepotismo, quando uma pessoa é colocada numa determinada posição sem mérito, dificilmente contribuirá de forma eficaz para o serviço público e para o desenvolvimento do país.”

“Se cada um fizer a sua parte, mesmo que pequena, podemos criar um ambiente mais inclusivo, seguro e assente no respeito mútuo”

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Armandina Silvina Lino, estudante da Ciência da Economia na UNTL/Foto: Arquivo pessoal

“Quando frequentava o ensino pré-secundário, havia colegas que se referiam a mim como ‘a menina dos olhos vesgos’. Diziam-no como se fosse algo normal, mas isso chocava-me profundamente. Ficava a pensar nisso durante muito tempo e, por vezes, chorava sozinha.

A discriminação no dia a dia continua a manifestar-se de várias formas, nomeadamente através de agressões verbais, como chamar nomes, gozar ou humilhar alguém. Inclui também a discriminação de pessoas com deficiência, a exclusão de alguém de um grupo por causa da cor da pele, da condição económica ou da origem, bem como a discriminação contra as mulheres, que muitas vezes são limitadas em determinadas atividades apenas por serem mulheres. Além disso, existe o cyberbullying praticado através das redes sociais.

Temos de nos unir contra este tipo de atitudes e evitar reproduzir os mesmos comportamentos. Devemos defender as vítimas, informando os professores, as famílias ou as autoridades, sempre que a situação for grave. Falar com as vítimas e oferecer apoio moral é fundamental para que não se sintam sozinhas.

É essencial respeitar as diferenças — de cor, religião, cultura e género — e cultivar amizade com todos. Devemos aprender sobre tolerância e sobre os direitos de cada pessoa, comunicar sem ofender e promover atividades conjuntas que reforcem a união e o respeito. Se cada um fizer a sua parte, mesmo que pequena, podemos criar um ambiente mais inclusivo, seguro e assente no respeito mútuo.”

“Outra situação que observo é a forma como, por vezes, membros das F-FDTL e da PNTL pressionam a população. Mesmo quando podem estar errados, utilizam o seu poder para intimidar pessoas mais vulneráveis”

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Yanri Nubatonis Fernandes, estuda gestão na UNTL/Foto: Diligente

“No dia a dia, observo situações de discriminação, sobretudo contra pessoas com deficiência. Em 2023, vivi um episódio que me marcou. Estava numa mota com um colega e, ao parar num semáforo, vimos uma pessoa com deficiência a atravessar a estrada. O meu colega começou a rir-se e comentou que o homem tinha uma mão deformada e apenas um olho. Reagi de imediato e disse-lhe que não podia falar daquela forma, porque somos todos seres humanos e ninguém está livre de enfrentar dificuldades na vida.

Outra situação que observo é a forma como, por vezes, membros das F-FDTL e da PNTL pressionam a população. Mesmo quando podem estar errados, utilizam o seu poder para intimidar pessoas mais vulneráveis. Para mim, isso também é uma forma de discriminação. Verifico ainda que, em algumas instituições, quando estudantes se deslocam para realizar pesquisas, são tratados com atitudes rudes e pouco respeitosas.

Tenho o sonho de contribuir para sensibilizar a sociedade, de modo a que deixe de praticar discriminação contra os outros.”

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