Duas escolas básicas visitadas pelo Diligente apresentam recintos relativamente limpos, mas também apresentam água estagnada, recipientes sem tampa, problemas nas instalações sanitárias e falta de funcionários de limpeza. As direções reforçaram as medidas de prevenção depois de terem sido informadas de casos de dengue entre alunos.
A dengue não se combate apenas com fumigação. Num momento em que Timor-Leste regista milhares de casos da doença, as condições de água, saneamento e higiene nas escolas tornam-se particularmente relevantes, sobretudo porque as crianças passam grande parte do dia nestes espaços.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a dengue é transmitida principalmente pela picada do mosquito Aedes aegypti, que se reproduz em recipientes onde existe água acumulada. A prevenção passa, por isso, não apenas pela pulverização de inseticidas, mas também pela eliminação de águas paradas e pela cobertura, esvaziamento e limpeza regular dos recipientes utilizados para armazenar água.
Nas escolas, o risco pode estar em situações aparentemente banais: um vaso com água acumulada, um balde sem tampa, uma fuga de água ou uma área do recinto onde a água permanece depois da chuva.
Dados do Ministério da Saúde citados pela Tatoli indicam que cerca de 4 mil casos de dengue e 32 mortes foram registados em Timor-Leste entre janeiro e julho. A maioria dos doentes tinha menos de 14 anos.
Em Díli, os postos administrativos de Dom Aleixo e Cristo Rei estão entre as zonas que merecem atenção no contexto da doença. O Diligente visitou duas escolas básicas, uma em cada um destes postos administrativos, para observar as condições do recinto escolar, a disponibilidade de água, o estado das instalações sanitárias, a gestão dos resíduos e as medidas adotadas para prevenir a proliferação de mosquitos.
A observação não pretende representar a realidade de todas as escolas de Díli. Mas, nas duas escolas visitadas, apesar de os recintos se apresentarem, de forma geral, limpos, foram identificadas situações que merecem atenção: água acumulada, recipientes sem tampa, limitações nas instalações sanitárias e falta de pessoal de limpeza.
Kuluhun: água nem sempre disponível e limpeza assegurada por professores e alunos
Na Escola Básica Filial n.º 1,2 de Kuluhun, no Posto Administrativo de Cristo Rei, o recinto escolar apresenta-se relativamente limpo. No entanto, o Diligente encontrou poças de água em diferentes zonas da escola. Alguns vasos continham água e os recipientes utilizados para armazenar água nas casas de banho e na zona de lavagem da louça não tinham tampa.
A coordenadora deste estabelecimento de ensino, Ângela Fernandes, explicou que a escola dispõe de tanques e baldes para armazenar água, que são limpos todos os sábados. “Temos tanques e baldes sem tampa e, por isso, todos os sábados fazemos a limpeza para evitar que os mosquitos possam pôr ovos nesses locais.”
O problema agrava-se quando falta água. Segundo Ângela, o edifício da escola é antigo e o abastecimento nem sempre é regular. Quando há água disponível, a limpeza é realizada, mas as interrupções no abastecimento dificultam a manutenção das condições de higiene. “Quando há água, limpamos tudo de imediato, mas, quando não há, não conseguimos fazer a limpeza e, por vezes, encontramos algumas larvas de mosquito.”
A escola dispõe de sete casas de banho para os alunos e três para os professores. Ainda assim, a disponibilidade de água nem sempre corresponde às necessidades e o sabão também não está disponível de forma regular.
A coordenadora explica que a escola já tentou disponibilizar sabão aos alunos, mas a sua utilização revelou-se difícil de controlar. “Disponibilizamos sabão para as crianças, mas acabam por estragá-lo. Como são crianças pequenas, é um pouco difícil controlá-las. Além disso, vêm de ambientes diferentes, o que torna a situação ainda mais difícil.”
As condições das casas de banho também são motivo de preocupação entre os alunos. Tifania de Araújo, aluna do sexto ano, diz já ter encontrado larvas de mosquito nas proximidades das instalações sanitárias. “Já encontrei larvas de mosquito junto às casas de banho. Mas todos os sábados fazemos a limpeza.”

Uma escola sem funcionários de limpeza
Em Kuluhun, a limpeza não é assegurada por funcionários especificamente contratados para essa tarefa. Professores e alunos participam diariamente na limpeza do recinto e fazem uma limpeza geral aos sábados.
Com 787 alunos e 24 professores, a tarefa torna-se difícil de garantir de forma contínua, admite a coordenadora. “Por vezes, há áreas onde não conseguimos chegar para fazer a limpeza, porque há muitos alunos e somos poucos professores. Como são crianças, também é difícil controlar tudo de imediato.”
A recolha dos resíduos é feita habitualmente aos sábados. Segundo Ângela, o lixo é levado para um local de deposição quando os recipientes estão cheios. “Recolhemos o lixo aos sábados e levamo-lo para o local de deposição quando vemos que já está cheio.”
Durante a visita do Diligente, foram observados recipientes e garrafas usadas em alguns pontos do recinto. Na mesma área, havia também vasos com água.
Para Ângela, a responsabilidade pela higiene não deve recair apenas sobre os funcionários da escola, até porque, neste caso, eles não existem.
“Não temos funcionários de limpeza. Por isso, limpamos juntamente com os alunos, porque a higiene é responsabilidade de todos. Se não cuidarmos dela, não devem ser apenas as crianças a fazê-lo, mas todos nós.”
Wilbert Calado da Costa, aluno do quinto ano, diz que participa na limpeza diária e na limpeza geral aos sábados. “Aqui fazemos a limpeza todos os dias e também em casa.”
O aluno afirma que os hábitos aprendidos na escola são também aplicados em casa, com a orientação dos pais. “Em casa também aplico os conhecimentos que aprendo na escola e os meus pais também me ensinam sobre isso.”
Fatumeta tem água corrente, mas não escapa aos problemas
Na Escola Básica Filial n.º 1,2 de Fatumeta, no Posto Administrativo de Dom Aleixo, o cenário é semelhante em alguns aspetos, mas diferente num ponto fundamental: o abastecimento de água é regular.
A escola tem mais de 900 alunos e dez salas de aula. Existem cinco casas de banho destinadas a alunos e professores, mas apenas quatro estão atualmente em funcionamento.
Apesar da disponibilidade regular de água, as condições das instalações sanitárias continuam a levantar problemas. Durante a visita, o Diligente encontrou uma pequena fuga de água suja proveniente da zona das casas de banho.
A professora Rosa Cardoso disse que a situação já foi comunicada ao coordenador da escola. “Há um pequeno local por onde escorre água suja proveniente da casa de banho. Informámos o coordenador para que a situação pudesse ser reparada.”
Também foram encontrados recipientes sem tampa utilizados para armazenar água. Segundo Rosa, a escola limpa regularmente as casas de banho e os baldes. “Todos os sábados limpamos as casas de banho e os baldes que não têm tampa.”
A existência de água corrente facilita a limpeza, mas não elimina outros fatores de risco associados ao armazenamento de água e às condições das instalações sanitárias.
Casos entre alunos levam escolas a reforçar prevenção
Nas duas escolas, as medidas de prevenção foram reforçadas depois de as direções terem recebido informação sobre alunos que contraíram dengue.
Em Kuluhun, Ângela Fernandez diz que os pais informaram a escola de que quatro alunos tinham contraído a doença durante a época das chuvas. “Durante a época das chuvas, quatro alunos contraíram dengue, segundo a informação transmitida pelos pais. Depois de recebermos essa informação, tomámos imediatamente medidas e aconselhámos as crianças a utilizar repelente ou outros produtos contra os mosquitos.”
A escola passou também a utilizar Baigon antes da entrada dos alunos nas salas de aula. A coordenadora, contudo, considera que o efeito é limitado. “Temos Baigon, que aplicamos nas salas de aula antes da entrada dos alunos, mas, por vezes, o efeito dura apenas cerca de 30 minutos. Depois disso, os mosquitos voltam.”
O centro de saúde já esteve na escola para realizar uma ação de sensibilização sobre a dengue. A escola recebe igualmente visitas de inspetores da educação e de superintendentes. “Durante este período, o centro de saúde veio realizar uma ação de sensibilização sobre a dengue. Os inspetores da educação também costumam realizar inspeções nas escolas e os superintendentes vêm igualmente acompanhar a situação.”
Em Fatumeta, a escola também recebeu informação, através do centro de saúde, sobre alunos que contraíram dengue. A resposta passou pela articulação com o Centro de Saúde de Comoro para realizar uma fumigação. “Depois de recebermos essa informação, a escola trabalhou imediatamente em conjunto com o Centro de Saúde de Comoro para realizar a fumigação.”
A escola utiliza ainda Baigon para reduzir a presença de mosquitos nas salas de aula. Mas a quantidade disponível é insuficiente para abranger todo o espaço escolar. “Temos Baigon preparado, mas há salas onde não conseguimos utilizá-lo porque a quantidade é limitada. Por isso, não conseguimos chegar a todas.”
As duas escolas adotaram, assim, medidas de prevenção semelhantes, mas enfrentam dificuldades diferentes. Em Kuluhun, as principais limitações estão relacionadas com o abastecimento irregular de água e a ausência de funcionários de limpeza. Em Fatumeta, apesar da disponibilidade de água, persistem problemas nas instalações sanitárias e limitações na quantidade de inseticida disponível.
O que sabem as crianças sobre a dengue?
A informação sobre a dengue chega aos alunos por diferentes vias: pela escola, pela família, pelos profissionais de saúde e pela própria experiência.
Wilbert Calado da Costa, aluno do quinto ano de Kuluhun, sabe que a doença está relacionada com mosquitos e com a existência de água acumulada. “Sei que a dengue é causada por mosquitos que põem ovos em água estagnada ou onde existe lixo.”
O conhecimento, diz, é também aplicado em casa. “Em casa, também aplico os conhecimentos que aprendo na escola e os meus pais também me ensinam.”
Tifania de Araújo afirma que já recebeu explicações de um médico sobre a dengue, mas admite que já não se recorda de toda a informação e não sabe identificar todos os sintomas. “Não sei quais são os sintomas da dengue.”
Em Fatumeta, Felizia Izidro, de dez anos, aluna do quinto ano, diz que ainda não aprendeu especificamente sobre a dengue na escola. Conheceu a doença através da irmã. “Ainda não aprendi sobre isso na escola. Conheço a dengue através da minha irmã.” Entre os sintomas, reconhece a febre. “Sei que um dos sintomas da dengue é ter febre.”
Felizia diz que os alunos são incentivados a lavar as mãos antes de comer e depois de utilizar a casa de banho, embora nem todos cumpram a recomendação. “Antes de comer e depois de utilizar a casa de banho, lavo as mãos, mas vejo que alguns não o fazem.”
E há um problema que os alunos identificam sem dificuldade: os mosquitos continuam presentes durante as aulas. “Durante as aulas, os mosquitos incomodam bastante.”
Os testemunhos mostram que a informação sobre a dengue já chegou a algumas crianças, mas de forma desigual. Para uns, a escola é uma fonte de conhecimento e de hábitos de higiene; para outros, a família continua a ser a principal referência.
Governo admite limitações, mas diz que fumigação já chegou às escolas
As situações encontradas nas duas escolas levantam uma questão que ultrapassa a capacidade das direções escolares: até que ponto estão os serviços públicos preparados para garantir condições adequadas de prevenção?
A ministra da Saúde, Élia Amaral, afirmou que o Governo já iniciou ações de fumigação em escolas localizadas em zonas consideradas de risco, sobretudo onde existe um número elevado de casos de dengue. “Nas escolas, já começámos a realizar fumigações nas que se encontram em zonas de risco, incluindo aldeias e sucos onde o número de casos é elevado.”
A governante reconhece, contudo, que a falta de recursos e equipamentos limita a capacidade de alargar estas ações. “Vamos dar maior atenção a esta questão porque, apesar de termos limitações de recursos, incluindo equipamentos, estamos a gerir os meios disponíveis para que a fumigação possa chegar a todos, sobretudo às áreas de risco.”
Segundo a ministra, as ações já começaram em algumas zonas, incluindo Comoro e Manleuana, e deverão abranger outras áreas posteriormente.
A mudança da estação seca para a estação chuvosa está também a ser acompanhada pelas autoridades, devido ao impacto que pode ter na reprodução dos mosquitos. “Neste período, estamos a observar a mudança do tempo, do calor para a chuva, e isso tem impacto no crescimento e na reprodução dos mosquitos.”
Mas o próprio Governo reconhece que a fumigação, por si só, não resolve o problema.
Élia Amaral apelou à participação contínua das comunidades na limpeza das zonas onde vivem, com o objetivo de reduzir os locais favoráveis à reprodução dos mosquitos e prevenir a propagação da doença.
Educação fiscaliza, mas não resolve sozinha os problemas de água e saneamento
O Ministério da Educação afirma, por seu lado, que dispõe de inspetores escolares responsáveis por visitar e acompanhar as condições das escolas.
Segundo a ministra, essas inspeções não se limitam à higiene, abrangendo também questões pedagógicas, financeiras, administrativas e de gestão escolar.
“O Ministério da Educação tem inspetores que visitam as escolas para realizar inspeções e analisar estas questões. Não verificam apenas a higiene, mas também os aspetos pedagógicos, financeiros, administrativos e de gestão escolar.”
As informações recolhidas pelos inspetores são posteriormente encaminhadas para os superintendentes e, depois, para a inspeção-geral do Ministério da Educação.
“Normalmente, recebemos as informações dos inspetores, que depois são encaminhadas para os superintendentes. Estes, por sua vez, encaminham-nas para a inspeção-geral do Ministério da Educação.”
Questionada sobre os problemas de água e saneamento, a ministra reconheceu que a questão ultrapassa o universo escolar e afeta também outras comunidades de Díli. “Quanto à água e ao saneamento, penso que, em Díli, muitas pessoas continuam a enfrentar situações semelhantes, e não são apenas as escolas.”
A resposta coloca as dificuldades encontradas nas escolas dentro de um problema mais amplo de acesso à água e saneamento na capital. Mas, para centenas de crianças, a questão é concreta e diária: ter água suficiente para lavar as mãos, casas de banho em condições, espaços sem água acumulada e um ambiente escolar onde a prevenção da dengue não dependa apenas de uma lata de inseticida.
Nas duas escolas visitadas pelo Diligente, a prevenção existe. Há limpeza, sensibilização, fumigação e preocupação por parte das direções. Mas também existem limitações.
E, perante uma doença que afeta sobretudo crianças, pequenas falhas no ambiente escolar podem deixar de ser apenas problemas de manutenção e tornar-se questões de saúde pública.























