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As raparigas não podem ser protegidas só no papel

Uma família sem rendimentos pode retirar uma filha da escola; fora da escola, essa rapariga fica mais exposta a um casamento precoce e à dependência económica; sem autonomia nem apoio, terá mais dificuldade em escapar a situações de violência/Foto: Inteligência Artificial (AI)

Uma nação independente não se mede apenas pela sua soberania, pelas suas instituições ou pelas leis que aprova. Mede-se também pelas condições que oferece às novas gerações. Em Timor-Leste, isso significa perguntar se as raparigas conseguem crescer em segurança, frequentar a escola, decidir o seu futuro e viver sem violência.

A resposta não pode ser encontrada apenas na Constituição, nas convenções internacionais ou nos planos governamentais. Timor-Leste reconhece juridicamente os direitos das crianças, a igualdade entre mulheres e homens e o direito à educação. Possui legislação contra a violência doméstica e assumiu compromissos internacionais de proteção das crianças e das mulheres. No entanto, para muitas raparigas, esses direitos continuam mais presentes nos documentos oficiais do que na vida quotidiana.

É esta a contradição que o Estado precisa de enfrentar. As políticas públicas não devem ser avaliadas apenas pelas intenções que anunciam, mas pelos resultados que produzem. Uma lei que garante o direito à educação tem pouco significado para uma rapariga que abandona a escola por causa da pobreza. A proibição do casamento infantil não é suficiente se as famílias continuarem a vê-lo como uma saída para as dificuldades económicas. Uma política contra a violência fracassa quando a vítima não consegue denunciar, receber proteção ou obter justiça.

Os problemas que afetam as raparigas timorenses não surgem isoladamente. A pobreza, a desigualdade educativa, o casamento precoce e a violência reforçam-se mutuamente. Uma família sem rendimentos pode retirar uma filha da escola; fora da escola, essa rapariga fica mais exposta a um casamento precoce e à dependência económica; sem autonomia nem apoio, terá mais dificuldade em escapar a situações de violência. Romper este ciclo exige muito mais do que respostas pontuais.

A pobreza também decide quem pode escolher

A pobreza não significa apenas falta de dinheiro. Significa ter menos possibilidades de decidir. Quando uma família não consegue garantir alimentação, transporte, material escolar ou cuidados de saúde, as escolhas das crianças tornam-se cada vez mais limitadas. E, numa sociedade marcada por desigualdades entre mulheres e homens, são frequentemente as raparigas que pagam o preço mais alto.

Em contextos de grande fragilidade económica, o casamento precoce pode ser encarado por algumas famílias como uma forma de reduzir despesas, assegurar proteção ou cumprir expectativas culturais. Mas aquilo que parece resolver um problema imediato pode destruir as possibilidades futuras de uma criança. O casamento precoce interrompe percursos escolares, aumenta a dependência económica, limita a autonomia e pode expor as raparigas à gravidez precoce e à violência.

Timor-Leste possui normas destinadas a impedir o casamento infantil e a proteger os direitos das crianças. Contudo, a proibição legal só será eficaz se for acompanhada por políticas que reduzam as pressões económicas e sociais que continuam a empurrar famílias para essa decisão. Não basta dizer aos pais que não podem casar as filhas antes da idade legal. É necessário garantir que essas filhas podem permanecer na escola, que as famílias têm apoio em situações de pobreza e que existem alternativas reais.

Quando o Estado não oferece essas condições, exige que as famílias cumpram a lei sem enfrentar as causas que favorecem o seu incumprimento. A responsabilidade individual existe, mas não pode servir para ocultar a responsabilidade pública.

A escola pode libertar, mas também pode reproduzir desigualdades

A educação é uma das formas mais eficazes de ampliar as escolhas de uma criança. Permite adquirir conhecimentos, desenvolver capacidades, participar na vida pública e alcançar maior autonomia económica. Para uma rapariga, permanecer na escola pode significar a possibilidade de decidir quando casar, que profissão seguir e que vida construir.

A Constituição timorense reconhece o direito à educação e atribui ao Estado a responsabilidade de criar um sistema de ensino universal e obrigatório. Porém, reconhecer esse direito não elimina automaticamente as barreiras que impedem muitas crianças de o exercer.

As dificuldades económicas pesam diretamente no percurso escolar. Mesmo quando o ensino é formalmente gratuito, estudar implica custos: transporte, uniformes, materiais, alimentação e tempo que poderia ser usado no trabalho doméstico ou no apoio à economia familiar. Se os recursos forem escassos e a educação dos rapazes for considerada prioritária, são as raparigas que correm maior risco de ficar para trás.

O problema, portanto, não está apenas no acesso inicial à escola. Está também nas condições para permanecer, aprender e concluir os diferentes níveis de ensino. Uma rapariga pode estar oficialmente matriculada e, ainda assim, faltar frequentemente porque cuida dos irmãos, realiza tarefas domésticas ou percorre longas distâncias. Pode abandonar os estudos por falta de instalações sanitárias adequadas, por gravidez, por assédio ou porque a família não reconhece valor na sua educação.

É necessário olhar criticamente para a própria escola. O sistema educativo não combate a desigualdade se continuar a reproduzir a ideia de que os rapazes nasceram para liderar e as raparigas para obedecer ou cuidar da casa. Os programas, os materiais, a formação dos professores e as práticas dentro da sala de aula devem promover a igualdade e questionar estereótipos, em vez de os reforçar.

Uma política educativa destinada às raparigas não pode limitar-se a campanhas ocasionais. Precisa de bolsas, alimentação escolar, transportes seguros, instalações adequadas, mecanismos contra o assédio e a violência, apoio às alunas grávidas ou mães e trabalho continuado com as famílias e as comunidades. O objetivo não deve ser apenas colocar mais raparigas na escola, mas garantir que elas conseguem permanecer, aprender e concluir a sua educação.

A violência não é um conjunto de casos isolados

A forma mais grave desta desigualdade é a violência. Quando uma rapariga é vítima de abuso sexual, exploração ou violência dentro de casa, é frequente que o caso seja tratado como uma tragédia individual. Contudo, quando os casos se repetem e permanecem ocultos, já não estamos apenas perante comportamentos individuais. Estamos perante um problema estrutural.

A violência torna-se estrutural quando as relações sociais colocam algumas pessoas numa posição de maior poder e outras numa situação de dependência e silêncio. A pobreza pode aumentar essa vulnerabilidade. As normas patriarcais podem legitimar o controlo masculino. O medo da vergonha pode impedir a denúncia. A dependência económica pode obrigar a vítima a permanecer junto do agressor. E as instituições podem agravar o problema quando não escutam, não investigam ou não protegem.

Os números oficiais dificilmente revelam toda a dimensão da violência contra crianças. Muitos casos nunca chegam à polícia, aos tribunais ou aos serviços de saúde. Alguns são resolvidos dentro da família ou da comunidade; outros são ocultados para proteger a reputação do agressor ou evitar conflitos. Em certos casos, a própria vítima é responsabilizada. O silêncio estatístico não significa ausência de violência. Muitas vezes, significa ausência de confiança e de acesso às instituições.

Timor-Leste dispõe de legislação contra a violência doméstica e de planos para combater a violência baseada no género. Esses instrumentos são importantes, mas precisam de funcionar fora do papel. Uma criança em risco deve saber a quem pedir ajuda. A denúncia deve ser recebida por profissionais preparados. A vítima deve ter proteção, acompanhamento psicológico, cuidados de saúde e apoio jurídico. A investigação deve evitar uma nova traumatização e a resposta não pode depender do lugar onde a criança vive.

Combater a violência exige também prevenção. É necessário trabalhar com rapazes e homens, questionar modelos de masculinidade baseados no controlo e na força e ensinar, desde cedo, o respeito pelo corpo, pelos limites e pelo consentimento. Proteger as raparigas sem transformar os comportamentos e as relações que geram violência seria apenas atuar depois de o dano estar feito.

A responsabilidade não pode ser diluída

A proteção das crianças envolve famílias, comunidades, autoridades locais, escolas, organizações sociais e instituições religiosas. Mas essa responsabilidade partilhada não pode servir para diminuir o dever do Estado. É o Estado que possui a obrigação de criar políticas, garantir financiamento, coordenar os serviços, aplicar as leis e avaliar os resultados.

Também não basta celebrar datas internacionais ou repetir que as crianças são o futuro da nação. Se não houver orçamento, profissionais, serviços acessíveis e acompanhamento, o discurso público transforma-se numa forma de esconder a inação. As prioridades de um país tornam-se visíveis na distribuição dos recursos, não apenas nas declarações dos governantes.

O Estado deve começar por tratar a pobreza infantil como uma questão de direitos humanos. As famílias mais vulneráveis precisam de proteção social capaz de evitar que uma dificuldade económica determine o abandono escolar ou o casamento de uma filha. A educação deve receber investimento suficiente para eliminar as barreiras específicas enfrentadas pelas raparigas. Os serviços de proteção precisam de chegar aos municípios, aos sucos e às aldeias, e não ficar concentrados na capital.

É igualmente indispensável recolher dados rigorosos. Timor-Leste precisa de saber quantas raparigas abandonam a escola e porquê, quantos casamentos precoces ocorrem, onde existe maior risco de violência, quantos casos são denunciados e que resposta recebem. Sem estes dados, torna-se difícil avaliar políticas e responsabilizar instituições. Mas a recolha de informação deve proteger a identidade e a segurança das crianças e nunca expô-las a novos riscos.

As próprias raparigas devem ser ouvidas. Não são apenas beneficiárias passivas das políticas públicas; conhecem os obstáculos que enfrentam e podem contribuir para soluções mais adequadas. A participação, contudo, deve ser segura, apropriada à idade e acompanhada por adultos e instituições capazes de garantir que a sua voz não é usada apenas para legitimar decisões já tomadas.

Timor-Leste já deu passos importantes ao reconhecer legalmente os direitos das crianças e ao assumir compromissos de igualdade. Esses avanços não devem ser desvalorizados. Mas o país precisa de passar da proteção formal para a proteção efetiva.

Uma rapariga não está verdadeiramente protegida porque a lei afirma que tem direitos. Está protegida quando pode frequentar a escola sem medo, quando a pobreza da família não decide o seu futuro, quando ninguém a pode obrigar a casar, quando consegue denunciar uma agressão e quando encontra instituições preparadas para agir.

Enquanto estas condições não existirem para todas, haverá uma distância entre a política e a realidade. E essa distância será suportada precisamente pelas crianças que o sistema afirma querer proteger.

 

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