Durante anos, esconder a identidade ou a orientação sexual foi, para muitas pessoas LGBTQIA+ em Timor-Leste, uma forma de sobreviver ao preconceito. Entre insultos, agressões, isolamento e medo, os testemunhos de Pildo e de Mário revelam as marcas profundas do bullying e mostram que, apesar de alguns avanços, a discriminação continua a fazer parte do quotidiano.
“Ficava sempre sozinha e chorava em silêncio.” A frase de Domingos Pires, conhecido por Pildo, resume anos de sofrimento provocados pelo bullying e pela discriminação. Durante grande parte da infância e da juventude, viveu com medo de ser quem realmente era, escondendo a sua identidade para evitar insultos, agressões e rejeição.
A história de Pildo não é um caso isolado. Também Mário (nome fictício), um homem transgénero, passou anos em silêncio, receando a reação da família e da sociedade. Ambos cresceram num contexto em que assumir a identidade de género significava, muitas vezes, enfrentar o preconceito, o isolamento e a violência.
Embora o mês do orgulho LGBTQIA+, assinalado em junho, já tenha terminado, a discriminação e o bullying continuam a marcar a vida de muitas pessoas desta comunidade em Timor-Leste. A data procura promover a igualdade de direitos, combater o preconceito e dar visibilidade às experiências de pessoas LGBTQIA+ em todo o mundo, lembrando que o respeito pela dignidade humana deve ser permanente e não apenas assinalado durante um mês.
As histórias de Pildo e de Mário mostram que, apesar de alguns progressos na sensibilização para os direitos humanos, muitas pessoas LGBTQIA+ continuam a enfrentar insultos, humilhações, exclusão, rejeição e agressões físicas e psicológicas.
Domingos Pires, conhecido por Pildo, uma mulher transgénero, recorda que começou a sentir-se diferente dos colegas e dos irmãos quando frequentava o 6.º ano de escolaridade. “Costumava estar nos grupos das raparigas, brincava ao salto à corda e a outras brincadeiras consideradas femininas. Não gostava de jogar futebol”, contou, acrescentando que, mais tarde, começou a sentir atração por alguns colegas.
Ao entrar no ensino secundário, a discriminação tornou-se mais evidente. Porque usava o cabelo comprido, alguns colegas decidiram cortá-lo dentro da sala de aula, contra a sua vontade. “Obrigaram-me a cortar o cabelo para me tornar um rapaz bonito. Diziam que não era bom deixar o cabelo comprido como uma mulher. Não tive força para me defender e deixei que o cortassem.” Pildo descreve esse período como o mais difícil da sua vida.
A discriminação constante provocou-lhe sentimentos de vergonha, medo, tristeza, isolamento e ansiedade. O receio de voltar a enfrentar os colegas era tão intenso que só pensar em regressar à escola lhe causava sofrimento. “Fiquei traumatizada ao ponto de ter medo de falar com as pessoas. Sempre que pensava em voltar às aulas, sentia que voltaria a ser alvo de ofensas por parte dos colegas.”
Também Mário (nome fictício), um homem transgénero, viveu durante anos a esconder a sua identidade de género. O silêncio tornou-se uma forma de proteção, mas acabou por ter consequências profundas na sua saúde mental. “Para aliviar o stress, durante algum tempo consumia álcool quase todos os dias. Quando parecia que estava melhor, o stress voltava e acabei por adoecer.”
À medida que mais pessoas começaram a suspeitar da sua identidade, o medo intensificou-se. Mário evitava sair de casa e sentia-se constantemente observado. “Limitei-me a ficar em casa. Não tinha coragem de andar na rua. Bastava uma pessoa olhar para mim para me sentir inseguro. Sempre que alguém me perguntava, negava quem realmente era. Mas não conseguia esconder os meus sentimentos, porque tinha medo da reação da minha família. Por isso, optei pelo silêncio. Mas, por detrás desse silêncio, havia trauma, tristeza, solidão e medo.”
O bullying começou na escola
As primeiras experiências de discriminação surgiram ainda durante o percurso escolar e deixaram marcas que perduram até hoje.
Pildo recorda que era alvo de insultos frequentes e de comentários depreciativos relacionados com a sua identidade de género. “Diziam sempre que era amaldiçoada pela casa sagrada. Perguntavam o que é que eu iria fazer aos meus pais. Diziam que eu não devia viver e chamavam-me paneleiro (homem que se comporta como mulher) ou mami.”
A violência não se limitava às palavras. Uma vez, um colega feriu-lhe uma mão com uma caneta. Sem saber a quem recorrer, guardava o sofrimento para si. “Um colega chegou a ferir-me a mão com uma caneta. Guardava todo esse sofrimento para mim, porque não sabia a quem recorrer. Ficava sempre sozinha e chorava em silêncio.”
Mário recorda que os primeiros episódios de discriminação começaram ainda no ensino básico, quando decidiu revelar a uma colega os sentimentos que nutria por ela. Até então, guardava tudo para si.
“Gostava de estar perto dela, demonstrava interesse e cuidava dela. Ninguém sabia, porque guardava tudo para mim. No entanto, chegou o momento em que lhe revelei o que sentia. Ela reagiu com raiva e perguntou: ‘Somos duas mulheres. Como é que podes gostar de mim? Estás louca?’. Depois contou às outras pessoas e, mais tarde, até os meus familiares souberam. Disseram apenas que eu ainda era criança e que aquilo não era importante.”
Depois desse episódio, os comentários e os insultos tornaram-se frequentes. “Perguntavam como era possível uma mulher gostar de outra mulher. Depois disso, comecei a questionar-me se seria a única pessoa a sentir algo diferente. Algumas pessoas diziam-me para arranjar um namorado.”
Durante muito tempo, Mário acreditou que estava sozinho. Só mais tarde, ao conhecer outros homens transgénero, percebeu que havia pessoas com experiências semelhantes às suas. Esse contacto ajudou-o a aceitar-se, embora a discriminação continuasse a fazer parte do quotidiano.
“Quando andávamos na rua, as pessoas insultavam-nos, chamavam-nos bermanek e diziam que andávamos sem rumo. Criticavam-nos por uma mulher gostar de outra mulher. Às vezes, revoltávamo-nos contra a sociedade, sobretudo contra alguns homens, porque eram eles que mais nos ofendiam.”
Apesar das dificuldades, Pildo encontrou coragem para contar à família quem realmente era. A reação acabou por ser diferente daquela que tinha imaginado. “A minha família respondeu que já tinha percebido, através das atividades consideradas femininas que eu fazia, que era diferente dos meus irmãos. Disseram que, para eles, isso não era um problema.”
A experiência de Mário foi bastante diferente. Durante vários anos conseguiu esconder a sua identidade de género da família. No entanto, um conflito relacionado com uma mulher acabou por levá-lo a uma esquadra da polícia, onde os familiares descobriram aquilo que procurava manter em segredo.
“Entrámos em conflito por causa de uma mulher. Fomos resolver a situação na polícia e foi aí que os meus familiares descobriram a minha identidade. Mesmo assim, neguei tudo à frente deles, na esquadra. Sentiram-se envergonhados e revoltaram-se, ao ponto de quererem expulsar-me de casa.” Ainda hoje, Mário diz não ter conseguido revelar pessoalmente à família quem realmente é.
“Também discriminei”: quando o preconceito nasce do desconhecimento
Nem todas as histórias desta reportagem são contadas por quem sofreu discriminação. Manuel Camilo Pires, voluntário da Cruz Vermelha de Timor-Leste (CVTL), admite que, durante vários anos, também reproduziu comportamentos discriminatórios contra pessoas LGBTQIA+, influenciado pelo contexto em que cresceu.
Utilizava palavras ofensivas e defendia que pessoas transgénero não deveriam participar em determinadas atividades.
A mudança começou quando participou em ações promovidas por organizações de direitos humanos e em formações na área do apoio psicossocial. Foi então que percebeu que a discriminação pode ter consequências profundas na vida das vítimas e que todas as pessoas devem ser tratadas com dignidade e respeito.
Manuel Pires considera que todas as pessoas devem beneficiar das mesmas oportunidades de participação na sociedade. “Devem participar em todas as atividades, porque vivemos num país democrático e cada indivíduo tem o direito de participar.”
Ao refletir sobre as suas atitudes do passado, reconhece que desconhecia o impacto do bullying na saúde mental. “Antes não sabia utilizar os termos corretos para me dirigir às pessoas. Depois de participar na formação em apoio psicossocial, percebi que a difamação e os insultos podem prejudicar gravemente a saúde mental de uma pessoa.”
As consequências da discriminação contra pessoas LGBTQIA+ em Timor-Leste já tiveram desfechos trágicos. Em junho de 2024, o jovem homossexual Grivaldo de Jesus Loudoe, de 19 anos, suicidou-se. O caso gerou um amplo debate sobre a saúde mental, a discriminação e a necessidade de reforçar a proteção dos direitos das pessoas LGBTQIA+ no país. Meses antes, numa entrevista ao Diligente, o jovem tinha contado que enfrentava dificuldades em ser aceite pela família e pela sociedade e revelou que já tinha tentado suicidar-se por duas vezes.
Embora não exista qualquer prova de que o suicídio tenha resultado diretamente dos episódios de discriminação, o caso evidenciou o impacto que a rejeição familiar, o isolamento e o preconceito podem ter na saúde mental de pessoas LGBTQIA+, reforçando os alertas feitos por especialistas e organizações de direitos humanos.
Reconstruir a vida depois do bullying
Apesar das marcas deixadas pela discriminação, tanto Pildo como Mário encontraram formas de reconstruir a confiança e recuperar o equilíbrio emocional. Para Pildo, o contacto com organizações que promovem os direitos da comunidade LGBTQIA+ foi determinante para ultrapassar o trauma e transformar a dor em força.
“Comecei, então, a expressar aquilo que enfrentei para curar a minha mente. Depois disso, percebi que não tinha tomado nenhuma decisão que pudesse prejudicar a minha vida. Por fim, consegui encontrar uma solução melhor. Agora já não tenho medo de confrontar quem nos ofende.”
Partilhar a sua história permitiu-lhe perceber que não estava sozinha e que o problema nunca foi a sua identidade, mas sim o preconceito de que foi alvo.
Mário viveu um processo semelhante. Depois de conhecer outras pessoas da comunidade LGBTQIA+ e organizações que defendem os seus direitos, começou a sentir-se mais preparado para lidar com os insultos e com a discriminação. “Ainda recebemos insultos, mas a maioria acontece nas redes sociais, onde as pessoas utilizam páginas falsas. No entanto, já não me incomoda.”
Embora reconheça que o preconceito continua presente na sociedade timorense, afirma que hoje consegue enfrentar essas situações com maior confiança.
A importância da família e da comunidade
Para a psicóloga Manuela Tavares Soares, o apoio da família, dos amigos, da escola e da comunidade desempenha um papel decisivo na proteção da saúde mental das pessoas LGBTQIA+.
Segundo a especialista, a aceitação por parte destas redes de apoio pode reduzir significativamente os efeitos da discriminação e contribuir para o desenvolvimento da autoestima e da resiliência.
Explicou que o apoio familiar constitui um dos principais fatores de proteção da saúde mental dos jovens LGBTQIA+, enquanto a rejeição aumenta o risco de ansiedade, baixa autoestima e comportamentos de automutilação. “A aceitação por parte da família fortalece a resiliência e reduz os impactos do preconceito.”
Na opinião da psicóloga, quando uma pessoa encontra apoio dentro da própria família e da comunidade, torna-se mais capaz de enfrentar a discriminação existente noutros contextos sociais.
Para reduzir a discriminação e promover a saúde mental das pessoas LGBTQIA+, Manuela Tavares Soares defende que esta deve ser encarada como uma prioridade de saúde pública e de direitos humanos, exigindo uma resposta concertada entre o Estado, as escolas, os serviços de saúde, as organizações da sociedade civil e a comunidade.
Entre as principais medidas apontadas pela especialista estão a promoção da educação para a diversidade, a sensibilização sobre orientação sexual e identidade de género, a prevenção do bullying nas escolas, a criação de serviços de apoio psicológico acessíveis e o reforço de campanhas de informação dirigidas à população.
Defende ainda a criação de espaços seguros de escuta e acolhimento em escolas, hospitais, empresas e instituições públicas, bem como a valorização de histórias de superação que possam contribuir para combater o estigma e promover uma sociedade mais inclusiva.
“Devemos trabalhar juntos para diminuir a violência e a discriminação contra as pessoas LGBTQIA+ em todos os espaços onde vivem e convivem”, concluiu Manuela Tavares Soares.
As histórias de Pildo e de Mário (nome fictício) mostram que o bullying não termina quando acabam os insultos. As suas consequências podem prolongar-se durante anos, afetando a autoestima, a saúde mental e a forma como cada pessoa ocupa o seu lugar na sociedade. Dois anos depois da morte de Grivaldo Loudoe, organizações e especialistas continuam a defender que combater a discriminação não é apenas uma questão de direitos humanos, mas também de proteção da vida.
Apesar de a Constituição timorense garantir o princípio da igualdade, Timor-Leste continua sem legislação específica que proteja as pessoas LGBTQIA+ contra a discriminação com base na orientação sexual ou identidade de género. Organizações da sociedade civil defendem o reforço das políticas públicas nesta área, nomeadamente através da prevenção do bullying nas escolas, da promoção da saúde mental e da sensibilização da população para os direitos humanos.























