Na pele de Fernando Soares: a força de quem transforma a luta diária em dignidade

Fernando Soares, o “Ata”, constrói a sua vida com simplicidade, vendendo doces e cultivando amizades todos os dias numa rua de Díli / Foto: Diligente

Sem emprego formal e com poucas oportunidades, Fernando Soares, conhecido como “Ata”, encontrou na venda de pastéis à beira da estrada uma forma de sustentar a casa, conquistar autonomia e construir uma rede de afetos. Aos 40 anos, enfrenta as dificuldades da vida com determinação, mostrando que a dignidade também se encontra nos gestos mais simples do quotidiano.

Na azáfama matinal de Díli, entre veículos que circulam apressadamente e passageiros a caminho do trabalho, uma pequena banca junto à estrada destaca-se pela história de perseverança que encerra. Todos os dias, por volta das seis da manhã, Fernando Soares, mais conhecido por “Ata”, instala-se em frente à loja Hadomi, em Bidau, para vender pastéis preparados pela família.

Sentado numa cadeira vermelha, protegido por uma sombra improvisada, organiza cuidadosamente os recipientes de plástico com os doces que comercializa. A rotina prolonga-se até ao final da manhã ou, por vezes, até ao início da noite, dependendo do movimento e das vendas.

Sempre atento aos clientes, levanta-se rapidamente para os atender com simpatia e dedicação. “É assim o trabalho de todos os dias. Depende do movimento, mas consigo vender e sustentar a casa”, explica.

Os doces são preparados por uma das suas irmãs, enquanto Fernando assume a responsabilidade de os vender ao longo do dia. Esta atividade tornou-se a sua principal fonte de rendimento depois de não conseguir encontrar um emprego estável.

“A minha irmã é que frita os doces que vendo. Como eu ficava em casa sem fazer nada, ela disse-me para a ajudar nesta tarefa, porque sem dinheiro não dá para viver”, conta.

Natural do suco de Waimori, no município de Viqueque, Fernando tem atualmente 40 anos e vive em Bidau, em condições modestas, rodeado de familiares e amigos que considera parte da sua família. “Eles não são apenas colegas, são como a minha família. Considero-os como pai, mãe e irmãos”, afirma.

A sua história familiar é marcada por perdas e separações. Dos sete irmãos, apenas três continuam vivos. Os pais já faleceram e parte da família reside longe da capital. Ainda assim, mantém contacto com alguns familiares que o visitam ocasionalmente.

Entre clientes, amigos e reconhecimento

Apesar do nanismo, Fernando garante que nunca se sentiu excluído pela comunidade onde vive e trabalha. Pelo contrário, afirma sentir-se respeitado e acarinhado pelas pessoas que diariamente passam pelo seu ponto de venda. “As pessoas chamam-me pelo nome, cumprimentam, compram ou apenas passam. Isso já me faz companhia”, relata.

Entre cumprimentos, conversas rápidas e pequenos gestos de proximidade, Fernando encontrou naquele espaço muito mais do que uma forma de sustento. Encontrou um lugar de pertença.

Em Timor-Leste, muitas pessoas com deficiência continuam a depender do apoio familiar ou de atividades informais para garantir o sustento diário, devido às limitadas oportunidades de emprego inclusivo. Apesar destes desafios, Fernando conseguiu construir uma rotina estável dentro das suas possibilidades.

“Antes recebia um subsídio para pessoas com deficiência, mas agora já não, porque também deixei de tratar disso. Acho melhor viver assim, normalmente”, diz, acrescentando que já não se recorda da instituição responsável pelo apoio nem do valor que recebia.

A vida, segundo ele, é simples. Os dias dividem-se entre a venda de doces, as conversas com clientes e os momentos de convivência com as pessoas da zona. Quando não está a atender alguém, observa o movimento da estrada ou troca algumas palavras com quem passa.

Os rendimentos variam de dia para dia, mas ajudam a garantir as despesas básicas. “Não é muito, mas dá para continuar a viver e não ficar parado”, afirma.

 

O desejo de trabalhar e construir um futuro melhor

Antes de vender doces, Fernando participou num projeto comunitário de limpeza de valetas, conhecido como “Projeto 3 dólares por dia”. Na altura, conseguia ganhar cerca de 100 dólares por mês, um rendimento que utilizava para comprar alimentos, roupa e outros bens essenciais. “Era o que me permitia sobreviver no dia a dia”, recorda.

A sua vida foi marcada por limitações desde a infância. Nunca teve a oportunidade de frequentar a escola devido às dificuldades económicas da família. “Não estudei porque os meus pais eram agricultores e não tinham condições financeiras que me permitissem ir à escola”, conta, com tristeza.

Embora reconheça que, por vezes, algumas pessoas fazem comentários sobre a sua condição física, garante nunca ter sido alvo de discriminação direta. “Às vezes, as pessoas falam de mim pelas costas por causa da minha condição, mas nunca sofri bullying diretamente”, afirma.

Fernando admite que não voltou a tratar do subsídio destinado a pessoas com deficiência, mas sublinha que o seu principal objetivo não é depender de apoios sociais. “Eu procuro trabalho, mas não há muito emprego aqui”, resume.

Como muitos timorenses, enfrenta as dificuldades de um mercado laboral com poucas oportunidades formais. Ainda assim, mantém a esperança de voltar a encontrar uma ocupação estável. “Se o Estado ajudar a criar oportunidades ou facilitar o acesso ao trabalho na área da limpeza, eu gostaria de trabalhar nessa área”, refere.

A história de Fernando Soares reflete a realidade de muitos trabalhadores informais em Díli que, com recursos limitados, encontram na venda de rua uma forma de sustento, convivência e dignidade. Mais do que um vendedor de pastéis, Ata é o retrato de quem, apesar das adversidades, continua a escolher o trabalho, a autonomia e a esperança como caminho para seguir em frente.

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