Ataúro acolhe festival de mergulho livre que junta comunidade e especialistas na defesa do oceano

“A paisagem superou completamente as minhas expectativas. O mar é extremamente limpo, cheio de peixes e corais” /Foto: Lélio Alves

Durante três dias, atividades de freediving, formação e partilha cultural promoveram a proteção dos oceanos e o turismo sustentável em Ataúro. O evento destacou o papel das mulheres mergulhadoras locais e os desafios ambientais e económicos das comunidades costeiras. A iniciativa terminou com um apelo forte à preservação da biodiversidade marinha em Timor-Leste.

O festival “Topu Ramutu”, realizado na ilha de Ataúro, reuniu mergulhadores nacionais e estrangeiros, comunidades locais e organizações ambientais num esforço conjunto de promoção da conservação marinha e de sensibilização para a proteção dos ecossistemas do oceano timorense.

Durante três dias, entre 1 e 3 de maio, as águas cristalinas de Adara acolheram o primeiro evento comunitário de mergulho livre “Topu Ramutu”, expressão local que significa “Mergulhar Juntos”. O encontro juntou cerca de 40 participantes, incluindo mergulhadores experientes e iniciantes, jovens, instrutores, artistas, ambientalistas e amantes do oceano.

Participaram no evento convidados locais e internacionais provenientes da Austrália, Alemanha, Reino Unido, Colômbia e Nova Zelândia. Ao longo da iniciativa, realizaram-se atividades práticas de freediving, workshops sobre segurança e conservação marinha, sessões de ioga, mergulhos noturnos, passeios de barco e conversas sobre a história local do grupo “Wawata Topu”, composto por mulheres mergulhadoras de Ataúro.

O festival foi organizado pelo Freediving Timor-Leste, Inspired by Nature, Rainbow Yoga, Underwater Cinema, Mario’s Place e Lenuk Tasi, numa colaboração entre diferentes iniciativas com uma visão comum: usar o oceano como espaço de ligação, educação e transformação social.

Segundo os organizadores, o objetivo foi criar um ambiente aberto de aprendizagem e partilha, promovendo a conservação marinha e incentivando uma nova geração de defensores da biodiversidade em Timor-Leste, bem como o desenvolvimento do mergulho livre no país.

Educação, segurança e conservação marinha

Emanuel do Rosário, do grupo Lenuk Tasi, explicou que o festival surgiu da necessidade de unir a crescente comunidade de praticantes de mergulho livre em Timor-Leste e transformar essa paixão numa força coletiva de proteção ambiental.

“Queremos que as pessoas não apenas aprendam a mergulhar, mas também entendam a importância de proteger os animais marinhos, os recifes de coral e todo o ecossistema marinho”, afirmou.

Durante o evento, os participantes receberam formação em conservação marinha, técnicas de mergulho seguro, equalização da pressão nos ouvidos, segurança em profundidade e fotografia e videografia subaquática.

“As sessões de ioga e meditação foram também fundamentais no freediving, ajudando no controlo da respiração, na calma mental e na prevenção do pânico debaixo de água”, acrescentou.

A profundidade média dos treinos atingiu os 35 metros, sempre com acompanhamento de instrutores e adaptação aos diferentes níveis de experiência dos participantes.

Além da componente desportiva, Emanuel destacou o impacto económico do evento na comunidade de Ataúro. Segundo explicou, os organizadores trabalharam em parceria com moradores e unidades de alojamento locais, garantindo que as receitas das inscrições beneficiassem diretamente a economia da ilha.

“O dinheiro não é para nós. Usamo-lo para comprar comida, pagar barcos e apoiar a comunidade local. Não queremos apenas visitar Ataúro, queremos contribuir para a economia das famílias da ilha”, afirmou.

A escolha de Adara como palco do festival esteve também ligada à preservação ambiental da zona, reforçada pelo sistema tradicional de “tara bandu”, que regula o uso sustentável dos recursos naturais.

“Apesar de não ter eletricidade regular nem rede de telecomunicações, a aldeia destaca-se pela qualidade das águas e pela biodiversidade marinha”, referiu.

O festival destacou ainda a importância do grupo “Wawata Topu”, composto maioritariamente por mulheres que mergulham para sustentar as suas famílias através da pesca.

“O mergulho não é apenas para homens. Queremos mostrar aos jovens timorenses, especialmente às mulheres, que elas também podem participar nestas atividades”, disse Emanuel.

Conhecimento tradicional e técnicas modernas

Para Denilson Monteiro, do Underwater Cinema, o festival também representa uma oportunidade de aproximar o conhecimento tradicional das técnicas modernas de mergulho seguro.

O participante recordou que muitas mulheres do grupo Wawata Topu mergulham desde crianças sem formação técnica, o que já provocou problemas de saúde.

“Muitas sofrem danos nos ouvidos porque nunca aprenderam técnicas de equalização. Algumas já perderam parcialmente a audição ou a visão devido aos riscos do mergulho profundo”, explicou.

Ainda assim, Denilson sublinhou que as mergulhadoras tradicionais possuem conhecimentos valiosos, tendo havido durante o festival uma troca de experiências sobre respiração e resistência debaixo de água.

Conservação marinha e desafios locais

A proteção das tartarugas marinhas foi um dos temas centrais da iniciativa. Apesar de serem espécies protegidas, os organizadores reconhecem que algumas comunidades ainda as capturam.

Em vez de responsabilização direta, os grupos defendem a educação e sensibilização como estratégias fundamentais. “Se as pessoas não conhecem uma espécie, não a vão proteger. Quando a conhecem, começam a cuidar dela”, afirmou Emanuel.

A expectativa é que os participantes saiam do festival não apenas como mergulhadores, mas também como defensores ativos do oceano timorense e do turismo sustentável.

Para Agusto Martins Lemos, membro da comunidade de Adara, o festival trouxe aprendizagens importantes, sobretudo sobre conservação ambiental e técnicas seguras de mergulho.

Segundo explicou, embora a comunidade já pratique o “tara bandu” para proteger tartarugas e outras espécies, muitos desconheciam técnicas modernas de preservação. “Sabíamos proteger algumas espécies, mas não entendíamos profundamente como cuidar das tartarugas e dos seus habitats”, disse.

Impacto comunitário e experiência dos participantes

Entre os participantes esteve Julmia da Silva, que descreveu a experiência como “inesquecível”. “Em Díli, cada pessoa está ocupada com a sua vida. Mas em Adara não havia internet nem rede de telecomunicações. Isso fez com que os participantes e os organizadores criassem amizades muito mais fortes”, afirmou.

A jovem explicou que participou para conhecer novas pessoas e reforçar ligações. O gosto pelo mergulho surgiu através da irmã. “Antes não gostava muito, mas depois comecei a mergulhar com a minha irmã e hoje adoro, porque podemos ver as paisagens escondidas no fundo do oceano”, contou.

Um dos momentos mais marcantes foi o mergulho noturno. “Foi uma experiência muito bonita e inesquecível. Ver os animais a brilharem na escuridão do mar foi algo extraordinário”, disse.

Julmia destacou ainda as histórias das mulheres mergulhadoras de Adara, muitas das quais dependem do mar para sustentar as famílias. “Em Adara, não são apenas os homens que mergulham. Há muitas mulheres que vão ao mar para pescar e sustentar os estudos dos filhos. Quando ouvi isso, fiquei muito emocionada”, referiu.

Também elogiou a beleza natural da ilha. “A paisagem superou completamente as minhas expectativas. O mar é extremamente limpo, cheio de peixes e corais. O mais bonito foi a parede de corais, como se fosse um enorme muro subaquático”, disse.

Desafios da comunidade costeira

Agusto Martins Lemos explicou ainda que práticas como “fun diving” e “line diving” são pouco conhecidas em Ataúro, onde o mergulho está sobretudo ligado à pesca tradicional.

A comunidade enfrenta ainda dificuldades económicas. Grande parte do peixe capturado é consumido localmente, devido à falta de eletricidade e infraestruturas para conservação.

“Sem eletricidade é difícil produzir gelo para conservar os peixes. Agora o Governo começou a construir estradas e esperamos que a eletricidade também chegue aqui”, afirmou.

Para o morador, iniciativas como o “Topu Ramutu” são fundamentais para sensibilizar as comunidades e incentivar a proteção do oceano. “É importante continuarmos a sensibilizar as comunidades para proteger o nosso mar. Também queremos encorajar mais pessoas apaixonadas pelo oceano a mergulharem juntas e a mostrarem ao mundo a biodiversidade marinha de Timor-Leste”, concluiu.

Comente ou sugira uma correção

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *