Timor-Leste celebra a língua portuguesa entre diplomacia, cultura e desafios educativos

“Uma língua bem dominada dá-nos mais liberdade individual e mais capacidade de intervir na vida pública” / Foto: Diligente

A Semana da Língua Portuguesa em Díli evidencia a expansão do idioma em Timor-Leste, mas também os desafios estruturais que ainda limitam o seu ensino nas escolas e universidades.

Arrancou ontem, 4 de maio, em Díli, a Semana da Língua Portuguesa, uma iniciativa do Grupo de Embaixadores da CPLP que reúne Angola, Brasil e Portugal, assinalando o Dia Mundial da Língua Portuguesa, celebrado hoje, 5 de maio, e instituído pela UNESCO em 2019.

A iniciativa, que decorre até 10 de maio, transforma a capital timorense num ponto de encontro da lusofonia, com um programa cultural alargado que inclui literatura, cinema, música e debates sobre o futuro do ensino da língua no país.

A sessão de abertura teve lugar na Embaixada de Portugal em Díli e contou com a presença de representantes diplomáticos, autoridades timorenses e convidados. Entre os principais destaques está uma exposição dedicada ao escritor José Saramago, único autor de língua portuguesa distinguido com o Prémio Nobel da Literatura, cuja obra assume um papel simbólico central nas celebrações e estará patente ao público durante todo o mês de maio.

Angola participa com atividades de promoção literária, enquanto o Brasil apresenta sessões de cinema. Portugal encerra o programa cultural com um concerto do grupo SENZA, agendado para 10 de maio, na Fundação Oriente.

Diplomacia destaca língua como instrumento de identidade e cooperação

O embaixador de Portugal em Timor-Leste, Duarte Bué Alves, destacou a importância da Semana da Língua Portuguesa como uma iniciativa alargada e simbólica da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), destacando o papel crescente do português no país e o seu potencial de desenvolvimento futuro.

Segundo o diplomata, o alargamento das celebrações em Timor-Leste reflete o contexto particular do país, que assume a presidência da CPLP em 2026 e integra este ano as comemorações dos 30 anos da organização. Nesse sentido, considerou essencial promover um programa “grande, ambicioso e robusto”.

O embaixador referiu que a escolha de José Saramago se deve ao facto de ser o único autor de língua portuguesa distinguido com o Prémio Nobel da Literatura, critério que, segundo afirmou, foi consensual entre os embaixadores de Portugal, Angola e Brasil.

Destacou ainda o crescimento “exponencial” da língua portuguesa no país e reforçou o compromisso com a expansão do ensino, no âmbito das celebrações da Semana da Língua Portuguesa. “Comparado com o ano 2000, o crescimento é evidente e consistente”, afirmou, sublinhando que o aumento do número de falantes reflete o investimento contínuo na educação e na cooperação internacional.

Duarte Bué Alves destacou ainda o papel das escolas CAFE (Centros de Aprendizagem e Formação Escolar) e da Escola Portuguesa de Díli como pilares fundamentais na promoção da língua. Atualmente, existem 14 escolas CAFE em todo o território, com cerca de 12 mil alunos, mas a procura continua a superar a oferta.

“O nosso grande desafio é expandir a rede e aumentar a capacidade de resposta”, afirmou, acrescentando que o objetivo passa também pela formação de professores timorenses. “O modelo das escolas CAFE assenta na colaboração entre docentes portugueses e locais, promovendo a partilha de conhecimentos e o desenvolvimento conjunto.”

O embaixador referiu ainda projetos como o “Consultório da Língua para Jornalistas”, voltado para a capacitação de profissionais da comunicação social, como parte dos esforços para consolidar o uso do português em diferentes setores.

Para o diplomata, o interesse dos jovens pela língua é evidente. “A elevada procura nas escolas demonstra que os jovens reconhecem o valor do português”, disse, defendendo que o domínio do idioma abre portas no ensino superior e no mercado de trabalho.

O diplomata sublinhou que, perante esse cenário, a prioridade passa por reforçar e expandir os programas existentes de ensino da língua. “É nisso que estamos a apostar: crescer, expandir e consolidar”, acrescentou, defendendo o aumento da capacidade institucional para responder à procura crescente.

O embaixador de Angola em Timor-Leste, José Andrade de Lemos, destacou o significado simbólico da iniciativa, sublinhando a língua portuguesa como um “património comum” que ultrapassa fronteiras geográficas e gerações.

O diplomata afirmou que a língua portuguesa constitui mais do que um instrumento de comunicação, descrevendo-o como um “veículo de cultura, ciência, diplomacia e socialização”, falado por mais de 256 milhões de pessoas em todo o mundo. Defendeu ainda que cabe às instituições e aos cidadãos promover oportunidades para que a língua seja um instrumento de conhecimento e inclusão, reforçando o papel dos jovens como “guardiões da língua portuguesa”.

O embaixador apelou a uma reflexão conjunta sobre a importância do idioma na construção de identidade e cooperação entre os países da CPLP, desejando que a semana de celebrações fortaleça os laços de amizade e diversidade cultural entre os povos lusófonos.

Também presente na cerimónia, o embaixador do Brasil em Timor-Leste, Ricardo Lustosa Leal, destacou a importância de uma construção coletiva em torno da língua portuguesa, sublinhando que a sua valorização exige não apenas inspiração, mas também “escolhas políticas concretas” e um trabalho contínuo de cooperação entre os países.

O diplomata recordou ainda um poema do escritor português José Saramago, sublinhando a ideia de que a língua deve ser moldada com consciência e responsabilidade. Nesse sentido, defendeu que a construção de uma comunidade lusófona exige cultivo, compromisso e ações concretas.

Ricardo Lustosa Leal destacou a importância do encontro no Instituto Camões, em Díli, como espaço de convergência entre Angola, Brasil, Timor-Leste e Portugal, sublinhando o respeito pela diversidade das expressões do português em diferentes países.

O Presidente da República, José Ramos-Horta, destacou os avanços significativos da língua portuguesa em Timor-Leste, sublinhando o seu papel na identidade nacional e no acesso às oportunidades internacionais.

Segundo o Chefe de Estado, a Semana da Língua Portuguesa tem sido marcada por diversas iniciativas, incluindo uma reunião de ministros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) em Díli, focada na educação. Para Ramos-Horta, estes encontros representam uma oportunidade estratégica para avaliar o progresso do idioma no país.

“Em 2000, menos de 1% da população falava português. Hoje, mais de 30% domina a língua, segundo dados oficiais”, afirmou, classificando a evolução como “extraordinária”.

O Presidente atribui este progresso às políticas do Estado timorense, com apoio dos países como Portugal e Brasil. Recordou ainda que, após a ocupação e ausência do ensino formal em português, o país teve de “resgatar” a língua praticamente do zero, num contexto marcado por perdas humanas e pela diáspora de falantes.

Ramos-Horta destacou também o papel histórico da resistência timorense, nomeadamente das FALINTIL, na preservação de português, bem como de instituições como a Escola São José, que chegou a ser encerrada após o Massacre de Santa Cruz.

O Chefe de Estado elogiou ainda a capacidade linguística dos jovens timorenses, considerando-os “poliglotas por natureza”. “Um jovem timorense pode falar três, quatro ou mais línguas com facilidade”, afirmou, incentivando a aprendizagem simultânea de português, inglês e outras línguas.

Ramos-Horta reforçou a importância do português não só como elemento de identidade, mas também como ferramenta de acesso à educação internacional, especialmente em Portugal e no espaço europeu, no âmbito do Acordo de Bolonha. “Um diploma obtido em Portugal é reconhecido em toda a Europa”, sublinhou.

Apesar de reconhecer que o português ainda não é amplamente utilizado no quotidiano, o Presidente rejeita a ideia de estagnação. “Muitos jovens já falam bem português, especialmente os que frequentam escolas como o CAFE ou a Escola Portuguesa de Díli”, afirmou, citando também conquistas recentes de estudantes timorenses em concursos internacionais.

Questionado sobre se o inglês se torna dominante no país, Ramos-Horta esclareceu que a língua é utilizada sobretudo como ferramenta de trabalho, sem substituir as línguas nacionais. Disse que nenhum país abandona a sua língua. O inglês é apenas complementar.

Respondendo a críticas sobre o uso limitado do português no quotidiano, o Presidente reconheceu que o tétum continua a ser a língua dominante em casa, o que considera natural e comparável a outras realidades internacionais. Ainda assim, afirmou que muitos jovens já conseguem comunicar em português, especialmente os que frequentam escolas que seguem o currículo português.

José Ramos-Horta defendeu ainda que o domínio de diferentes línguas é uma vantagem estratégica. “Quanto mais línguas os timorenses falam, melhor para cada um de nós”, afirmou, encorajando os jovens a não terem receio de aprender novas línguas.

Ensino do português enfrenta desafios estruturais em Timor-Leste

Mas para lá do discurso político e do simbolismo cultural, a realidade do ensino da língua portuguesa em Timor-Leste revela desafios profundos que continuam por resolver.

Flávia Maria Augusta Martins, docente de Língua Portuguesa na Faculdade de Ciências Sociais, alertou para problemas transversais ao sistema educativo. “Há desafios por parte dos governantes, do ministério competente, dos professores e, sobretudo, na capacidade de aprendizagem dos próprios estudantes”, afirmou.

Segundo a docente, muitos alunos chegam ao ensino superior com lacunas profundas. “Os estudantes não têm conhecimentos básicos da língua portuguesa quando entram na universidade, o que dificulta o processo de ensino.”

Na instituição onde leciona, os alunos têm apenas dois semestres de português, o que considera insuficiente. “Não posso voltar ao nível do ensino básico. Tenho de avançar com conteúdos do ensino superior, mas muitos alunos não conseguem acompanhar.”

A professora critica ainda a falta de condições no ensino básico e secundário e a ausência de formação contínua dos docentes. “Um professor de língua portuguesa precisa de atualização regular, pelo menos uma vez por ano, mas isso raramente acontece em Timor-Leste.”

Em turmas com até 80 alunos, apenas uma minoria demonstra domínio básico da língua. “Muitos têm dificuldades em compreender e expressar-se em português, até mesmo em frases simples.”

Para além das falhas estruturais, a docente aponta também a falta de empenho individual dos estudantes como um fator determinante. “Alguns estudantes não assumem responsabilidade pela sua aprendizagem e mostram pouco interesse em estudar ou pesquisar fora da sala de aula.”

Ainda assim, reconhece o potencial da tecnologia como ferramenta de apoio. “Há muitos materiais disponíveis, inclusive de professores brasileiros, mas os alunos precisam de iniciativa para os procurar.”

Flávia Martins sublinha também que a língua é essencial para o acesso ao conhecimento. “Muitos estudantes não compreendem as matérias porque estão em português.”

Jovens veem no português uma oportunidade de futuro

Apesar dos desafios, muitos jovens veem o português como uma oportunidade de futuro. Para Febriana Teixeira, estudante da Universidade Católica Timorense, a língua portuguesa vai muito além de um simples meio de comunicação. É “o caminho para atingir os meus sonhos” e a ponte que a levou a explorar o mundo da literatura e do direito.

A estudante descreve o português como uma língua que representa “a harmonia da vida poética, a diversidade e a dinâmica”, além de desempenhar um papel fundamental na interpretação jurídica, área em que pretende construir a sua carreira. Para Febriana, o domínio do idioma abre portas concretas, especialmente no contexto do Estado timorense.

A propósito da celebração do Dia Mundial da Língua Portuguesa, assinalado a 5 de maio, a estudante considerou essencial marcar a data. “É importante para relembrar cada conquista que tivemos com a presença da língua portuguesa”, afirmou, acrescentando que a celebração também reforça a ligação entre os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Na sua perspetiva, o português não é apenas uma língua, mas um “universo” que integra cultura, identidade, etnia, nacionalidade e fé.

Apesar do entusiasmo, Febriana reconheceu que o processo de aprendizagem não é simples. “No início é sempre difícil, mas com prática contínua torna-se mais fácil e flexível”, explicou. Para a estudante, aprender português exige resiliência e disciplina, características que considera fundamentais para alcançar bons resultados.

Entre as principais dificuldades, destacou fatores emocionais e estruturais. “Muitas vezes, sentia desmotivação ao ouvir constantemente que era necessário conjugar verbos ou seguir regras gramaticais complexas”, recordou. No entanto, encontrou motivação ao entrar em contacto com diferentes sotaques, especialmente do Brasil e de Portugal, o que despertou ainda mais interesse pela língua.

A estudante apontou também desafios no acesso a recursos educativos em Timor-Leste, como a escassez de livros em português e a limitada oferta de conteúdos audiovisuais na língua, muitas vezes substituídos por materiais em indonésio.

Mesmo assim, Febriana vê no português uma oportunidade concreta de crescimento. Em 2025, essa visão tornou-se realidade ao vencer um concurso de discurso público em língua portuguesa, conquista que lhe garantiu uma vaga num curso de verão na Universidade de Macau.

“Para mim, não é apenas teoria. A língua portuguesa já abriu portas reais na minha vida”, disse, reforçando a importância do idioma como ferramenta para o futuro académico e profissional em Timor-Leste.

Estela Maia Soares, estudante do quinto semestre de Contabilidade na Faculdade de Economia e Gestão, Universidade Nacional de Timor Lorosa’e, considera a língua portuguesa um elemento fundamental na identidade e no desenvolvimento de Timor-Leste, apesar dos desafios enfrentados no seu processo de aprendizagem.

Segundo a estudante, o português, sendo uma das línguas oficiais do país, assume um papel relevante tanto a nível nacional como internacional. “É uma língua utilizada em vários países e também muito presente entre as gerações mais velhas. Além disso, muitas palavras do tétum têm origem no português, o que demonstra a sua influência no nosso dia a dia”, afirmou.

“Timor-Leste faz parte da CPLP, por isso, devemos celebrar esta data como forma de reconhecer a importância da língua”, disse.

No entanto, a estudante reconheceu que aprender português não é um processo fácil. Entre as principais dificuldades, aponta a complexidade da conjugação verbal. “Diferente do inglês, o português exige atenção aos tempos verbais. Não se pode falar de qualquer maneira, é preciso conjugar corretamente, o que se torna a aprendizagem mais exigente”, explicou.

A experiência de Estela com a língua começou ainda no ensino básico e secundário, na Escola CAFE, onde teve frequentemente contacto com professores estrangeiros que utilizavam o português. Contudo, após concluir essa etapa, a prática da língua diminuiu devido ao ambiente social.

“No meu círculo de amigos e família, poucas pessoas falam português. Apenas o meu pai fala um pouco, e é com ele que ainda consigo praticar”, relatou.

Já no ensino superior, embora os materiais académicos estejam maioritariamente em português, a realidade nas salas de aula é diferente. “Os professores utilizam materiais em português, mas muitas vezes explicam em tétum porque os estudantes ainda não dominam bem a língua”, disse. Entre colegas, o uso do português também é limitado, sendo mais comum entre aqueles que já têm alguma fluência.

Para superar essas dificuldades, Estela tem recorrido a conteúdos digitais, sobretudo nas redes sociais. “Vejo vídeos no TikTok em português, principalmente de outros países, o que me ajuda a compreender melhor a língua e a aprender novas formas de comunicação”, afirmou.

Apesar dos desafios, a estudante defende que a aprendizagem do português depende também da iniciativa individual. Para ela, o contacto contínuo com a língua, seja na escola ou através de meios digitais, é essencial para melhorar a fluência e garantir que o português continue a ter um papel relevante na sociedade timorense.

Por sua vez, a estudante Melinda da Conceição Pinto, do Departamento de Contabilidade da Faculdade de Economia e Gestão, da UNTL, partilhou a sua experiência de aprendizagem da língua portuguesa, sublinhando a importância da prática constante e da comunicação no processo de aquisição da língua.

Melinda afirmou ter aprendido português desde o ensino primário até ao ensino secundário na Escola CAFE de Baucau, localizada em Vila Nova. Segundo a estudante, a aprendizagem não se limitou ao contexto escolar, tendo também sido reforçada no ambiente familiar, através da comunicação frequente com os pais e irmãos.

Durante o seu percurso académico, explicou que continuou a utilizar a língua portuguesa tanto em casa como na universidade, ainda que de forma variável. “Já na universidade, também falo com alguns colegas, acompanho as explicações dos professores e faço perguntas em português”, referiu, acrescentando que a utilização da língua ocorre com alguma regularidade.

No entanto, Melinda reconhece que aprender português em Timor-Leste continua a ser um desafio. “Não é muito fácil, porque muitas pessoas tentam aprender português, mas nem todas conseguem”, afirmou, destacando a necessidade de maior prática comunicativa entre os falantes para melhorar o domínio da língua.

Outro desafio mencionado foi a escassez de conteúdos educativos produzidos localmente em português. Segundo a estudante, embora existam muitos materiais disponíveis na internet, sobretudo de países estrangeiros, em Timor-Leste ainda há poucos criadores de conteúdos em língua portuguesa. “Isso poderia ajudar e incentivar mais pessoas a aprender”, afirmou, defendendo maior iniciativa individual por parte dos estudantes.

Quanto ao papel das instituições, Melinda considera que tanto o Governo como as escolas têm investido na promoção da língua portuguesa, embora os resultados dependam também da prática dos falantes. “O investimento existe, mas se as pessoas não praticarem, torna-se um desafio”, observou.

Por fim, deixou uma mensagem aos colegas e aos estudantes mais novos, incentivando a prática diária da língua. “O mais importante é praticar todos os dias, mesmo cometendo erros. Começar pelo básico e falar sobre coisas simples ajuda muito. O essencial é comunicar”, afirmou.

Apesar do crescimento significativo da língua portuguesa em Timor-Leste, o ensino continua a enfrentar desafios estruturais que contrastam com a forte aposta política, cultural e simbólica no seu reforço.

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