Nascida da iniciativa de jovens timorenses formados em Ciências Marinhas, a SOA Timor-Leste afirma-se como uma das vozes mais ativas na defesa do oceano, da biodiversidade marinha e das comunidades costeiras. Entre ações no terreno, advocacia ambiental e pressão política, a organização coloca a juventude na linha da frente da conservação num país onde o mar é identidade, sustento e futuro.
A Sustainable Ocean Alliance (SOA) Timor-Leste surgiu em 2021 a partir da iniciativa de jovens timorenses de Ciências Marinhas que estudavam na Indonésia e sentiram a urgência de agir num país profundamente dependente do mar, mas ainda frágil na sua proteção ambiental. Desde então, a organização tem vindo a mobilizar juventude, pescadores e comunidades costeiras em torno da conservação marinha, da restauração de ecossistemas degradados e da defesa da biodiversidade.
Com uma atuação alinhada com o Plano Estratégico Nacional 2011–2030 e com o Quadro Global da Biodiversidade, que estabelece a meta de proteger 30% dos oceanos até 2030, a SOA Timor-Leste parte de um princípio simples, mas exigente: a proteção do oceano só é possível através do esforço coletivo, do conhecimento científico e do envolvimento direto das comunidades.
Em entrevista ao Diligente, o coordenador da SOA Timor-Leste, João Ratão Magno, estudante de Ciências Marinhas na Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL), faz um balanço do percurso da organização, dos projetos já desenvolvidos e dos desafios que persistem. Da campanha Deep Sea Mining – Não à restauração de recifes de coral em Atabae e Ataúro, passando pela educação ambiental em escolas e pela mobilização comunitária, a SOA tem demonstrado que o ativismo jovem pode gerar impactos reais — no ecossistema e na vida das pessoas.
Até ao momento, mais de 400 corais foram transplantados, com resultados ecológicos positivos, incluindo o regresso de espécies marinhas e benefícios diretos para a pesca de subsistência. Ainda assim, alerta João Ratão Magno, a falta de sensibilização ambiental, as lacunas na gestão de resíduos e os efeitos das alterações climáticas continuam a ameaçar os oceanos de Timor-Leste, exigindo respostas urgentes e coordenadas.
“Em Timor-Leste, no que respeita aos ecossistemas marinhos, existem cinco ecossistemas completos: os estuários, com plantas costeiras e mangais, os recifes de coral, as pradarias marinhas e o mar aberto, que é extremamente rico em biodiversidade. Em muitos países, estes cinco ecossistemas não existem de forma completa. Por isso, a missão da SOA Timor-Leste é responder às prioridades já identificadas para a sua proteção”
Qual é a missão principal da Sustainable Ocean Alliance em Timor-Leste e em que se distingue de outras iniciativas ambientais que já existem no país?
` A SOA Timor-Leste surgiu em 2021 como filial da SOA Global, trazida ao país por estudantes timorenses de Ciências Marinhas que estudavam na Indonésia. Um desses estudantes, Délio da Costa, assumiu a coordenação da SOA Timor-Leste durante cinco anos, tendo sido posteriormente acompanhado por Dircia Sarmento.
Desde o início, viemos com uma visão clara: acreditamos que, um dia, o nosso oceano e os organismos marinhos serão abundantes, ou seja, numerosos, ricos e de valor incalculável. Para alcançar essa visão, reconhecemos que uma única pessoa não consegue, sozinha, torná-la realidade. Esta visão está alinhada com o Plano Estratégico 2011–2030 e com o Quadro Global da Biodiversidade, que estabelece como meta a proteção de 30% dos oceanos do mundo até 2030.
Nesse sentido, a SOA Timor-Leste tem como primeira missão mobilizar jovens de diferentes áreas p` ara partilharem a mesma paixão pelo mar. A segunda missão passa por envolver os principais intervenientes, como pescadores e outros utilizadores do mar, para trabalharem em conjunto na conservação marinha. Temos ainda como missão a restauração de ecossistemas que consideramos degradados. Outra vertente fundamental do nosso trabalho é a advocacia, com o objetivo de garantir o cuidado e a proteção dos recursos existentes, reconhecendo que muitas das degradações ambientais são causadas pelo próprio ser humano, que está no centro do desenvolvimento.
A partir desta visão e destas missões, a SOA Timor-Leste procura unificar esforços para desenvolver ações de conservação, proteção, restauração e mitigação das ameaças que afetam a biodiversidade. Quando falamos de biodiversidade, referimo-nos a três componentes essenciais: ecossistemas, espécies e diversidade genética. Em Timor-Leste, no que respeita aos ecossistemas marinhos, existem cinco ecossistemas completos: os estuários, com plantas costeiras e mangais, os recifes de coral, as pradarias marinhas e o mar aberto, que é extremamente rico em biodiversidade. Em muitos países, estes cinco ecossistemas não existem de forma completa. Por isso, a missão da SOA Timor-Leste é responder às prioridades já identificadas para a sua proteção.
Uma das principais diferenças da SOA Timor-Leste em relação a outras organizações ambientais é o facto de se assumir como uma verdadeira aliança que reúne pessoas de diferentes áreas. Outras organizações podem ser abertas e diversas, mas nem sempre congregam perfis tão distintos. Na SOA, temos membros que estudam Medicina, Tecnologias da Informação, Geologia, Direito, Biologia, entre outras áreas, e estamos atualmente à procura de jornalistas interessados em integrar a organização. Reunimos pessoas com paixão pelo mar, pelas florestas e pela proteção ambiental em geral, criando um espaço comum de partilha e ação.
Outra diferença importante é que muitas organizações desenvolvem projetos piloto focados apenas num local ou num único tema. Por exemplo, o grupo Lenuk Tasi dedica-se exclusivamente à conservação das tartarugas. A SOA, por sua vez, não se limita a um único foco, pois aposta sobretudo na advocacia em defesa da biodiversidade e dos ecossistemas como um todo. Para evitar a degradação ambiental, é essencial sensibilizar as pessoas. Por isso, nos últimos anos, o trabalho da SOA Timor-Leste tem-se concentrado tanto na advocacia como em ações concretas de restauração dos ecossistemas.
O que motivou a criação da SOA em Timor-Leste e por que razão considera que este é um país estratégico para a proteção dos oceanos?
A primeira motivação prende-se com o facto de o próprio Governo de Timor-Leste já ter identificado o mar como uma área prioritária. Em 2015, o então Primeiro-Ministro, Xanana Gusmão, participou na Conferência dos Oceanos, em Lisboa, onde apresentou o compromisso de Timor-Leste com a economia azul. No entanto, depois disso, não houve continuidade nessa aposta, e só mais recentemente o atual Governo voltou a dar prioridade a esta temática.
Naquela altura, existiam muito poucas pessoas e organizações a trabalhar ou a falar sobre o ambiente e o mar em Timor-Leste. A SOA Timor-Leste só surgiu em 2021 e, mesmo então, eram escassas as organizações dedicadas especificamente às questões marinhas. Perante essa lacuna — a ausência de estruturas que unissem pessoas em torno da proteção do oceano — surgiu a SOA Timor-Leste.
Outro fator importante é a conetividade global da SOA, que permite levar a voz da juventude timorense ao plano internacional. Recentemente, representantes da SOA Timor-Leste apresentaram os impactos e os resultados das suas atividades na Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos, realizada em França, o que demonstra essa projeção internacional.
Quando falamos da importância estratégica de Timor-Leste, olhamos também para a sua localização geográfica. O país situa-se entre dois grandes Estados, a Austrália e a Indonésia, o que lhe confere um enorme potencial para o turismo marítimo. De acordo com dados da ENSOT, 87% da economia nacional depende atualmente do petróleo e do gás. Quando esses recursos se esgotarem, o mar poderá sustentar o futuro económico do país.
Timor-Leste é, por isso, estrategicamente relevante para a proteção ambiental, já que possui alguns dos recifes de coral mais ricos do mundo. Além disso, a área marítima do país é maior do que a sua área terrestre, o que representa um grande potencial para o desenvolvimento da pesca industrial e do turismo.
Estas áreas têm uma elevada capacidade de gerar rendimento. No entanto, estudos indicam que a degradação ambiental está a aumentar. No primeiro levantamento realizado em 2007, a cobertura de recifes de coral era de cerca de 34 quilómetros quadrados, mas uma atualização feita em 2017 revelou uma diminuição dessa área. Esta degradação resulta, sobretudo, da sedimentação proveniente do interior do país e do desenvolvimento das zonas costeiras.
Perante este cenário, torna-se claro que uma única pessoa não consegue responder a desafios desta dimensão. É necessária uma aliança, capaz de unir esforços e agir em conjunto, com a mesma paixão, para proteger o oceano e garantir um futuro sustentável para Timor-Leste.
` De que forma a SOA Timor-Leste se articula com as políticas e estratégias nacionais de proteção dos oceanos e do ambiente marinho?
A SOA Timor-Leste desenvolve todas as suas atividades em articulação com o Governo, uma vez que, de acordo com a Constituição, tudo o que existe na terra e no mar pertence ao Estado. Por essa razão, a organização envolve sempre as entidades governamentais e, quando essa articulação não ocorre de forma direta, todas as atividades são posteriormente reportadas às autoridades competentes.
Em várias ocasiões, a SOA Timor-Leste organiza seminários e convida representantes do Governo a participarem como oradores em painéis, criando um espaço de diálogo onde a equipa pode apresentar os impactos das suas ações. Esta articulação permite demonstrar que, apesar de se tratar de uma organização de base voluntária, as iniciativas desenvolvidas estão alinhadas com os programas e prioridades do Governo.
No contexto da economia azul, um dos pilares centrais é a conservação dos oceanos. As ações de conservação promovidas pela SOA Timor-Leste enquadram-se plenamente nesse princípio. Para além disso, a economia azul valoriza o reforço da literacia oceânica, um objetivo que a SOA Timor-Leste promove de forma contínua através da advocacia em prol da biodiversidade e da sensibilização para a proteção do ambiente marinho.
“Até ao momento, já foram transplantados mais de 400 corais, com impactos ecológicos claros e positivos. Nos recifes restaurados, os peixes começaram a regressar, o que facilita a pesca de subsistência das comunidades locais, permitindo-lhes pescar mais perto da costa”
Que projetos ou iniciativas da SOA em Timor-Leste já apresentam resultados concretos no terreno? Pode partilhar um exemplo de impacto positivo junto das comunidades ou do ecossistema marinho?
O maior projeto desenvolvido pela SOA Timor-Leste desde a sua criação é a campanha Deep Sea Mining – Não, uma iniciativa que se opõe à exploração do mar profundo. Timor-Leste já assinou um acordo que estabelece a não realização de atividades de exploração marinha a profundidades superiores a 200 metros. Este foi o primeiro grande tema trabalhado pela SOA Timor-Leste através de ações de advocacia, numa altura em que o Governo ainda não tinha tomado essa decisão, o que demonstra o papel ativo da organização na defesa preventiva do oceano.
Um segundo eixo fundamental do nosso trabalho é a educação ambiental marinha. Desenvolvemos ações de sensibilização em escolas, onde distribuímos panfletos e pequenos livros informativos para dar a conhecer às comunidades e aos estudantes os recifes de coral, os mangais, as espécies protegidas que não podem ser capturadas ou mortas e o estado geral do mar em Timor-Leste.
Outro projeto relevante é o Ocean Heroes Program, realizado em 2024, que envolveu jovens e estudantes de várias escolas. Durante três dias, os participantes receberam formação sobre o ambiente marinho, adquirindo competências para criar os seus próprios grupos e projetos, com acompanhamento e aconselhamento da SOA Timor-Leste. Alguns destes jovens deram continuidade ao trabalho nas suas escolas, como é o caso de um grupo muito ativo da Escola São Pedro, em Comoro.
A SOA Timor-Leste desenvolve ainda ações de reflorestação de mangais, em parceria com a Conservação da Flora e Fauna, bem como projetos de restauração de recifes de coral em dois locais distintos. Em Atabae, a restauração foi realizada em parceria com a empresa Aleka, tendo as observações recentes do crescimento dos corais revelado resultados muito positivos. Em Atauro, a restauração dos recifes foi feita em conjunto com a comunidade local e com a empresa Bolore Logistik. Estes projetos representam um contributo direto para a conservação da biodiversidade marinha.
O impacto destas iniciativas reflete-se também no crescimento da própria organização, uma vez que as pessoas estão sempre no centro das ações. A SOA Timor-Leste começou com apenas cinco membros e conta hoje com mais de 20 membros ativos a trabalhar de forma voluntária. Ao longo do seu percurso, a organização já envolveu mais de cinco mil pessoas, de forma direta ou indireta, através das suas atividades.
As comunidades mais beneficiadas situam-se em Atabae e Ataúro. Nessas localidades, as populações participaram ativamente na colocação dos corais, o que gerou uma mudança significativa de atitude. Antes, muitas pessoas apenas conheciam práticas destrutivas; hoje, aprenderam a restaurar os ecossistemas e passaram a solicitar a continuidade destas ações. Recentemente, a comunidade de Ilimano convidou a SOA Timor-Leste para desenvolver um projeto semelhante naquela área, embora, por se tratar de uma organização voluntária, nem sempre é possível responder a todos os pedidos.
Até ao momento, já foram transplantados mais de 400 corais, com impactos ecológicos claros e positivos. Nos recifes restaurados, os peixes começaram a regressar, o que facilita a pesca de subsistência das comunidades locais, permitindo-lhes pescar mais perto da costa. Apesar de as intervenções serem realizadas em pequena escala, os resultados são promissores e demonstram que é possível restaurar áreas degradadas de forma eficaz, com uma elevada taxa de sobrevivência dos corais transplantados.
“Recentemente realizámos uma ação de sensibilização em Viqueque e perguntámos às comunidades onde depositavam o lixo. A resposta foi clara: “Deitamos no rio”
Na sua perspetiva, quais são atualmente os maiores desafios ambientais que afetam os oceanos e as zonas costeiras de Timor-Leste?
O primeiro grande desafio é a falta de sensibilização das comunidades costeiras. Muitas vezes, esta situação está diretamente ligada à ausência de infraestruturas básicas. Dou um exemplo concreto: recentemente realizámos uma ação de sensibilização em Viqueque e perguntámos às comunidades onde depositavam o lixo. A resposta foi clara: “Deitamos no rio”. Atualmente, o mar de Timor-Leste enfrenta sérios problemas provocados por atividades antropogénicas, precisamente porque muitas comunidades ainda não estão suficientemente consciencializadas para as questões da conservação ambiental.
O segundo grande desafio são as alterações climáticas, que constituem um problema global, mas que também afetam diretamente os nossos recifes de coral. Perante esta realidade, uma das respostas possíveis é intensificar as ações de restauração dos recifes de coral, de forma a reforçar a sua resiliência e capacidade de recuperação.
Como é que a SOA envolve as comunidades costeiras, os pescadores e os jovens locais nas suas atividades e projetos?
Quando realizamos atividades nas comunidades, algo que nos deixa particularmente satisfeitos é perceber o nível de envolvimento local. Mesmo sem qualquer compensação financeira, muitas comunidades preparam comida para nos receber, o que demonstra interesse genuíno e um sentimento de pertença em relação às nossas iniciativas.
As comunidades participam ativamente connosco na colocação de corais e no plantio de mangais, o que revela um forte compromisso com a conservação ambiental. Ao estarem envolvidas diretamente nestes processos, as pessoas passam a sentir-se responsáveis e protetoras das ações de conservação realizadas. Esta dinâmica tem-se verificado em vários locais, como Ataúro, Manatuto, Baucau, Atabae, entre outros, e mostra que a participação comunitária é essencial para garantir a sustentabilidade dos projetos a longo prazo.
Que ações específicas estão a ser desenvolvidas para a proteção dos recifes de coral e da biodiversidade marinha em Timor-Leste?
Antes de a SOA Timor-Leste iniciar qualquer atividade de conservação e restauração de recifes de coral, começamos sempre pela formação de uma equipa técnica para realizar pesquisas nos locais identificados como degradados e para dialogar com as comunidades locais. Esse contacto inicial é fundamental para compreender o contexto ambiental e social de cada área.
Após essa fase, a equipa regressa para procurar financiamento, preparar os materiais necessários e selecionar cuidadosamente os locais onde será feito o transplante de corais. Até ao momento, desenvolvemos estas ações em dois locais principais, Atabae e Ataúro, e temos também planos para intervir em Ilimano. Estes são locais onde foi identificada degradação dos recifes e onde existem corais adequados para serem utilizados nos processos de restauração.
“A política da economia azul menciona muitas medidas importantes, mas faltam dados sólidos que sustentem a sua implementação. Até agora, ainda não vi uma advocacia governamental consistente em prol da conservação e da restauração da biodiversidade marinha”
Fala-se cada vez mais de economia azul. Que oportunidades reais pode esta economia trazer para o desenvolvimento sustentável do país?
Em primeiro lugar, confesso que sinto alguma tristeza em relação à atuação do Governo, porque muitas vezes são elaborados planos e políticas muito bem estruturados no papel, mas que não se traduzem em ações concretas no terreno. A política da economia azul menciona muitas medidas importantes, mas faltam dados sólidos que sustentem a sua implementação. Até agora, ainda não vi uma advocacia governamental consistente em prol da conservação e da restauração da biodiversidade marinha.
Na prática, o Governo poderia apoiar grupos de jovens com iniciativas próprias, permitindo-lhes executar programas que, muitas vezes, já estão definidos nas políticas públicas, mas que ficam por concretizar.
Os programas da SOA Timor-Leste estão sempre alinhados com as políticas governamentais. Realizamos levantamentos em áreas com potencial e reportamos essa informação ao Governo, para que possam ser desenvolvidas como áreas marinhas protegidas, zonas de pesca sustentável ou de turismo sustentável. Uma das prioridades centrais da economia azul é o ordenamento ou zonamento marinho, mas a grande questão é esta: como é possível avançar nesse processo se ainda não existem estudos e dados suficientes para o sustentar?
“Importa sublinhar que a poluição não se limita ao lixo sólido: inclui também as águas residuais não tratadas que são descarregadas diretamente no oceano”
Que medidas concretas a SOA está a implementar para combater a poluição marinha, em particular o problema do plástico nos oceanos?
A SOA Timor-Leste desenvolve um programa chamado “SOA nas Escolas”, através do qual realizamos ações de sensibilização junto dos estudantes, com o objetivo de que levem essa informação para casa e a partilhem com as suas famílias. Produzimos também panfletos e pequenos livros educativos, que distribuímos nas escolas e nas comunidades.
Para além disso, realizamos com frequência atividades de limpeza costeira, que têm uma forte componente educativa. Limpamos as praias e as zonas costeiras, mas a verdade é que muitas pessoas continuam a deitar lixo de forma indiscriminada, o que demonstra que o problema não se resolve apenas com ações pontuais, mas exige mudança de comportamentos.
Em Díli, por exemplo, é visível a situação do rio junto à ponte de Bidau, onde o lixo continua a ser despejado. Na zona costeira da Praia da Kelapa, um local bonito e muito frequentado tanto durante o dia como à noite, as pessoas vão comer katupa e peixe grelhado, mas infelizmente grande parte do lixo proveniente dos rios acaba por ir parar ao mar. Importa sublinhar que a poluição não se limita ao lixo sólido: inclui também as águas residuais não tratadas que são descarregadas diretamente no oceano.
Com que instituições nacionais e internacionais a SOA Timor-Leste trabalha atualmente e como funcionam essas parcerias?
A SOA Timor-Leste tem recebido apoio financeiro da Associação de Antigos Alunos da KOICA para a realização de ações de advocacia e de restauração da biodiversidade marinha. Como filial da SOA Global, recebe também, todos os anos, fundos globais destinados à execução dos seus programas, sendo posteriormente elaborados relatórios ao nível da organização internacional.
Trabalhamos igualmente em parceria com a CARE Internacional Timor-Leste, integrando o nosso manual sobre métodos de transplante de recifes de coral na revista Lafaek. Para além disso, colaboramos de forma contínua com outros grupos e organizações, como a Conservação da Flora e Fauna, o Lenuk Tasi, o movimento Laudato Si’ e várias universidades em Timor-Leste.
Como avalia o nível de consciencialização da população sobre a importância da proteção dos oceanos e o que ainda falta fazer nesse campo?
Ainda não realizámos um estudo específico para medir o nível de consciencialização das comunidades. No entanto, já fizemos esse exercício com estudantes e os resultados foram claros: antes das nossas intervenções, o nível de conhecimento era reduzido; depois de partilharmos informação, exemplos práticos e de realizarmos novos testes, verificámos um aumento significativo da compreensão sobre as questões ambientais.
Em Ataúro, por exemplo, as comunidades não sabiam inicialmente que os recifes de coral podiam ser restaurados. Após as atividades desenvolvidas pela SOA Timor-Leste e o envolvimento direto das pessoas nas ações no terreno, passaram a compreender esse processo e a sua importância.
De acordo com a análise da SOA Timor-Leste, a degradação da biodiversidade observada atualmente está fortemente ligada à falta de infraestruturas básicas, como locais adequados para deposição de lixo e sistemas eficazes de gestão de resíduos, áreas que continuam a não receber a devida atenção. É fundamental continuar a falar sobre estes temas e a promover ações de sensibilização, porque a mudança de comportamentos é um processo lento e exige compromisso contínuo.
Timor-Leste tem uma forte ligação cultural ao mar. De que forma o conhecimento tradicional das comunidades pode contribuir para a conservação dos oceanos?
Em algumas comunidades existem práticas de tara bandu com o objetivo de proteger a biodiversidade e evitar a sua degradação. No entanto, essas práticas nem sempre são eficazes, uma vez que nem todas as comunidades cumprem as regras estabelecidas.
Em Ataúro, por exemplo, quando descemos da zona de Ró, encontrámos comunidades a retirar a pele de tartarugas, o que demonstra que esta espécie continua a ser morta, apesar das normas tradicionais existentes. Perante esta realidade, a SOA Timor-Leste continua a apostar na sensibilização, para que as comunidades possam assumir, de forma coletiva, a responsabilidade pela proteção da biodiversidade marinha.
“Cabe ao Governo desenvolver políticas claras para a pesca de subsistência e artesanal, investir em embarcações adequadas, capacitar os pescadores para a pesca em mar aberto e fornecer os equipamentos necessários”
A pesca sustentável é um tema sensível no país. Como conciliar a proteção dos recursos marinhos com o sustento das famílias que dependem da pesca?
Muitas vezes, as comunidades encaram os recifes de coral apenas como pedras, sem compreender que são ecossistemas vivos onde os peixes se escondem, se alimentam e se reproduzem. Essa perceção leva, por necessidade, à sua destruição, através da pesca e da mariscagem, acabando por degradar a biodiversidade marinha.
A SOA Timor-Leste, por si só, não tem capacidade para responder a este problema. Cabe ao Governo desenvolver políticas claras para a pesca de subsistência e artesanal, investir em embarcações adequadas, capacitar os pescadores para a pesca em mar aberto e fornecer os equipamentos necessários. Só assim será possível reduzir a pressão sobre os recifes costeiros e garantir, ao mesmo tempo, o sustento das famílias que dependem do mar.
Que papel pode o Estado timorense desempenhar para reforçar a proteção dos oceanos e apoiar iniciativas como a SOA?
O Governo já iniciou a criação de áreas marinhas protegidas em vários locais do país. No entanto, o principal desafio é que ainda não houve investimento suficiente nas comunidades, de modo a permitir que os pescadores possam operar em mar aberto.
É fundamental que o Estado adquira embarcações com capacidade adequada e as disponibilize aos pescadores. Só assim as áreas marinhas protegidas poderão ser eficazes e produzir resultados positivos, tanto do ponto de vista ambiental como económico.
Olhando para o futuro, quais são as prioridades da SOA Timor-Leste para os próximos anos?
A SOA Timor-Leste é um grupo de base voluntária e, por isso, uma das prioridades imediatas é o registo no notariado, de modo a obter a legalização formal da organização. Pretendemos também reforçar a cooperação com o Governo, contribuindo para a implementação dos programas já definidos.
Outra prioridade passa pelo desenvolvimento de programas de investigação, com o objetivo de recolher dados científicos que possam apoiar o Governo na formulação de políticas públicas baseadas em estudos e evidências.
Que mensagem gostaria de deixar aos jovens timorenses que querem proteger os oceanos e contribuir para um futuro mais sustentável?
Aos jovens que têm paixão pelo mar, que se preocupam com os recursos naturais e com o ambiente, deixo um apelo para que mantenham a energia, a determinação e o espírito voluntário. Não percam a vontade de contribuir de forma consistente para a proteção dos oceanos, porque esse compromisso é essencial para o desenvolvimento sustentável de Timor-Leste.


