Ao volante do turismo: quando as mulheres abrem caminho em Timor-Leste

Pelágia guia turistas por diferentes pontos turísticos de Timor-Leste/ Foto: Diligente

Entre estradas precárias, ausência de licenças formais e desafios estruturais, uma mulher timorense decidiu transformar o gosto por viajar numa forma de sustento e de emancipação feminina. Como motorista e guia turística, aposta num turismo mais humano, natural e inclusivo, enquanto forma outras mulheres para entrarem num setor ainda dominado por homens.

Num país onde o turismo continua limitado por estradas em mau estado, falta de infraestruturas e escassez de formação especializada, Pelágia Devotíssima Soares decidiu não esperar por soluções institucionais. Transformou a paixão por conhecer o território num projeto próprio, conciliando o trabalho numa empresa com a atividade de motorista e guia turística independente.

A partir de Díli, conduz visitantes nacionais e internacionais por montanhas, ilhas e zonas remotas de Timor-Leste, valorizando a paisagem natural, a cultura local e o contacto com as comunidades. Mais do que acompanhar turistas, procura abrir espaço para outras mulheres num setor onde a presença feminina ainda é exceção, oferecendo formação em língua inglesa e aulas de condução a jovens em situação de vulnerabilidade.

Nesta entrevista, fala dos desafios do turismo timorense, da discriminação de género, da precariedade das estradas, dos custos elevados para os visitantes, da urgência de proteger o ambiente e da necessidade de um turismo que respeite a identidade do país — sem centros comerciais, mas com estradas dignas, natureza preservada e oportunidades reais para as mulheres.

Como começou a trabalhar como motorista e guia turística?

Comecei a dedicar-me a este trabalho em março de 2025. Gosto muito de passear e decidi transformar esse gosto numa fonte de rendimento, passando a trabalhar como motorista. Antes, costumava acompanhar colegas em passeios, mas não ganhava dinheiro e acabava por gastar mais. Pelo que conheço da realidade em Timor-Leste, há motoristas que transportam turistas, mas a maioria trabalha ligada a empresas. No meu caso, quis criar um projeto próprio e incluir apenas mulheres nesta área.

Está a trabalhar sozinha?

Neste momento, trabalho sozinha, mas estou também a preparar duas jovens timorenses que sofreram abusos e que não conseguiram encontrar um emprego estável. Uma delas conheci através da Uma Mahon e a outra contactou-me diretamente, porque se sentia perdida na vida. Ambas quiseram melhorar a sua situação económica.

Por isso, estou a apoiar a sua formação em língua inglesa. Espero que, no próximo mês, consigam concluir essa etapa. Depois disso, passaremos para a fase de aprendizagem da condução, para que possam tornar-se profissionais, tanto como motoristas como tradutoras. No futuro, terão direito a receber o seu próprio rendimento, sendo que uma pequena parte poderá contribuir para a nossa caixa comum. Prefiro trabalhar com mulheres, porque são pacientes e conduzem com calma e cuidado.

Atualmente, trabalha em simultâneo como funcionária de uma empresa e como motorista e guia turística. Como organiza o tempo?

No que diz respeito à atividade de guia turística, utilizo sobretudo os fins de semana e os feriados. Partilho sempre o meu contacto e o link do meu trabalho na página Turismo de Timor-Leste, uma plataforma onde os guias turísticos podem divulgar os seus serviços. Quando surgem pedidos para dias em que estou a trabalhar na empresa, procuro articular com outros colegas, que fazem a substituição. Dessa forma, uma parte do valor fica para eles e outra parte é destinada ao nosso cofre comum.

Já tem alguns turistas agendados?

Na próxima segunda-feira, está prevista a chegada de um cruzeiro. Um grupo de turistas contactou-me para os levar ao Cristo Rei. Vão deslocar-se em duas microletes e não haverá pagamento, uma vez que são turistas voluntários. Ainda assim, aceitei esta proposta com um critério: em troca, seguem e divulgam a minha página nas redes sociais.

Em agosto deste ano, está prevista a visita de um grupo organizado por uma agência de viagens de Portugal e Espanha. Esses turistas são investidores e manifestaram interesse em visitar o mercado de Taibessi, o mercado de Tais, Aileu, entre outros locais.

Já sentiu discriminação ou dificuldades por ser mulher neste setor?

Graças a Deus, não. Tenho contactado com outros guias turísticos de diferentes agências e sinto-me apoiada e encorajada por eles. Além disso, os turistas internacionais gostam e admiram ver que as mulheres timorenses também conseguem desempenhar este trabalho. Por isso, espero que, no futuro, não haja discriminação contra as mulheres.

Acredita que o seu trabalho contribui para mudar a forma como a sociedade vê o papel das mulheres?

Acho que sim. Quando trabalhamos como guias turísticos, temos de demonstrar profissionalismo. Quando uma mulher conduz um carro em zonas remotas, com estradas difíceis e perigosas, muitas pessoas, tanto homens como mulheres, ficam admiradas e surpreendidas. Já ouvi mulheres dizerem: se ela consegue, porque é que eu não posso?

“As mulheres devem criar o seu próprio emprego e não depender do Governo nem dos homens”

Que conselhos daria a jovens mulheres timorenses que gostassem de seguir este caminho profissional?

Em Timor-Leste, antes de transportar turistas, é exigida uma licença de guia turística. No entanto, ainda não existe formação específica no país para a obtenção dessa licença. Se for necessário obtê-la, teremos de procurar formação noutros países. O que explico aos turistas é que, em Timor-Leste, este processo ainda não está implementado e que continuo à procura de uma forma de obter essa licença.

Relativamente à profissão de motorista, muitas pessoas ouvem esta palavra e concluem logo que se trata apenas de conduzir. No entanto, uma motorista conhece bem o ambiente, o território e as comunidades locais. Quando alguém é motorista e, ao mesmo tempo, guia turística, tem mais oportunidades de criar redes de contacto e de conhecer melhor o país.

Uma jovem contou-me que alguns colegas duvidaram que ela fosse motorista. Eu disse-lhe que essas dúvidas surgem porque essas pessoas não têm vontade de aumentar os seus conhecimentos. Se uma mulher sabe conduzir e domina línguas estrangeiras, está a aprender constantemente e a explorar novas oportunidades.

Recomendo às jovens que não se esqueçam de dar prioridade à educação. Tenho notado que muitas mulheres fazem cursos na área do turismo, mas acabam por trabalhar apenas no Ministério do Turismo ou em hotéis. Na minha opinião, isso não é suficiente. As mulheres devem criar o seu próprio emprego, para não dependerem do Governo nem dos homens.

Que tipo de turistas costuma acompanhar com mais frequência?

Os turistas gostam sobretudo de subir montanhas, em especial o Ramelau, e de mergulhar. Muitos também preferem visitar a parte leste do país, porque, durante a viagem, apreciam o contraste da paisagem: de um lado da estrada há montanhas e, do outro, o mar, algo que consideram semelhante a Maliana. No centro de Timor-Leste predominam, as montanhas e, à primeira vista, despertam menos interesse. No entanto, quando chegam ao destino, os turistas ficam surpreendidos com o ambiente fresco e natural.

Quem foram os primeiros turistas que acompanhou?

Os primeiros turistas que acompanhei foram duas pessoas da Malásia, um casal. Partilhei informação na página Díli Internacional Turismo, apresentando-me como mulher motorista e disponibilizando-me para transportar turistas interessados em conhecer e explorar Timor-Leste.

O casal contactou-me e aceitou o preço que propus. No primeiro dia, fiz o transporte e eles ficaram satisfeitos, porque durante a viagem mantive sempre conversa com eles. Fomos a Seloi, em Aileu, e ficaram impressionados, porque a estrada é difícil e exige muita atenção, mas consegui conduzir com segurança, superando a adrenalina do percurso.

Outra coisa que os surpreendeu foi o facto de não utilizarmos GPS. Perguntaram-me se os timorenses não usam GPS, e eu expliquei que, na maioria das vezes, não usamos, porque não há boa ligação à internet. Muitas vezes, recorremos ao nosso próprio conhecimento do terreno e ao instinto. Depois de Aileu, seguimos para Fleixa, em Maubisse, Ainaro, e mais tarde para o monte Ariana, em Venilale, Baucau.

Esse casal partilhou a minha informação com outros contactos. A partir daí, começaram a surgir novos pedidos e já acompanhei muitos outros turistas.

Que perguntas os turistas fazem com mais frequência sobre Timor-Leste?

Os turistas perguntam sobretudo sobre as infraestruturas. Muitos dizem que Timor-Leste não precisa de mais centros comerciais. Referem que o país já faz parte da ASEAN e que, noutros países da região, muitos pontos turísticos estão associados a centros comerciais e hotéis. Valorizam o facto de Timor-Leste se manter natural e fresco, afirmando que já estão cansados dos destinos turísticos massificados e que procuram explorar lugares novos, com ambientes naturais.

Ainda assim, dizem que é necessário melhorar as estradas, a hospitalidade e outras áreas essenciais. Quanto às caminhadas em montanha, referem que também são uma experiência de adrenalina, precisamente porque tudo é natural.

Relativamente à explicação dos locais turísticos, faço pesquisa junto dos mais velhos das comunidades para recolher informações históricas e culturais. Organizo esses dados na minha agenda e, depois, partilho-os com os turistas durante as visitas.

“Os turistas reclamam de várias coisas, sobretudo do preço dos bilhetes de avião e do custo dos hotéis. Referem que, em países como a Indonésia, a Malásia ou Singapura, viajar é mais barato, enquanto em Timor-Leste tudo é mais caro e as infraestruturas não facilitam”

As estradas e as infraestruturas existentes facilitam ou dificultam o seu trabalho?

As estradas são precárias e, muitas vezes, dificultam o trabalho. Ainda assim, gosto muito do que faço e prefiro enfrentar essas dificuldades a desistir.

Relativamente às infraestruturas, os próprios turistas costumam referir que o Governo deveria prestar mais atenção a esta área. No entanto, quando estou a trabalhar com turistas, evito falar de política, porque não é da minha responsabilidade comentar esses assuntos sem dados concretos. Ainda assim, espero que o país continue a melhorar, mesmo tendo apenas cerca de 20 anos de independência.

Devido à precariedade das estradas, os preços de alguns serviços acabam por ser mais elevados, o que inicialmente preocupa os turistas. No entanto, depois de conhecerem a realidade no terreno, muitos reconhecem que há razões para os timorenses cobrarem preços mais altos.

Em Timor-Leste, a hospitalidade e a viagem para chegar ao país são caras. Os turistas não reclamam dos preços?

Os turistas reclamam de várias coisas, sobretudo do preço dos bilhetes de avião e do custo dos hotéis. Referem que, em países como a Indonésia, a Malásia ou Singapura, viajar é mais barato, enquanto em Timor-Leste tudo é mais caro e as infraestruturas não facilitam.

Da minha parte, procuro dar o melhor serviço possível. Por isso, reduzo o preço do meu trabalho sempre que posso e levo comida no carro, para que os turistas se sintam mais satisfeitos e compreendam melhor o valor que estão a pagar.

Na sua opinião, qual é o maior potencial do turismo em Timor-Leste?

Timor-Leste tem um grande potencial turístico, sobretudo porque muitas áreas ainda se mantêm naturais. O problema é que o acesso a esses lugares é difícil. Espero que o Governo invista na melhoria das estradas, mas que evite atrair investidores que destruam a beleza natural do país para a substituir por estruturas artificiais.

É verdade que os investidores criam empregos para jovens timorenses, mas muitos não pensam na qualidade dos projetos nem na proteção do ambiente. Um exemplo concreto é Areia Branca: nos feriados e nos fins de semana, há muito lixo espalhado, sobretudo perto de um novo restaurante. Pelo menos esse restaurante coloca caixotes do lixo à beira da estrada, em frente ao seu espaço.

Quando eu era criança, a zona do Cristo Rei era muito limpa e havia poucas pessoas. Atualmente, há mais visitantes, mas também mais desordem e menos cuidado com o espaço.

Que lugar ou experiência gosta mais de partilhar com quem visita o país?

Gosto de partilhar todo o território, porque Timor-Leste é um país bonito em todas as suas regiões. No entanto, o Governo, sobretudo o Ministério do Turismo, precisa de envolver mais a população na proteção do ambiente e da natureza.

Por exemplo, em Doko Mali, há um senhor que cuida do local e alerta constantemente as pessoas para preservarem o espaço. Normalmente, deixamos um dólar por pessoa, o que lhe permite manter o local limpo e bem cuidado. É importante haver algum valor operacional, para que quem está no terreno possa proteger o ambiente.

Muitas vezes, as pessoas entram nos locais turísticos e exigem acesso gratuito, o que acaba por dificultar a gestão e a segurança desses espaços. Outro problema é a alimentação: quando viajamos para zonas remotas, é difícil encontrar comida de qualidade ao longo do percurso, pelo que, muitas vezes, temos de levar a nossa própria comida.

Que locais já levou turistas a conhecer?

Já acompanhei turistas a vários locais, como Aileu, Díli Vanili — um espaço de produção de baunilha com potencial de exportação —, Jaco, Tutuala, Venilale, Baucau e Bobonaro. Muitos dos turistas que acompanhei visitaram o país durante a época das chuvas, o que dificulta o acesso a algumas zonas, como Ermera, devido à precariedade das estradas. Para mim, é essencial garantir conforto e segurança aos clientes.

Entre os locais turísticos, qual é o sítio que prefere mostrar aos turistas?

Escolho a ilha de Jaco, porque, depois de lá chegarem, os turistas sentem-se como donos da ilha. É um lugar tranquilo, onde não há outras pessoas a incomodá-los, o que torna a experiência muito especial.

“Apenas ao ouvirem a palavra ‘sagrada’, os visitantes têm medo e não têm coragem de deitar lixo”

Como avalia o desenvolvimento do turismo em Timor-Leste nos últimos anos?

Existem locais turísticos muito bons, mas tudo depende do comportamento dos visitantes. Ainda não temos um verdadeiro sentido de valorização dos espaços, porque muitas pessoas continuam a deitar lixo em qualquer lugar. Por exemplo, visitei a Ponte Natureza, em Venilale, e quando chegámos lá a população local explicou que os visitantes não podiam deixar lixo, porque se trata de um local sagrado.

Ao ouvirem a palavra “sagrada”, os visitantes ficam receosos e evitam deitar lixo. Por isso, o espaço mantém-se muito limpo. Acredito que, em Timor-Leste, devia existir maior consciencialização, porque muitos locais turísticos sofrem com o lixo espalhado, como acontece no Cristo Rei, onde há muito lixo a céu aberto. O local é bonito, mas falta limpeza.

Nos municípios, existem sítios muito bonitos, mas o acesso é difícil. Para lá chegar, é preciso enfrentar estradas em mau estado e, por vezes, trajetos demorados e arriscados, sobretudo durante a época das chuvas. Falta também investimento em recursos humanos para cuidar e promover os locais turísticos. Sinceramente, não sei em que áreas o nosso ministério está atualmente mais focado.

Não há licença. Como é que consegue guiar turistas?

Fiz muitas viagens e, nesse processo, os meus colegas passaram a tratar-me como guia turística. Foi assim que aprendi, na prática, a acompanhar turistas. Também recorri ao YouTube para aprender técnicas.

Uma das grandes dificuldades em Timor-Leste é a inexistência de uma aplicação de reserva de guias turísticos. Por isso, estou a tentar criar uma aplicação própria, para que os turistas possam fazer reservas diretamente.

“Por exemplo, em Maubisse, coincidimos com uma atividade cultural e, para os turistas, isso foi turismo na sua forma mais genuína”

O que gostaria que os visitantes compreendessem melhor sobre a tradição e a vida em Timor-Leste?

Gostava que cultura e turismo caminhassem juntos. Os turistas podem conhecer a tradição e, ao mesmo tempo, viver uma experiência turística autêntica. Por exemplo, em Maubisse, coincidimos com uma atividade cultural e, para os turistas, isso foi turismo na sua forma mais genuína.

Os visitantes disseram-me que a tradição em Timor-Leste é totalmente natural, porque ainda não houve uma forte modernização. Disseram também que o país deve preservar essa autenticidade, porque esta é, verdadeiramente, a nossa identidade.

Quais são os seus planos para o futuro?

Gostaria de frequentar formações com reconhecimento internacional para melhorar o meu profissionalismo como guia turística, incluindo formação na criação de websites e plataformas digitais.

“Tivemos de ir para a clínica Flodova. Isto mostra que, quando é necessário tratar turistas, não me sinto segura em recorrer aos hospitais públicos”

Sabemos que em Timor-Leste há falta de casas de banho públicas, tanto na cidade como nas zonas remotas. Como é que os turistas se adaptam a esta realidade?

Antes de os turistas virem a Timor-Leste, aviso sempre que o país ainda carece de muitas infraestruturas. É importante que tenham essa informação antecipadamente, para não ficarem surpreendidos ou assustados. Digo-lhes também que é uma experiência diferente daquelas que podem viver nos seus países de origem.

Como avalia o sistema de saúde em Timor-Leste e de que forma essa realidade influencia a experiência e a segurança dos turistas?

Houve um caso em que emprestei a minha mota a um turista que foi até Hera. Lá, foi arranhado por um macaco e levei-o ao DMC, mas não havia vacina contra a raiva. Tivemos de ir para a clínica Flodova. Isto mostra que, quando é necessário tratar turistas, não me sinto segura em recorrer aos hospitais públicos. Prefiro levá-los a clínicas privadas ou internacionais, para garantir melhor assistência.

“Às vezes, os visitantes perguntam o que significa RW. Quando digo que se trata de carne de cão, ficam assustados”

Quem apoia a sua atividade?

A minha família apoia-me. Como o apoio governamental costuma ser limitado ou condicionado, decidi seguir o meu caminho de forma independente. Se recorrer ao Governo, será apenas para formação em hospitalidade e em serviço de guia turístico.

O que gostaria de mudar no setor do turismo?

Gostaria de mudar muitas coisas, mas daria prioridade às infraestruturas, sobretudo às estradas, e à gastronomia. Depois de longas viagens, muitas vezes só encontramos frango assado. Muitos turistas perguntam porque é que não há maior diversidade na comida timorense.

Costumo explicar que Timor-Leste é um país pós-conflito e que, durante muitos anos, comíamos apenas para sobreviver, não para desfrutar. Espero que, daqui a 20 anos, possamos encontrar uma gastronomia mais diversificada, sobretudo nas estradas e nos municípios. Às vezes, os visitantes perguntam o que significa RW. Quando digo que se trata de carne de cão, ficam assustados.

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