Cardiologia em Timor-Leste: avanços tímidos e grandes desafios

"É necessário melhorar a cardiologia em todos os níveis, desde os cuidados primários nas unidades hospitalares próximas das comunidades, até aos cuidados secundários e terciários."/ Foto: Diligente

Apesar do aumento de especialistas nos últimos anos, Timor-Leste continua sem capacidade para realizar cirurgias cardíacas complexas ou colocar pacemakers. A falta de recursos técnicos e humanos obriga muitos doentes a procurar tratamento no estrangeiro. O cardiologista Herculano dos Santos defende maior investimento na prevenção, diagnóstico e resposta local.

Timor-Leste enfrenta sérios desafios na área da cardiologia, marcados pela escassez de subespecialistas e pela ausência de recursos para procedimentos avançados, como cirurgias cardíacas ou a colocação de pacemakers. Embora o número de cardiologistas tenha aumentado, muitos pacientes continuam a depender de transferências para o exterior.

Herculano dos Santos, cardiologista, licenciou-se em Medicina Geral pela Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL) em 2011 e exerceu várias funções no Ministério da Saúde. Em 2017, prosseguiu a especialização em cardiologia em Cuba, numa altura em que o país registava um aumento das doenças cardiovasculares — hipertensão, ataques cardíacos, arritmias, doenças cardíacas reumáticas e cardiopatias congénitas. Após a independência, Timor-Leste contava apenas com um especialista na área; atualmente, existem 11 cardiologistas formados em diferentes países.

Na entrevista ao Diligente, o médico explica os obstáculos que a cardiologia enfrenta em Timor-Leste, desde a falta de recursos humanos e técnicos até à impossibilidade de tratar localmente os casos mais graves. Segundo o especialista, o país consegue responder a doenças de baixo risco, como hipertensão ou arritmias ligeiras, mas continua dependente do exterior para cirurgias cardíacas e tratamentos mais complexos.

Qual é o maior desafio de ser cardiologista em Timor-Leste?

O maior desafio é que, mesmo depois de termos aumentado o número de especialistas, os problemas de saúde pública relacionados com o coração também cresceram. Entre 2022 e 2024, o Hospital Nacional Guido Valadares (HNGV) registou cerca de 300 casos de cardiopatia congénita. Todos os dias, entre 40 e 60 pessoas procuram o sistema de saúde para realizar exames e diagnósticos cardíacos. Por isso, um estudo indicou que, entre 2009 e 2020, Timor-Leste transferiu muitos pacientes para o estrangeiro. Dessas doenças, 21% estavam relacionadas com problemas do coração. No total, todos os tipos de doenças representam uma despesa anual para o Estado entre 5 e 10 milhões de dólares.

Outro desafio é a inexistência de serviços de diagnóstico avançado, como a intervenção invasiva ou a cirurgia cardíaca. Procedimentos como a colocação de stents ou de pacemakers não podem ser feitos em Timor-Leste, porque não existem instalações adequadas nem equipamentos específicos para esse tipo de intervenção.

Além disso, continuamos a ter falta de recursos humanos nas áreas de subespecialização, porque a cardiologia abrange vários ramos. Entre os onze cardiologistas que temos atualmente no país, apenas um conseguiu formar-se em cardiologia intervencionista. Precisamos de profissionais com subespecialidades em áreas como arritmia, eletrofisiologia ou cardiologia pediátrica, entre outras. E, além dos médicos, é fundamental contar com uma equipa multidisciplinar sólida, que inclua enfermeiros e técnicos especializados, para garantir um apoio eficaz e integral neste campo.

“Quanto à cardiopatia congénita, esta está muitas vezes relacionada com cuidados durante a gravidez. Algumas mães não realizam acompanhamento médico adequado, não tomam suplementos como vitaminas ou apresentam má alimentação. Há ainda casos de consumo de tabaco e álcool durante a gestação, o que pode comprometer o desenvolvimento do sistema cardiovascular. Como consequência, as crianças podem nascer com problemas cardíacos”

O especialista referiu que, para colocar pacemakers, implantar anéis no coração ou realizar cirurgias cardíacas, Timor-Leste ainda precisa de transferir pacientes para o exterior. Que tipo de doenças cardíacas podem ser tratadas aqui?

Aqui, a maioria dos casos corresponde a cardiopatia hipertensiva, que tratamos com medicação. Também recebemos muitos pacientes com cardiopatia isquémica considerada de baixo risco, que podem ser acompanhados dentro do país. Além disso, tratamos casos de insuficiência cardíaca que não necessitam de intervenção cirúrgica ou invasiva, como o reumatismo cardíaco de grau leve e moderado. Outro grupo são as arritmias leves, que também conseguimos controlar aqui.

Considera que em Timor-Leste existe falta de informação e sensibilização da população sobre a prevenção das doenças cardíacas?

Ainda não realizámos inquéritos específicos sobre isso, por isso não sabemos até que ponto a nossa população está informada sobre os riscos, os tipos ou os sintomas das doenças do coração. Acho que precisamos de realizar um inquérito nesse sentido. De forma geral, fazemos promoção através dos media, de seminários e de outras atividades. A meu ver, nas áreas remotas, existe limitação no acesso a informação adequada. Por isso, no futuro, pretendemos intensificar as ações de promoção e sensibilização nessas áreas.

“Fatores ambientais, como o acesso limitado a saneamento básico e a água potável, também contribuem para o aumento dos casos de reumatismo cardíaco”

Que hábitos ou estilos de vida mais contribuem para problemas cardíacos entre os timorenses?

De acordo com a nossa investigação sobre doenças não transmissíveis, cerca de 70% da população timorense fuma, o que representa um risco elevado. Em seguida, quase 17% consome bebidas alcoólicas, como vinho. Outros hábitos de risco incluem o consumo de alimentos pouco saudáveis, ricos em calorias, sal, açúcar e óleo.

Outro fator é a falta de prática regular de exercício físico; a vida sedentária é preocupante, porque muitos cidadãos trabalham durante o dia e, ao regressarem a casa, não conseguem dedicar tempo à atividade física. A obesidade, o stress, a diabetes e a hipertensão são também fatores de risco. Um inquérito mostrou que 30% da população sofre de tensão arterial elevada. Estes fatores de risco estão relacionados com estilos de vida que aumentam a incidência das doenças cardiovasculares.

No caso da febre reumática, que pode evoluir para doença cardíaca, o fator de risco principal é a bactéria estreptococo do grupo A (estreptococos beta-hemolíticos do grupo A). A má higiene das crianças, como não tomar banho regularmente, pode causar infeções na pele, e a falta de cuidados com a higiene oral pode provocar feridas na garganta. Fatores ambientais, como o acesso limitado a saneamento básico e a água potável, também contribuem para o aumento dos casos de reumatismo cardíaco.

Quanto à cardiopatia congénita, esta está muitas vezes relacionada com cuidados durante a gravidez. Algumas mães não realizam acompanhamento médico adequado, não tomam suplementos como vitaminas ou apresentam má alimentação. Há ainda casos de consumo de tabaco e álcool durante a gestação, o que pode comprometer o desenvolvimento do sistema cardiovascular. Como consequência, as crianças podem nascer com problemas cardíacos.

É possível realizar tratamentos cardíacos a crianças em Timor-Leste?

Sim, há possibilidade de tratamento. Depois de uma cirurgia corretiva, a recuperação depende do tipo de malformação. Tanto os casos simples como os mais complexos podem recuperar e resultar em crianças saudáveis, que poderão frequentar a escola e brincar como qualquer outra criança.

“Outra questão fundamental é o fortalecimento das políticas públicas relacionadas com os fatores de risco. Por exemplo, Timor-Leste tem legislação sobre o controlo do tabaco, aprovada pelo Conselho de Ministros em 2016, mas a sua implementação ainda não é eficaz. É necessário proibir o consumo de álcool por crianças e promover a prática de exercício físico em espaços públicos e estabelecimentos escolares, atividades que anteriormente se realizavam às sextas-feiras”

Que melhorias urgentes o país precisa na área da cardiologia?

É necessário melhorar a cardiologia em todos os níveis, desde os cuidados primários nas unidades hospitalares próximas das comunidades, até aos cuidados secundários e terciários. O país precisa de reforçar a promoção da educação para a saúde junto da população.

Outra questão fundamental é o fortalecimento das políticas públicas relacionadas com os fatores de risco. Por exemplo, Timor-Leste tem legislação sobre o controlo do tabaco, aprovada pelo Conselho de Ministros em 2016, mas a sua implementação ainda não é eficaz. É necessário proibir o consumo de álcool por crianças e promover a prática de exercício físico em espaços públicos e estabelecimentos escolares, atividades que anteriormente se realizavam às sextas-feiras.

Em Timor-Leste, uma preocupação importante é o reumatismo cardíaco. A prevenção passa pelo acesso a água potável e saneamento adequado, além de garantir uma boa nutrição à população.

Para o tratamento, o Governo precisa de investir em meios de diagnóstico avançados e em tratamento cirúrgico no país. É necessário adquirir equipamentos para cateterismo cardíaco e cirurgia cardíaca, que ainda não estão disponíveis. Com a adesão de Timor-Leste à ASEAN, torna-se ainda mais urgente fortalecer o sistema de saúde para garantir um atendimento de qualidade.

Se quisermos promover o turismo, é fundamental ter um sistema de saúde eficiente. Os hospitais devem dispor de equipamentos completos para qualquer tipo de tratamento e de recursos humanos qualificados para atender adequadamente os visitantes. Por exemplo, caso um turista sofra um ataque cardíaco durante a visita, é essencial prestar assistência imediata e eficaz.

O Governo deve ainda reforçar bolsas de estudo para subespecializações e apoiar a formação contínua dos profissionais de saúde, de modo a formar recursos humanos qualificados e competentes para atender às necessidades do país.

Existem colaborações ou apoios internacionais que estejam a ajudar a desenvolver a cardiologia em Timor-Leste?”

Trabalhamos em colaboração com a organização East Timor HardFund, que, anualmente, financia o tratamento de pelo menos cinco pacientes na Austrália.

A organização também forneceu dois equipamentos de ecocardiografia e uma máquina programadora de marcapasso. Este equipamento serve para avaliar pacientes que já utilizam marcapassos e verificar se a programação está adequada. Se necessário, é possível reprogramar a bateria no próprio país ou enviar o paciente para o exterior para a substituição. Anteriormente, sem esses equipamentos, muitos casos tinham de ser transferidos para tratamento fora de Timor-Leste.

A organização apoia ainda o desenvolvimento do plano estratégico da cardiologia, facilitando a participação de cardiologistas timorenses em formações na Austrália. Esperamos que outros hospitais, com os quais o Governo cooperou para envio de pacientes, também possam apoiar a formação dos profissionais de saúde.

Como imagina a cardiologia em Timor-Leste daqui a 10 anos?

Espero que, no futuro, Timor-Leste tenha um centro cardíaco com profissionais qualificados e tecnologia moderna, capaz de oferecer assistência de qualidade à população. Isso permitirá reduzir a dependência de transferências de pacientes para o exterior, garantindo a confiança da população no sistema de saúde e diminuindo a mortalidade por doenças cardíacas.

Em 10 anos, esperamos também consolidar uma cultura de prevenção, incentivando estilos de vida saudáveis para reduzir a incidência de problemas cardíacos no país.

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