Quando não há creches acessíveis nem respostas públicas para o cuidado das crianças, são as mulheres que alteram a vida profissional. Levam os filhos para o trabalho, dependem da família ou abandonam o emprego. Enquanto isso, a carreira dos homens raramente sofre o mesmo impacto. Em Timor-Leste, a falta de políticas públicas para os cuidados infantis continua a aprofundar as desigualdades de género e a limitar a participação das mulheres no mercado de trabalho
Durante vários anos, a filha de Filomena Sequeira passou as manhãs no gabinete onde a mãe trabalha como funcionária pública. Não porque aquele fosse um espaço pensado para crianças, mas porque não havia ninguém que pudesse cuidar dela. “Não tinha alternativa”, recorda.
Quando nasceu a primeira filha, Filomena conseguiu conciliar a maternidade com o emprego graças ao apoio da mãe, com quem vivia no Bairro Pité. Enquanto o marido trabalhava na Coreia do Sul, era ela quem assegurava praticamente sozinha os cuidados da criança.
Tudo mudou quando a mãe adoeceu e morreu. Sem a principal rede de apoio, passou a depender da irmã para cuidar da filha mais nova. Entretanto, a filha mais velha entrou para a escola e surgiu um novo problema: as aulas decorriam apenas durante a tarde. Durante toda a manhã, precisava de alguém que ficasse com ela. A solução foi levá-la para o trabalho.
“Preparava-lhe o almoço em casa, colocava-o numa lancheira e levava-a comigo.” Os colegas acolheram a criança e ajudaram sempre que foi necessário, permitindo que Filomena mantivesse o emprego. Ainda assim, conciliar o trabalho com a maternidade tornou-se um exercício diário de equilíbrio.
“Ela brincava, corria e tinha a energia normal de uma criança. Havia dias em que era difícil concentrar-me, mas sabia que ela não tinha culpa.” Ao meio-dia, dava-lhe o almoço e seguia diretamente para a escola.
Hoje, olha para esse período como um dos mais difíceis da sua vida. “Muitas vezes, sentia-me completamente sobrecarregada. Tinha de dividir constantemente a atenção entre o trabalho e as minhas filhas.”
Apesar das dificuldades, nunca ponderou contratar uma ama. “Tanto eu como o meu marido sempre preferimos que as nossas filhas fossem cuidadas por familiares. Não é uma questão de dinheiro. Sentimo-nos mais seguros.”
A história de Filomena ilustra uma realidade comum em Timor-Leste. Quando não existe uma resposta pública para o cuidado das crianças, as famílias recorrem a avós, irmãos, tios ou vizinhos. Mas, quando essa rede falha, são sobretudo as mulheres que reorganizam a vida profissional para garantir os cuidados aos filhos.
Os dados confirmam esta desigualdade. Segundo o Inquérito à Força de Trabalho de 2021, apenas 24,2% das mulheres em idade ativa participavam no mercado de trabalho, contra 36,9% dos homens. A organização identifica o trabalho de cuidado não remunerado como um dos principais fatores que explicam esta diferença.
A desigualdade estende-se também à qualidade do emprego. Cerca de 80,4% das mulheres empregadas trabalham no setor informal, face a 75,3% dos homens, o que significa menor proteção social e maior vulnerabilidade económica.
A tendência repete-se à escala mundial. Em 2023, cerca de 708 milhões de mulheres estavam fora do mercado de trabalho devido às responsabilidades de cuidado não remunerado. Entre os homens, esse número era de apenas 40 milhões, segundo a OIT.
As Nações Unidas têm alertado para as desigualdades que persistem em Timor-Leste na distribuição das responsabilidades familiares e no acesso ao emprego digno, apesar dos progressos alcançados na participação política das mulheres.
Na prática, quando não existe uma resposta pública para cuidar das crianças, são quase sempre as mães que suportam as consequências. Para algumas, isso significa levar os filhos para o trabalho. Para outras, significa crescer longe deles.
Foi o que aconteceu a Angelina Ximenes Barreto, que conheceu outra consequência da falta de respostas para o cuidado das crianças: continuar a trabalhar significou crescer longe dos filhos.
Mãe de dois rapazes, hoje com quatro e cinco anos, trabalhava em Díli quando nasceu o primeiro filho. Sem familiares disponíveis para a ajudar na capital e sem acesso a uma creche que pudesse suportar financeiramente, tomou uma decisão que ainda hoje lhe custa recordar.
Enviou o bebé para o Suai, onde ficou aos cuidados da avó materna. “Todos os meses, enviava dinheiro e tudo o que ele precisava.”
Quando nasceu o segundo filho, decidiu que faria tudo para o manter consigo. Contratou uma ama, pagando-lhe praticamente o equivalente ao salário mínimo nacional. Poucos meses depois, a cuidadora desistiu. Encontrou outra pessoa, mas a experiência durou apenas uma semana. “Perdi a confiança. Preferi levá-lo comigo para o trabalho.”
Durante vários meses, o bebé acompanhou diariamente a mãe no local de trabalho. “Tive sorte porque os meus colegas compreenderam a minha situação e ajudaram-me.” Mas a solução revelou-se insustentável.
Sem apoio do pai das crianças e com as irmãs ainda a estudar, Angelina acabou por tomar uma decisão que descreve como uma das mais dolorosas da sua vida: enviou também o filho mais novo para o Suai.
Durante vários anos, os dois irmãos cresceram com os avós. “Custou-me muito, mas não tinha outra solução.” Só quando chegou a altura de iniciarem a escola decidiu trazê-los novamente para Díli. Mesmo assim, os problemas não terminaram.
Gostaria de os ter colocado numa creche desde muito cedo, mas o preço era demasiado elevado para o orçamento familiar. Além das despesas com os filhos, ajudava financeiramente os pais, apoiava os irmãos e contribuía para as despesas da casa onde vivia.
Hoje, paga cerca de 270 dólares por mês pela creche dos dois filhos — mais do dobro do salário mínimo nacional, fixado em 115 dólares desde 2011.
Apesar desse esforço financeiro, continua a depender de irmãs, tios e outros familiares para conseguir cumprir os horários de trabalho. “Quando ninguém pode ficar com eles, continuo a levá-los comigo.”
Na sua opinião, uma rede pública de creches mudaria profundamente a vida de muitas famílias. “Aliviaria muito o orçamento e acabaria com a preocupação constante de encontrar alguém para cuidar dos nossos filhos.”
Se Filomena conseguiu manter o emprego levando a filha para o trabalho e Angelina continuou a trabalhar à custa da separação dos filhos e de uma despesa elevada com a creche, para outras mulheres nem essas soluções são possíveis.
Mãe de duas crianças — uma com três anos e outra com apenas um mês — Maria da Costa deixou o emprego num instituto público em Díli porque simplesmente não tinha com quem deixar os filhos. “Decidi deixar de trabalhar porque não havia ninguém que pudesse cuidar deles.”
O marido trabalha num restaurante na capital e recebe o salário mínimo nacional, 115 dólares por mês, atualmente o único rendimento da família.
Embora viva com a sogra, a idade avançada impede-a de assumir diariamente os cuidados das crianças. “Ela já é muito frágil. Não posso deixá-la responsável pelos meus filhos.”
Sem familiares disponíveis e sem recursos para contratar uma ama ou pagar uma creche, Maria considera que não teve escolha. “Com o salário do meu marido mal conseguimos pagar as despesas da família. Como poderíamos pagar a outra pessoa para cuidar dos nossos filhos?”
Gostaria de voltar a trabalhar. Não apenas para aumentar o rendimento da família, mas também para recuperar a independência financeira.
No entanto, não consegue imaginar quando isso será possível. “Quero ajudar o meu marido, mas sinto que os meus filhos são como uma corda que prende as minhas mãos e os meus pés.”
Ao fim de semana, as irmãs visitam-na e ajudam durante algumas horas. É o único momento em que consegue descansar um pouco. Pensa, por vezes, numa solução que lhe provoca sofrimento: enviar os filhos para viverem com os avós, em Baucau, para poder regressar ao mercado de trabalho. “Ainda não falámos sobre isso. Eles ainda são muito pequenos.”
As histórias de Filomena, Angelina e Maria mostram três respostas diferentes ao mesmo problema. Uma levou a filha para o trabalho. Outra viveu anos longe dos filhos e continua a suportar uma despesa que pesa fortemente no orçamento familiar. A terceira deixou de trabalhar.
Em comum, há uma realidade que atravessa as três histórias: foram elas — e não os homens — quem alterou a vida profissional para garantir os cuidados às crianças.
Mas porque é que tantas famílias continuam sem alternativas?
Responder a esta pergunta não é simples. Nas fontes oficiais consultadas pelo Diligente, não foi possível encontrar dados nacionais completos e atualizados sobre o número de creches que acolhem crianças com menos de três anos, a sua capacidade, os custos praticados ou a distribuição destes serviços pelo território.
A informação oficial disponível concentra-se sobretudo no ensino pré-escolar, destinado às crianças entre os três e os cinco anos. Mesmo nesse nível, a cobertura continua a ser reduzida.
Segundo o Censo da População e Habitação de 2022, divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística de Timor-Leste (INETL), apenas 20.436 das 100.535 crianças entre os três e os cinco anos frequentavam um estabelecimento de ensino, o equivalente a 20,3% desta população.
Uma avaliação realizada em 2022 pelo Ministério da Educação, Juventude e Desporto e pela UNICEF concluiu que o sistema de educação pré-escolar permanecia fragmentado, com iniciativas a funcionar de forma isolada e sem uma estratégia nacional coerente. O estudo refere ainda que os sistemas oficiais não abrangiam todos os programas existentes e que o financiamento destinado ao setor estava muito abaixo das referências internacionais. A situação das crianças com menos de três anos é ainda menos clara.
No relatório Women, Business and the Law 2024, o Banco Mundial atribuiu a Timor-Leste 0 pontos em 100 no que toca ao enquadramento legal dos serviços de cuidados infantis.
Segundo o relatório, não foi possível identificar legislação que obrigue à existência de serviços de creche ou infantário, estabeleça normas de qualidade para o seu funcionamento ou preveja apoios financeiros às famílias para suportar estes custos.
Na prática, isso significa que muitas famílias continuam a depender quase exclusivamente da ajuda de familiares ou de soluções privadas para cuidar das crianças mais pequenas.
O problema, contudo, não é novo. Em 2019, o Parlamento Nacional aprovou a Resolução n.º 10/2019, na qual recomendava ao Governo a criação de uma rede de creches e infantários, bem como a definição de normas de funcionamento e segurança para estes estabelecimentos.
Apesar dessa recomendação, muitas famílias continuam hoje sem uma resposta pública para o cuidado das crianças com menos de três anos.
O Diligente enviou perguntas ao Ministério da Educação e à Secretaria de Estado da Igualdade sobre a eventual criação de uma rede pública de creches, o número de equipamentos existentes no país, os planos para alargar a oferta de cuidados infantis e outras medidas destinadas a facilitar a conciliação entre a vida profissional e familiar.
Foram ainda solicitados esclarecimentos sobre as políticas previstas para reduzir as desigualdades associadas ao trabalho de cuidado não remunerado e promover uma participação mais equilibrada de mulheres e homens nas responsabilidades familiares.
Até ao fecho desta reportagem, o Diligente não recebeu qualquer resposta.
“Independentemente da decisão que tomem, muitas mães sentem que estão a falhar. Se trabalham, culpam-se por deixarem os filhos. Se ficam em casa, culpam-se por interromperem a carreira ou por não contribuírem para o rendimento da família”
“Não é apenas um problema económico. É também um problema emocional”
Para o psicólogo Alessandro Boarccaech, a ausência de respostas públicas para o cuidado das crianças tem consequências que vão muito além das dificuldades financeiras das famílias.
“Quando não existe um local seguro e acessível onde deixar os filhos, muitas mães vivem numa procura permanente de soluções. Todos os dias têm de pensar quem ficará com a criança no dia seguinte. Além do desgaste prático, existe um custo emocional constante, porque nunca conseguem planear o futuro com tranquilidade.”
Segundo o psicólogo, esta pressão prolongada gera frequentemente sentimentos de culpa. “Independentemente da decisão que tomem, muitas mães sentem que estão a falhar. Se trabalham, culpam-se por deixarem os filhos. Se ficam em casa, culpam-se por não contribuírem para o rendimento da família ou por verem a carreira profissional interrompida.”
Essa pressão acaba também por refletir-se nas crianças. “A criança é muito sensível ao estado emocional de quem cuida dela. Quando a mãe vive sob tensão e sobrecarga, isso pode refletir-se na relação com o filho, reduzindo a disponibilidade emocional, a paciência e o tempo de qualidade.”
Boarccaech sublinha, contudo, que o problema não está nos avós, nas amas ou nas creches, mas na falta de soluções estáveis para as famílias. “Quando uma família é obrigada a recorrer sucessivamente a diferentes soluções de cuidado por não encontrar uma resposta estável e acessível, isso aumenta a insegurança e o desgaste de todos os envolvidos.”
Na sua perspetiva, esta pressão não afeta apenas as mulheres que trabalham fora de casa. “As mães que permanecem em casa também enfrentam uma enorme sobrecarga. Além de cuidarem dos filhos, assumem quase sempre a maior parte das tarefas domésticas. É um trabalho exigente, permanente e muitas vezes invisível, porque não é remunerado nem socialmente reconhecido.”
O psicólogo defende que aliviar esta pressão exige uma resposta pública. “A criação de uma rede pública e acessível de creches é uma das medidas mais importantes. Mas também são necessárias políticas que facilitem a conciliação entre a vida profissional e familiar, através de horários de trabalho mais flexíveis, licenças parentais adequadas e apoios às famílias com menos recursos.”
Para Boarccaech, cuidar das crianças não pode continuar a ser encarado apenas como uma responsabilidade privada. “Mais do que um problema individual de cada mãe, trata-se de uma responsabilidade coletiva. Uma sociedade que pretende promover o desenvolvimento infantil e a igualdade entre mulheres e homens precisa de criar condições para que ninguém seja obrigado a escolher entre o trabalho e o bem-estar dos filhos.”
“As mulheres conquistaram espaço na administração pública, na política, nas organizações da sociedade civil e no mercado de trabalho. Mas o trabalho doméstico e os cuidados às crianças continuam, na maioria das vezes, sobre os seus ombros”
Para Élia da Costa, dirigente do Movimentu Rosas Mean, a falta de creches públicas é apenas uma parte do problema.
Na sua opinião, continua a existir uma divisão profundamente desigual das responsabilidades familiares. “As mulheres conquistaram espaço na administração pública, na política, nas organizações da sociedade civil e no mercado de trabalho. Mas o trabalho doméstico e os cuidados às crianças continuam, na maioria das vezes, sobre os seus ombros.”
Segundo a dirigente, esta realidade ajuda a explicar porque são quase sempre as mulheres que reduzem o horário, recusam oportunidades profissionais ou abandonam o emprego quando nasce um filho. “O cuidado continua a ser visto como uma responsabilidade feminina. Enquanto esta ideia não mudar, dificilmente haverá verdadeira igualdade no mercado de trabalho.”
Para Élia da Costa, aumentar a participação das mulheres na economia exige reconhecer que o trabalho de cuidado também é responsabilidade do progenitor e uma responsabilidade social. “Não basta pedir às mulheres que trabalhem mais. É necessário criar condições para que possam fazê-lo em igualdade de circunstâncias.”
A ativista Armandina da Silva considera que as dificuldades são ainda maiores para as famílias com menores rendimentos, que não conseguem recorrer a soluções privadas.
“Muitas mulheres terminam um dia de trabalho e começam imediatamente outro em casa, dedicado aos filhos, à preparação das refeições, à limpeza e às restantes tarefas domésticas.”
Na sua opinião, a resposta passa por políticas públicas concretas. Defende a criação de creches públicas acessíveis, sobretudo junto dos locais de trabalho e dos bairros residenciais, horários laborais mais compatíveis com a vida familiar e uma distribuição mais equilibrada das responsabilidades entre mulheres e homens.
“O cuidado das crianças não pode continuar a ser visto como uma responsabilidade exclusiva das mulheres. Deve ser assumido pelas famílias, pelas entidades empregadoras e pelo Estado.”
“Quero ajudar o meu marido.” Maria da Costa continua em casa. Todos os dias cuida dos dois filhos enquanto o marido trabalha. Gostaria de voltar ao mercado de trabalho. Gostaria de recuperar a independência financeira. Gostaria de contribuir para o rendimento da família. Mas, por enquanto, continua sem saber quando isso será possível. Às vezes pensa em enviar os filhos para viverem com os avós, em Baucau. Outras vezes limita-se a esperar que apareça uma solução que lhe permita trabalhar sem deixar de ser mãe.























