A qualidade do ar em Díli foi classificada como má durante sete dias consecutivos, entre 6 e 12 de outubro, segundo a Direção Nacional de Meteorologia e Geofísica (DNMG). As autoridades alertaram para os riscos da poluição atmosférica e recomendaram medidas de proteção, sobretudo aos grupos mais vulneráveis.
Nos últimos dias, a presença de fumo e pó na atmosfera tem suscitado preocupação em Timor-Leste. A exposição a partículas poluentes pode afetar o sistema respiratório e agravar doenças preexistentes, pelo que importa perceber os riscos associados à deterioração da qualidade do ar.
Zelazio Gusmão, residente em Beto, começou a notar alterações há cerca de três dias. De manhã, o céu parecia escuro apesar da luz do sol e, ao final da tarde, o sol adquiria uma tonalidade avermelhada.
“Comecei a notar mudanças no ambiente habitual. O céu estava muito escuro, algo que só comecei a observar nos últimos dias”, contou.
Apesar das alterações, Zelazio afirma que, até ao momento, não sentiu efeitos nas suas atividades diárias nem identificou problemas de saúde na família. Ainda assim, considera importante adotar precauções.
“Até agora, não afetou as minhas atividades diárias nem houve problemas de saúde na minha família. Mesmo assim, é melhor prevenir e ter cuidado, utilizando máscara”, acrescentou.
Domingos da Costa Inácio, residente em Becora, também reparou numa mudança significativa no céu durante um passeio junto ao mar, perto da ponte de Habibi, na tarde de segunda-feira. Uma camada semelhante a fumo ou nevoeiro dificultava a visibilidade das montanhas e da ilha de Ataúro, habitualmente visíveis daquele local.
“Vimos o céu muito escuro, como se estivesse coberto por uma camada de fumo. Normalmente, conseguimos ver as montanhas e até a ilha de Ataúro, mas desta vez não as víamos com facilidade”, relatou.
Domingos diz que a situação ainda não afetou a sua rotina. Tomou conhecimento dos possíveis riscos para a saúde através de informações divulgadas nas redes sociais pelo Ministério dos Transportes e Comunicações, que recomendavam o uso de máscara.
Júlio da Silva, natural de Watulari, no município de Viqueque, pensou inicialmente que a alteração do céu anunciasse a chegada da época das chuvas. Só depois de acompanhar as informações divulgadas nas redes sociais percebeu que o fenómeno poderia estar relacionado com a qualidade do ar.
“Pensámos que fosse sinal de chuva, porque nesta altura do ano normalmente já começa a chover. Só depois de acompanharmos as informações nas redes sociais é que ficámos a saber do que se tratava”, explicou.

Meteorologista aponta possíveis origens do fumo, mas pede cautela
O meteorologista Osório Anuno considera que o fumo observado em Díli poderá estar relacionado com incêndios florestais na Indonésia, incluindo na Papua Ocidental. Salienta, porém, que também devem ser consideradas fontes locais de poluição, como a queima de terrenos para preparar campos agrícolas, a queima de resíduos e os incêndios na vegetação.
Segundo Osório, a análise meteorológica indica a predominância de ventos de leste e sudeste, à superfície e em diferentes níveis da atmosfera, nomeadamente a 850 hPa e a 500 hPa. Associadas à monção australiana, estas condições poderão favorecer o transporte de fumo e partículas poluentes para a ilha de Timor.
“É possível que o fumo proveniente dos incêndios florestais na Indonésia, incluindo na Papua Ocidental, contribua para esta situação. Mas também temos de considerar as fontes locais de poluição”, afirmou.
Para avaliar o possível transporte de fumo, o meteorologista refere a utilização de modelos de previsão meteorológica numérica (NWP), dados de estações meteorológicas e imagens de satélite, incluindo as do sistema SATAID. A análise tem em conta a direção e a velocidade dos ventos, a humidade em diferentes níveis da atmosfera e o movimento das massas de ar.
Osório sublinha que a direção dos ventos e a deteção de focos de calor por satélite não bastam, por si só, para confirmar a origem do fumo. É necessário cruzar os dados meteorológicos com a monitorização da qualidade do ar, as imagens de satélite e a atividade dos incêndios para avaliar uma possível ligação entre essas fontes e a poluição observada em Díli.
O meteorologista explica que o nevoeiro e o fumo são fenómenos distintos. O nevoeiro forma-se quando o vapor de água se condensa em pequenas gotículas, enquanto o fumo contém partículas e gases resultantes da combustão. Para distinguir os dois fenómenos, devem ser analisados indicadores como a humidade relativa, a temperatura, a concentração de partículas PM2,5 e PM10, a visibilidade e as condições do vento. As imagens de satélite e os dados sobre a atividade dos incêndios nas regiões relevantes também podem ajudar nesta avaliação.
As partículas finas PM2,5, com um diâmetro aerodinâmico igual ou inferior a 2,5 micrómetros, podem penetrar profundamente nos pulmões e representar riscos para a saúde. A exposição pode provocar irritação nos olhos e nas vias respiratórias, tosse e dificuldades respiratórias, além de agravar problemas de saúde preexistentes.
Osório recomenda que a população evite atividade física intensa ao ar livre durante os períodos de má qualidade do ar, não queime resíduos nem vegetação e utilize máscaras filtrantes adequadas quando necessário. Aconselha ainda a acompanhar as informações divulgadas por fontes fiáveis, em particular pela DNMG.

DNMG prevê melhoria temporária da qualidade do ar
Segundo a Direção Nacional de Meteorologia e Geofísica (DNMG), a qualidade do ar em Díli foi classificada como má durante sete dias consecutivos, entre 6 e 12 de outubro, de acordo com os dados recolhidos pelas estações automáticas instaladas no Aeroporto Internacional Presidente Nicolau Lobato, em Comoro, e no Ministério dos Transportes e Comunicações, em Caicoli.
A DNMG associa a situação ao transporte de fumo proveniente de incêndios florestais na Indonésia, sobretudo na região da Papua Ocidental. Os ventos associados à monção australiana poderão transportar partículas poluentes até à ilha de Timor. As queimadas locais, incluindo a queima de terrenos, também poderão contribuir para a deterioração da qualidade do ar.
O organismo prevê uma melhoria a partir de 13 de outubro, mas alerta para a possibilidade de um novo agravamento nos dias 16 e 17, devido à eventual chegada de fumo da Papua Ocidental e à ocorrência de queimadas locais.
A DNMG continuará a monitorizar a qualidade do ar e as condições meteorológicas. Recomenda ainda que a população mantenha as janelas fechadas quando houver elevadas concentrações de fumo ou poeiras, evite a queima de resíduos e procure assistência médica em caso de dificuldades respiratórias.
Ministério da Saúde alerta para os riscos da poluição atmosférica
O Ministério da Saúde recomenda a utilização de máscaras, a redução das atividades não essenciais ao ar livre e o uso de óculos durante a condução, sobretudo quando a concentração de fumo ou pó for elevada.
As pessoas que apresentem sintomas como dificuldade respiratória, falta de ar, vermelhidão ou comichão nos olhos devem procurar uma unidade de saúde. As crianças, os idosos, as mulheres grávidas, as mães que amamentam e as pessoas com doenças respiratórias ou crónicas exigem especial atenção.
Numa conferência de imprensa realizada no Palácio das Cinzas, em Díli, o Ministério da Saúde anunciou que continuará a acompanhar a situação em colaboração com a Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgando novas informações caso se justifique.
A OMS alerta que a exposição à poluição atmosférica pode ter efeitos a curto e a longo prazo. As partículas finas PM2,5 conseguem penetrar profundamente nos pulmões e estão associadas a doenças respiratórias e cardiovasculares. A exposição pode agravar a asma e aumentar o risco de doenças cardíacas, acidente vascular cerebral (AVC), doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) e cancro do pulmão.
A organização destaca ainda os riscos para a saúde durante a gravidez, incluindo a possibilidade de baixo peso à nascença e parto prematuro.























