Várias famílias da aldeia de Laulora, no suco de Manleuana, em Díli, continuam a enfrentar dificuldades no acesso a água, sobretudo durante a estação seca. A escassez obriga alguns moradores a percorrer longas distâncias ou a comprar água para garantir as necessidades básicas. A existência de canalização antigas e de ligações ilegais agrava o problema e afeta a distribuição de água na comunidade. A Bee Timor-Leste (BTL) já avaliou a situação, mas ainda está a estudar soluções para melhorar o abastecimento.
A falta de água em Timor-Leste não se explica apenas pela ausência de canalização. Nos sistemas existentes, fugas, ligações não autorizadas, pressão insuficiente e dificuldades de manutenção comprometem o abastecimento. Em Díli, documentos técnicos e declarações da Bee Timor-Leste (BTL) identificam problemas tanto nas infraestruturas como na utilização da rede, incluindo práticas de consumidores que podem prejudicar o acesso dos vizinhos.
Todas as manhãs, antes de iniciarem as suas atividades, algumas famílias da aldeia de Laulora, no suco de Manleuana, em Díli, têm de resolver uma questão essencial: onde conseguir água para beber, cozinhar, lavar e garantir a higiene diária.
Durante a estação seca, entre julho e novembro, o acesso a água torna-se particularmente difícil. Algumas famílias são obrigadas a percorrer longas distâncias para procurar água, enquanto outras recorrem à compra de água, o que representa um encargo adicional para os agregados familiares com menores recursos.
É o caso de Hermenegilda Freitas Gaio, de 53 anos, residente na aldeia de Laulora. Vive em Díli desde 1987 e recorda que, no passado, havia maior disponibilidade de água na zona.
“Esperamos pela fonte de água de Metmuto, mas agora, nesta época, não há água. De manhã, eu e os meus filhos usamos um carrinho de mão para ir buscar água”, contou.
Segundo Hermenegilda, durante a época das chuvas a situação melhora, embora algumas famílias continuem a recorrer à água do rio Lelaus para determinadas necessidades domésticas, como lavar a roupa, cozinhar e tomar banho.
Antes de beberem a água do rio, as famílias costumam fervê-la. Para o banho, deixam-na primeiro repousar, de modo a permitir que a sujidade e os sedimentos se depositem no fundo, utilizando-a apenas depois. Este procedimento, contudo, não corresponde a um tratamento completo da água.
A utilização de água de qualidade duvidosa preocupa os moradores. Segundo Hermenegilda, algumas crianças apresentam problemas como corrimento nasal, enquanto os adultos se queixam de comichão ou irritação na garganta.
Na estação seca, quando a água deixa de chegar regularmente, algumas famílias recorrem à compra de água.
“Compramos 8.000 litros de água por 20 dólares, 5.000 litros custam 12,50 dólares e 1.200 litros custam 8 dólares. Para os outros que não têm dinheiro, juntam pouco a pouco e compram água”, explicou Hermenegilda.
Canalizações antigas e ligações ilegais agravam problema
Durante o período da ocupação indonésia, foi instalada uma fonte de água em Metmuto para abastecer a comunidade de Laulora, tendo a rede chegado até à zona de Fomento. Depois da restauração da independência, porém, a infraestrutura deixou de receber a manutenção necessária, segundo os moradores e as autoridades locais.
Com o passar dos anos, algumas canalizações ficaram danificadas e surgiram ligações consideradas ilegais, numa tentativa de garantir o acesso à água.
O chefe da aldeia de Laulora, Mário Borges Soares, explicou que, durante a estação seca, quando a água deixa de chegar a algumas zonas, há moradores que procuram as válvulas da rede e alteram as canalizações.
“Na época seca, a água não é suficiente para a comunidade. Algumas pessoas tapam com plástico, porque algumas torneiras estão partidas, para tentar fazer com que a água chegue até elas”, explicou.
Estas intervenções acabam por afetar outros moradores, que ficam com menos água disponível e, em alguns casos, são obrigados a recorrer a fontes alternativas.
Segundo Mário Borges Soares, as autoridades locais identificaram mais de 50 famílias que fizeram ligações ilegais à rede de abastecimento de água. Até ao momento, não existe uma entidade responsável pela fiscalização destas ligações.
“A canalização não foi instalada pela BTL. A instalação dos canos começou durante a ocupação indonésia. Já submetemos o pedido à BTL e a instituição confirmou que, na próxima terça-feira, dia 13 de outubro, vai desligar todas as ligações ilegais. Deste modo, será possível garantir um acesso mais equitativo à água para todas as famílias.”
Uma apresentação de João José Moreira, funcionário da BTL, incluída na compilação de relatórios do curso Administration and Management of Water Supply Services, de 2025, aponta para perdas físicas por fugas equivalentes a 21% da água no sistema de Díli. O balanço apresentado atribui outros 61,5% a perdas aparentes, categoria que inclui consumo não autorizado e imprecisões dos contadores, e 5,4% a consumo autorizado não faturado, como água destinada ao combate a incêndios e à limpeza. O consumo autorizado faturado representa os restantes 12,1%.
Um documento do Banco Mundial publicado em 2022 menciona fugas estimadas em 62% do abastecimento no diagnóstico dos sistemas das capitais municipais, mas remete para uma fonte da WaterAid de 2010. As diferenças de período, abrangência e metodologia impedem uma comparação direta com os números apresentados em 2025.
A utilização da rede por alguns consumidores também pode comprometer o abastecimento dos restantes. O Diploma Ministerial n.º 1/2009, sobre fiscalização do sistema de abastecimento, reconhecia expressamente que bombas elétricas instaladas diretamente na canalização pública prejudicavam o abastecimento regular dos vizinhos. O diploma previa fiscalização e retirada desses equipamentos, regularização de ligações não autorizadas e proibição da manipulação de válvulas por pessoas não autorizadas.
Numa reportagem publicada pelo Diligente em 2023, o então presidente da BTL, Carlos dos Reis, afirmou que havia moradores que perfuravam as condutas principais para levar água às suas habitações. Segundo o responsável, essas intervenções diminuíam o volume disponível na rede e prejudicavam outros consumidores. Na mesma reportagem, moradores de Becusse Centro, no suco de Becora, relatavam receber água apenas entre a meia-noite e as quatro da manhã e enfrentar, por vezes, interrupções de dois ou três dias. Estas situações foram documentadas naquele período e precisam de atualização para se conhecer a realidade atual.
Falta de água também afeta frequência escolar
A falta de água tem consequências que ultrapassam as necessidades domésticas e afeta também a frequência escolar de algumas crianças e jovens.
Segundo Mário Borges Soares, há estudantes que faltam às aulas porque não conseguem tomar banho ou lavar a roupa antes de irem para a escola. “Algumas famílias têm transporte e conseguem ir buscar água a outros lugares, mas as que não têm dinheiro nem transporte têm mais dificuldades, e os filhos acabam por não ir à escola”, afirmou.
O responsável explicou ainda que, em alguns casos, os professores contactam os pais para perceberem as razões da ausência dos estudantes.
Epifânia da Silva Correia, 23 anos, estudante da Universidade da Paz, na Faculdade de Economia e Departamento de Bancária, também relatou dificuldades relacionadas com a falta de água.
Segundo a estudante, houve ocasiões em que deixou de frequentar as aulas por não ter água em casa. “Fiquei em casa e, quando os professores perguntaram, respondi que estava doente”, relatou. Epifânia acrescentou que, quando fica sem água durante uma semana, é obrigada a comprar garrafões de água, ao custo de um dólar cada, para poder tomar banho.
Comunidade procura alternativas para resolver abastecimento
A falta de água em Laulora não é um problema recente. Em 2018, a disputa pelo acesso à água terá contribuído para um conflito entre comunidades, que resultou em mortes e na destruição de casas.
De acordo com o chefe do suco de Manleuana, Jacob Tilman Soares, os moradores da aldeia de Laulora organizaram-se e apresentaram uma carta à Bee Timor-Leste (BTL), solicitando uma intervenção para melhorar o abastecimento.
Uma equipa da BTL deslocou-se à aldeia para avaliar a situação e verificou as fontes de água existentes. Segundo Jacob Tilman Soares, uma das dificuldades identificadas está relacionada com a localização da comunidade, situada numa zona elevada, o que dificulta a chegada da água às habitações.
A autoridade local considera que existem duas possibilidades principais: construir uma nova fonte de água ou recuperar as infraestruturas existentes, algumas das quais foram instaladas durante o período da ocupação indonésia.
Segundo Jacob Tilman Soares, existe também um programa para construir dois tanques de água. Os fundos do Programa Nacional de Desenvolvimento dos Sucos (PNDS) deste ano deverão ser utilizados para melhorar o sistema de abastecimento, incluindo a construção dos tanques e a aquisição de mangueiras e ferro para a reparação das infraestruturas.
“A BTL já verificou as três fontes de água e foi ao local para testar a força da água, mas, neste momento, ainda está a realizar estudos”, explicou.
Os moradores pedem à BTL que acelere os trabalhos, considerando que a falta de água continua a afetar diariamente a população.
BTL admite necessidade de avaliar e dar prioridade a intervenções
O diretor nacional de Operações e Manutenção da BTL, Aleixo dos Santos, confirmou que uma equipa da empresa visitou recentemente a zona de Laulora para acompanhar a situação e avaliar as infraestruturas existentes.
Aleixo dos Santos explicou, contudo, que antes de avançar com obras é necessário avaliar a disponibilidade de água, a capacidade das infraestruturas e os custos associados às intervenções.
“Temos de estabelecer uma prioridade, porque vemos que, neste momento, o alargamento está em curso. Vamos dar prioridade a esta questão, para que as pessoas tenham primeiro acesso a água. Depois, faremos um melhor planeamento das melhorias necessárias”, afirmou.
Segundo o responsável, a recuperação das canalizações antigas exige uma avaliação da capacidade e da quantidade de água disponível, bem como das condições dos reservatórios e dos sistemas de transmissão e distribuição.
A dimensão dos reservatórios também terá de ser analisada, de forma a determinar se têm capacidade suficiente para responder às necessidades das populações que vivem nas proximidades.
A existência de ligações ilegais constitui outro dos problemas que afetam a distribuição de água em Díli. “A distribuição é normalmente um problema porque, quando as pessoas fazem ligações ilegais ou quando o sistema antigo já apresenta problemas, isso afeta diretamente as nossas comunidades. Por isso, ainda é necessário investir no abastecimento de água em Díli, para podermos melhorar e renovar todos esses sistemas e conseguir geri-los melhor”, explicou Aleixo dos Santos.
Infraestruturas antigas continuam a condicionar abastecimento
A rede de abastecimento de água de Díli inclui ainda canalizações antigas, algumas instaladas durante o período da ocupação indonésia. Segundo a BTL, existem também infraestruturas ainda mais antigas, construídas durante o período português, que se encontram praticamente danificadas.
Aleixo dos Santos explicou que algumas canalizações passam por baixo de estradas e que o desgaste provocado pelo tempo tem afetado a rede. “As canalizações do período da Indonésia também apresentam problemas. Algumas são de PVC e outras são de ferro e, com o passar do tempo, algumas já estão enferrujadas, o que tem impacto nas comunidades”, afirmou.
A recuperação de toda a rede exige, no entanto, recursos financeiros e materiais significativos.
As falhas não se limitam às ligações dos consumidores. O Banco Mundial identifica canalizações degradadas, manutenção insuficiente e alterações ao sistema sem documentação adequada. A falta de registos sobre pequenas obras e reparações contribuiu para uma rede cuja localização não é integralmente conhecida, dificultando a deteção e reparação de fugas. No diagnóstico de 2022, a instituição considerava prioritário medir melhor e reduzir a água não faturada em Díli, para melhorar a fiabilidade do abastecimento, incluindo durante períodos de seca.
Em entrevista ao Diligente, publicada em fevereiro de 2026, o diretor de Operação e Manutenção da BTL, Aleixo dos Santos, apontou sistemas com 20 a 30 anos em áreas como Camea, Becora e Fatuk Francisco, ainda sem reabilitação completa.
Quanto às ligações ilegais, o responsável revelou que a BTL continua a identificar situações deste tipo em diferentes zonas de Díli. “Fui pessoalmente visitar a área de Manleu, Fomento 1, perto da escola Externato, onde existem aproximadamente 24 famílias que ainda têm ligações ilegais de água”, informou.
Segundo o diretor, estas famílias continuam a ter ligações ilegais, acrescentando que a equipa da BTL responsável pelo desmantelamento destas ligações ainda não chegou àquela zona, encontrando-se atualmente a realizar operações no Delta II.
Quatro aldeias de Manleuana continuam sem acesso adequado
Dados da Bee Timor-Leste indicam que mais de 19 mil famílias no município de Díli já têm acesso ao abastecimento de água através de ligações oficiais ao sistema de distribuição.
No suco de Manleuana existem nove aldeias: Badiac, Laulora, Lemocari, Lisbutac, Mane Mesac, Manleu-Ana, Mauc, Mundo Perdido, e Ramelau.
Segundo os dados disponibilizados, quatro aldeias continuam identificadas como tendo famílias sem acesso a água: Manleuana, com 166 famílias; Mauc, com 167; Ramelau, com 335; e Laulora, com 643 famílias.
Os Censos de 2022 ajudam a dimensionar as limitações no acesso à água nas habitações. Considerando a principal fonte de água para beber, apenas 10,2% das habitações ocupadas dispunham de água canalizada ou bombeada para dentro de casa. Outras 11% tinham esse abastecimento no quintal ou terreno, enquanto 39,5% recorriam a uma torneira pública ou canalização pública. Estes indicadores identificam a principal fonte utilizada, mas não permitem concluir que a água estivesse disponível todos os dias, durante todo o dia, ou que fosse segura para consumo.
Estes números correspondem a famílias que não dispõem de ligação à rede pública de abastecimento de água e, por isso, não têm acesso regular a água através da canalização pública. No total, estes dados representam 1.311 famílias sem ligação à rede pública de abastecimento de água.
Governo promete reforçar controlo da qualidade da água
O diretor nacional da Reguladora de Água e Saneamento do Ministério das Obras Públicas, Marcolino de Jesus da Costa Babo, afirmou que os serviços vão colaborar com a linha setorial para reforçar o controlo da qualidade do abastecimento de água no município de Díli.
Segundo o responsável, o objetivo é assegurar o direito das comunidades ao acesso à água e a serviços públicos de abastecimento de qualidade. “Inclui o direito de acesso à água e à qualidade do fornecimento de água através do sistema de abastecimento de água fornecido pela nossa empresa pública”, afirmou Marcolino de Jesus da Costa Babo.
A preocupação, segundo o responsável, não se limita às comunidades que ainda não têm acesso regular à água. É também necessário acompanhar as comunidades que já são consumidoras do sistema público, mas que continuam a enfrentar problemas relacionados com o controlo, a manutenção e a qualidade da água.
Uma das alternativas a considerar poderá passar pela utilização de águas superficiais, desde que acompanhada por um planeamento adequado e por investimento suficiente para garantir a segurança e a sustentabilidade do abastecimento.
Segundo Marcolino de Jesus da Costa Babo, a DNRAS, em conjunto com a empresa Dongsung, realizou, entre 2019 e 2024, um estudo sobre as águas superficiais nas zonas de Railaco, no município de Ermera, e de Fatisi, no município de Aileu. O estudo teve como objetivo avaliar os recursos hídricos disponíveis e o seu potencial para o abastecimento de água.
Para as autoridades locais, a resolução do problema exige a cooperação entre as comunidades, a BTL e as diferentes instituições públicas.
Com a entrada de Timor-Leste na ASEAN, as autoridades consideram igualmente necessário melhorar os sistemas e serviços públicos, de modo a responder aos princípios e compromissos regionais relacionados com o acesso à água potável segura e ao saneamento.
Em 2017, a Comissão Intergovernamental da ASEAN para os Direitos Humanos (AICHR) realizou uma consulta regional sobre o direito à água potável segura e ao saneamento, com particular enfoque nas comunidades rurais. A iniciativa procurou desenvolver uma abordagem comum no âmbito da ASEAN e destacou que a água deve ser disponível, acessível, economicamente comportável, aceitável, adequada e de boa qualidade.
A consulta destacou ainda que o artigo 28(e) da Declaração de Direitos Humanos da ASEAN reconhece o direito à água potável segura e ao saneamento como parte do direito a um nível de vida adequado. O documento salienta igualmente a necessidade de garantir o acesso universal, equitativo e adequado à água, ao saneamento e à higiene, em particular para as comunidades rurais, pobres e vulneráveis.
Enquanto as soluções estruturais não chegam, as famílias de Laulora continuam a procurar formas de garantir uma necessidade básica: ter água suficiente e segura para viver.























