Moradores cavam os próprios poços por falta de água potável

Cidadãos a escavarem um poço de água /Foto: Diligente

Fraca cobertura do abastecimento público e orçamento limitado levam comunidades a recorrer a soluções autónomas, apesar dos riscos ambientais.

Os residentes de várias regiões de Timor-Leste estão a cavar os seus próprios poços de água devido ao acesso limitado a abastecimento público e à baixa prioridade do setor da água potável no orçamento do Governo. Esta prática permite às famílias satisfazer necessidades básicas, como cozinhar, tomar banho e lavar roupa, embora represente riscos para o ambiente.

Apesar de o Governo declarar o seu compromisso com a prestação de serviços públicos essenciais, a análise do Orçamento Geral do Estado revela que a água potável continua a não ser uma prioridade: a dotação orçamental caiu de 1,2% (21 milhões de dólares em 2025) para 15 milhões de dólares em 2026, tornando-se um dos setores com menor percentagem do orçamento.

De acordo com o Censo da População de 2022, Timor-Leste possui 1.340.434 habitantes, dos quais 39% dos agregados familiares dependem de torneiras públicas distribuídas em várias regiões do país. Mais de metade das famílias continua a recorrer a fontes de água não protegidas ou de qualidade incerta, como rios, ribeiras e lagos próximos das suas residências.

Esta realidade força os cidadãos, especialmente durante a estação seca, a não dependerem da ajuda governamental, considerada insuficiente.

Oldenito Maia, morador de Ai-Mutin, explicou que a maioria da comunidade opta por cavar poços de forma autónoma. “O custo de fazer um poço é realmente elevado, mas é melhor, porque podemos usar a água a qualquer momento. Na nossa comunidade, quase todos os moradores já utilizam água proveniente de poços tradicionais”, afirmou.

Em Tasi-Tolu, um residente referiu que a comunidade ainda não tem acesso à água fornecida pelo Governo, pelo que a perfuração de poços se tornou uma necessidade. “Nós perfuramos o nosso próprio poço, tal como os nossos vizinhos. Nem todos conseguem usufruir disso, pois algumas famílias ainda precisam de ir buscar água a outros locais ou às casas de vizinhos que possam ajudar. Durante a estação seca, há até quem enfrente escassez de água”, explicou.

Já em Hera, Dirsia da Silva contou que, anteriormente, conseguia água com a ajuda de vizinhos. “Agora conseguimos perfurar o nosso próprio poço e utilizá-lo para necessidades diárias. Para os moradores de Hera, que dependem da agricultura e jardinagem, a água é essencial. Por isso, optámos por perfurar o nosso próprio poço, para irrigar hortas e satisfazer outras necessidades”, acrescentou.

Limitações económicas forçam comunidades a pagar por água ou a recorrer a fontes distantes

Enquanto algumas comunidades conseguem perfurar os seus próprios poços, outras enfrentam barreiras económicas que as obrigam a depender de sistemas de abastecimento geridos por terceiros ou de fontes naturais de acesso incerto.

Ao contrário dos moradores de Ai-Mutin, as comunidades de Bedois não têm acesso à água potável fornecida pelo Governo há muito tempo. Os habitantes dependem exclusivamente da água proveniente de poços cavados com o apoio da Paróquia de Bedois.

No entanto, para obter esta água, os moradores têm de pagar entre 1 e 5 dólares americanos, dependendo do volume e da distância de entrega. A retirada direta no local custa cerca de 1 dólar, enquanto a entrega ao domicílio pode atingir os 5 dólares. Estes valores destinam-se à manutenção do sistema de abastecimento.

Joanina Soares Lopes, moradora próxima aos poços, reconhece a utilidade do serviço, mesmo pagando pelo acesso: “Esta água é muito útil. Antes tínhamos de ir ao rio e era difícil porque muita gente precisava de água. Agora, mesmo pagando, pelo menos fica mais perto”, afirmou.

Porém, nem todos os moradores têm a mesma sorte. Aqueles que vivem mais longe continuam a depender de fontes naturais, cujo caudal é instável, especialmente durante a estação seca. Gracinda de Fátima Soares, residente da Aldeia Suku Laran, explicou: “Temos de ir à fonte cedo, porque toda a gente depende dela. Além disso, o caudal começa a diminuir e temos de fazer fila.”

Em Comoro Kampung Baru, Cesaltino Manuel de Deus recordou que antes a comunidade dependia do abastecimento de água governamental, mas devido à instabilidade no fornecimento, voltou a comprar água de acordo com as necessidades individuais. Admitiu que gostaria de fazer o seu próprio poço, mas as limitações económicas são um obstáculo: “O custo dos materiais e da mão de obra são muito elevados. Não temos capacidade financeira”, revelou.

Também Monica de Jesus Amaral, residente em Camea, explicou que desde 2024 a comunidade não tem acesso à água potável fornecida pelo Governo. O elevado número de utilizadores e a diminuição da quantidade disponível obrigam os residentes a comprar água, com custos que podem chegar a 6 dólares por dia. “Compramos água todas as semanas para satisfazer as nossas necessidades diárias”, afirmou.

Monica acrescentou que a sua família tinha planos de cavar um poço próprio, mas abandonou a ideia devido a dois fatores: a proximidade da casa à estrada principal, que implicaria danificar o asfalto, e o elevado investimento financeiro necessário para a obra. “Tínhamos essa intenção, mas o projeto foi cancelado por causa do custo e da localização da casa”, concluiu.

Preocupações ambientais acrescentam complexidade ao problema da água

O ativista ambiental Delvio Siqueira alertou para os riscos da escavação massiva de poços sem supervisão, que pode causar sérios impactos no meio ambiente, incluindo a degradação de lagos e nascentes naturais.

“Muitos lagos e nascentes já começaram a ser danificados. Se não forem conservados, dentro de 10 a 15 anos Timor-Leste poderá enfrentar uma crise hídrica ainda mais grave”, afirmou.

Delvio Siqueira destacou que algumas regiões, como Fatisi e Marabia, não recebem a atenção necessária por parte do Governo. “Devem ser tomadas medidas urgentes e rigorosas, incluindo a criação de leis que controlem as comunidades que perfuram poços tradicionais. O controlo governamental sobre a manutenção destes sistemas é fraco. Quando as comunidades necessitam de extrair água, é essencial que haja coordenação com a Be’e Timor-Leste (BTL), pois é esta entidade que envia equipas para realizar as perfurações de forma direta e supervisionada”, explicou.

Até à data de publicação, a equipa do Diligente continua a tentar contactar as entidades competentes. O Ministro das Obras Públicas encontra-se atualmente no estrangeiro, enquanto a BTL está fora da cidade, pelo que ainda não foi possível obter informações oficiais sobre o assunto.

Comente ou sugira uma correção

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *