Falha, lição e graça

“Compreendi que podemos sonhar e lutar, mas é essencial acompanhar o esforço com oração”/Foto: DR

“Tu tens muita sorte… estás sempre a receber bolsas.” Esta foi uma das expressões que ouvi no ano passado, em 2024, antes de prosseguir os meus estudos. Mas poucos imaginam que, antes de chegar até aqui, enfrentei inúmeros desafios e duras lições que tive de superar.

Na infância, dentro da família, fiquei conhecido como a “doente crónico”. Desde muito cedo fui diagnosticado com tuberculose (TB) e, por causa disso, a minha imunidade era frágil. O meu corpo atraía facilmente outras doenças, e a minha infância ficou marcada por remédios e tratamentos, até concluir o ensino primário.

Com esta condição de saúde, muitos familiares não acreditavam que eu pudesse ter oportunidade de continuar os estudos a nível universitário — quanto mais sonhar com uma bolsa de estudos. Antes de conseguir a oportunidade de estudar fora do país, um familiar chegou a dizer-me: “Tu estás sempre doente, nunca vais conseguir pôr os pés na Austrália… as regras deles são muito rígidas.”

Como uma criança que cresceu na montanha, em Baguia, durante a ocupação indonésia, era difícil encontrar inspiração sobre o que queria fazer no futuro. Quando ainda no ensino secundário, depois Timor-Leste conquistou a independência, comecei a ter acesso a livros e à internet. A partir daí, comecei a ler muitos artigos em indonésio relacionados com o comportamento humano. Por que razão as pessoas preferem ficar caladas? Por que algumas sentem que sabem mais do que as outras? Por que gostam apenas de viver distraídas? Essas perguntas surgiam sempre quando eu observava o comportamento das pessoas à minha volta. Foi aí que nasceu o interesse em estudar psicologia.

Através deste blog, quero partilhar um pouco da minha experiência de vida, incluindo os sinais da graça e das bênçãos que recebi de Deus.

Sonho

O meu primeiro sonho surgiu em 1993, quando acompanhei um dos meus tios ao aeroporto de Comoro, porque ele ia viajar para estudar em Surabaya, na Indonésia. Quando vi um avião pela primeira vez, pensei: “Como é que esse grande pedaço de metal consegue voar?”

A partir desse momento, nasceu em mim um forte desejo de que, um dia, eu também pudesse tocar num avião com as minhas próprias mãos e sentir como é estar sentado dentro dele enquanto voa.

Durante o tempo da ocupação indonésia, o meu pai e a minha mãe costumavam ouvir a rádio Netherlands (se não me engano) em português e em indonésio. Às vezes, eles não desligavam a rádio, então a nossa única forma de entretenimento em casa era também ouvir música ou notícias em inglês. Naquela altura, eu ainda não sabia distinguir o português do inglês. Quando percebia que a minha mãe e o meu pai estavam a ouvir com atenção, significava que a notícia era em português. Mas, quando começavam a ignorar a rádio, era sinal de que estava em inglês. Começou então a surgir a pergunta: “Como é que eles sabem qual é o inglês e qual é o português?” A partir daí, nasceu o segundo sonho: querer aprender inglês e português um dia, para conseguir distinguir entre essas duas línguas.

Quando cheguei ao ensino secundário, imaginava como seria viver noutro país, morar sozinho e estudar (inspirado pelos filmes a que assistia) — nasceu o terceiro sonho.

Este sonho não é caro, mas, para o realizar, exige muito esforço e sacrifício. Tudo o que já passei mostra que, quando alcançamos um sonho, imediatamente começamos a sonhar de novo. Hoje, o meu sonho é apenas ser uma boa pessoa para a minha família e contribuir com aquilo que puder para uma sociedade melhor. Parece que isso faz parte da natureza humana — nunca deixamos de sonhar.

Fracasso

Quando terminei o ensino secundário, em 2004, tive apenas uma opção para continuar os estudos na Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL), porque os meus pais tinham dificuldades financeiras (incluindo com os meus irmãos) e não podiam financiar uma universidade privada ou no estrangeiro. Também não consegui estudar Psicologia, porque a UNTL não oferecia essa área.

O meu primeiro fracasso foi ao tentar entrar na UNTL. Escolhi o curso de Engenharia Civil — quando os resultados saíram, o meu nome não apareceu (reprovei). Senti-me profundamente triste, desanimado, como se o mundo tivesse parado durante algum tempo, porque comecei a perder a esperança. Meses depois, com o apoio da família, procurei oportunidades para frequentar cursos gratuitos de inglês em Díli. Quando não estava nas aulas, vendia jornais e crédito de telemóvel (pulsa) em frente ao Acaid para conseguir algum dinheiro.

Em 2005, decidi candidatar-me novamente à Faculdade de Medicina da UNTL, que tinha acabado de abrir nesse ano. Quando os resultados saíram, consegui uma boa nota e até frequentei um curso de língua espanhola durante quase um mês. Enquanto aguardava algumas semanas pelo lançamento da faculdade, a universidade informou-me de que precisava de fazer novamente exames médicos (incluindo o teste de escarro), pois suspeitavam que eu ainda pudesse ter tuberculose. O resultado foi negativo. Mas, infelizmente, a UNTL decidiu que a minha condição de saúde não era compatível com o curso de Medicina. Tentei procurar médicos para pedir uma explicação e também procurei os dirigentes da faculdade de Medicina, mas ninguém se mostrou disponível para me dar qualquer esclarecimento. Fiquei profundamente triste, com o coração apertado e sem forças para fazer qualquer tipo de protesto — no fim, juntamente com os meus pais, aceitei a realidade de que talvez esse não fosse o meu caminho.

O fracasso visitava-me constantemente nessa altura. Também em 2005, por achar que já sabia um pouco de inglês, tentei candidatar-me à bolsa de estudos do Governo da Austrália (Australian Awards). Infelizmente, não passei na fase de avaliação dos documentos. Em 2008, candidatei-me a bolsas do Governo da Malásia e também dos Estados Unidos (United States–Timor-Leste Scholarship / USTL), mas o resultado foi o mesmo — não fui selecionado na fase documental. Em 2006, fiz o teste para uma bolsa de estudos para Cuba na área da Medicina — passei na prova escrita, mas, na avaliação médica, infelizmente, não passei mais uma vez. O mesmo aconteceu quando concorri à bolsa do Governo da China, em 2009 — não passei no exame médico.

Em 2006, depois de falhar a bolsa para Cuba por causa da minha condição médica, consegui encontrar um médico no hospital nacional (já não me recordo do nome), para pedir uma explicação. Ele informou-me que os meus pulmões apresentavam marcas (por ter tido tuberculose quando era criança), mas não me explicou se precisava de fazer algum tratamento. Tive de aceitar essa realidade e comecei a pensar que talvez tivesse de abraçar todos esses fracassos ao longo da minha vida.

Fiquei triste, perdi a motivação e senti vontade de desistir, ainda mais quando percebi que colegas meus do ensino secundário já tinham terminado as suas licenciaturas antes de eu sequer ter começado a estudar. Mas Deus tinha outro plano para mim!

Realidade

Como seres humanos, muitas vezes insistimos em querer que tudo aconteça no nosso tempo, esquecendo que Deus pode ter um plano diferente para nós. Em 2010, voltei a candidatar-me à bolsa de estudo do Governo dos Estados Unidos (USTL). Com coragem, cumpri todos os requisitos e, no final, fiz o teste de inglês e segui para a fase da entrevista. Quando os resultados saíram, o meu nome apareceu como candidato suplente, ficando atrás de cinco outros colegas — entre mais de 300 candidatos. Mesmo sem conseguir a bolsa, senti-me muito orgulhoso e feliz com o resultado que alcancei. Provei a mim mesmo que o esforço para aprender inglês começou finalmente a dar frutos.

Alguns meses depois do anúncio dos resultados da USTL, fui informado que o Governo dos Estados Unidos queria oferecer-me uma bolsa de estudos, porque um dos candidatos selecionados tinha decidido abdicar da vaga por motivos familiares. Na manhã de 30 de janeiro, por volta das 7h00, recebi uma chamada de um número desconhecido, vindo do Havai. Confuso, atendi… A pessoa do outro lado da linha (chamava-se Gene) disse:

Gene: Is this Ângelo? (É o Ângelo?)

Eu: Yes, this is Ângelo. (Sim, é o Ângelo.)

Gene: Do you still wanna come to study in Hawai? (Ainda queres vir estudar no Havai?)

Eu: (Por dentro, fiquei chocado e confuso… fiz uma pequena pausa e depois respondi com voz firme, com medo que o Gene não me ouvisse bem) YES, YES! (SIM, SIM!)

Gene: Please check your email to confirm. (Por favor, verifique o seu e-mail para confirmar.)

Eu: (Nem sabia mais o que responder, de tão feliz que fiquei — no fim, desliguei o telefone sem conseguir sequer dizer “obrigado”).

Com o coração disparado e sem acreditar, sentei-me a processar toda a informação que acabava de receber. As lágrimas de alegria começaram a cair devagarinho… ajoelhei-me e rezei, agradecendo a Deus. Depois, muito feliz, contei à minha mãe e aos outros membros da família.

Mas, por dentro, comecei a ficar preocupado com o exame de saúde — “O que vai acontecer se eu não passar de novo?” Uma semana antes do exame médico, comecei a fazer a novena a Nossa Senhora. Pedi também à minha mãe e ao meu pai que me ajudassem com orações e que fizessem a novena comigo. Quando os resultados saíram, estava tudo bem, mesmo que ainda aparecessem alguns sinais nos pulmões.

Em julho de 2011, iniciei a minha primeira viagem ao estrangeiro — para o Havai, nos Estados Unidos — para estudar aquilo que eu realmente queria: Psicologia. Foi também a primeira vez, na minha vida, que andei de avião. Querem saber o que fiz antes de entrar no avião? Segurei na asa e disse: “Este era o meu sonho quando ainda era criança.” Um sonho pequeno e simples, mas que se tornou realidade. Concluí a licenciatura em dezembro de 2014 e voltei a Timor para trabalhar. Mas surgiu outro sonho: “Preciso de continuar os meus estudos, porque o que aprendi ainda não é suficiente.”

Em 2016, decidi candidatar-me à bolsa Fulbright para prosseguir o mestrado em Psicologia Clínica Forense. Finalmente, em junho de 2017, viajei para Nova Jérsia, nos Estados Unidos, para continuar a minha formação.

Em 2019, ao regressar a Timor, tive uma grande oportunidade de trabalhar numa organização ligada à área que estudei. Através desse trabalho, comecei a pensar em avançar para o doutoramento, para adquirir mais conhecimento e contribuir para o desenvolvimento de Timor-Leste, especialmente no que diz respeito à investigação e às boas práticas na psicologia. Em 2021, entrei em contacto com professores de várias universidades na Austrália, sobretudo na Swinburne University of Technology, em Melbourne.

Em 2022, consegui finalmente encontrar um professor disponível e disposto a orientar-me (e à minha pesquisa). Em 2024, candidatei-me à bolsa Australian Awards — e estou muito feliz em poder partilhar que, atualmente, sou doutorando em Psicologia Clínica Forense na Swinburne University of Technology, em Melbourne.

Lições e intervenções de Deus

Imagine que, em 2004, tivesse passado no exame para entrar na UNTL em Engenharia Civil… ou que, em 2005, tivesse conseguido estudar Medicina Geral na UNTL, ou ainda tivesse tido outras oportunidades. A vida poderia ser diferente, mas talvez não estivesse tão feliz nem a viver plenamente como hoje. Acredito que tudo acontece sob a vontade de Deus. Sou muito grato por todas as falhas e pelas oportunidades que chegaram mais tarde do que para outras pessoas. O meu destino não era ser engenheiro ou médico — hoje compreendo que o meu caminho é a Psicologia.

Enfrentei muitos desafios antes de conquistar a minha primeira bolsa de estudos (USTL), mas o percurso tornou-se mais claro quando concorri a bolsas internacionais como a Fulbright e, mais tarde, a Australian Awards. Durante todo esse processo, nunca deixei de rezar e de fazer novenas, pedindo também à minha mãe e à minha família que rezassem por mim. Sei que, sozinho, não teria conseguido nada. O problema de saúde que tantas vezes me fechou portas não foi uma barreira quando entreguei a minha vida a Deus. Com Ele, recebi sempre graça e proteção.

Durante os primeiros seis meses em Nova Jérsia, vivi uma depressão profunda. Demorei três meses a perceber que estava doente e que precisava de ajuda psicológica na universidade. Nesse momento, percebi: se eu, a estudar Psicologia, tive dificuldade em compreender o que estava a viver, como será para tantas pessoas sem conhecimento nesta área? Foi aí que entendi, com mais clareza, a importância de falar sobre saúde mental e de dar prioridade a esta área da saúde. Essa experiência dolorosa tornou-me mais empático e sensível às dificuldades psicológicas dos outros.

Depois de terminar os estudos, decidi partilhar a minha experiência e falar publicamente sobre saúde mental e a sua importância para o bem-estar coletivo. A partir dessa iniciativa voluntária, comecei a criar laços, e pouco a pouco surgiram oportunidades de trabalho. Cheguei a uma fase em que era o trabalho que me procurava. Tive a sorte de escolher fazer apenas aquilo que me realizava e rejeitar o que não correspondia ao meu propósito. Essa é uma grande graça de Deus na minha vida. Aprendi que a escola pode vir tarde, que os desafios aparecem a qualquer momento, mas com Deus tudo acontece no Seu tempo.

Tive tuberculose em criança e fiquei com sequelas nos pulmões. Perdi oportunidades por essa razão, mas quando confirmei o meu estado de saúde com um médico nos Estados Unidos, ele disse-me: “Os sinais no pulmão não vão desaparecer, mas isso não significa que tenhas tuberculose ativa.” Foi um alívio e também uma lição de vida.

Compreendi que podemos sonhar e lutar, mas é essencial acompanhar o esforço com oração. Deus tem sempre um plano, mesmo quando não o entendemos, e às vezes é preciso deixar que as coisas sigam o Seu rumo. Quando o esforço é acompanhado pela fé, os milagres acontecem. Também aprendi que, quando não temos posses, a nossa voz não é ouvida. Muitas vezes, nem a própria família quer escutar ou apoiar. Essa é uma das injustiças que vivi.

Hoje estou feliz com tudo o que aprendi e sei que ainda tenho muito para aprender. Com esforço, oração e coragem, vivo agora uma realidade que antes era apenas um sonho de criança. Posso falar inglês e estudar no estrangeiro, algo que via apenas nos filmes. Já sei distinguir o português do inglês (mesmo que ainda cometa erros), e adquiri conhecimentos e competências que espero colocar ao serviço de Timor-Leste.

Acredito que, quando caminhamos com Deus, nunca estamos sozinhos. O percurso pode ser longo e os desafios muitos, mas a graça de Deus acompanha-nos sempre. A graça que recebi não foi apenas a oportunidade de estudar noutros países, mas também os amigos verdadeiros que Deus colocou no meu caminho. Essa é a grande prova da Sua intervenção na minha vida. Sou uma pessoa comum, mas as bênçãos que recebi foram muito maiores do que poderia imaginar. Espero poder ser um bom filho, um bom pai, e contribuir com as minhas competências para o bem de Timor-Leste.

Ângelo Alcino Menezes Guterres Aparício, ou Alau, é natural de Baucau. Licenciou-se em Psicologia e Sociologia na Universidade do Havaí e fez o mestrado em Psicologia Clínica Forense na Universidade de Montclair State University, Nova Jersey, Estados Unidos da América. Atualmente, trabalha como consultor independente.

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