Diário de bordo: Entre as ondas e os traços da história de Oé-Cusse

Crepúsculo em Oé-Cusse/Foto: Diligente

Oé-Cusse Ambeno é muito mais do que um enclave em Timor-Leste — é um território onde a história, a cultura e a aventura se encontram numa viagem cheia de cor e significado. Do embalar suave das ondas ao amanhecer, aos monumentos que evocam a chegada dos portugueses, cada recanto de Oé-Cusse guarda uma memória, um traço e uma narrativa à espera de ser revelada.

A Região Administrativa Especial de Oé-Cusse Ambeno (RAEOA) é um lugar que guarda as marcas da chegada dos portugueses à ilha de Timor. Situada a cerca de 205 quilómetros de Díli, a viagem até esta região não é apenas uma deslocação geográfica, mas uma experiência que mistura história, paisagens e encontros inesquecíveis.

Existem três formas de lá chegar. De avião, em apenas uma hora e por cerca de 30 dólares, para quem prefere rapidez. De carro, numa viagem de cerca de quatro horas, entre curvas e contracurvas, com montanhas, rios e a paisagem rural timorense a acompanhar o percurso. Ou de barco, a opção mais económica — 15 dólares — mas também a mais imersiva, que exige uma noite inteira a bordo.

Desta vez, a nossa escolha recaiu sobre o mar. O embarque não significou apenas partir, mas mergulhar numa pequena aventura coletiva. Durante o dia, o convívio fez-se em roda de cartas, entre conversas animadas, gargalhadas soltas e música improvisada. Alguns adormeciam embalados pelo balanço das ondas, enquanto outros simplesmente se deixavam hipnotizar pelo pôr do sol. A bordo, o tempo parecia correr noutro ritmo, lento e acolhedor, como se todos os passageiros partilhassem a mesma história. A comida estava disponível, mas a preços mais altos do que o habitual — por isso, viajar prevenidos foi essencial.

De madrugada, quando o navio se aproximava do porto de Oé-Cusse, o cansaço deu lugar ao entusiasmo. O ar fresco e a paisagem costeira, ainda envolta em silêncio, receberam-nos como um abraço sereno.

Às cinco da manhã, já em terra, aguardávamos transporte. Uns seguiam com boleia marcada, outros procuravam alternativas por conta própria. O estômago, vazio depois da noite, encontrou solução na pequena multidão de crianças, adolescentes e idosos que, na penumbra, vendiam bolos tradicionais, pão e outros produtos. Comprámos pão a uma menina. Quando lhe perguntámos o preço, respondeu, tímida mas decidida: “Dois por vinte e cinco centavos, quanto quer?” Levámos o equivalente a um dólar e cinquenta e, pouco depois, o carro que nos levaria até Palaban chegou finalmente.

Ali, percebemos que o trabalho infantil continua a marcar o quotidiano da região. A madrugada ainda não deixava ver tudo com clareza, mas aquela imagem — crianças a trabalhar quando deviam dormir ou estudar — ficou connosco. Em Palaban, alugámos a casa de um morador local por duzentos dólares para quatro dias. Viajar em grupo tornou essa opção mais económica e permitiu-nos viver mais de perto o quotidiano da comunidade.

Depois de um breve descanso, saímos em busca de pequeno-almoço. Eram seis e meia da manhã quando deixámos o alojamento e, logo à saída, ficámos impressionados com a limpeza das ruas. Em cada esquina, trabalhadores de limpeza já estavam a varrer e a organizar o espaço. Não havia lixo espalhado; tudo parecia em ordem, transmitindo uma sensação de cuidado e disciplina.

Domingos da Costa, um dos visitantes do grupo, partilhou também a sua primeira impressão, mesmo já conhecendo bem a região.

“Já vim muitas vezes a Oé-Cusse e sinto-me sempre feliz quando cá estou. Venho de outro município e vejo Oé-Cusse como uma zona especial, muito boa. O ambiente é limpo e tudo funciona de forma ordeira. Por isso, como visitantes, devemos também cuidar do ambiente e não deitar lixo nas ruas.”

Depois de alguma conversa, a escolha recaiu sobre um local conhecido como Madre Dominicana. Para lá chegar, optámos pelo meio de transporte público mais comum da região: o Tum-Tum. A língua mais falada é o baikenu, e um dos desafios foi perceber que poucos dominam bem o tétum. Assim que entrámos, perguntámos o preço da viagem. “Cinquenta centavos por pessoa, cabem quatro a seis pessoas”, respondeu o motorista com simpatia.

O percurso foi mais longo do que esperávamos, passando por várias escolas, edifícios governamentais e pelo Aeroporto Internacional de Oé-Cusse, Rota de Sândalo. Mas a viagem revelou-se agradável: à direita, o mar azul e tranquilo acompanhava-nos como um quadro em movimento; à esquerda, as ruas limpas e organizadas confirmavam a impressão de ordem. O ar fresco da manhã completava a paisagem, tornando a travessia quase poética.

Quando chegámos ao destino, fomos recebidos pelo aroma intenso da cozinha da Madre Dominicana, que nos abriu o apetite. O restaurante, rodeado por plantas ornamentais bem cuidadas, oferecia uma atmosfera acolhedora. A brisa suave e a luz do sol a atravessar delicadamente as folhas criavam um cenário perfeito para começar o dia.

Pedi um copo de sumo de melancia e um pão recheado com ovo. “O total é dois dólares e cinquenta centavos. Pode escolher onde se sentar”, disse a vendedora com um sorriso sereno. Poucos minutos depois, o pedido estava na mesa. Saboreámos o pequeno-almoço simples, mas delicioso, em paz, acompanhados pelo ar fresco e pela tranquilidade do lugar.

Depois da refeição, regressámos ao alojamento para nos preparar para a próxima etapa da viagem: uma visita a Lifau, um dos locais mais marcantes da história de Oé-Cusse. Mas ficou desde logo decidido que, para poupar nas despesas dos próximos dias, cozinharíamos nós próprios na casa alugada.

“Lifau vem da língua Baikenu e significa lugar onde muitas pessoas se reúnem”, explicou o antigo chefe tribal, João da Costa. Lifau é um dos marcos históricos de Timor-Leste, situado em Oé-Cusse Ambeno, um enclave no extremo ocidental da ilha, rodeado pelo vasto território da Indonésia. Este lugar guarda um peso simbólico inegável: foi aqui que, no século XVI, os portugueses desembarcaram pela primeira vez e estabeleceram a sua colónia, marcando o início de uma nova era para o país.

O monumento erguido em Lifau ficava longe do nosso alojamento, mas, ainda assim, decidimos fazer o percurso a pé, apesar do sol da manhã já começar a aquecer. A caminhada foi leve, acompanhada de conversas e brincadeiras que tornavam o caminho mais curto. A atmosfera que nos envolvia era calorosa, não só pelo clima, mas também pelo acolhimento dos habitantes locais. Sempre que nos cruzávamos com estudantes ou transeuntes, recebíamos um sorriso e um cordial “Bom dia!”, uma saudação simples, mas que carregava uma genuína hospitalidade.

Após alguns minutos de caminhada, chegámos finalmente ao Monumento de Lifau, um espaço sereno mas profundamente carregado de significado. Não se trata apenas de um ponto turístico, mas de um símbolo vivo do início de uma história que moldou não só Oé-Cusse, mas todo o território de Timor-Leste.

Ali, ergue-se uma estátua que retrata o momento histórico: um navio de madeira atracado, rodeado por missionários que são recebidos por dois liurais, líderes tradicionais locais, firmes na sua posição, acompanhados por um soldado como gesto de homenagem e proteção. Mais do que uma obra de arte, esta cena é uma representação poderosa da chegada dos portugueses, um encontro que trouxe ensinamentos religiosos e iniciou o contacto entre o mundo exterior e a comunidade timorense.

Perto do monumento principal, ergue-se também um marco mais pequeno, mas igualmente expressivo. Gravado na pedra, lê-se: “Aqui desembarcaram portugueses em XVIII-VIII-MDXV”. Uma inscrição que funciona como testemunho oficial e lembrete do início da presença colonial nesta região — um momento que marcou de forma profunda a história política, cultural e religiosa do país.

Em entrevista ao Diligente, João da Costa sublinhou a importância de preservar as narrativas históricas que verdadeiramente vêm da comunidade local. Mostrou-se preocupado com a multiplicidade de versões que circulam e que, segundo ele, nem sempre correspondem à realidade transmitida pelos anciãos e habitantes nativos de Oé-Cusse. “Peço ao Governo que continue a recolher informações verdadeiras sobre esta história, pois em Oé-Cusse existem dezoito tribos, cada uma com a sua versão diferente”, apelou.

Também Domingos da Costa partilhou a sua experiência, afirmando que já visitou vários pontos turísticos da região, incluindo o Monumento de Lifau, a Ponte Noefefan e a deslumbrante zona costeira. “Sinto-me muito satisfeito porque alguns destes locais são bastante estratégicos para atrair pessoas de diferentes municípios, bem como visitantes de fora, para conhecer Oé-Cusse. Seja apenas para descansar ou para explorar a história existente”, afirmou.

Depois de visitar o Monumento de Lifau, seguimos a pé em direção ao próximo destino: a imponente ponte Noefefan. O caminho, junto à estrada principal, ofereceu-nos uma paisagem de cortar a respiração. De um lado, estendiam-se campos de arroz verdejantes, embalados pela brisa fresca e revigorante da manhã. Do outro, árvores frondosas e colinas desenhavam o horizonte, no topo das quais se podia distinguir uma estação da Via-Sacra, erguida como sentinela silenciosa sobre a paisagem.

Caminhávamos descontraidamente, conversando e apreciando a tranquilidade do campo. Minutos depois, surgiu diante de nós a ponte Noefefan: grande, robusta, uma verdadeira obra de engenharia que simboliza o avanço das infraestruturas e o reforço da conectividade em Oé-Cusse.

Ao longo do trajeto, incluindo em Lifau, fomos registando cada momento em fotos e vídeos. Entre risos e comentários, alguns amigos disseram: “Isto é muito grande, mas é mais bonito ao pôr do sol. Devíamos ter vindo nessa altura”. Outros acrescentaram: “Quem tira uma foto aqui deixa logo claro que esteve em Oé-Cusse”. Para nós, esse instante tornou-se mais do que uma imagem guardada — foi uma recordação preciosa, uma prova concreta de quão especiais são os lugares que visitámos nesta viagem.

Depois de explorarmos a ponte, regressámos ao alojamento. No dia seguinte, decidimos alugar bicicletas para ir mais longe. O proprietário explicou, com simpatia: “Uma hora, um dólar; vinte e quatro horas, três dólares”. Apesar da oferta, optámos por usar as bicicletas apenas por um curto período, para poupar algum dinheiro. Ainda assim, aproveitámos ao máximo o dia e traçámos um plano: ver o pôr do sol em Etu, um local conhecido pela sua beleza, situado a alguma distância, entre extensos campos de várzea.

Chegámos, porém, demasiado tarde. A noite já caía e não conseguimos assistir ao pôr do sol que tanto esperávamos. Mas a serenidade do lugar compensou a frustração. A paisagem verde, o silêncio profundo e a calma da noite transformaram Etu numa memória especial da viagem. O ambiente era tão pacífico que transmitia segurança e conforto, mesmo depois de escurecer.

Oé-Cusse, como percebemos, é também um destino privilegiado para os amantes do pôr do sol. Aqui, cada entardecer pinta o céu de cores intensas, como se fosse um espetáculo criado para os que admiram a beleza do crepúsculo. Usámos as bicicletas durante dois dias antes de as devolver, conscientes de que ainda havia muitos lugares por explorar: o sítio da aparição de Santo António e outros pontos históricos e culturais que ficaram guardados na nossa lista.

Quando terminámos todos os compromissos em Oé-Cusse, preparámo-nos para regressar. O caminho de volta foi feito da mesma forma, envolto numa atmosfera que permanecia tranquila, limpa e carregada de memórias. Oé-Cusse é um lugar onde o mar embala histórias e cada pedra guarda um traço de memória — um território que não se atravessa, vive-se.

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