No meio das montanhas de Timor-Leste, encontramos a Cascata de Dokomali, uma joia natural em fase de descoberta. A longa viagem e o terreno desafiante não diminuem o entusiasmo dos exploradores que procuram a cascata de águas cristalinas no meio das montanhas frescas de Ainaro.
Em Timor-Leste, existe um pequeno paraíso de extraordinária beleza natural que se está a tornar amplamente conhecido como destino turístico. Trata-se da Cascata de Dokomali, localizada no suco Nunumoge, Posto Administrativo de Hatubuliku, em Ainaro.
A cascata de Dokomali é considerada um destino perfeito para amantes da natureza e aventureiros que queiram escapar à agitação da capital, pelas suas águas cristalinas e uma natureza imaculada.
Partindo de Díli, Dokomali fica a cerca de 90 quilómetros de distância. Em Timor-Leste, no entanto, existe uma forma curiosa – e mais eficaz – de medir distâncias e percursos: em tempo. Daí que seja mais comum dizer-se que Dokomali fica a cerca de duas horas e meia de Díli.
Esta medição da distância em tempo também oferece às pessoas a ideia de que a própria viagem é parte da experiência. Ir a Dokomali, como a tantos outros lugares em Timor-Leste, não é só ir a Dokomali. Não se fazem médias de velocidade, porque as paragens ao longo desses 90 quilómetros são inevitáveis – para admirar a paisagem, deixar passar os animais na estrada, conversar com as pessoas, descansar, entre tantos outros rituais do caminho.
A viagem desde Díli
No início do mês, a equipa de reportagem do Diligente viajou, de mota, para Dokomali. Saída de Díli marcada para as 10h00. Esperávamos algumas passagens complicadas, especialmente na área de Kasnafar, na zona de Manleuana. Se, durante a época das chuvas, o percurso lamacento dificulta a passagem naquela zona, que tem estado constantemente em obras, na época seca, o pó exige uma atenção redobrada, além de prejudicar a respiração.
No entanto, Kasnafar também apresenta algumas surpresas refrescantes. No início da subida, há uma pequena cascata que serve de “primeira paragem”. A água fresca e a atmosfera natural renovam o ânimo para continuar a viagem, com a grande subida até Aileu.

A estrada, nas margens de um grande vale, foi arranjada recentemente e permite desfrutar da paisagem, à medida que se sobe até Seloi.
Antes de chegar a Dokomali, a passagem pelo verdejante Município de Aileu e o ziguezague até Maubisse, já na zona montanhosa, oferecem paisagens marcantes. O ambiente calmo e fresco, que já convida ao uso de um casaco (para quem vai de mota), contrasta com o constante “ba-mai” (vai e vem) de motas, jipes, angunas, biscotas e camiões.
Mais uns quilómetros e chegámos a Fleixa, a nossa segunda paragem a caminho de Dokomali. Aí, decidimos fazer uma pausa para comer e beber.
Dirigimo-nos a uma vendedora, com a sua banca junto à estrada. “Tia, queríamos um café e de um Supermie”. Gentilmente, mulher preparou tudo: despejou um pacote de café numa caneca azul de plástico, abriu a caixa dos noodles instantâneos, e deitou água quente para dentro de um e de outro. “Vocês são de Díli?”, perguntou, “Sim”, respondemos. “Para onde vão?”, perguntou novamente. Explicámos que íamos para Dokomali. Ao ouvir isto, a senhora sorriu e disse: “Agora vai tanta gente visitar Dokomali!”
Esta simples conversa serviu para perceber que aquele local se está a tornar cada vez mais uma referência para quem visita as montanhas de Ainaro, tanto para locais, como para estrangeiros.
Sentámo-nos e relaxámos um pouco, saboreando os famosos noodles e o café preparado à moda de Timor-Leste. Habituados ao calor de Díli e estando a mais de mil metros de altitude, soube bem sentir o calor da comida e do café. A atmosfera calma, a brisa suave, o silêncio e a simpatia dos vendedores e de quem ali parava deram outro brilho à nossa paragem.
Caminhada até à cascata

Antes de chegarmos à cascata propriamente dita, há uma paragem final. É aí que se deixam as viaturas, antes de iniciar a caminhada até Dokomali. Neste ponto, os visitantes devem pagar uma taxa de um dólar, para garantir a segurança dos veículos e o auxílio no acesso ao local turístico. Pagámos, recebemos um pequeno recibo, e estávamos prontos para a etapa final que nos levaria até à cascata.
Não muito longe dali já se avistava uma placa – “Bem-vindo mai Kaskata Dokomali“ (Bem-vindo à Cascata de Dokomali). Junto à placa, era fácil reconhecer o trilho ao longo da colina.
Para chegar à cascata, temos de caminhar cerca de meia hora por um trilho íngreme, escorregadio e com alguns cortes. Estávamos com alguns amigos que já tinham visitado o local por diversas vezes. No entanto, para quem não conhece, é aconselhável pedir ajuda a um guia ou a alguém que conheça aquela área.
Durante a subida, era possível ouvir o som da água misturado com o canto de alguns pássaros. À volta, plantações de café, no meio de uma vegetação exuberante, compunham o cenário.
Uma das nossas companheiras de viagem, Nívia da Silva, partilhou a sua experiência. Contou que era a primeira vez que via uma plantação de café naquela região e que tinha gostado muito do ambiente: “É a primeira vez que vejo cafeeiros e gosto muito do ambiente daqui. Mas o trilho é um pouco escorregadio. Temos de ter cuidado ao caminhar”.
À medida que a tarde avançava, uma fina névoa branca começou a descer, envolvendo a zona de Dokomali e os seus arredores. Esta névoa criou uma atmosfera verdadeiramente mágica, aumentando o mistério e a expectativa de chegar à cascata.

Pelo caminho, encontrámos também uma casa tradicional timorense, não muito longe de uma grande árvore. Esta casa é guardada por um ancião e serve de símbolo da cultura local, que vive quase em simbiose com a natureza. A localização da casa oferece uma vista direta para o vale e para as montanhas.
A viagem continuou até um pequeno riacho, junto ao vale, que tivemos de atravessar com cuidado, para não escorregar nas pedras. Logo depois, demos de caras com a subida final — um trilho difícil, repleto de pequenas pedras, semelhante ao início do percurso. No entanto, este trilho foi cuidadosamente adaptado, por motivos de segurança, e está equipado com corrimões de madeira e cordas.
Já à boca da Cascata Dokomali, cada visitante precisa de pagar novamente uma taxa de entrada – um dólar – que serve de ajuda para manter aquela atração turística. Este ponto não é apenas a porta de entrada para a cascata, mas também um local onde os visitantes param para tirar fotografias.
Algumas fotos depois, descemos a ladeira que termina na Cascata Dokomali, o nosso destino.
A cascata

A vista é de cortar a respiração: à nossa frente estava uma enorme cascata, sentia-se a força da água a cair com estrondo no lago, levantando uma nuvem de gotículas de água, e que rapidamente corria pelos penhascos naturais. O som é ensurdecedor, mas relaxante, criando uma harmonia perfeita, naquele cenário composto pelo ar fresco da montanha, rochedos e vegetação densa.
Os visitantes podem tirar fotografias, apreciar a paisagem e até mergulhar ou lavar o rosto na água cristalina e fresca. Tudo está imaculado — como se resistisse à modernização.
Na cascata, conhecemos também outros visitantes de Díli. Numa breve conversa, Normandino Pinto disse: “Já visitei Dokomali quatro vezes. Na segunda vez, trouxe amigos que nunca tinham vindo. Desta vez, vim com mais cinco amigos e todos gostaram muito.”
Estivemos também à conversa com outra visitante, Nélia da Costa, que partilhou as suas impressões da viagem: “Este local é muito bonito pela sua natureza intocada, mas o desafio está na estrada, que é bastante difícil e escorregadia.”
Depois de apreciar as vistas deslumbrantes de Dokomali, era tempo de voltar à capital. A viagem de regresso foi desafiante, mas repleta de alegria — um misto de fadiga e satisfação.
Embora o terreno fosse bastante exigente e a viagem durasse quase três horas – uma jornada de quase sete horas, contando com a ida e volta –, a experiência fez esquecer todo o cansaço.
Planear uma viagem a Dokomali nem sempre tem de incluir alojamento. Como se percebeu, é possível regressar a Díli no próprio dia. Saindo de manhã, é possível iniciar o regresso por volta das quatro da tarde. Foi o que fizemos, com tempo para mais um cafezinho, desta feita noutra banca.
Mais uma vez, fizemos conversa com uma senhora, que nos disse estar orgulhosa por ver que Dokomali se está a tornar num destino turístico famoso em Ainaro: “Estamos orgulhosos. Quando as pessoas falam de Dokomali, já toda a gente sabe que é em Ainaro”.
Uma viagem a Dokomali não se resume a ver uma cascata. Explorar o nosso território é sempre uma experiência: por caminhos desafiantes e paisagens únicas, fica sempre a ideia de que a viagem é parte do processo de descoberta ou, como diria o poeta português Miguel Torga: “Em qualquer aventura, o que importa é partir, não é chegar”.
