Construção da estrada Cristo Rei–Dolok Oan deve avançar com controlo ambiental e medidas de recuperação

O desenvolvimento tem sempre custos, e os impactos ambientais das obras rodoviárias devem ser compensados através de reflorestação, gestão de resíduos e controlo rigoroso nas zonas costeiras/Foto: Diligente

A nova estrada entre o Cristo Rei e Dolok Oan está a transformar a paisagem protegida de Díli e a levantar preocupações ambientais. Autoridades garantem que há planos de reflorestação e mitigação, mas especialistas alertam para riscos de erosão, poluição e danos na biodiversidade marinha.

A construção da estrada entre Cristo Rei e Dolok Oan, iniciada durante o mandato do VIII Governo, continua em curso. Embora a zona esteja classificada como área protegida desde 2000, por regulamento da Administração Transitória das Nações Unidas em Timor-Leste (UNTAET), o Governo avançou com a obra, alegando o seu potencial para o desenvolvimento e o turismo.

Segundo o regulamento da UNTAET, é proibida qualquer construção no Cristo Rei, com o objetivo de preservar o carácter natural da área e os seus recursos biológicos. Apesar disso, o Executivo decidiu avançar com o projeto, que inclui a estrada até à praia de Dolok Oan, do outro lado da montanha.

“Timor-Leste precisa de desenvolvimento e esta decisão visa também promover o Cristo Rei como ícone turístico”, afirmou o diretor Nacional da Alteração Climática, Carlos Conceição. Acrescentou que a construção foi autorizada com regras específicas e que há gestão das atividades diárias.

Carlos Conceição reconhece que a construção exige o corte de árvores e sublinha a necessidade de recuperação através da reflorestação, tanto na zona do Cristo Rei, para evitar erosão, como noutros locais, de modo a compensar as emissões de carbono do país. A empresa responsável pela obra, segundo o diretor, está obrigada a replantar as árvores abatidas, conforme o plano de gestão ambiental do projeto.

O presidente da Autoridade Nacional de Licenciamento Ambiental (ANLA), Maximiano Maria Gusmão de Oliveira, referiu que a instituição está a realizar reflorestação na área afetada. Apesar de garantir que a colina do Cristo Rei não está em risco de erosão, devido à sua composição rochosa, admite que até as pedras grandes se degradam com o tempo. Defende, por isso, que é essencial plantar árvores e evitar atividades no topo da colina.

Carlos Conceição alertou ainda para possíveis riscos para a biodiversidade marinha, causados pelo corte de terreno. “Com chuvas fortes ou mesmo com vento, pode ocorrer sedimentação no mar, afetando os corais. Isso perturba a cadeia alimentar e ameaça o habitat dos peixes. Além disso, os corais são uma atração turística para mergulhadores”, sublinhou, apelando ao cumprimento rigoroso das normas ambientais por parte da empresa.

Segundo a ANLA, o projeto recebeu, durante o VIII Governo, uma licença ambiental de categoria B, o que significa impacto ambiental médio. A classificação teve em conta a proximidade do mar e o carácter turístico da zona, com especial preocupação em relação à produção de lixo e à desflorestação.

“Recomendámos melhorias na gestão dos resíduos, principalmente dos sacos vazios de cimento”, afirmou Maximiano de Oliveira. Apesar dos desafios, garantiu que a obra é benéfica e com riscos controlados, dado que está a ser construída sobre o traçado de uma estrada pré-existente.

Ameaça da água do mar e soluções estruturais

A estrada de Cristo Rei sofreu danos há muito tempo, devido à corrosão causada pela água do mar, já que se situa junto à costa. Para evitar novos danos, Nelson Guterres, assessor de comunicação do Ministério da Solidariedade Social e Inclusão (MSSI), sugeriu a instalação de tetrápodes — tal como foi feito na Praia dos Coqueiros — como forma de proteção costeira. “Se for feita essa intervenção, evita-se também que as crianças tenham medo de circular pela estrada”, afirmou.

O ministro das Obras Públicas, Samuel Marçal, confirmou que já orientou a colocação dos tetrápodes para impedir que o mar volte a atingir a estrada. “Espero que, depois disso, a água do mar não chegue mais à estrada”, declarou.

A nova estrada já está a ser utilizada como espaço para exercício físico/Foto: Diligente

Nova estrada como potencial turístico

Pela primeira vez a circular na nova estrada, Nelson Guterres mostrou-se satisfeito com a obra, considerando-a um sinal de seriedade por parte de Timor-Leste, sobretudo tendo em conta a adesão à ASEAN. Lançou ainda um apelo aos jovens para que cuidem da estrada, evitando vandalismo ou pinturas.

Francisco Soares, instrutor de ginásio, habituado a subir as escadas do Cristo Rei para se exercitar, destacou que agora percorre distâncias maiores graças à nova estrada, que já atrai turistas estrangeiros. “Caminham com um sorriso no rosto, como quem reconhece os sinais de desenvolvimento em Timor-Leste”, comentou. Para Francisco, respirar o ar fresco do mar é essencial para a saúde, pelo que defende a limitação do tráfego automóvel na zona, com o objetivo de manter o espaço limpo e propício ao turismo e à prática de exercício físico.

O Ministério das Obras Públicas anunciou que a estrada será aberta ao público, mas que ainda está a ser articulada uma coordenação com o Ministério do Turismo e com a Autoridade Municipal de Díli, dado tratar-se de uma zona turística. “Claro que camiões com dezenas de toneladas não poderão circular aqui, pois danificariam a estrada. Teremos de limitar o peso dos veículos”, explicou um responsável, indicando que o assunto será discutido com todas as partes envolvidas.

Por fim, Carlos Conceição acrescentou que a estrada entre o Cristo Rei e Dolok Oan não só atrai turistas, como também poderá criar oportunidades de emprego. Referiu que visitou um local semelhante na Malásia, com mais infraestruturas, e defendeu que Timor-Leste deve apostar no desenvolvimento, sem descuidar a proteção ambiental.

“Não há desenvolvimento sem impacto. Mas é preciso garantir que esse impacto não ultrapasse a capacidade do ambiente. Se o impacto for maior, destruímos os recursos que poderiam atrair pessoas a visitar Timor-Leste”, concluiu.

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