“Timor-Leste precisa de uma fé independente”: a visão da ICCTL sobre religião, soberania e Vaticano

Manuel Banaira Gama, um dos fundadores e porta-voz da Igreja Católica Carismática de Timor-Leste (ICCTL). Foto: Arquivo pessoal

A Igreja Católica Carismática de Timor-Leste (ICCTL) apresenta-se como uma expressão independente da fé católica e defende uma maior ligação entre a religião, a cultura timorense e a soberania nacional.

Timor-Leste é um dos países mais católicos do mundo. Segundo os dados do Censo de 2022, cerca de 97% da população identifica-se como católica. Ao longo da história do país, a Igreja Católica desempenhou um papel central não apenas na vida espiritual da população, mas também na preservação da identidade nacional e na resistência durante a ocupação indonésia.

É neste contexto que surge a Igreja Católica Carismática de Timor-Leste (ICCTL), criada em 2024 por um grupo de timorenses que defende uma maior autonomia religiosa, uma ligação mais estreita entre a fé cristã e a cultura local e uma reflexão crítica sobre algumas decisões da Igreja Católica Apostólica Romana.

A criação da ICCTL tem gerado debate público e críticas, sobretudo devido às suas posições sobre o Vaticano, Dom Carlos Filipe Ximenes Belo e o papel da religião num Estado democrático. Os seus dirigentes rejeitam, contudo, a ideia de que a nova Igreja represente uma divisão entre os católicos timorenses, afirmando que o objetivo é contribuir para a diversidade religiosa e para o fortalecimento da vida espiritual do país.

Nesta entrevista, Manuel Banaira Gama fala sobre as origens da Igreja, os desafios enfrentados desde a sua fundação, a relação com a Igreja Católica e a visão da ICCTL para o futuro da fé em Timor-Leste.

Como surgiu a ideia de criar a ICCTL? Quais foram as principais razões que estiveram na origem da fundação da Igreja?

A ideia que nos levou a criar a Igreja Católica Carismática de Timor-Leste (ICCTL) surgiu, em primeiro lugar, porque não aceitamos a decisão da Igreja Católica do Vaticano de sancionar Dom Carlos Filipe Ximenes Belo devido a alegações de abuso de menores.

Entendemos que essas acusações podem ter sido promovidas por pessoas que não apoiavam a independência, com o objetivo de fazer a população perder a confiança nele. Consideramos essas acusações uma forma de destruir a reputação de uma pessoa sem derramamento de sangue.

Também não aceitamos o afastamento de Dom Martinho Lopes do cargo de Administrador Apostólico de Díli pela Santa Sé, em 1983. Foi uma figura importante na defesa dos direitos humanos durante a ocupação indonésia. Consideramos que a sua saída representou uma perda para o povo timorense e para a Igreja em Timor-Leste.

Muitos timorenses protestaram contra estas situações, mas as suas vozes não foram ouvidas. Fundámos, por isso, esta Igreja para expressar solidariedade para com Dom Martinho Lopes e Dom Carlos Filipe Ximenes Belo, reconhecendo os seus contributos para a fé, a dignidade e a luta do povo timorense.

Além disso, não concordamos com certas práticas da Igreja em relação aos fiéis e ao povo timorense que, no nosso entendimento, não seguem plenamente as orientações do Evangelho. Jesus não aceitou que se fizessem negócios dentro da Igreja e da casa de Deus. Como acontece atualmente em algumas igrejas, quando os fiéis precisam de tratar de documentos, têm de pagar taxas e encargos que, por vezes, são bastante elevados.

Estas duas razões fundamentais levaram-nos a criar uma igreja autónoma.

Na sua resposta, afirma que não aceita a decisão do Vaticano de sancionar Dom Carlos Filipe Ximenes Belo e sugere que as acusações podem ter tido motivações políticas. Em que factos ou elementos concretos baseia essa convicção?

Não acredito nessas acusações. Vivi com Dom Carlos Filipe Ximenes Belo em Lecidere durante cerca de dois anos, no período da ocupação indonésia, e nunca vi nem senti nada que me levasse a acreditar que tivesse cometido esses atos. Falo com base na minha experiência pessoal e no testemunho da convivência que tive com ele.

A ICCTL afirma ter sido fundada por veteranos e antigos membros da resistência. De que forma a luta pela independência influenciou a criação da Igreja e a sua visão para Timor-Leste?

A fundação da ICCTL contou com a participação de 12 figuras importantes, entre as quais se destacam Afonso Mauresi Topoldana, atual bispo cardeal da Diocese Dom Martinho Lopes de Díli, “Timor Moruk”, “Ramelau”, Hélder Lopes Matias Topoldana e Manuel Banaira Gama.

A nossa visão é que a construção da República Democrática de Timor-Leste deve ser completada através de um processo de restauração. Isto significa que aquilo que foi destruído ou perdido deve ser reconstruído e revitalizado. Da mesma forma, entendemos que a fé também precisa de ser restaurada.

A ICCTL valoriza a cultura timorense e defende que os timorenses já possuíam crenças espirituais e fé em Deus antes da chegada das igrejas estrangeiras. Como exemplo, destacamos a designação tradicional “Ochawa”, utilizada em Lospalos para se referir a Deus. Isto demonstra que, antes da chegada dos portugueses e dos indonésios, os timorenses já possuíam uma crença e um conhecimento espiritual sobre a existência de Deus.

É com base nessa convicção que procuramos revitalizar e valorizar essa herança espiritual através da criação da Igreja Católica Carismática de Timor-Leste (ICCTL), uma igreja que procura integrar a fé cristã com a identidade cultural e espiritual do povo timorense.

Acreditamos que todos os aspetos da vida nacional devem refletir essa independência: o povo deve ser independente, a fé deve ser independente, a política deve ser independente e a economia também deve ser independente.

Timor-Leste é um dos países mais católicos do mundo. Porque considera importante a existência da ICCTL num contexto em que a Igreja Católica ligada ao Vaticano está fortemente implantada no país?

Nós, da ICCTL, consideramos a Igreja Católica Apostólica ligada ao Vaticano como o nosso pai, enquanto nos vemos como seus filhos. Também recebemos os sacramentos, incluindo o batismo, o matrimónio e a formação religiosa, através da Igreja Católica ligada ao Vaticano.

O que pedimos é que o pai conceda espaço e liberdade ao seu filho. Tal como um filho que já cresceu, aprendeu a ler e a escrever, construiu a sua própria casa e está preparado para cuidar da sua família, também a ICCTL considera que chegou o momento de caminhar com autonomia.

Não procuramos substituir nem combater a Igreja Católica ligada ao Vaticano. Pelo contrário, respeitamo-la profundamente. O que pedimos às autoridades e a todas as entidades é que respeitem a nossa liberdade religiosa, de acordo com os princípios democráticos praticados em Timor-Leste.

“Uma das principais diferenças é que, na ICCTL, os padres podem casar e as madres também podem constituir família, enquanto na Igreja Católica Apostólica Romana isso não é permitido”

Quais são as principais diferenças entre a ICCTL e a Igreja Católica Apostólica Romana?

Uma das principais diferenças é que, na ICCTL, os padres podem casar e as madres também podem constituir família, enquanto na Igreja Católica Apostólica Romana isso não é permitido. Esta posição baseia-se na nossa interpretação da Bíblia, onde encontramos o ensinamento de que os seres humanos devem multiplicar-se e ter descendência.

Outra diferença está na formação religiosa. Enquanto a Igreja Católica Romana segue principalmente as tradições teológicas e filosóficas de Roma e do Ocidente, nós estudamos e valorizamos também as tradições teológicas orientais. Consideramos importante refletir sobre a realidade e o contexto de Timor-Leste, procurando uma abordagem mais próxima da cultura e da experiência do povo timorense.

Quanto às semelhanças, utilizamos a mesma Bíblia, que inclui os livros deuterocanónicos. Reconhecemos igualmente a Bíblia como Palavra de Deus e património espiritual de todos os fiéis. Consideramos que ela pertence a Deus e não deve ser apropriada ou monopolizada por qualquer grupo ou pessoa em particular.

Algumas pessoas afirmam que a criação de uma nova Igreja pode dividir os católicos timorenses. Como responde a essa preocupação?

Agradeço a preocupação de todas as pessoas que consideram que a nossa existência possa causar divisões. No entanto, do nosso ponto de vista, isso não corresponde à realidade, porque a ICCTL não foi criada para dividir, mas sim para colaborar no fortalecimento da vida espiritual e religiosa do povo.

Atualmente, observamos situações em que alguns crentes utilizam as redes sociais para promover conflitos, ofensas ou ameaças. Entendemos que todos devemos trabalhar em conjunto para melhorar esta realidade.

Não vemos a nossa existência como uma separação, mas como uma forma de participação e de contribuição para o bem comum.

“Algumas pessoas rejeitaram a nossa iniciativa, fizeram comentários depreciativos, procuraram humilhar-nos, julgaram-nos pessoalmente e, em alguns casos, houve intimidações e ameaças”

Houve resistência por parte de outras instituições religiosas ou de setores da sociedade? Como lidaram com essas reações?

Desde que anunciámos oficialmente a nossa existência, enfrentámos diversas reações negativas. Algumas pessoas rejeitaram a nossa iniciativa, fizeram comentários depreciativos, procuraram humilhar-nos, julgaram-nos pessoalmente e, em alguns casos, houve intimidações e ameaças.

A nossa resposta tem sido procurar dialogar e explicar quem somos. Entendemos que muitas dessas reações resultam do facto de as pessoas ainda não compreenderem plenamente o que é a ICCTL e quais são os seus objetivos.

Como Igreja recentemente constituída, é natural que a nossa presença desperte preocupações e questionamentos, tanto entre instituições religiosas como em alguns setores da sociedade e do Estado. No entanto, encaramos essas situações como desafios normais da vida.

Há acusações de que membros da ICCTL terão feito comentários ofensivos sobre líderes da Igreja Católica em Timor-Leste. Como responde a essas alegações?

Na qualidade de porta-voz da ICCTL, reconheço que, se algum membro da nossa estrutura ou qualquer representante da nossa Igreja utilizou palavras ofensivas, linguagem agressiva ou expressões inadequadas dirigidas aos líderes da Igreja Católica em Timor-Leste, então, em nome da ICCTL, apresento as nossas sinceras desculpas.

Recentemente, tivemos uma reunião com o Arcebispo Dom Virgílio Cardeal do Carmo da Silva e estamos empenhados em procurar soluções positivas para as duas Igrejas e para todos os fiéis envolvidos. O próprio Cardeal Dom Virgílio transmitiu-nos que a Igreja Católica continuará a manter as portas abertas ao diálogo com a ICCTL, gesto pelo qual manifestamos a nossa gratidão.

Quais foram os principais desafios enfrentados pela ICCTL para afirmar a sua presença no país?

Um dos principais desafios foi o facto de uma parte da sociedade ter dificuldade em aceitar a nossa presença, por acreditar que não existe uma Igreja Católica independente. Considera que a única forma legítima de catolicismo é a Igreja Católica Romana.

Muitas pessoas questionaram quem era a ICCTL, de onde vinha e onde os seus membros tinham estudado Teologia e Filosofia. Apelamos às pessoas para que procurem mais informação sobre a existência de igrejas católicas independentes em vários países do mundo. Existem exemplos na Indonésia, nas Filipinas, na Nova Zelândia e em muitos outros lugares.

A Igreja já enfrentou obstáculos legais ou administrativos desde a sua fundação?

O artigo 12.º da Constituição estabelece que o Estado reconhece as diversas religiões e deve cooperar com as diferentes igrejas e comunidades religiosas. Este é o principal fundamento jurídico que sustenta a legitimidade da nossa existência.

No entanto, no que diz respeito ao registo formal das igrejas, existe uma dificuldade administrativa. O Estado timorense não possui um sistema específico de registo religioso nem uma estrutura governamental dedicada aos assuntos religiosos, uma vez que adota o princípio da separação entre o Estado e as religiões.

Gostaria igualmente de apelar ao público para que não tire conclusões precipitadas de que Timor-Leste reconhece apenas cinco religiões ou tradições religiosas: católica, protestante, hindu, islâmica e budista. A nossa Constituição garante a liberdade religiosa.

A Constituição garante a liberdade religiosa. Na prática, a ICCTL considera que essa liberdade é plenamente respeitada?

Em princípio, todas as pessoas têm o direito e a liberdade de expressar a sua fé. No entanto, aquilo que temos observado na prática é que continuam a existir situações de insulto, ameaça e discriminação dirigidas aos membros da ICCTL.

Timor-Leste já faz parte da ASEAN, organização que também valoriza e promove o princípio da liberdade religiosa nos seus instrumentos e compromissos. Por isso, entendemos que estes princípios devem ser respeitados e aplicados na prática.

A questão não deve ser se uma comunidade religiosa é maioritária, minoritária ou representa apenas uma parte da população. O mais importante é que cada pessoa tenha o direito de acreditar em Deus segundo a sua consciência e que todos se respeitem mutuamente enquanto seres humanos.

“A ICCTL não foi fundada por orientação direta de Dom Carlos Filipe Ximenes Belo. A nossa Igreja foi criada com base na nossa própria fé e convicção religiosa”

Como a ICCTL interpreta o papel histórico de Dom Martinho Lopes e de Dom Carlos Filipe Ximenes Belo na sua inspiração institucional?

Refletimos profundamente sobre o contributo destas figuras para o processo de independência nacional, reconhecidas por muitos como líderes de apoio ao povo maubere e à resistência, especialmente à juventude Lorico Aswain, em Díli.

É importante esclarecer publicamente que a ICCTL não foi fundada por orientação direta de Dom Carlos Filipe Ximenes Belo. A nossa Igreja foi criada com base na nossa própria fé e convicção religiosa.

A ICCTL procura o reconhecimento ou o diálogo institucional com a Igreja Católica Apostólica Romana? Em caso afirmativo, já houve contactos nesse sentido?

Assim como um filho de coração aberto, estamos sempre disponíveis para o diálogo. O líder da Igreja Católica ligada ao Vaticano, através de Dom Virgílio Cardeal do Carmo da Silva, também nos transmitiu que a Igreja Católica mantém as portas abertas.

Procuramos, assim, manter uma atitude aberta entre ambas as partes, para que possamos trabalhar juntos na construção de um país melhor e no fortalecimento da vida espiritual do povo.

“Embora o Governo apoie financeiramente a Igreja Católica, muitos fiéis com poucos recursos enfrentam dificuldades para suportar esses custos”

A ICCTL considera-se uma igreja independente ou entende-se como uma continuação ou renovação da tradição católica existente em Timor-Leste?

Nós consideramo-nos uma Igreja Católica independente, uma espécie de renovação da fé tradicional, com alguns elementos de melhoria. Não utilizo o termo “reforma” para evitar mal-entendidos ou reações negativas, mas sim o conceito de melhoria na forma de administração da Igreja Católica ligada ao Vaticano.

Isto inclui questões como os custos do casamento, os pagamentos associados ao batismo, a renovação frequente de certidões de batismo a cada seis meses e a necessidade de atualizar constantemente documentos paroquiais. Até mesmo as frequentes alterações de párocos dificultam o acesso a esses serviços, obrigando os fiéis a repetir processos sucessivamente.

Embora o Governo apoie financeiramente a Igreja Católica, muitos fiéis com poucos recursos enfrentam dificuldades para suportar esses custos. Perante estas realidades, decidimos criar a ICCTL.

Quantos membros tem atualmente a ICCTL? Em quantos municípios ou regiões do país está presente?

A ICCTL tem membros em todo o território nacional. Na primeira divulgação oficial, a 23 de novembro de 2024, registávamos cerca de 38 mil membros, e esse número continua a crescer.

No entanto, não temos o hábito de divulgar publicamente fotografias nem de indicar a localização dos nossos membros, porque ainda existem muitas pessoas que não compreendem bem a nossa Igreja. Quando imagens de membros da ICCTL são divulgadas, há casos em que esses fiéis e as suas famílias são alvo de insultos e críticas.

Como está a ICCTL a formar novos líderes religiosos?

Um grupo dos nossos membros já está a estudar nas Filipinas e na Indonésia, a frequentar cursos de Teologia e Filosofia. Não queremos mencionar os seus nomes para evitar eventuais ataques contra os nossos membros.

Na perspetiva da ICCTL, porque considera que Timor-Leste precisa da existência desta Igreja?

Consideramos que Timor-Leste merece ter a sua própria Igreja independente, porque um país que já conquistou a sua independência deve também ter uma fé independente e soberana. Defendemos que a Igreja deve estar enraizada em Timor-Leste, de forma a valorizar e desenvolver os recursos espirituais e culturais do próprio povo timorense.

 “Não devemos discriminar-nos uns aos outros como cristãos, nem provocar conflitos entre igrejas”

Que mensagem gostaria de deixar ao povo timorense sobre o futuro da fé, da unidade nacional e da liberdade religiosa?

Apelo a todos para que construamos juntos a paz, o amor e a unidade nesta nossa terra querida. Não devemos discriminar-nos uns aos outros como cristãos, nem provocar conflitos entre igrejas.

Devemos respeitar-nos mutuamente, independentemente da religião ou da igreja a que pertencemos, e trabalhar em conjunto para fortalecer a paz, a harmonia social e o desenvolvimento do nosso país. A liberdade religiosa deve ser entendida como um direito de todos, exercido com responsabilidade, respeito e espírito de convivência pacífica.

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