Um mês após a fixação de preços máximos, a maioria dos postos já pratica valores no limite, com impacto direto nos transportes e no quotidiano dos cidadãos.
Um mês depois de o Governo ter fixado o preço máximo dos combustíveis no país, com o objetivo de garantir valores justos no mercado, a maioria dos postos de abastecimento já aumentou os preços até ao limite estabelecido. O impacto começa a fazer-se sentir entre os cidadãos.
De acordo com o decreto-lei n.º 13/2026, de 25 de março, sobre medidas de estabilização temporária do preço dos combustíveis e segurança de fornecimento, o preço máximo da gasolina foi fixado em 1,50 dólares por litro e o do gasóleo em 1,65 dólares por litro. O combustível de aviação (Avtur) está fixado em 2,50 dólares por litro e o gás (LPG) em 4,2 dólares por quilograma.
A decisão pretendeu antecipar eventuais subidas dos preços dos combustíveis e assegurar a continuidade e segurança do fornecimento de combustíveis essenciais ao país.
Segundo dados divulgados hoje, 13 de abril, pela Associação TANE Consumidor, os preços da gasolina e do gasóleo em vários postos de abastecimento em Díli atingiram o teto definido. Pelo menos dez dos 23 postos monitorizados pela organização vendem gasolina entre 1,48 e 1,50 dólares por litro, enquanto o gasóleo é comercializado a 1,65 dólares por litro.
O preço mais baixo registado é de 1,33 dólares por litro de gasolina e 1,45 dólares por litro de gasóleo, no posto Mira Mar Fuel, em Fatuhada.
A subida dos preços dos combustíveis regista-se desde março deste ano. Segundo observações do Diligente, a 12 de março, no posto de Kulu-hun, em Becora, a gasolina subiu de 1,16 para 1,30 dólares por litro e o gasóleo de 1,25 para 1,46 dólares. No posto Esperança Timor Oan, a gasolina passou de 1,09 para 1,19 dólares e o gasóleo de 1,19 para 1,31 dólares. Já no Realistic Fuel, a gasolina aumentou de 1,15 para 1,27 dólares e o gasóleo de 1,24 para 1,36 dólares.
O aumento dos preços dos combustíveis em Timor-Leste continua a gerar preocupação entre motoristas e estudantes, sobretudo em Díli, onde o custo de vida depende fortemente dos transportes.
O estudante da UNTL José Sequeira considera que a situação não é exclusiva do país, mas resulta de fatores internacionais. Segundo o próprio, os conflitos no Médio Oriente têm contribuído para agravar o acesso e o preço dos combustíveis.
“O combustível que usamos agora é difícil de encontrar e os preços já não são como antes. No passado, com quatro dólares era possível abastecer uma quantidade maior, que durava uma semana, enquanto atualmente o mesmo valor já não é suficiente, dura apenas três ou quatro dias”, observou.
Elias Soares, motorista de microlete na direção de Comoro, afirmou que a escalada dos preços também está a prejudicar a sua atividade. “Em março deste ano, quando fomos aos postos de abastecimento, vimos que o preço do combustível aumentou de 1,30 para 1,50 dólares por litro. Por isso, agora temos de gastar mais de 30 dólares para encher o depósito, enquanto antes gastávamos entre 18 e 20 dólares”, explicou.
Perante esta situação, o motorista diz ser obrigado a aumentar as tarifas cobradas aos passageiros. “Antes, os alunos pagavam apenas 15 centavos, mas agora têm de pagar 20 ou 25 centavos. Os funcionários e outros cidadãos pagam 25 centavos. Mesmo que a DNTT ainda não tenha tomado qualquer medida, temos comprovativos do aumento do preço do combustível, que mostramos aos passageiros para justificar os novos valores”, afirmou.
Segundo Elias Soares, se a situação se agravar, será difícil continuar a trabalhar. “Acho que já não poderemos continuar a conduzir. Isto afeta diretamente o nosso sustento diário”, acrescentou.
Agostinha Gomes, também estudante da UNTL, afirmou que a subida dos preços tem impacto direto no seu dia a dia. Segundo a estudante, o custo do transporte aumentou significativamente nos últimos meses. Explicou que, anteriormente, os alunos pagavam cerca de 15 centavos, valor que, entretanto, subiu para 25 centavos.
“Penso que não sou a única a enfrentar esta situação, todos os estudantes estão a passar por isto”, lamentou.
A estudante destacou ainda que o impacto económico é significativo, sobretudo para famílias com baixos rendimentos. “Os meus pais não têm emprego formal, e a subida dos custos afeta não só o transporte, mas também outras despesas diárias, uma vez que tenho de pagar um quarto e o preço do querosene subiu”, referiu.
Outro estudante da UNTL, Gelagio Gusmão, também manifestou preocupação, sublinhando que o problema afeta não apenas os estudantes, mas toda a população. Segundo o próprio, o aumento dos preços dos combustíveis tem impacto no acesso ao transporte, na educação e até no emprego.
“O subsídio ajuda, mas não resolve totalmente o problema — talvez apenas cerca de 20%. O Governo deve intervir de forma mais eficaz”, defendeu.
A investigadora da La’o Hamutuk, Marta da Silva, explicou que Timor-Leste depende fortemente das importações, nomeadamente de países como Indonésia, Singapura, Malásia e Austrália, o que torna a economia vulnerável a flutuações externas.
“Por exemplo, em março, o preço mundial dos combustíveis atingiu os 118 dólares por barril, mas há alguns dias desceu para 95 dólares devido a sinais de abrandamento do conflito. No caso de Timor-Leste, enquanto país importador, se esta situação persistir, pode resultar em inflação”, explicou.
Segundo a TANE Consumidor, a falta de informação dificulta a capacidade dos consumidores em decidir onde abastecer. Os dados da organização estão disponíveis na sua página oficial no Facebook.
A organização alerta ainda para o facto de a ausência de monitorização e fiscalização dos preços limitar a transparência no mercado e a proteção dos consumidores. Nesse sentido, recomenda a criação de um sistema de monitorização e divulgação regular dos preços dos combustíveis, com atualizações semanais, de forma a promover uma concorrência justa e informar melhor os cidadãos.
Contactados pelo Diligente, vários postos de abastecimento recusaram prestar declarações, apesar das sucessivas tentativas e da insistência junto dos responsáveis.


