Com coragem, talento e propósito, Eufrásia Vieira transformou o Miss Planet International numa plataforma para mostrar que Timor-Leste é pequeno em território, mas gigante em espírito. Eleita Miss Social Media e nomeada embaixadora do Miss Planet, a artista representou o seu país e promoveu as suas tradições, a sustentabilidade e a força das mulheres timorenses.
Num mundo onde os concursos de beleza muitas vezes são vistos apenas pela aparência física, Eufrásia Vieira mostrou que é possível transformar um palco internacional numa plataforma de propósito, cultura e impacto social. Representando Timor-Leste no Miss Planet International, no Camboja, conquistou o título de Miss Social Media e foi nomeada embaixadora do Miss Planet, levando consigo não apenas a sua presença, mas também a história, os valores e as tradições do seu país.
Com uma trajetória marcada pelas artes, pelo empreendedorismo e pela defesa da sustentabilidade, Eufrásia enfrentou desafios de tempo, recursos e críticas pessoais, mantendo-se firme nos seus princípios e na missão de inspirar futuras gerações de timorenses. Cada escolha — desde o uso do Tais tradicional até à promoção de práticas sustentáveis ligadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) — transformou o concurso numa oportunidade de mostrar que Timor-Leste é pequeno em território, mas gigante em espírito e dignidade.
Nesta entrevista, Eufrásia partilha a experiência de competir no Miss Planet, as lições de resiliência, coragem e liderança feminina que aprendeu, e como representar o seu país é tanto uma responsabilidade como uma oportunidade de impacto real.
“Para promover Timor-Leste a nível internacional, senti que tinha de estar pronta. E, quando digo que estar pronta, refiro-me a assumir esse papel com responsabilidade, sem hesitações, procurando dar o meu melhor”
Como foi, para si, representar Timor-Leste no concurso Miss Planet, no Camboja? O que sentiu?
Senti-me feliz por ter recebido um convite para participar no concurso Miss Planet, em representação do meu país. Foi também uma surpresa, uma vez que o convite surgiu com pouco tempo de preparação. Ainda assim, para promover Timor-Leste a nível internacional, senti que tinha de estar pronta. E, quando digo que estar pronta, refiro-me a assumir esse papel com responsabilidade, sem hesitações, procurando dar o meu melhor.
Esta experiência tão marcante não deve ficar apenas comigo. Espero que possa abrir caminhos para outros timorenses. Senti-me feliz por representar o meu país e o meu povo num palco internacional.
Não gosto muito da palavra “orgulho”, porque, enquanto timorenses, considero que é nossa responsabilidade contribuir positivamente para o nosso país e para o nosso povo. Para mim, trata-se mais de coragem e de alegria.
Esta foi uma primeira experiência, quase como um projeto piloto. No entanto, espero que não se fique por aqui e que possa abrir portas para que as próximas gerações também tenham a oportunidade de participar.
O que mais me motivou foi o apoio do povo timorense. Esse apoio deu-me força e alegria para me manter firme no palco internacional.
Se recuar à sua infância, que sonhos tinha? Alguma vez imaginou que poderia vir a representar o seu país num palco internacional?
A minha presença no contexto internacional não é recente. Já escrevi um livro, que lancei na Indonésia em 2015. Também participei num desfile de moda em Oxford, em 2008, que ainda hoje pode ser encontrado na internet. Além disso, a minha empresa, Eufrates, desenvolve também um trabalho com dimensão internacional.
No entanto, entrar no mundo dos concursos de beleza nunca foi um sonho. Se fosse, provavelmente não teria feito tatuagens no meu corpo, já que, anteriormente, isso não era permitido pelos critérios desses concursos. Atualmente, esses critérios mudaram — hoje, até mulheres casadas e com filhos podem participar.
O Miss Planet International distingue-se de outros concursos, pois não se foca apenas na aparência física, no rosto ou no estatuto social — vai além disso. Hoje em dia, até concursos como o Miss World começam a adotar uma visão mais inclusiva.
Por isso, nunca sonhei em ser “miss”, embora a minha ligação ao mundo internacional já venha de há muito tempo, noutras áreas. Antigamente, chegar ao panorama internacional não significava apenas ser bonita — havia muitas outras formas de contribuir, através do talento e de diferentes atividades.
Quando era criança, via o mundo da moda como algo superficial, reservado a pessoas “perfeitas” e bonitas, onde o caráter não era valorizado. Cheguei, inclusivamente, a considerá-lo um mundo um pouco vazio. Por essa razão, nunca tive o sonho de fazer parte dele.
Hoje, contudo, reconheço que esse mundo evoluiu. Os concursos de beleza já não se centram apenas na aparência, mas também em propósito, causas e impacto. Foi isso que me motivou a ocupar esse espaço.
Em criança, a minha mãe desejava que eu fosse médica, uma vez que tinha excelentes notas a Biologia. A minha família sempre nos incentivou a sermos os melhores na escola. Já o meu pai queria que eu fosse arquiteta, dado o meu bom desempenho a Matemática. Assim, os meus sonhos de infância estavam mais ligados à arquitetura ou às artes.
Houve algum momento marcante durante o concurso que tenha mudado a forma como se vê a si própria ou o seu percurso?
Houve vários momentos marcantes. O que mais me surpreendeu foi, sobretudo, o nível das participantes, quando comparado com o nosso contexto, bem como a sua contribuição e a visão que têm para o projeto Miss Planet. Trata-se de uma iniciativa muito abrangente, que reúne pessoas de diferentes países, trazendo consigo talento, beleza e muito mais.
Ainda assim, algo que me marcou profundamente foi a humildade dessas participantes. Apesar de serem muito bonitas e de representarem países maiores, demonstraram uma grande simplicidade. Quando perceberam que eu vinha de Timor-Leste, um país pequeno, mostraram, ainda assim, respeito. Isso fez-me sentir valorizada e reforçou a ideia de que uma timorense pode estar ao mesmo nível.
Sempre acreditei que Timor-Leste não se define pela sua dimensão, mas pelo seu espírito e pela sua dignidade. Um país grande, sem dignidade, não é nada. Timor-Leste pode ser pequeno, mas o povo timorense tem um espírito forte e uma grande dignidade.
No que diz respeito aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), Timor-Leste ensinou-me que não se trata apenas de salvar o planeta, mas também de proteger a natureza e as pessoas. Um país que lutou tanto pela sua independência e alcançou a vitória tem agora a responsabilidade de cuidar da sua terra, da sua cultura e do seu futuro.
Timor-Leste demonstra ao mundo que a resiliência e a luta, acompanhadas de esperança, podem conduzir à vitória. Nada foi fácil. Apesar de ser um país pequeno e de ter vivido conflitos no passado, Timor-Leste escolheu o caminho do perdão e da paz. Esse é um exemplo importante para muitas nações que ainda hoje vivem em conflito e enfrentam dificuldades em encontrar um caminho para a paz.
Que desafios enfrentou ao longo desta experiência — não só no concurso, mas também no percurso até lá — e o que aprendeu com eles?
Desde a minha infância, a minha história esteve sempre ligada à expressão artística. O mundo do entretenimento não é algo novo para mim, pois, desde muito cedo, estive envolvida na área das artes. Com cerca de 9 ou 10 anos, subi ao palco pela primeira vez, e essa experiência nunca me foi estranha.
Na altura, limitava-me a aproveitar e a desfrutar do momento, sem grandes expectativas quanto ao futuro. No entanto, sempre procurei ganhar experiência para, mais tarde, poder regressar e partilhá-la com os meus colegas e com a minha comunidade. Desde cedo, segui o princípio de viver cada experiência plenamente, retirando aprendizagens que pudessem, no futuro, servir para inspirar e apoiar os outros.
Ao longo do tempo, participei em várias atividades associadas ao título de “Queen”. Para mim, isso representava mais do que um concurso de beleza — era uma oportunidade de apoiar outras jovens e ajudá-las a desenvolver o seu potencial, tal como eu própria fui aprendendo com a minha experiência. Durante esse percurso, tive também a oportunidade de conhecer diferentes culturas e de aprender com pessoas de diversas origens.
Por exemplo, durante cerca de dez anos, trabalhei de perto com uma amiga na Indonésia. Juntas, colaborámos em várias iniciativas e projetos comunitários, tendo igualmente a oportunidade de visitar países como o Camboja. Quando recebi o convite para participar neste evento, essa amiga teve um papel importante na minha preparação, orientando-me sobre como agir e o que esperar.
Durante esse período, trabalhei lado a lado com a equipa da Indonésia que já apoiava a minha empresa, Eufrates. Como conheciam o meu trabalho, não foi necessário explicar ou introduzir processos. Apesar de ter tido apenas duas semanas para me preparar, conseguimos organizar tudo de forma eficiente.
Esta experiência permitiu-me aprofundar conhecimentos sobre a cultura local, reforçar a importância do trabalho em equipa e compreender melhor o que significa representar Timor-Leste num contexto internacional.
Acima de tudo, aprendi o valor da união e da colaboração. O contacto com pessoas de diferentes países e a forma como valorizam e preservam as suas culturas foi extremamente enriquecedor, em particular no que diz respeito ao Camboja e ao seu povo.
“Preparo-me de forma contínua, porque cuidar da mente e da imagem não é algo pontual, mas sim um compromisso diário.”
Como foi o seu processo de preparação, não apenas a nível físico, mas também emocional e financeiro? Houve momentos de dúvida ou de maior fragilidade?
Sou uma pessoa que, desde sempre, cuida da sua condição física e da sua saúde mental. Mesmo tendo filhos, procuro manter-me preparada. Não sou daquelas pessoas que ficam em casa sem fazer nada e só se preparam quando surge um evento. Preparo-me de forma contínua, porque cuidar da mente e da imagem não é algo pontual, mas sim um compromisso diário. Para viver bem, com saúde e felicidade, é essencial cuidar de nós próprios, praticar exercício físico e manter hábitos saudáveis.
No entanto, o tempo de preparação foi muito limitado — apenas duas semanas. Nesse período, tive de procurar os figurinos e, simultaneamente, aprofundar conhecimentos sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), definidos pelas Nações Unidas para o período de 2015 a 2030. Foi necessário dividir-me entre a componente prática e a teórica, o que constituiu um verdadeiro desafio. Não havia espaço para hesitações — foquei-me exclusivamente no que tinha de fazer. O maior obstáculo foi, sem dúvida, o tempo.
Relativamente aos Tais, estive em Timor-Leste apenas dois dias para os adquirir. Desloquei-me ao mercado de Tais, em Colmera, comprei os tecidos e regressei à Indonésia, onde, em apenas uma semana, com o apoio de colegas, conseguimos preparar cerca de trinta peças de vestuário, tendo em conta que havia dias com até três eventos. Felizmente, tudo correu bem e consegui alcançar as fases a que me propunha.
Recordo também um momento em Inglaterra, onde tinha planeado passar um mês com a minha filha e tratar de alguns assuntos profissionais. Foi então que recebi um contacto do diretor nacional das Filipinas, que considerava importante a presença de Timor-Leste, sobretudo no contexto da sua integração na ASEAN.
Posteriormente, entraram em contacto com o antigo embaixador Hermenegildo Cupa Lopes, que já tinha representado Timor-Leste no Camboja, e foi ele quem me ligou a perguntar se estaria interessada em participar no Miss Planet. Numa fase inicial, pensei que se tratasse de uma brincadeira e não levei o convite a sério.
Mais tarde, fui novamente contactada a partir das Filipinas, mas expliquei que seria impossível participar, tendo em conta o curto prazo — faltavam apenas três semanas para o evento. Referi também a minha idade e o meu estado civil. No entanto, esclareceram-me que já não existia limite de idade, uma vez que o concurso segue os princípios dos ODS, incluindo a igualdade de género, valorizando igualmente a experiência.
Cheguei a realizar uma entrevista, mas ainda não tinha aceitado o convite, sobretudo porque a minha filha precisava de mim. Continuei a recusar, também devido ao elevado custo envolvido, que, em tão pouco tempo, dificultava a obtenção de patrocinadores. Além disso, tinha responsabilidades profissionais, com um negócio em funcionamento em Timor-Leste e na Indonésia.
Foi então que o meu marido me disse: “O dinheiro conseguimos resolver, o mais importante é contribuíres.” Essas palavras deram-me força. Acabei por aceitar, com o apoio total da minha família, dos meus colegas e de todas as pessoas que acreditam em mim. Disseram-me que eu não estava apenas a representar-me a mim própria, mas também a minha família, o meu país e todos aqueles que, por vezes, duvidam — para mostrar que também somos capazes.
No final, confirmei que estava preparada, apesar de dispor de apenas duas semanas para preparar tudo. Não tive grande apoio institucional, pelo que contei essencialmente com o apoio da minha família, em particular do meu marido, que financiou praticamente toda a participação.
De que forma procurou levar a cultura e as tradições de Timor-Leste ao palco internacional? O que era mais importante para si mostrar ao mundo?
Quando participamos num evento ou programa, é fundamental compreender o propósito daquilo que estamos a apresentar. No contexto dos concursos de beleza, como o Beauty Vision, não se trata apenas da aparência física, mas também de dar a conhecer as nossas experiências, os nossos valores e a nossa contribuição para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Por isso, tudo o que apresentei em palco foi pensado para refletir os ODS. Cada detalhe da minha participação — desde o vestuário aos acessórios — tinha um significado. Mais do que mostrar a minha cultura, procurei evidenciar a forma como esta se relaciona com a sustentabilidade e o impacto social.
Por exemplo, os tecidos tradicionais de Timor-Leste que apresentei são feitos à mão, simbolizando a criatividade e a destreza do nosso povo. Além disso, este processo contribui para a redução da poluição, por não depender de tecnologia industrial. O trabalho artesanal cria também oportunidades de emprego, ajudando muitas famílias a sustentar os seus filhos e a melhorar as suas condições de vida.
A ideia é demonstrar que o nosso talento e as nossas tradições não são apenas expressões culturais, mas também formas concretas de contribuir para a economia local e para um planeta mais sustentável. Assim, ao utilizar artesanato e produtos feitos à mão, não estou apenas a representar Timor-Leste, mas também a promover práticas responsáveis que beneficiam a comunidade e o ambiente.
Ao apresentar a nossa cultura, não mostramos apenas algo esteticamente apelativo, mas também a nossa visão, criatividade e compromisso com o futuro. Isso contribui para a criação de rendimento, para a valorização das tradições e para inspirar outras jovens a participarem de forma consciente e com impacto.
“Pequenas ações, como deitar o lixo no local correto, podem contribuir para a proteção do ambiente. Tudo começa em casa. É fundamental educarmo-nos para evitar poluir. O vidro pode partir-se, mas o plástico permanece durante muito tempo”
O concurso valoriza causas sociais e ambientais. De onde vem essa sua ligação a essas causas? Há alguma história pessoal que a tenha influenciado nesse sentido?
Aquilo que partilho nas redes sociais, como trabalhos artísticos, promoção de marcas ou produtos, faz parte da minha atividade enquanto designer e artista. No entanto, a minha ligação à natureza vem desde a infância. Por isso, no meu discurso, procuro sempre refletir sobre o passado, o presente e o futuro.
Em criança, quem me procurasse sabia que, muito provavelmente, me encontraria no mar. Sempre fui uma pessoa profundamente ligada à natureza e continuo a gostar de viajar para promover destinos turísticos de Timor-Leste, como Doko Mali, Bokolelo e Ataúro, entre outros.
Acredito que proteger o ambiente e o planeta é uma responsabilidade de todos. O facto de ser artista não me isenta desse dever. Pequenos gestos do dia a dia, como colocar o lixo no local adequado, fazem a diferença, ainda que muitas vezes não nos apercebamos do seu impacto.
Desde pequena que também tenho uma forte ligação aos animais. Sempre que via alguém matar um animal, ficava profundamente triste. Brincava muito no mar, pescava e explorava a zona costeira. As pessoas que viviam perto de mim sabiam dessa ligação à natureza — chegaram mesmo a dar-me a alcunha de “Kika Comandante”, por liderar os meus amigos nas brincadeiras, tanto no mar como nas montanhas.
Hoje, noto que o mar já não é como antes — há muito mais lixo. Quando era criança, não se verificavam fenómenos como as inundações com a frequência atual. Muitas vezes, estas situações resultam de comportamentos irresponsáveis, como o descarte inadequado de resíduos.
Pequenas ações, como deitar o lixo no local correto, podem contribuir para a proteção do ambiente. Tudo começa em casa. É fundamental educarmo-nos para evitar poluir. O vidro pode partir-se, mas o plástico permanece durante muito tempo. Quando chega ao mar, acaba por se fragmentar em partículas que são ingeridas pelos peixes — e, posteriormente, por nós.
Por vezes, quando não temos um título ou uma posição de destaque, a defesa destas causas é desvalorizada e interpretada como uma forma de chamar a atenção. Por isso, muitas das ações que desenvolvo são feitas de forma discreta. Acredito que ajudar os outros deve ser um gesto genuíno e não necessariamente visível.
Desde cedo procurei envolver-me nestas causas, não apenas a nível teórico, mas através de ações concretas. Tenho trabalhado na criação de oportunidades para jovens, promovendo formações em áreas como culinária, barista ou artes ligadas ao cinema. Estas iniciativas estão alinhadas com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que abrangem questões como a redução da pobreza, o combate à fome, as alterações climáticas e o desenvolvimento de infraestruturas.
O meu foco principal continua a ser o mar. Em criança, a minha família chamava-me “filha de Ataúro”, porque passava grande parte do tempo na água. Tinha uma ligação muito forte ao mar — gostava tanto de nadar que, muitas vezes, a minha mãe tinha de insistir para que eu regressasse a casa.
Timor-Leste possui recursos marinhos ricos e abundantes. Por isso, procuro sensibilizar e encorajar os jovens a proteger o mar, não apenas como um recurso, mas como uma responsabilidade. Proteger o mar é também proteger o futuro das próximas gerações. Não podemos esgotar tudo no presente e deixar nada para o futuro.
Se, no futuro, os ODS vierem a ser ampliados, sugeriria a inclusão de um novo objetivo: a “Harmonia Azul”. O mar não deve ser visto apenas como uma fonte de recursos, mas como algo que precisamos de preservar. É uma das principais fontes de oxigénio para a vida humana. As florestas são fundamentais, mas o oceano é igualmente essencial.
Durante a sua participação surgiram rumores e acusações pessoais, nomeadamente a expressão “filha da milícia”. Como viveu esse momento e de que forma isso a afetou, enquanto mulher e enquanto timorense?
Não sou responsável por atos que não cometi, mesmo que estejam associados à minha família, ou por acontecimentos que ocorreram numa altura em que eu ainda nem tinha nascido. Assumo apenas a responsabilidade pelas minhas próprias ações. Aquilo que não depende de mim não tenho de assumir. Se essas alegações são verdadeiras ou não, não sei — cada pessoa deve responder pelos seus próprios atos. Quanto ao facto de as pessoas falarem disso, não é algo que me preocupe.
Aceito críticas quando são construtivas e me ajudam a melhorar. No entanto, críticas carregadas de ódio não merecem o meu tempo, porque partem de pessoas movidas por esse sentimento. Compreendo que o povo timorense é sensível e que todos têm direito a expressar opiniões, mas quando essas críticas são feitas com base no ódio ou na vingança, não lhes dou atenção. Essa expressão só me afetaria se tivesse, de facto, cometido algo dessa natureza.
Sendo sincera, quando começaram a surgir esses comentários, eu nem tinha conhecimento. Estava totalmente focada no concurso, cujo ritmo era muito exigente. Tínhamos atividades diárias, por vezes até três eventos por dia, regressando apenas ao final da noite e retomando os preparativos no dia seguinte. Dediquei-me por completo, tanto a nível físico como mental, e, por isso, não acompanhava o que era dito nas redes sociais.
Mais tarde, quando tomei conhecimento, questionei-me sobre a intenção de quem faz esse tipo de comentários. Há críticas que surgem com o objetivo de ajudar a melhorar, mas outras procuram apenas visibilidade ou atenção. Em relação a essas, sinto apenas alguma pena. Para mim, o mais importante é conhecer-me a mim própria. Venho de uma família que me transmitiu valores de ética e moral. Sou católica e aprendi a não julgar, a não guardar rancor e a não prejudicar os outros. Quem julga dessa forma acaba, muitas vezes, por contrariar os princípios que diz defender.
Apesar dessas críticas, recebi também muito apoio da minha família e de muitos timorenses, o que me permitiu manter o foco. Enquanto surgiam comentários nas redes sociais, eu encontrava-me sozinha a representar Timor-Leste naquele palco.
Durante o concurso, usei biquíni, embora a organização do Miss Planet tenha um contexto cultural muçulmano, onde cheguei a ser apelidada de “old mommy”. Observei outras participantes com trajes mais ousados, mas procurei sempre manter a minha identidade. Entendi que não estava ali para atuar, mas para representar Timor-Leste e os seus valores.
Mantive-me fiel aos meus princípios, à minha dignidade e ao meu sentido de identidade. Na fase preliminar, que é particularmente importante, disse a mim própria que optaria por trajes mais recatados e que o resultado dependeria do meu desempenho. Caso avançasse, estaria preparada para outras exigências. Acabei por alcançar um bom resultado, integrando o top 20.
Nessa fase, a própria organização disponibilizou trajes mais cobertos, incluindo um que utilizei. Sempre acreditei que a beleza não depende da exposição do corpo. No entanto, ao chegar ao top 20, tive de usar biquíni, conforme as regras do evento.
Desde criança que enfrento situações de bullying. Alguns dos meus irmãos estiveram envolvidos na resistência, tendo inclusivamente enfrentado perseguições e prisão. Eu era ainda muito nova e não tinha qualquer envolvimento nesses acontecimentos, mas, atualmente, algumas dessas questões acabam por ser direcionadas para mim.
Tenho consciência de que, ao tornar-me uma figura pública, estarei sempre sujeita a opiniões divergentes. Haverá pessoas que me apoiam e outras que não, e aprendi a lidar com essa realidade.
Houve algum momento em que pensou em desistir? O que a fez continuar?
Como já disse, não há espaço para drama. Quando estou naquele lugar, tenho de me focar e cumprir o meu papel, independentemente das dificuldades. Por exemplo, se demoramos muito tempo a subir uma montanha, não faz sentido descer novamente por causa de um pequeno obstáculo. É assim que encaro cada desafio: com foco e determinação.
Em que momento se sentiu mais orgulhosa da sua identidade e das suas raízes?
Sinto esse orgulho constantemente. É algo que se reflete em todas as minhas ações e contribuições para o país. Até no meu livro utilizei o Tais timorense, e em eventos televisivos também o visto. Digo sempre: sou timorense, o meu sangue é timorense, e nunca neguei as minhas raízes.
Para além do lado mais visível do concurso, como foram os bastidores? Há alguma história inesperada ou mais leve que gostasse de partilhar?
Houve muitos dramas nos bastidores. A disciplina era extrema, quase como num serviço militar. Estivéssemos prontas ou não, quando o carro chegava, tínhamos de sair imediatamente. Durante as viagens, éramos constantemente acompanhadas pela polícia.
Algumas colegas ficavam muito nervosas — tremiam nas entrevistas e sentiam uma enorme pressão. Outras tinham dificuldade em comunicar, muitas vezes por barreiras linguísticas. Algumas choravam porque o tempo estava a esgotar-se e ainda não estavam prontas, por exemplo com o cabelo. Em vários momentos ajudei colegas a arranjarem-se rapidamente, e elas agradeceram-me imenso.
No início, partilhei quarto com a Miss Island, que tinha apenas 19 anos. Ao apresentarmo-nos, ela pensou que eu também era jovem. Quando lhe perguntei a idade, respondeu 19, e eu brinquei dizendo que podia ser a mãe dela. Ficou bastante surpresa. Muitas pessoas ficaram admiradas ao perceber que, apesar de já ter filhos, continuo com coragem e determinação.
Não estou apenas a representar-me a mim própria, mas também outras mulheres que querem realizar os seus sonhos e acreditam que já não é possível. Existem muitas mães solteiras ou mulheres com parceiros que hesitam em seguir as suas carreiras. A minha presença no concurso mostrou que é possível, independentemente da idade. Tenho 40 anos e consigo; elas também podem. A carreira não depende da idade — nunca é tarde para alcançar os nossos objetivos.
Uma frase que pratico na minha vida é: quem pensa que já sabe tudo e não quer aprender mais, ainda não tem verdadeira experiência de vida. Pessoas maduras, com experiência e espírito rico, são aquelas que aprendem todos os dias.
Conhece alguém, participante ou não, que a tenha inspirado particularmente? Porquê?
A presidente e fundadora do Miss Planet International foi uma grande inspiração para mim. Conheci-a há pouco tempo, mas tenho enorme respeito e admiração por ela.
É uma mulher, mãe solteira, que conseguiu levar um evento desta dimensão para o Camboja — algo que não é nada fácil. É forte, inteligente e muito dedicada. Tenho grande admiração por ela porque organizar um evento internacional com participantes de tantos países exige um esforço enorme.
Ela inspirou-me e motivou-me pelo seu exemplo de humildade: nunca procura protagonismo, trabalha muito e mantém-se discreta. Durante o evento, eram os patrocinadores que apareciam em destaque, não ela.
Sinto que partilhamos energias semelhantes, porque também não gosto de me exibir demasiado em público. Espero poder convidá-la a visitar Timor-Leste, pois demonstrou interesse em conhecer o país.
“Esta experiência é igualmente importante para o turismo: levar Timor-Leste ao mundo é essencial, mas também podemos trazer o mundo até Timor-Leste, incentivando pessoas a visitar, investir e contribuir para a economia do país”
Que impacto teve esta experiência na forma como vê o seu futuro, tanto a nível pessoal como profissional?As experiências que adquiri não quero que fiquem apenas comigo. Pretendo levá-las adiante sempre que possível. Por isso, recentemente reuni-me com o designer timorense Jaston Pereira para analisar alguns projetos. Escolhi trabalhar com ele porque, embora não seja embaixadora do Miss Timor-Leste, sou embaixadora do Miss Planet International e quero dar oportunidades aos talentos timorenses. Fiquei muito contente por ter sido escolhida, mesmo com a minha idade, para representar esta organização.
Como embaixadora, sou a “cara” do Miss Planet, participando em reuniões com diplomatas para promover o turismo, não só de Timor-Leste, mas também do Camboja. Para os próximos eventos, as ideias e propostas são partilhadas comigo, enquanto a equipa trabalha nos bastidores.
Acredito que a minha participação neste concurso teve um impacto significativo para Timor-Leste. A nível pessoal e profissional, graças a Deus, tenho uma família que sempre me apoiou. Agora que os meus filhos já cresceram, posso voltar a concentrar-me no mundo do entretenimento.
A minha presença no Miss Planet abre caminho para que outros timorenses participem no futuro. Se eu, já com mais idade, consegui participar, todos podem. Esta experiência é igualmente importante para o turismo: levar Timor-Leste ao mundo é essencial, mas também podemos trazer o mundo até Timor-Leste, incentivando pessoas a visitar, investir e contribuir para a economia do país.
Que mensagem gostaria de deixar às jovens timorenses (ou a outras jovens) que sonham com estas oportunidades, mas sentem que o caminho é difícil ou distante?
Digo sempre às minhas filhas, irmãs e amigas que todas nós já nascemos princesas, cada uma bonita à sua maneira. Mas tornar-se uma rainha não é fácil. Uma princesa é admirada pela sua aparência, pelos vestidos e sapatos bonitos, e recebe elogios.
Mas quando falamos de uma “rainha”, não nos referimos apenas à perfeição; falamos também das imperfeições e da capacidade de desenvolver e superar as nossas fraquezas.
Ser uma “rainha” exige coragem, determinação e persistência. É preciso não ter medo de correr riscos, não desistir e lutar pelos próprios sonhos. Por isso, quero dizer às jovens que não vivam de


