Em Díli, quatro contentores transformaram-se num espaço cultural inovador, provando que a juventude timorense não espera por decisões do Estado. O projeto Contentor Tais oferece palco, estúdio, café e áreas criativas, unindo arte, expressão e oportunidades profissionais. Uma iniciativa que desafia a burocracia e mostra o poder da cultura como motor de mudança.
Em Timor-Leste, onde ainda não existe um centro cultural próprio, quatro contentores pintados transformados em palco, estúdio e ponto de encontro artístico em Díli provam que a juventude não espera por decisões burocráticas. O projeto chama-se Contentor Tais e nasceu da frustração de jovens artistas que viram o país adiar, ano após ano, a criação de infraestruturas culturais.
Segundo Natalino Fernandes Ximenes, coordenador do projeto, “infelizmente, ainda não temos o nosso próprio centro cultural. Isso tem sido um grande desafio, especialmente para a nossa banda, The Kraken. Observámos que artistas de várias áreas enfrentam a mesma dificuldade.”
A ideia surgiu durante uma experiência em Lisboa, onde Natalino e outros artistas atuaram num espaço feito de contentores. “Vi que era um espaço artístico, com grafites e pinturas feitas pelos próprios artistas, com palco e boas condições. Na altura, surgiu a ideia de, quando regressássemos a Timor-Leste, criarmos algo semelhante. Parecia uma ilusão, mas tornou-se realidade no Institute of Business (IOB)”, explicou.
O evento de inauguração do Contentor Tais decorreu ontem, sexta-feira, nas instalações do IOB em Díli, reunindo artistas, jovens e representantes de instituições parceiras para celebrar a abertura deste espaço inovador dedicado à criatividade e à cultura.
O Contentor Tais integra um estúdio musical, palco, cafetaria e escritório criativo, com uma área ao ar livre para encontros informais. O estúdio será disponibilizado a preços acessíveis, com descontos especiais para artistas emergentes, e o espaço poderá ser usado gratuitamente mediante candidatura, avaliando-se propostas de atividades e impacto da iniciativa.
Durante a semana, funciona até às 21h ou 22h, ajustando-se aos horários universitários, e aos fins de semana poderá funcionar até mais tarde, permitindo maior dinamismo em eventos culturais e musicais.
Para Natalino, o significado do projeto vai além da infraestrutura: “Hoje, não inauguramos apenas um espaço, inauguramos um sonho que resistiu a dias e noites de desafios. Criámo-lo para utilizar os nossos talentos. Não é apenas um passatempo, é uma profissão que deve ser considerada com seriedade. Se um contentor se pode transformar num centro cultural, então um jovem pode transformar-se num agente de mudança.”
O projeto foi financiado pelo Pro Cultura, com apoio da União Europeia e cofinanciamento do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, recebendo 10 mil euros, complementados por 15 mil dólares do Ministério do Turismo e Ambiente e uma pequena participação da empresa Nekark Entertainment.
Para Márcia Pinto, da Embaixada de Portugal e representante do Pro Cultura, “o projeto mostra como a cultura pode valorizar a identidade timorense, criando um espaço vivo que funciona como ponto de encontro, de expressão artística e de participação comunitária, especialmente para a juventude. Hoje, testemunhamos um novo percurso marcado por desafios e superações, cujos resultados se tornam agora realidade.”
O Secretário de Estado da Arte e Cultura, Jorge Soares Cristóvão, felicitou os jovens e destacou a relevância do espaço, mas reconheceu que não substitui um centro cultural formal: “Isto não é um centro cultural. Funciona mais como uma cafetaria e um espaço onde os jovens podem expressar os seus talentos. É necessário garantir uma infraestrutura adequada, e temos planos estratégicos para estabelecer centros culturais em Lautém e Liquiçá.
Acrescentou ainda que em Díli, continuam à procura de um espaço e que o procedimento de aprovisionamento já está a decorrer, com vista à contratação de empresas que possam iniciar as obras de reabilitação dos espaços destinados a funcionar como centros culturais, estúdios e áreas para dança.
O reitor do IOB, Pedro Barreto Ximenes, reforçou a abertura da instituição à comunidade. “Espero que este espaço não seja apenas para o IOB. Não queremos que o campus se transforme numa “torre de marfim” no meio da comunidade. Se houver mais jovens com ideias criativas, a nossa arte e cultura poderão ser muito diferentes.”
Para o chefe de Cooperação da União Europeia em Timor-Leste, Iotam Lerer, “a arte fala quando e onde as palavras já não conseguem. Liga comunidades, preserva a identidade e inspira o diálogo entre gerações e culturas, possuindo um poder verdadeiramente único. Ao proporcionar espaço, recursos e visibilidade, podemos garantir que as vozes dos artistas timorenses sejam ouvidas dentro e fora do país.”
Segundo Iotam Lerer, a cultura é uma ferramenta poderosa para o crescimento económico e para a valorização da identidade, e a música desempenha um papel essencial na promoção da identidade timorense, criando oportunidades de emprego e empreendedorismo. “Tenho muito orgulho em anunciar que haverá um projeto de continuidade, que esperamos lançar em breve, para capitalizar as lições aprendidas e os resultados alcançados”, revelou.
O diretor-geral do Turismo, António da Silva, destacou o impacto cultural e turístico do Contentor Tais. “Espero que, com esta iniciativa, os jovens artistas possam mostrar os seus talentos e fortalecer a amizade entre a juventude.”
O projeto prevê, numa fase posterior, alargar a participação a criadores de outras áreas — como pintura, dança e escultura — e criar uma associação cultural que abranja todos os setores artísticos, fortalecendo a equipa e consolidando o espaço como ponto de encontro permanente para a criatividade em Timor-Leste.
Enquanto os projetos formais do governo avançam lentamente, quatro contentores em Díli mostram que a juventude timorense não espera: cria, lidera e transforma ideias em ação.


