O primeiro semestre na UNTL começa em atraso. No Departamento de Língua Portuguesa, a reforma de 11 dos 14 docentes deixou aulas e orientação de monografias em suspenso, causando preocupação entre estudantes e professores.
Onze dos 14 docentes do Departamento de Língua Portuguesa da UNTL aposentaram-se, deixando aulas e orientação de monografias em suspenso. Estudantes e professores alertam para o risco de atrasos no semestre, numa crise provocada pela reforma obrigatória prevista no Decreto-Lei n.º 9/2025.
As aulas do primeiro semestre de 2026, previstas para fevereiro, foram adiadas devido à escassez de docentes no Departamento de Língua Portuguesa.
A Associação dos Estudantes da Faculdade de Educação, Artes e Humanidades denunciou, numa conferência de imprensa na semana passada, que a falta de docentes compromete o processo de ensino-aprendizagem. Entre as principais consequências apontadas está a impossibilidade de acompanhar regularmente as disciplinas, apesar do início oficial do semestre.
Januário do Espírito Santo, porta-voz da associação, afirmou que o atraso viola o calendário académico e prejudica a qualidade do ensino. “As aulas deveriam ter começado a 16 de fevereiro. Mas a negligência da administração da faculdade e da universidade tornou os estudantes vítimas da situação, uma vez que ainda nem sequer preenchemos as fichas de planificação dos nossos estudos”, lamentou.
O estudante acrescentou que estágios e pesquisas permanecem sem horários definidos, mesmo para finalistas, devido à falta de docentes para orientação. Esta situação poderá comprometer a realização do exame de monografia e atrasar a primeira fase de conclusão do curso no Departamento de Língua Portuguesa.
Antes da reforma, o departamento contava com 14 docentes. Atualmente, um docente encontra-se a frequentar o doutoramento no Brasil, 11 foram aposentados e apenas uma docente permanece em funções, acumulando também o cargo de vice-diretora. Há ainda três docentes contratados que asseguram algumas atividades letivas.
Os estudantes reuniram-se com o reitor da UNTL, Joviano António da Costa, para exigir soluções urgentes, mas ainda não receberam garantias concretas sobre a resolução do problema.
Perante o impasse, exigem recrutamento urgente de novos docentes, de forma a normalizar o funcionamento das aulas e garantir o funcionamento regular do departamento. Reclamam também maior rigor e responsabilidade na gestão da situação, para evitar prejuízos académicos.
Fernão André da Costa, estudante do departamento, criticou a direção da universidade por má gestão de recursos humanos. “O Decreto-Lei n.º 9/2025 foi aprovado no ano passado. Por que razão a universidade e a faculdade não assumiram a responsabilidade atempadamente? A situação evidencia fragilidades na gestão e falta de planeamento institucional.”
O estudante salientou que a falta de ações antecipadas evidencia fragilidades na coordenação interna e no cumprimento das responsabilidades institucionais. Defendeu maior rigor, transparência e capacidade de previsão por parte dos órgãos de gestão.
Apesar da urgência do recrutamento, destacou que o processo deve ser transparente e baseado no mérito. “A situação é urgente, mas isso não significa promover favoritismos. A reitoria deve valorizar os melhores graduados e apostar nos seus próprios recursos”, concluiu.
Direção garante continuidade apesar da crise
Num contexto marcado pela saída de vários docentes devido à reforma obrigatória, a direção do Departamento de Língua Portuguesa da UNTL procura assegurar a estabilidade académica e a continuidade das atividades letivas, apesar das limitações impostas pela redução do quadro de professores.
A diretora do departamento, Juliana Soares, afirmou que a instituição está a adotar medidas para minimizar os impactos da reforma obrigatória e garantir que os estudantes possam avançar nos seus cursos.
Segundo Juliana Soares, em resposta às reivindicações dos alunos relacionadas com a falta de docentes, a UNTL solicitou à equipa do departamento que desse continuidade às atividades académicas, incluindo a planificação do semestre.
“Foi emitido um aviso para que os estudantes participassem nesse processo e, em paralelo, a direção entrou em contacto com professores que normalmente lecionam a unidade curricular”, explicou.
Para suprir as disciplinas sem docentes, a Faculdade de Educação, em colaboração com o departamento, convidou sete professores do Centro da Língua Portuguesa da UNTL, além de docentes do Departamento de Língua Tétum e antigos alunos do próprio departamento. “Neste momento, precisamos muito do apoio deles. Algumas situações já conseguimos resolver”, afirmou.
Juliana Soares garantiu que as disciplinas já estão asseguradas e que o processo de ensino-aprendizagem teve início esta semana. Também está a ser acompanhado o progresso dos estudantes que já estão prontos para defender a monografia, para que possam avançar para o exame final. Contudo, reconheceu que o arranque das atividades ocorreu com atraso devido à insuficiência de recursos humanos.
A diretora acrescentou que docentes já reformados, que anteriormente orientavam monografias, continuam a desempenhar essa função para permitir que os estudantes concluam o curso dentro do prazo previsto.
Quanto aos finalistas que aguardam orientação, explicou que os temas das monografias devem ser entregues na secretaria para registo, seguindo-se a definição dos orientadores.
“Com a reforma, ficámos sem docentes especializados em linguística, literatura e didática. Somos apenas três a apoiar atualmente o departamento, mas ainda estamos a frequentar o mestrado ou não o concluímos, pelo que não podemos assumir a orientação. Além disso, não é possível orientar mais de dez estudantes cada um. O nosso desafio é distribuir adequadamente os alunos pelos orientadores, pois ainda não temos recursos humanos suficientes”, detalhou.
Dos 11 docentes aposentados, restam cinco no departamento — dois permanentes e três contratados. Segundo a diretora, os três contratados já lecionavam anteriormente e são antigos alunos da instituição. “Queremos contribuir para o nosso departamento e conseguimos contrato com a instituição para ensinar”, disse.
Apesar disso, reconheceu que o número ainda é insuficiente, sobretudo tendo em conta que cerca de 100 novos estudantes ingressaram este ano. Para já, as disciplinas do primeiro ao quarto ano estão asseguradas, mas a continuidade no próximo período dependerá de nova avaliação, uma vez que cada currículo exige perfis específicos.
“A principal questão neste momento é a orientação das monografias”, sublinhou Juliana Soares, acrescentando que assumiu recentemente a direção do departamento, o que torna o processo de reorganização ainda mais desafiante. “É uma novidade para mim. Temos de seguir os procedimentos até termos a certeza de quais professores aceitam orientar”, explicou.
A diretora defendeu o recrutamento de novos docentes como medida estrutural para evitar prejuízos aos estudantes finalistas. “O Departamento de Língua Portuguesa existe há 24 anos. Cinco docentes não são suficientes. Podemos assegurar as disciplinas, mas a conclusão do curso exige a defesa da monografia, e é precisamente aí que ainda enfrentamos dificuldades”, alertou.
Sobre a eventual contratação de mais professores, incluindo profissionais do Centro da Língua Portuguesa e antigos alunos interessados em regressar à universidade, Juliana Soares esclareceu que a decisão compete à reitoria.
A responsável reconheceu que a responsabilidade deixada pelos docentes aposentados é pesada para os professores mais jovens, mas garante empenho na superação da crise. “Somos jovens e queremos levar este departamento para a frente. Precisamos de continuar a receber apoio e contributos dos docentes reformados para formar estudantes qualificados”, afirmou.
Juliana Soares sublinhou ainda que a situação deve servir de lição para o futuro. “Idealmente, antes da reforma dos docentes, a universidade deveria ter preparado recursos e aberto concursos para substituir os professores reformados, evitando problemas que afetam o ensino e a orientação das monografias.”
Por sua vez, o administrador-geral da UNTL, José Dionísio Ximenes, afirmou que a reitoria e os decanos já analisaram a situação e estão a trabalhar na identificação de soluções para o recrutamento e redistribuição de docentes pelos departamentos mais afetados.
“Estamos a analisar a situação e a procurar soluções, mas não posso avançar detalhes neste momento”, declarou, recusando-se a comentar as medidas concretas em preparação.
O Diligente tentou ainda obter esclarecimentos junto do reitor da UNTL, Joviano António da Costa, e do diretor de Recursos Humanos, Câncio Monteiro, mas não obteve resposta devido à indisponibilidade dos responsáveis.
Docentes aposentadas pedem planeamento e apoio a novos professores
Duas docentes recentemente aposentadas do Departamento de Língua Portuguesa da Faculdade de Educação, Artes e Humanidades da UNTL defendem que a reforma obrigatória deveria ter sido acompanhada de maior planeamento institucional, de forma a evitar constrangimentos no funcionamento do curso.
Eugénia de Jesus das Neves, antiga diretora do departamento, considera a reforma um processo natural na carreira pública, mas critica a falta de antecipação da universidade na formação e integração de novos quadros para substituir os docentes aposentados.
“Isso deixou uma lacuna no nosso curso. Há professores com mestrado que poderiam assumir essas responsabilidades, mas não foram integrados, esperando que saíssemos primeiro para serem promovidos”, afirmou.
Com 14 anos como professora efetiva, Eugénia recordou os principais desafios da carreira, destacando a entrada de estudantes com fraco domínio do português, fruto de diferentes contextos escolares.
“Os desafios eram vários, mas o maior foi lidar com estudantes que entravam no curso sem conhecimento adequado do português. A limitação de recursos financeiros para organizar atividades académicas também marcou a minha gestão”, disse.
Sobre a aposentação, a docente afirmou que não foi surpreendida pela decisão, mas criticou a ausência de planeamento estratégico. “Deveriam ter preparado melhores condições em termos de recursos humanos antes de um professor se aposentar. A instituição deve propor à Função Pública a necessidade de recrutar novos docentes antes da reforma do anterior. Há um provérbio: ‘preparar o guarda-chuva antes que chova’”, observou.
Eugénia revelou ainda sentir falta de diálogo institucional no final da carreira. “Não era a questão de continuar a ensinar, mas de contribuir com a nossa opinião para o futuro do departamento. Só sabíamos que, no dia 1 de janeiro, terminava a nossa missão. No entanto, durante todo o mês de janeiro ainda resolvemos assuntos administrativos, como pautas de alunos e exames de monografia, por sentido de responsabilidade.”
Para a ex-diretora, a renovação do corpo docente pode ser positiva, desde que haja equilíbrio entre qualificação académica e experiência pedagógica. “A instituição precisa de recursos humanos jovens, com energia para assumir funções. Temos vários mestres com experiência no ensino, três doutorandos em fase de pesquisa e três doutorados que trabalham fora do departamento. Vamos ver como é que vão gerir isso e aproveitar esses recursos”, afirmou.
Quanto à qualificação académica, Eugénia destacou a importância da experiência prática na área de estudo. “A nossa área é língua portuguesa. É fundamental que os docentes tenham passado pelo curso para assegurar as disciplinas específicas. Ter um doutoramento não significa dominar tudo; é necessária experiência para complementar o conhecimento, embora para disciplinas gerais isso não seja um problema.”
Mesmo aposentada, a docente disse que continuará a contribuir para o departamento sempre que possível. “Neste momento, ainda oriento três estudantes que não concluíram os seus trabalhos finais, mesmo não sendo minha responsabilidade. Também posso participar noutras atividades quando for solicitada a minha contribuição”, afirmou.
Eugénia deixou ainda um conselho aos docentes mais jovens. “Continuem a trabalhar bem para levar adiante o curso de Ensino da Língua Portuguesa e melhorar a qualidade do ensino. O departamento completa este ano 25 anos e esperamos que continue a desenvolver-se, incorporando novas tecnologias.”
Também Maria da Cunha, docente reformada após cerca de 15 a 17 anos de serviço na UNTL, considerou a reforma obrigatória uma medida legítima no quadro das políticas governamentais, mas enfatizou que a sua implementação deveria ter sido acompanhada de medidas preventivas para salvaguardar a continuidade do ensino.
“Para implementar a reforma, a própria instituição deveria preparar recursos suplentes para não prejudicar os estudantes. Além disso, os dirigentes deveriam ter convocado encontros com os candidatos à aposentação, para ouvir e comentar sobre o seu desempenho durante o período de trabalho, e demonstrar algum gesto amigável de despedida”, disse.
Quanto ao impacto da reforma na qualidade do ensino, Maria da Cunha avaliou que, nas disciplinas transversais, a substituição de docentes não traria problemas. Porém, nas disciplinas específicas, considera que os professores mais jovens necessitam de formação adicional e tutoria para melhorar a qualidade do ensino. “Seria também pesado na orientação de monografias”, salientou.
A docente apontou que a reforma funciona como uma estratégia para empregar docentes mais jovens, com maior energia e flexibilidade, em detrimento de profissionais experientes. “A meu ver, a instituição deixou passar jovens com competência suficiente para contribuir para a sustentabilidade do Departamento da Língua Portuguesa”, afirmou.
Maria da Cunha recordou ainda que, durante a sua gestão como diretora do departamento, solicitou por duas vezes a promoção de duas mestres a docentes permanentes, visando garantir a sustentabilidade do curso. “Infelizmente, isso não aconteceu até hoje”, lamentou.
Apesar de ter recebido um certificado de reconhecimento, Maria da Cunha disse não se ter sentido plenamente valorizada no final da carreira, observando que o seu título de Doutora em Letras não foi devidamente considerado e que não houve gestos simbólicos de despedida por parte da faculdade.
Para a docente reformada, a entrada de professores mais jovens pode dinamizar o ensino, mas exige formação contínua, acompanhamento e incentivo à pesquisa.
“Que continuem a fazer pesquisas sobre novos métodos de ensino e participem em formações contínuas. Um bom professor está em constante formação. Que escrevam artigos para publicação e participem em conferências nacionais e internacionais. Além da sala de aula, os docentes jovens precisam de desenvolver atividades de extensão ou serviço à comunidade, no âmbito da difusão e consolidação da língua portuguesa.”
Embora aposentada, Maria da Cunha manifesta intenção de promover o hábito de leitura e apoiar iniciativas ligadas à língua portuguesa, mesmo em contexto familiar. “Tenho planos de continuar a contribuir para a consolidação da língua portuguesa e criar o hábito de leitura. Há várias formas de contribuir. Se não for para o público, contribuo para a educação dos meus netos”, concluiu.


