Xanana Gusmão pediu desculpa à Guiné-Bissau e cancelou a Missão de Bons Ofícios da CPLP após ter classificado o país como “Estado falhado”. Enquanto Bissau acusou o líder timorense de “demência” e falta de legitimidade, vozes internas questionam a autoridade moral de Timor-Leste.
O Primeiro-Ministro de Timor-Leste, Kay Rala Xanana Gusmão, pediu desculpa à Guiné-Bissau, depois de ter classificado o país como um “Estado falhado”. A declaração provocou forte reação das autoridades guineenses, que acusaram o líder timorense de falta de legitimidade moral e recorreram a ataques pessoais. Xanana pediu desculpa, mas não respondeu às acusações de demência, senilidade e pedofilia feitas pelo porta-voz do Conselho Nacional de Transição (CNT).
“Já pedi desculpa ao Governo transitório da Guiné-Bissau. Não estou a defender-me. Estou com a cabeça baixa”, declarou esta segunda-feira, 16 de fevereiro.
Na sequência da polémica, o chefe do Governo anunciou o cancelamento da Missão de Bons Ofícios da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) à Guiné-Bissau, decisão tomada em conjunto com o Presidente José Ramos-Horta. A missão, que integraria representantes de Angola e São Tomé e Príncipe, tinha como objetivo interceder pela libertação dos detidos na crise de 26 de novembro de 2025 e apoiar a restauração da ordem constitucional. Estava prevista para decorrer entre 18 e 21 de fevereiro.
As declarações que desencadearam a crise diplomática foram proferidas na quinta-feira, 12 de fevereiro, após um encontro com o Presidente da República. Xanana Gusmão afirmou que, após o recente golpe militar, a Guiné-Bissau deixou de ser apenas um “Estado frágil” para se tornar um “Estado falhado”, sublinhando que Timor-Leste já havia ajudado a estruturar o sistema eleitoral guineense.
Em resposta, o Governo de transição da Guiné-Bissau emitiu, no mesmo dia, um comunicado oficial considerando que as afirmações revelam “falta de dignidade, postura política e moral”. A nota questiona o percurso político de Xanana Gusmão e refere que José Ramos-Horta “tem sido associado, no debate público, a posicionamentos considerados controversos, que levantam dúvidas sobre a sua estabilidade e coerência política”. O executivo guineense sublinha que “estes fatores tornam difícil compreender como figuras com esse perfil assumem responsabilidades de liderança” na CPLP e garante que “não aceita, nem aceitará qualquer tentativa de humilhação pública”.
No dia seguinte, em conferência de imprensa em Bissau, o porta-voz do CNT, Fernando Vaz, classificou as palavras do Primeiro-Ministro timorense como um “erro diplomático” e “delírio de uma cabeça em decadência”. Questionou ainda a legitimidade de Timor-Leste para assumir um papel de mediação. “Quem diz que a Guiné-Bissau é um Estado falhado é quem nomeia indivíduos para mediar o conflito na Guiné. Se somos um Estado falhado, o que estão a fazer aqui?”
Vaz afirmou também que “a idade não trouxe sabedoria” a Xanana Gusmão e considerou que, antes de qualificar outros Estados, o líder timorense deveria refletir sobre a situação interna do seu país. “Timor-Leste é um Estado fachada, que sobrevive sob tutela de potências externas e não tem legitimidade para exportar diagnósticos de fracasso.”
Segundo o porta-voz, a pretensão de Timor-Leste em assumir a presidência da CPLP “não é uma oportunidade de união, mas sim o anúncio de um funeral moral para a organização. Como pode uma comunidade que se diz de pais e irmãos ser liderada por uma dupla de marginais políticos que alternam entre o cinismo diplomático e a demência senil?”.
Afirmou também que enquanto Xanana Gusmão exibe a sua demência popular em nações soberanas de Estados falidos, “esquecendo-se da sua própria captura vergonhosa num bordel, longe de qualquer ato de bravura, Ramos-Horta atua como relações públicas do oportunismo. São dois lados da mesma moeda”.
“A Guiné-Bissau é um Estado soberano, forjado na luta pela libertação nacional, e não aceita ser diminuída por quem confunde a sorte política com o mérito pessoal. Esta dupla de saltimbancos só deve ser habilitada para mediar pedofilia e demência, sendo presunção a mais pretender ser mediadora para a Guiné-Bissau”, criticou.
Virgílio Guterres analisa declarações de Xanana Gusmão e cancelamento da missão da CPLP à Guiné-Bissau
O Provedor dos Direitos Humanos e Justiça (PDHJ), Virgílio Guterres, avaliou as declarações do Primeiro-Ministro timorense, Kay Rala Xanana Gusmão, sobre a Guiné-Bissau, considerando que, embora a afirmação tenha sido forte, não deve ser interpretada como um ataque direto ao povo guineense.
“Acredito que o Primeiro-Ministro identificou o problema. Ele colocou o dedo na ferida, mas a linguagem utilizada não soou bem aos ouvidos do Governo de transição na Guiné-Bissau”, afirmou Virgílio Guterres.
O Provedor salientou ainda que, enquanto o regime guineense pode ter-se sentido ofendido, muitos cidadãos e alguns políticos da Guiné-Bissau interpretaram a declaração de Gusmão como um reflexo da realidade e não como uma ofensa. “A verdade não ofende o povo, mas ofendeu o regime”, disse.
Em relação à resposta oficial da Guiné-Bissau, que manifestou “profunda indignação e veemente repúdio” às declarações do chefe do Governo timorense, Virgílio Guterres defendeu que o restabelecimento do diálogo depende da postura dos líderes guineenses. “Qualquer processo relativo à Guiné-Bissau vai depender dos políticos do país, bem como do apoio da população. Uma coisa é certa: golpes de Estado não são solução. Já ocorreram dezenas de golpes e demonstraram que não constituem uma medida correta nem eficaz para o povo guineense”, afirmou.
O Provedor enfatizou ainda que Timor-Leste, na qualidade de presidente da CPLP, tem a obrigação de continuar a promover o diálogo e a restaurar os princípios da organização, que incluem a promoção do Estado Democrático e do Estado de Direito.
Sobre o cancelamento da Missão de Bons Ofícios da CPLP à Guiné-Bissau, Virgílio Guterres expressou preocupação quanto às possíveis consequências políticas. “A democracia está em risco na Guiné-Bissau. A violação dos direitos humanos, a detenção arbitrária de políticos da oposição e de ativistas de direitos humanos são questões que necessitam de supervisão internacional, e a ausência dessa supervisão pode desestabilizar o país”, alertou.
Questionado sobre as acusações de pedofilia e de demência dirigidas ao Primeiro-Ministro timorense, Virgílio afirmou que se tratam de ataques pessoais. “A questão em foco não é sobre abuso sexual ou pedofilia; o ataque pessoal é a clássica arma dos ignorantes quando faltam argumentos”.
Para restaurar a estabilidade e a dignidade da Guiné-Bissau, o Provedor sublinhou que é fundamental que os líderes guineenses cumpram os compromissos históricos de independência e soberania e respeitem os princípios de democracia e Estado de Direito. “O povo guineense deve colocar os interesses da nação à frente dos interesses partidários ou de grupos específicos”, concluiu Virgílio Guterres.
Parlamento reage à crise diplomática com apelos à responsabilidade institucional e defesa da imagem do Estado
No Parlamento Nacional, o deputado da FRETILIN, Antoninho Bianco, comentou a polémica envolvendo a declaração do Primeiro-Ministro sobre a Guiné-Bissau, destacando a necessidade de evitar insultos públicos em organizações, sejam pequenas ou grandes, como a CPLP.
“Acho que dentro do princípio de uma organização, sobretudo da CPLP, não podemos e não devemos perder energia com insultos. Insultar pessoas em público não é bom”, afirmou Bianco.
O deputado sublinhou que a diplomacia deve ser conduzida com respeito e compreensão, evitando ataques verbais que possam prejudicar relações internacionais. “Na regra da diplomacia, não é bem assim. Ajudar uns aos outros é normal. No passado, enfrentámos situações difíceis, e outros países também nos ajudaram sem reservas. É importante usar palavras apropriadas, para que o nome de Timor-Leste não seja prejudicado pelo comportamento de uma ou duas pessoas”, declarou Antoninho Bianco.
Bianco reforçou ainda a importância da solidariedade entre países, especialmente em momentos de crise. “Neste momento, outro país está a enfrentar uma situação difícil, por isso precisamos de ajudar. As relações entre países e povos devem visar o interesse humano e do Estado”, concluiu.
Florentinho Ximenes “Sinarai”, deputado da FRETILIN, questionou a recente deslocação do Presidente da República ao estrangeiro, levantando dúvidas sobre o enquadramento da visita e os custos associados.
“Esta deslocação resultou de um convite formal de alguma entidade estrangeira ou partiu de uma iniciativa nossa? Estamos a enviar cartas para que nos convidem? Porque foi gasto tanto dinheiro público?”, questionou o parlamentar.
O deputado associou ainda a visita presidencial às declarações recentes das autoridades da Guiné-Bissau, que acusaram líderes timorenses de promoverem a prostituição.
“É este o resultado da visita? O Governo de Timor-Leste deve responder de imediato às declarações da Guiné-Bissau. Não podemos permitir que um país fale de nós dessa forma. Foi na sequência dessa deslocação que a situação evoluiu para este ponto”, afirmou Florentinho Ximenes.
A Presidente do Parlamento Nacional, Fernanda Lay, reagiu às declarações do deputado da oposição, afirmando que “a CPLP já sancionou a Guiné-Bissau, que neste momento se encontra fora da Assembleia Parlamentar da CPLP (AP-CPLP)”.
Sobre a possibilidade de uma resposta oficial às acusações, a líder parlamentar questionou a existência de fundamentos concretos. “Devemos perguntar se há verdade ou não nas afirmações. Se não houver factos, estamos apenas a perder tempo”, afirmou.
Fernanda Lay sublinhou que Timor-Leste já prestou apoio à Guiné-Bissau em diversas ocasiões e considerou não haver razão para responder a declarações que classificou como desprovidas de argumentos. “Timor-Leste já ajudou muitas vezes. Não há motivo para responder a quem apenas utiliza insultos. É verdade que estamos a promover prostituição? Todos nos conhecemos, Timor é um país pequeno”, declarou.
A Presidente do Parlamento acrescentou que, apesar da indignação, é necessário evitar uma escalada verbal. “Podemos ficar zangados, mas não devemos gastar energia a responder a quem não apresenta argumentos políticos consistentes”, concluiu.
“Não há legitimidade moral para comentar a situação de outro Estado quando o próprio país pode caminhar para a bancarrota”
O jurista Armindo Moniz afirmou que, relativamente a assuntos externos, é necessário basear posições em dados e factos devidamente apurados. “Quanto às declarações do Primeiro-Ministro, creio que podem ter implicações nas relações bilaterais entre Estados-membros da CPLP”, disse.
Para o jurista, a segunda questão prende-se com a situação interna de Timor-Leste. Segundo o Banco Mundial e outros investigadores, o país poderá enfrentar risco de bancarrota nos próximos anos. “Perante este cenário, não há legitimidade moral para comentar a situação de outro Estado quando o próprio país pode caminhar para a bancarrota”, afirmou, referindo-se a Xanana Gusmão e José Ramos-Horta.
“De acordo com alguns estudos, dentro de três ou quatro anos Timor-Leste poderá enfrentar sérias dificuldades financeiras. Porque é que não traçam políticas para prevenir essa situação, promovendo poupança e evitando o desperdício de recursos públicos?”, questionou.
Armindo Moniz acrescentou que, se o Primeiro-Ministro e o Presidente da República falassem na qualidade de académicos ou observadores internacionais, poderiam emitir opiniões com base em dados e análises. “Mas são titulares de órgãos de soberania. A prioridade deve ser exercer as suas funções para prevenir riscos internos. Nessas circunstâncias, não têm legitimidade moral para comentar outro Estado”, criticou.
O jurista acusou ainda os dois governantes de não enfrentarem os problemas estruturais do país. “Há desperdício de recursos, multiplicação de cargos ministeriais e recrutamento de assessores que pouco contribuem para o desenvolvimento. Isso fragiliza o Estado”, afirmou.
Moniz referiu também o aumento de contratações de funcionários casuais para cumprir promessas políticas, considerando que tais práticas não trazem benefícios ao país. “Isto revela má gestão. Enfraquecer instituições independentes, como a Comissão Anticorrupção, é facilitar um caminho que pode conduzir à bancarrota”, concluiu.
A troca de acusações públicas — que passou do plano político para o ataque pessoal — expôs fragilidades diplomáticas entre dois Estados-membros da CPLP e levantou dúvidas sobre a capacidade da organização para atuar como mediadora em contextos de crise. Entre o pedido de desculpas de Xanana Gusmão, o cancelamento da missão e as críticas internas à gestão do país, a polémica ultrapassa a dimensão bilateral e projeta-se sobre a credibilidade internacional de Timor-Leste e da própria comunidade lusófona.


