Portugal e Timor-Leste assinam terceira fase do Consultório da Língua para Jornalistas

"Não há Estado de Direito sem uma imprensa livre, aberta e democrática, nem sem liberdade de expressão” / Foto: Diligente

Portugal e Timor-Leste avançam para uma nova etapa no reforço do jornalismo em língua portuguesa. A terceira fase do Consultório da Língua para Jornalistas prevê três anos de formação, revisão linguística e capacitação técnica.

Portugal e Timor-Leste assinaram a terceira fase do Consultório da Língua para Jornalistas (CLJ), um acordo de três anos, destinado a reforçar a cooperação bilateral na comunicação social, com ênfase na formação de jornalistas e no fortalecimento da língua portuguesa.

O Embaixador de Portugal em Timor-Leste, Duarte Bué Alves, e o Secretário de Estado da Comunicação Social (SECOMS), Expedito Dias Ximenes, destacaram a relevância da cooperação bilateral no setor da comunicação social.

Duarte Bué Alves sublinhou que a cooperação entre os dois países no setor da comunicação social decorre há vários anos e entra agora numa nova etapa. Segundo o diplomata, o pilar central do acordo é a formação de jornalistas, através da revisão linguística dos textos, trabalho desenvolvido pelo CLJ desde 2016.

“Tem sido esse o grande papel e um dos principais contributos do CLJ, que, há vários anos, através de revisores linguísticos aqui em permanência, vivem em Timor-Leste e trabalham em colaboração com diversos órgãos de comunicação social”, destacou.

O embaixador referiu ainda a sua visita ao CLJ, onde lhe foi apresentado um conjunto de dados “muito consistente e interessante”. “Também foram apresentados vários manuais, como os de Português para Jornalistas nas áreas da Economia, Saúde, Justiça, Educação, entre outros. Além de pequenos manuais de referência que ajudam os jornalistas a compreender melhor matérias específicas. Esse trabalho é absolutamente notável”, elogiou.

Duarte Bué Alves salientou números impressionantes. Desde a fundação do CLJ, já foram feitas revisões linguísticas de cerca de 25 mil artigos de jornal. Só em 2025, foram revistos cerca de cinco mil artigos. “Estes números demonstram a intensidade do trabalho realizado pelas equipas portuguesa e timorense”, afirmou.

O embaixador reforçou que Portugal mantém um profundo empenho em trabalhar com Timor-Leste, um parceiro próximo e querido “que está no nosso coração e na nossa ação”, sublinhando que esse empenho deve ser consequente.

No âmbito do Programa Estratégico de Cooperação 2024-2028 (PEC), esta iniciativa integra ações na formação e capacitação do capital humano, visando o fortalecimento do Estado de Direito. “Não há Estado de Direito sem uma imprensa livre, aberta e democrática, nem sem liberdade de expressão”, defendeu.

O diplomata destacou ainda que Portugal e Timor-Leste se distinguem na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) pelo trabalho, empenho e respeito pelos princípios da democracia, direitos humanos e realização de eleições livres e justas. “É com muito gosto que continuamos este trabalho e com grande vontade de pôr imediatamente em prática este acordo, hoje assinado, e, nos próximos dias, em Lisboa, pela parte portuguesa”, referiu.

Duarte Bué Alves sublinhou a importância de continuar a formar jornalistas timorenses, promover o domínio do português e manter a revisão linguística, para que cada vez se fale “mais e melhor português”.

O primeiro pilar desta fase é o domínio da língua portuguesa. “O fundamental é desenvolver um português melhor, mais aperfeiçoado e gramaticalmente correto”, explicou o embaixador.

Além da revisão linguística, haverá ações de formação específicas, sobretudo em diferentes áreas temáticas da atualidade. “Por exemplo, durante a pandemia, diplomatas e jornalistas tiveram de se tornar especialistas em saúde pública, aprendendo rapidamente sobre vírus, vacinas e epidemiologia”, exemplificou.

O diplomata recordou ainda a crise financeira de 2011 em Portugal, que exigiu conhecimento sobre conceitos como spreads, taxas de juro, obrigações do Tesouro, empréstimos a dez anos e ratings da República.

“O tempo impõe novos temas. A economia, a saúde pública e, provavelmente, a inteligência artificial serão inevitáveis. Por isso, o trabalho desenvolvido entre Portugal e Timor-Leste acompanha estas tendências, capacitando os profissionais para os desafios emergentes”, concluiu Duarte Bué Alves.

Sobre a possibilidade de formação em Portugal, Expedito Dias Ximenes afirmou que o pilar fundamental são os formadores. “Talvez, com maior domínio da língua portuguesa, os jornalistas possam ir a Lisboa, sobretudo ao CENJOR”, defendeu.

O governante explicou que as partes acordaram reforçar e ajustar o currículo da formação. “Muitas vezes, após seis meses de formação, os jornalistas ainda têm dificuldade em expressar-se em português e em escrever com fluência”, afirmou.

Segundo Expedito Dias, o objetivo é tornar a formação mais interativa e intensiva, permitindo uma melhor assimilação dos conteúdos. “Esperamos que, nestes três anos, esta seja a fase mais produtiva”, acrescentou.

Agradeceu ainda a todos os envolvidos e sublinhou que a promoção e consolidação da língua portuguesa continuará a ser uma prioridade. Sobre o orçamento, explicou que este ano houve uma redução, mas que em 2027 haverá um aumento, permitindo apoiar ainda mais o trabalho conjunto. “Acreditamos que 2026-2028 será um período importante, com mais formações a nível nacional, mobilizando os profissionais para adquirirem competências, incluindo o domínio de uma linguagem profissional adequada”, concluiu.

O embaixador esclareceu que o recrutamento de formadores internacionais será feito com transparência. “Esta fase do projeto passará pelo recrutamento de formadores de forma clara e transparente.”

Questionado sobre o início do concurso para formadores internacionais, Duarte Bué Alves afirmou que será “o mais rapidamente possível. O acordo seguirá imediatamente para Lisboa para assinatura, e depois lançaremos todo o processo logístico e administrativo num curtíssimo espaço de tempo”.

Os dois responsáveis garantiram que o processo deverá estar concluído em breve. “Os cinco revisores nacionais já assinaram contrato e estão a trabalhar”, referiu o Secretário de Estado.  Os revisores procedem à revisão linguística de conteúdos jornalísticos em vários órgãos de comunicação social timorenses, contando, nesta fase de transição, com a colaboração voluntária dos antigos revisores internacionais do CLJ, cujos contratos terminaram a 31 de dezembro de 2025.

O percurso do CLJ

Criado em 2014 com financiamento da União Europeia, o CLJ tornou-se, em 2016, um projeto bilateral entre o Camões, I.P. e a SECOMS, consolidando-se como referência na formação linguística e jornalística em Timor-Leste.

A sua missão é reforçar as competências em português e jornalismo de jornalistas e profissionais do Governo ligados à comunicação, incluindo assessores de imprensa, oficiais de comunicação e tradutores.

Segundo dados oficiais, o CLJ já formou 289 jornalistas e 68 profissionais do Governo; capacitou 18 jovens em programas de 15 meses, maioritariamente integrados em redações nacionais; produziu 15 manuais de português e jornalismo adaptados ao contexto timorense; e apoiou a produção e revisão de mais de 25.000 conteúdos jornalísticos em português.

Hoje, redações como RTTL, Tatoli, GMN e o Diligente — primeiro jornal totalmente em português criado por sete ex-formandos do CLJ — produzem regularmente notícias neste idioma. Antes do projeto, apenas a RTTL e o Timor Post publicavam em português.

O relatório de avaliação do Plano Estratégico de Cooperação 2019-2023 destacou o CLJ como fundamental para o fortalecimento da comunicação social em português e recomendou a colaboração da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL) para certificar as formações.

Desde a primeira fase (2016-2020), focada em Português para Jornalistas, até à segunda fase (2021-2023), que incluiu cursos de Jornalismo, o CLJ adaptou a formação às necessidades reais do público-alvo. Para tal, realizou estudos exaustivos sobre conteúdos jornalísticos de imprensa, rádio e televisão, aplicou testes diagnósticos e construiu um corpus linguístico em português, permitindo elaborar planos e manuais ajustados às dificuldades dos formandos e às exigências do jornalismo timorense.

Os cursos de português abrangem níveis de A1/A2 a B2+, incluindo terminologia técnica em áreas como saúde, justiça, educação e ambiente. Já os cursos de Jornalismo abordam pensamento crítico, conhecimentos gerais, redação jornalística, instituições nacionais e internacionais e matemática para jornalistas, baseando-se nas orientações do Manual de Jornalismo da UNESCO e adaptando-as ao contexto local.

A produção jornalística em português foi reforçada nas redações do Timor Post, Tatoli, GMN e Diligente, com revisores formados pelo CLJ e acompanhamento direto de formadores.

Além disso, o CLJ disponibiliza recursos digitais, exercícios online e materiais de apoio que permitem consolidar os conhecimentos, promovendo autonomia no uso do português e maior rigor na comunicação pública.

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