“Jornalismo (ao ar) livre”: três anos do Diligente a pensar democracia, justiça e liberdade em Timor-Leste

Uma conversa pública intitulada “Jornalismo (ao ar) livre” assinala o aniversário do Diligente/ Foto: Diligente

Injustiça social, violações de direitos, abuso sexual de menores e liberdade de imprensa estiveram no centro do debate que marcou o terceiro aniversário do jornal Diligente, em Díli. O encontro serviu também para reafirmar o papel do jornalismo independente na defesa da cidadania e do Estado de direito.

O Diligente assinalou o seu 3.º aniversário com uma conversa pública intitulada “Jornalismo (ao ar) livre”, realizada no dia 24 de janeiro, na Fundação Oriente, em Díli. O encontro reuniu jornalistas, representantes dos direitos humanos, da justiça e da saúde mental para refletir sobre injustiça social, violação de direitos, abuso sexual de menores e o papel da comunicação social na consolidação da cidadania, da democracia e da liberdade de imprensa em Timor-Leste.

A sessão, aberta ao público e conduzida em tétum e em português, foi estruturada a partir de perguntas anónimas escritas pelos participantes, escolhidas aleatoriamente pela moderadora, reforçando o espírito de diálogo aberto que marcou todo o debate.

A discussão abriu com uma pergunta central: “Timor-Leste é um país democrático, mas a injustiça, a violação e a discriminação continuam a acontecer e até a agravar-se. Pode indicar três fatores para esta situação?”

Respondendo à questão, o Provedor dos Direitos Humanos e Justiça (PDHJ), Virgílio Guterres, começou por sublinhar que Timor-Leste vive ainda a sua primeira experiência enquanto país soberano e independente, após longos períodos de colonização.

Segundo o Provedor, durante décadas os timorenses habituaram-se a seguir ordens e hábitos impostos de fora, o que continua a ter impacto na forma como a sociedade funciona hoje. Defendeu que, após a independência, teria sido necessário um verdadeiro programa de “reeducação” para afirmar a condição de um povo livre.

“Isto quer dizer que começamos a respeitar as nossas leis. Infelizmente, este processo prolongou-se muito, porque há mais confusão do que soluções. Até à data, há expressão de ressentimento, reclamação e lamentação, conforme as experiências de trabalho de jornalistas, membros do Governo, cidadãos e artistas”, afirmou.

Virgílio Guterres sublinhou ainda que, passados mais de 20 anos da independência, Timor-Leste ainda não apresenta os resultados que muitos cidadãos esperavam. “Muitas vezes, as pessoas ainda não sabem conjugar bem o que estamos a pensar e o que estamos a fazer.”

Referiu também o papel do Parlamento Nacional, defendendo que este deveria assumir uma posição mais ativa na discussão e produção legislativa. “Isso não acontece. Mesmo quando a justiça faz fiscalização, observamos uma sociedade que faz as coisas sem pensar antes. Há quem pense para falar e fala, mas nunca faz.”

Segundo o Provedor, é essencial criar uma relação efetiva entre pensamento e prática. “As pessoas dizem que pensar bem não é suficiente; é necessário agir bem. Infelizmente, o nosso agir ainda não corresponde ao nosso pensar bem, apesar de termos boas bases na Constituição, nas leis sobre a democracia, a vontade popular e a solidariedade.”

Na mesma linha de reflexão, o psicólogo Alessandro Boarccaech estabeleceu uma relação entre aquilo que as pessoas pensam e a dificuldade em transformar esse pensamento em ação concreta. Segundo explicou, esta incongruência não é exclusiva de Timor-Leste, mas comum a várias sociedades.

No entanto, destacou uma particularidade timorense. “Uma coisa que vejo aqui em Timor é que se fala muito em tradição, em cultura, no respeito pelos antepassados, mas não se conhece a nossa própria história.”

Para o psicólogo, para grande parte da população, a história de Timor parece começar apenas em 1975, ignorando um passado muito mais antigo, bem como os nomes dos heróis, mártires e acontecimentos fundamentais. Referiu ainda que até histórias tradicionais, como as das lisan, são desconhecidas pela maioria.

“Algumas pessoas detêm o poder, detêm a narrativa, e os outros têm de seguir.” Segundo Alessandro, esta lógica está profundamente enraizada na estrutura social timorense, marcada por sistemas onde apenas fala quem é autorizado a falar.

“O que acontece hoje na sociedade de Timor é que o velho está a morrer e o novo não pode nascer. “Explicou que os jovens não conseguem liderar nem se afirmar, enquanto os mais velhos não transmitem a autoridade, criando um bloqueio na transição geracional.

“Quem vai assumir não é autorizado, e quem já está a passar não passa essa autoridade. E o que fazemos? Reprimimos tudo isso, silenciamos tudo isso.”

O psicólogo falou ainda do que designou como individualismo coletivo. Apesar de as pessoas viverem próximas e em agregados familiares numerosos, falta diálogo. “Não perguntamos uns aos outros como estamos, não conversamos, nem sequer dizemos bom dia, mas vivemos todos juntos.”

Reconhecendo a delicadeza de abordar estes temas enquanto estrangeiro, Alessandro sublinhou que levanta estas questões para promover reflexão social. “Não faltam leis, tradição nem bom senso em Timor. As pessoas sabem o que é certo e o que é errado. O problema não é o conhecimento, é a prática.”

Outra pergunta anónima foi dirigida diretamente ao Diligente. “Acham que o Diligente já atingiu o patamar de um jornalismo (ao ar) livre?”

A diretora do Diligente, Antónia Martins, respondeu que, ao longo dos seus três anos de existência, o jornal tem procurado cumprir o seu papel, mesmo enfrentando críticas, incluindo por parte do Secretário de Estado da Comunicação Social e de utilizadores das redes sociais. “Tentámos sempre escrever sobre o interesse público.”

Sobre a noção de “jornalismo (ao ar) livre”, afirmou “acho que estamos a sentir-nos livres, estamos a conseguir respirar ar livre ainda.”

Reconheceu, contudo, que nem sempre essa liberdade é plena. “Há momentos em que não conseguimos, porque há coisas muito delicadas para serem tratadas e escritas.”

Ainda assim, defendeu que o Diligente é um jornal (ao ar) livre por manter a sua independência. “Conseguimos criticar o secretário de Estado, o Primeiro-Ministro ou membros do Governo quando achamos que as decisões não são adequadas.”

Segundo Antónia Martins, a crítica faz parte do papel do jornalismo. “Criticamos para mostrar o que não está a correr bem e ajudar a melhorar.”

A discussão abordou também o papel da comunicação social na prevenção e combate ao abuso sexual de menores. Scos Vieira, jornalista da RTTL, sublinhou que os jornalistas não podem atuar com medo. “Não podemos pedir a liberdade aos outros, temos de procurar a nossa própria liberdade.”

Recordou um caso investigado pelo Diligente que envolvia a esfera religiosa e gerou forte contestação pública, destacando o apoio da associação de jornalistas ao órgão de comunicação social.

Scos Vieira defendeu ainda que os jornalistas devem estar ao lado das vítimas. “As vítimas estão numa condição de grande vulnerabilidade. É fundamental que o jornalista esteja ao lado da vítima na luta pelos seus direitos, para que esta possa alcançar uma justiça efetiva.”

Neolanda Fernandes, em representação da JU,S – Jurídico Social, reforçou a importância do jornalismo na recolha de informação e na mobilização das entidades competentes. “Em muitos casos, a cobertura do Diligente contribui significativamente para o nosso trabalho, nomeadamente na identificação de provas e na recolha de informações adicionais.”

Alessandro voltou a intervir, referindo que, em Timor-Leste, mulheres e crianças continuam muitas vezes a ser encaradas como objetos, numa sociedade marcada pela autoridade e pela violência. “Quem detém poder acredita que pode agir livremente, enquanto quem não tem poder é silenciado.”

O Provedor Virgílio Guterres abordou ainda o pedido do PDHJ ao tribunal para a fiscalização do regulamento do Governo anterior sobre o planeamento familiar, que limita o acesso aos serviços a mulheres casadas e exige autorização dos parceiros. “Trata-se de uma norma de caráter patriarcal.”

Apelou a uma cobertura mediática equilibrada, alertando para o risco de os meios de comunicação transformarem as vítimas de violência em novos alvos de julgamento social. Defendeu que as orientações do Conselho de Imprensa sobre a cobertura da violência baseada no género devem servir de referência para uma advocacia responsável.

Três anos de compromisso com a verdade, a democracia e a língua portuguesa

Na abertura da cerimónia, o chefe da Redação do Diligente, Rilijanto Viana, afirmou que a celebração dos três anos do Diligente representa mais do que uma data comemorativa, sendo também um momento de reflexão, balanço e renovação de compromissos.

“O que confirmamos nesses momentos é a importância do nosso trabalho”, afirmou, sublinhando que as adversidades não desmotivaram a equipa, mas deram ainda mais força para continuar e reafirmar o compromisso com a verdade, a ética e o interesse público.

Segundo o responsável da redação, num país jovem como Timor-Leste, a comunicação social tem um papel essencial na consolidação da democracia, no fortalecimento da cidadania e na defesa do interesse público. Nesse sentido, afirmou que o Diligente reafirma o compromisso de continuar a ser um espaço plural, responsável e independente, fiel à liberdade de imprensa e à promoção da língua portuguesa.

O Secretário de Estado da Comunicação Social, Expedito Dias Ximenes destacou que o Diligente tem dado um contributo relevante não só para a valorização da língua portuguesa, mas também para o jornalismo de investigação em Timor-Leste. Afirmou que o jornal demonstra que é possível informar com rigor, questionar com responsabilidade e servir a democracia com independência.

“O Diligente integra este esforço conjunto, a par da Tatoli, do GMN e da RTTL, num compromisso partilhado com a qualidade editorial e linguística”, disse, referindo a parceria da SECOMS com o Consultório da Língua para Jornalistas e o Instituto Camões, que apoia órgãos de comunicação social na revisão e qualificação do português nas suas publicações.

O Secretário de Estado deixou ainda uma palavra de reconhecimento à equipa do Diligente e desejou que o projeto continue a crescer, a questionar e a contribuir para um espaço público mais informado, mais plural e mais democrático. “Parabéns pelos três anos. E que continuem a fazer jornalismo — livre, diligente e em bom português”, concluiu Expedito Dias Ximenes.

O Embaixador de Portugal em Timor-Leste, Duarte Bué Alves, afirmou que é um prazer enorme participar neste evento, que considerou parte da iniciativa “Jornalismo (ao ar) Livre”, um “belíssimo jogo de palavras”.

Segundo o Embaixador, a primeira mensagem que queria transmitir são felicitações a toda a equipa do Diligente, “felicitações a todos aqueles que diariamente trabalham para levar a bom porto este projeto”, destacando que se trata de um projeto exclusivamente em língua portuguesa e de jornalismo independente. Afirmou que a equipa enfrenta adversidades todos os dias, mas não desiste e continua a produzir jornalismo de qualidade.

Duarte Bué Alves sublinhou ainda o papel do Consultório de Língua para Jornalistas (CLJ), lembrando que muitos jornalistas do Diligente passaram pelo CLJ. “É com enorme prazer que vemos que esse projeto, que agora está numa fase de transição e de renovação, deu frutos e produziu resultados”, afirmou, citando cerca de 25 mil artigos revistos nos últimos anos, dos quais 5 mil em 2025, contribuindo para a qualidade do jornalismo em Timor-Leste.

O Embaixador destacou também a importância de um jornalismo independente para a existência do Estado de direito. “Não há Estado de direito sem jornalismo independente, sem jornalismo livre que possa fazer a sua investigação sem pressão nas fontes, sem pressão nos jornalistas”, afirmou, acrescentando que independência não é sinónimo de neutralidade.

Segundo Duarte Bué Alves, “um jornalismo independente não pode nem deve ficar neutro no que toca à defesa do Estado de direito, da liberdade, da democracia, dos direitos humanos e do respeito das minorias”. Sublinhou que todos os que estão ao lado da democracia e da liberdade devem posicionar-se claramente em defesa desses princípios, independentemente das suas visões políticas.

O Embaixador concluiu afirmando que Portugal continuará a apoiar o Diligente nesta “batalha pela liberdade de imprensa e pelo jornalismo livre”, destacando a importância do projeto para a consolidação da liberdade, democracia e direitos humanos em Timor-Leste.

A tarde contou ainda com um momento cultural, animado pela atuação musical de Etson Caminha e Afi, que contribuiu para um ambiente de convívio e celebração. O encontro foi igualmente acompanhado por um espaço de petiscos e bebidas assegurado pelo Bowls and Rolls, proporcionando aos participantes um contexto informal de partilha e encontro, em consonância com o espírito aberto e comunitário do evento.

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