A escolha do nome para um novo torneio de boxe divide opiniões: atletas veem uma metáfora para a competição, enquanto especialistas alertam para o peso da linguagem num país marcado pela memória do conflito.
Num momento em que várias regiões do mundo continuam marcadas por conflitos armados, incluindo as guerras no Médio Oriente e na Ucrânia, a escolha da palavra “War” para promover um evento desportivo levanta uma questão que ultrapassa o próprio ringue: que responsabilidade devem ter o desporto, o marketing e a comunicação na escolha das palavras utilizadas para promover uma competição?
Timor-Leste viveu cerca de 24 anos de ocupação indonésia, a violência de 1999 e a crise político-militar de 2006, além de episódios de confrontos entre bairros e grupos de artes marciais. Ao mesmo tempo, o país tem procurado consolidar a reconciliação nacional e promover uma cultura de paz.
É neste contexto que surge o “Municipal War”, um torneio de boxe amador que pretende reunir atletas representantes de diferentes municípios.
O organizador, Revolta Combat, assinou, a 7 de agosto, um acordo com a operadora de telecomunicações Telemor para a organização do torneio, cuja primeira edição deverá arrancar em setembro de 2026 e prolongar-se por quatro a cinco meses.
A organização apresenta a competição como uma oportunidade para os atletas demonstrarem força, coragem, determinação e orgulho em representar os seus municípios.
Mas a escolha da expressão “Municipal War” levanta uma questão: trata-se apenas de uma linguagem simbólica própria dos desportos de combate ou é uma designação que, no contexto timorense, merece ser repensada?
Entre competição desportiva e preocupação social
A expressão tem suscitado críticas entre alguns cidadãos. Florentino Pereira considera que a designação pode transmitir uma mensagem inadequada para uma competição desportiva e provocar interpretações relacionadas com conflito, divisão ou rivalidade entre comunidades.
Para o jovem, o desporto, sobretudo numa sociedade com uma história marcada por conflitos, deve assumir um papel de união, respeito, disciplina e convivência pacífica.
Na sua perspetiva, também a linguagem utilizada na promoção dos eventos deve ser escolhida com cuidado. “Os organizadores do evento devem escolher outras expressões que unam os cidadãos dos municípios. Esta expressão faz-me pensar em divisão e conflito.”
Nolasco Mendes também questionou publicamente a utilização da expressão “Municipal War”, associando-a, na sua interpretação, a questões relacionadas com regionalismo.
Mendes questiona ainda o que considera ser uma contradição entre iniciativas de combate ao racismo e a utilização de uma expressão que, na sua perspetiva, pode evocar divisões entre municípios.
“O termo ‘Municipal War’ também representa uma forma de racismo e regionalismo. Como podem fazer campanha contra o racismo e depois organizar um evento que utiliza novamente um slogan racista?”
O cidadão levantou ainda questões sobre a organização do boxe amador em Timor-Leste e sobre o papel de entidades privadas na realização de competições.
Questionou, nomeadamente, se a organização de eventos desta natureza deve ser assegurada pela Federação de Boxe Amador de Timor-Leste ou se pode ser realizada por empresas privadas.
“Agora suspenderam a Federação de Boxe Amador de Timor-Leste e, desta forma, os empresários organizam novamente eventos de boxe amador para ganhar dinheiro. Um evento como este só deveria ser organizado pela Federação de Boxe Amador e, nesse caso, os bilhetes deveriam ser gratuitos.”
O Diligente contactou o presidente interino da Federação de Boxe Amador de Timor-Leste, Rogério Pereira, para obter uma reação às questões levantadas, mas o responsável recusou-se a comentar.
Atletas defendem linguagem de competição
Entre os atletas ouvidos pelo Diligente, a interpretação é diferente.
O pugilista amador Júnior da Silva considera normal que a expressão seja interpretada de formas diferentes, mas rejeita a ideia de que “Municipal War” signifique que os municípios irão entrar em conflito entre si.
“O conceito do evento pretende incentivar os atletas dos diferentes municípios a prepararem-se melhor e a elevarem o nível da competição.”
Para Júnior da Silva, expressões como “war”, “fight” e “combat” são frequentemente utilizadas em eventos relacionados com modalidades de combate para representar a intensidade da competição.
O atleta considera que o torneio pode proporcionar aos pugilistas uma oportunidade para demonstrarem as suas capacidades técnicas e, através de bons desempenhos, conquistarem oportunidades para competir a nível internacional.
Hermenegildo de Araújo também rejeita a interpretação de que a expressão tenha conotações racistas ou regionalistas.
Segundo o jovem, “Municipal War” deve ser entendida como uma representação simbólica de uma competição saudável entre atletas provenientes de diferentes municípios, promovendo simultaneamente o orgulho local, a unidade e o espírito desportivo.
“A expressão não pretende incentivar conflitos entre comunidades, mas utilizar uma linguagem simbólica para representar a intensidade da competição dentro do ringue.”
O atleta acrescenta que a competição deve ser entendida como uma oportunidade de convivência e de demonstração de talento, e não como uma forma de confronto social. “A competição entre atletas de diferentes municípios deve ser entendida como uma oportunidade de convivência e de demonstração de talento, e não como uma forma de confronto social.”
Para Hermenegildo, o desenvolvimento de competições nacionais pode contribuir para preparar futuros atletas e aumentar as oportunidades de participação em eventos internacionais.
Psicólogo: contexto pode alterar o significado das palavras
Para o psicólogo Alessandro Boarccaech, a utilização de expressões associadas à guerra em eventos desportivos deve ser analisada tendo em conta o contexto social e histórico em que são utilizadas.
O psicólogo explica que as palavras não produzem efeitos apenas através do seu significado literal. “As palavras adquirem sentido dentro de um contexto. Além do significado literal, elas também evocam experiências, emoções, memórias e associações sociais.”
Segundo Boarccaech, a interpretação de uma palavra depende também das experiências individuais e coletivas de quem a ouve.
Questionado sobre o risco de a linguagem associada à guerra contribuir para a normalização da violência, o psicólogo considera que as palavras, isoladamente, não determinam a existência de conflitos.
No entanto, quando utilizadas em determinados contextos, podem influenciar a forma como uma situação é imaginada, interpretada e emocionalmente vivida. “Neste sentido, elas podem ser instrumentos para normalizar determinados comportamentos.”
Boarccaech ressalva, contudo, que não se deve presumir que os jovens sejam incapazes de distinguir entre uma competição desportiva e um conflito militar. “Não devemos subestimar a capacidade das pessoas de distinguir entre diferentes contextos.”
A questão, explica, é que compreender racionalmente uma metáfora não significa necessariamente permanecer emocionalmente indiferente ao que ela evoca.
O psicólogo chama ainda a atenção para os efeitos da divisão das pessoas em grupos. Segundo Boarccaech, a distinção entre “nós” e “eles” pode reforçar a identificação com o próprio grupo e aumentar a perceção de diferença em relação ao outro.
Num torneio organizado entre atletas de diferentes municípios, essa dinâmica pode ganhar maior relevância quando a identidade territorial é colocada no centro da competição.
Para o psicólogo, por isso, a questão não está apenas na utilização isolada da palavra “guerra”, mas na combinação de diferentes elementos presentes na comunicação do evento.
Entre esses elementos, destaca a colocação dos municípios numa lógica de confronto direto e eliminação, bem como referências ao “orgulho”, à “honra” e à “glória” do “povo” ou município.
A estes elementos junta-se, segundo Boarccaech, uma iconografia baseada em guerreiros armados, estandartes municipais apresentados de forma semelhante a bandeiras de batalha e uma estética visual associada à guerra e à masculinidade.
O psicólogo reconhece que este tipo de linguagem e estética é comum em eventos internacionais de artes marciais e que, em muitos contextos, não representa necessariamente motivo de preocupação.
“A diferença, defende, está no contexto timorense.” Boarccaech recorda os períodos de tensão social, os conflitos armados e os episódios envolvendo grupos de artes marciais que marcaram o período posterior à restauração da independência.
Na sua análise, continuam também presentes preconceitos regionais e identidades fortemente marcadas pelo território e pelas línguas maternas.
O psicólogo considera ainda que condições materiais precárias e a proximidade de um período eleitoral podem contribuir para intensificar polarizações já existentes. “Os mesmos símbolos deixam de ser apenas uma convenção publicitária: podem encontrar ressonância em experiências sociais que já existem.”
Boarccaech sublinha, contudo, que nenhum destes elementos, isoladamente, conduz necessariamente à hostilidade.
O risco, segundo a sua análise, resulta da combinação entre uma rivalidade municipal estruturada como confronto direto, o vocabulário bélico, o apelo à honra do povo e do território e uma iconografia associada à guerra, num contexto social marcado por experiências de conflito e divisão. “Não porque as pessoas confundam desporto com guerra, mas porque a experiência emocional que o evento mobiliza não é neutra: ela pode ressoar com algo que já existe.”
O psicólogo esclarece que esta análise não significa que o torneio vá necessariamente provocar conflitos entre comunidades ou municípios. Significa, antes, que uma comunicação considerada inofensiva noutro contexto pode adquirir uma carga diferente numa sociedade com a história de Timor-Leste.
Para Boarccaech, a questão não passa por proibir a competição ou a paixão pelo desporto, mas por refletir sobre os símbolos utilizados e sobre o tipo de relação que estes podem estimular entre participantes e público.
“Não para proibir a competição ou a paixão desportiva, mas para pensar que símbolos se estão a ativar e se esses símbolos aproximam as pessoas de uma rivalidade saudável ou de uma lógica de oposição que a sociedade timorense está a tentar superar.”
Fundação Mahein alerta para risco de rivalidade sair do ringue
Para o diretor da Fundação Mahein, Nelson Belo, a utilização de expressões associadas à guerra em eventos desportivos deve ser analisada com cautela, tendo em conta a história recente de Timor-Leste.
Belo considera que o país deve avançar para uma narrativa assente na unidade, motivação, disciplina e cooperação, tanto no desporto como na educação e noutros setores da sociedade.
O responsável reconhece que palavras como “guerra”, “batalha” ou “combate” são frequentemente utilizadas no desporto como metáforas de intensidade, determinação e vontade de vencer.
No entanto, considera necessário ter cuidado com a escolha das palavras quando estas podem adquirir significados diferentes numa sociedade marcada por conflitos. “Uma das principais preocupações é que a utilização excessiva de linguagem bélica possa levar atletas ou adeptos a encarar o adversário como um inimigo, e não simplesmente como um concorrente.”
Belo alerta ainda para o impacto que palavras e imagens associadas à guerra podem ter sobre pessoas diretamente afetadas pelos conflitos armados em Timor-Leste. “Existem comunidades que foram afetadas por conflitos armados e que ainda carregam traumas.”
Outra preocupação prende-se com a possibilidade de uma rivalidade mal gerida ultrapassar o espaço desportivo e chegar às comunidades, bairros ou municípios dos participantes. “Não queremos que o conflito comece dentro do campo ou do ringue e depois seja levado para as comunidades ou bairros. Isso não seria positivo para Timor-Leste.”
A Fundação Mahein defende, por isso, uma linguagem igualmente forte e motivadora, mas sem recorrer a referências diretas à guerra ou à violência. “Precisamos de utilizar um vocabulário orientado para a vitória e para a motivação dos jogadores, e não para o conflito.”
Quem escolheu o nome “Municipal War”?
Apesar das diferentes interpretações sobre a expressão, permanece sem resposta uma das questões centrais desta reportagem: por que razão foi escolhido o nome “Municipal War”?
O CEO da REVOLTA, Xander Serano, tinha anunciado anteriormente que a Revolta Combat iria lançar uma nova série dedicada a atletas de diferentes municípios, sobretudo na categoria amadora, com o objetivo de criar oportunidades para os jovens demonstrarem e desenvolverem os seus talentos no boxe. “Temos muitos atletas de cada município aos quais devemos dar espaço. De cada município, já selecionámos atletas que têm potencial para o boxe.”
O Diligente tentou contactar Xander Serano para obter esclarecimentos sobre a escolha do nome, nomeadamente sobre quem tomou a decisão, se foram consideradas outras designações e qual o significado atribuído à palavra “War”, mas não obteve resposta até à publicação.
Telemor ainda não esclarece participação na escolha do nome
O Diligente contactou igualmente a Telemor, parceira do evento, através de uma carta enviada à empresa, solicitando esclarecimentos sobre a designação do torneio e sobre o envolvimento da empresa na escolha do nome.
Alex, responsável pela comunicação e marketing da Telemor, solicitou inicialmente o envio de uma lista de perguntas.
Depois de receber as questões, informou que a empresa ainda não tinha concluído todos os preparativos relacionados com o torneio e que o lançamento oficial ainda não tinha acontecido. “Na verdade, estamos a preparar tudo para o torneio. Ainda não está tudo finalizado até ao lançamento oficial do torneio. Depois do lançamento oficial, poderão surgir novas perguntas para nós.”
Questionado sobre a possibilidade de responder às questões já enviadas, de modo a incluir as informações no artigo, Alex explicou que a empresa, por enquanto, não poderia responder a todas as perguntas e pediu que o Diligente aguardasse pela conferência oficial. “Não podemos responder a todas as perguntas. Por favor, tenham paciência até à conferência oficial.”
Até ao momento, a empresa não esclareceu se participou na escolha da designação “Municipal War”, nem que reflexão esteve na origem da associação da marca ao evento.
O Diligente procurou ainda ouvir outras entidades e especialistas sobre a relação entre linguagem, memória histórica, direitos humanos e cultura de paz.
A Provedoria dos Direitos Humanos e Justiça (PDHJ) foi contactada para comentar se a utilização da palavra “War” poderia suscitar preocupações do ponto de vista dos direitos humanos e da promoção da paz, mas não respondeu até à publicação.
O jornal tentou igualmente ouvir um historiador sobre o significado atual da palavra “guerra” na sociedade timorense e sobre o peso da memória histórica na comunicação pública, mas não obteve resposta.
Também foi procurada a perspetiva do Centro Nacional Chega sobre a permanência da memória da guerra e a importância da linguagem na promoção de uma cultura de paz, mas não foi possível realizar a entrevista antes da publicação.
A escolha do nome “Municipal War” deixa uma questão em aberto: onde termina a linguagem da competição e começa o peso das palavras num país marcado pela memória do conflito?
A decisão sobre o nome cabe aos organizadores. Mas, num país que procura consolidar uma cultura de paz, a escolha das palavras também pode ser objeto de reflexão.
Como resume o psicólogo Alessandro Boarccaech: “As palavras e as imagens que usamos importam tanto quanto as nossas intenções.”























