Incêndios em Díli deixam dezenas de famílias sem bens e meios de subsistência

“Perdi todos os meus bens. Mas agradeço porque estamos todos bem. Foram apenas os nossos bens que o fogo consumiu.”/Foto: Diligente

Os incêndios que atingiram os mercados de Taibessi e Comoro, em Díli, com dois dias de intervalo, destruíram mercadorias, poupanças e bens de dezenas de famílias. As causas dos incêndios ainda estão a ser investigadas e os comerciantes afetados dizem não saber quando poderão voltar a trabalhar.

Dois incêndios atingiram, com dois dias de intervalo, os mercados de Taibessi e Comoro, em Díli, deixando dezenas de famílias sem bens, mercadorias e meios de subsistência. Em Taibessi, 114 espaços comerciais foram destruídos, enquanto em Comoro 53 casas foram afetadas pelas chamas.

Além das mercadorias e dos bens pessoais, alguns comerciantes perderam também dinheiro que tinham guardado para voltar a investir nos seus negócios.

“Não perdemos apenas os bens pessoais”

Adelina, comerciante no mercado de Taibessi desde 2014, perdeu no incêndio as mercadorias, os bens pessoais e o dinheiro que tinha guardado para voltar a investir no negócio.

Na noite do incêndio, ouviu uma criança a chorar numa casa vizinha e pensou que o pai lhe tivesse batido. Quando se aproximou, percebeu que a criança chorava porque a casa estava a ser consumida pelo fogo.

“Quando ouvi o filho do vizinho a chorar, pensei que o pai lhe tinha batido. Então fui ver o que tinha acontecido. Mas a criança estava a chorar porque a casa deles já tinha sido consumida pelo fogo. Quando voltei, também já não consegui salvar todos os meus bens”, contou.

Natural de Ermera, Adelina tem três filhos e cuida ainda de oito sobrinhos, quatro filhos da irmã e quatro filhos do irmão. Alguns encontram-se a estudar fora e dependem do rendimento obtido pela família.

Para repor as mercadorias, a comerciante guardava diariamente parte do dinheiro que conseguia ganhar. Segundo Adelina, conseguia poupar cerca de 20 dólares por dia e tinha mantido essa poupança durante aproximadamente nove meses.

“O dinheiro que guardava, 20 dólares por dia, era normalmente para comprar novamente os produtos para vender. Já o guardava há cerca de nove meses, porque os dias de maior movimento estavam a aproximar-se”, explicou.

Segundo os cálculos referidos pela comerciante, as poupanças perdidas rondavam os 4.800 dólares.

Os filhos e sobrinhos também perderam dinheiro que tinham conseguido juntar através de pequenos trabalhos, incluindo o transporte de mercadorias. Alguns conseguiam poupar cerca de 7,75 dólares por dia.

No meio dos bens destruídos, algumas crianças conseguiram ainda salvar materiais escolares e um diploma. “Como mãe que vive sozinha e sustenta uma família, é muito difícil. Não perdemos apenas os bens pessoais, mas também os bens que vendíamos, incluindo o dinheiro que eu tinha guardado”, afirmou Adelina.

Depois do incêndio, alguns comerciantes cujos espaços não foram atingidos ajudaram as famílias afetadas com roupas e outros bens. Adelina afirma, contudo, que até ao momento não recebeu apoio do Governo.

O Diligente tentou obter esclarecimentos junto das entidades competentes sobre eventuais medidas de apoio aos comerciantes afetados, mas não conseguiu obter confirmação.

Dois dias depois, outro incêndio atinge Comoro

Dois dias depois do incêndio de Taibessi, outro fogo atingiu a zona de Comoro, em Díli.

O incêndio ocorreu na manhã de 27 de setembro, por volta das 9h30, e afetou 53 casas. Não há registo de vítimas mortais.

Entre as famílias afetadas está a de Terezinha, natural de Viqueque e residente em Comoro desde 2011. Vive com o marido e os três filhos, de 11, 13 e 15 anos. “Perdi todos os meus bens. Mas agradeço porque estamos todos bem. Foram apenas os nossos bens que o fogo consumiu”, disse.

Sem condições para regressar à habitação, a família tem dormido no chão. Terezinha afirma ter recebido apoio, sobretudo alimentos, do PLP e da FRETILIN. A APC também divulgou, através da sua página no Facebook, informação sobre o apoio prestado às famílias afetadas.

114 espaços destruídos em Taibessi

Em Taibessi, o incêndio ocorreu na noite de 25 de setembro, por volta das 22h00, e destruiu 114 espaços comerciais, segundo o responsável pela gestão do mercado, Aníbal de Jesus.

O responsável aponta para uma possível falha na instalação elétrica como origem do incêndio. Segundo Aníbal de Jesus, um cabo elétrico terá caído sobre um quiosque, provocando o início das chamas, que se propagaram rapidamente devido à proximidade entre os espaços comerciais.

Aníbal afirma ainda que a administração do mercado já tinha contactado anteriormente a EDTL sobre os cabos elétricos existentes na zona. Segundo o responsável, a empresa terá informado que estava a realizar trabalhos na estrada, mas não chegou a deslocar-se ao local.

O Diligente tentou obter esclarecimentos junto da EDTL sobre esta versão, mas não recebeu resposta.

Durante o incêndio, três pessoas sofreram ferimentos ligeiros e foram transportadas diretamente para o serviço de urgência, segundo o responsável pela gestão do mercado.

Causas dos incêndios ainda não estão confirmadas

Apesar das referências a problemas elétricos, a causa dos incêndios ainda não foi oficialmente determinada.

O comandante da Polícia da Região Administrativa de Díli, comissário assistente Orlando Gomes, disse à GMN que a investigação continua e que a polícia está a recolher elementos para determinar a origem dos incêndios.

Segundo o responsável policial, as informações preliminares apontam para a possibilidade de a utilização de fogões elétricos ter provocado um problema no circuito elétrico e contribuído para a propagação das chamas.

A polícia confirmou ainda ao GMN que 53 casas foram afetadas pelo incêndio de Comoro e que 114 espaços comerciais foram atingidos em Taibessi.

Até ao momento, contudo, não existe uma conclusão oficial sobre a origem dos dois incêndios, uma vez que as investigações continuam.

Comerciantes sem saber quando poderão voltar a trabalhar

Para os comerciantes afetados, a destruição dos bens significa também a perda da principal fonte de rendimento.

Em Taibessi, alguns vendedores receberam ajuda de outros comerciantes, enquanto, em Comoro, algumas famílias receberam apoio alimentar. No entanto, continua sem haver informação clara sobre eventuais medidas de apoio do Governo aos comerciantes de Taibessi.

Também não foi esclarecido quando ou em que condições os vendedores poderão voltar a exercer a sua atividade nos espaços afetados.

O Diligente tentou obter esclarecimentos junto do Ministério das Obras Públicas sobre as medidas previstas para os comerciantes afetados e sobre o futuro dos espaços destruídos, mas não conseguiu obter uma declaração.

Enquanto aguardam por respostas, famílias como a de Adelina e Terezinha continuam sem os bens que perderam nos incêndios e sem saber quando poderão recuperar as condições para voltar a trabalhar.

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