A conta invisível das lia mate e lia moris

As lia mate e lia moris assentam em relações de ajuda entre famílias, mas essas relações não são vividas de forma igual por todos/Foto: Inteligência artificial

Em Timor-Leste, as lia mate e lia moris fazem parte das relações de entreajuda entre famílias, sobretudo em momentos de morte, casamento e outras cerimónias tradicionais. Mas, para algumas pessoas, cumprir as contribuições exigidas significa pedir dinheiro emprestado, sacrificar despesas essenciais ou suportar pressão familiar e social. Há quem esconda o próprio salário e quem contribua por medo de ser excluído da família ou de sofrer consequências que os mais velhos associam a doenças, azar ou maldições.

“O meu salário é, na realidade, de 180 dólares, mas disse à minha família que recebia apenas 118 dólares. Fiz isso porque tinha medo de sofrer uma pressão maior para contribuir.” Jacinto Correia recebe cerca de 180 dólares por mês, mas mentiu à família por medo de que, se soubessem quanto realmente recebia, a pressão para contribuir nas cerimónias tradicionais fosse maior.

Só este ano, Jacinto diz ter participado em cerca de 15 lia mate. Em cada uma, gastou entre 25 e 50 dólares. Uma quantia que, no limite superior, equivale a mais de quatro meses do seu rendimento. Mesmo assim, continua a contribuir.

A história de Jacinto ajuda a perceber uma dimensão menos visível de duas práticas que continuam presentes na sociedade timorense.

A lia mate reúne as práticas, obrigações e relações familiares associadas à morte e ao luto, enquanto a lia moris está relacionada com acontecimentos da vida, como casamentos e outras cerimónias que envolvem relações entre famílias.

Muitas destas relações são organizadas através do sistema tradicional fetosanumane, que estabelece uma ligação entre duas famílias, normalmente formada através do casamento. O umane é a família que dá uma mulher em casamento, enquanto o fetosan é a família que a recebe. Esta relação cria obrigações de apoio e troca entre as duas famílias, que podem prolongar-se por várias gerações e tornar-se particularmente visíveis em cerimónias como casamentos e funerais.

Nestas ocasiões, a participação pode assumir várias formas: dinheiro, animais, alimentos, outros bens ou trabalho. E, em determinadas relações familiares, sobretudo entre umane e fetosan, a contribuição não é apenas uma decisão individual. Está inserida num sistema tradicional de responsabilidades entre famílias, orientado pelos costumes e pelas decisões dos lia nain, autoridades tradicionais responsáveis, entre outras funções, por orientar questões relacionadas com os costumes, as cerimónias e as relações tradicionais da comunidade.

Manuel da Silva, lia nain em Viqueque, explica que as contribuições podem assumir diferentes formas, dependendo dos costumes, da cerimónia e da relação entre as famílias. “Uma família com dificuldades pode, em determinadas circunstâncias, negociar ou reduzir a contribuição”, explica.

O trabalho realizado durante a cerimónia também pode representar uma forma de ajuda, “mas não substitui obrigatoriamente aquilo que tenha sido definido como contribuição principal dentro da relação familiar”, assevera o lia nain.

No entanto, não existe um preço fixo para uma lia mate ou uma lia moris. Entre vizinhos, amigos ou conhecidos, a contribuição pode ser de cinco ou dez dólares. Nas relações familiares mais próximas, pode envolver valores muito superiores ou animais e outros bens.

Também não existe uma equivalência obrigatória entre o que uma família dá e aquilo que receberá no futuro. Uma família pode oferecer dinheiro hoje e receber animais ou outros bens anos mais tarde; pode contribuir para uma cerimónia e ser ajudada noutra. A memória dessas contribuições, e das relações que lhes estão associadas, prolonga-se no tempo.

É aí que a solidariedade pode começar a transformar-se em obrigação.

Quando não contribuir também tem um preço

Um cidadão timorense que pediu anonimato diz ter vivido esse conflito. Não tendo uma situação financeira estável, afirma que continuou a contribuir porque sentia que não podia simplesmente recusar.

“Já enfrentei este dilema. Mesmo sem ter uma situação financeira estável, a pressão moral e familiar obrigou-me a contribuir para não sofrer isolamento social.”

Segundo o entrevistado, a pressão é exercida pelos mais velhos, pelos líderes familiares e por outros membros da comunidade. “A pressão por parte dos mais velhos, dos líderes familiares e de outros membros da comunidade é sentida de forma constante e direta.”

A consequência pode ser económica. Para conseguir cumprir as obrigações, conta que recorreu a empréstimos informais junto de vizinhos e familiares, que teve depois de pagar enquanto continuavam a existir as despesas normais da família.

“Para conseguir cumprir essa obrigação, tive de pedir empréstimos a vizinhos ou familiares próximos. Como consequência, a situação financeira da minha família tornou-se instável durante um período prolongado.”

Mas pode também ser social. Existe o receio de que quem não contribui hoje deixe de contar com a ajuda da comunidade amanhã. “Existe muitas vezes a ideia de que, se os jovens não contribuírem agora, a família poderá perder o apoio da comunidade quando, no futuro, passar por um momento de luto.”

É uma lógica baseada na reciprocidade: quem ajuda espera poder ser ajudado. Mas, quando a capacidade de contribuir é desigual, essa reciprocidade pode deixar de ser vivida da mesma maneira por todos.

A contribuição que sai do dinheiro da escola

Anacleto da Silva conhece esse problema por outra via. Vive com a mulher e cinco filhos e divide os rendimentos entre alimentação, escola e despesas domésticas. Trabalha na horta, vende lotaria para complementar o rendimento familiar e a mulher trabalha como funcionária de limpeza.

Quando morrem familiares próximos, a contribuição pode chegar aos 200 dólares. Numa cerimónia, por exemplo, o lado umane pode solicitar um boi e dois porcos. Sendo a família de Anacleto do lado fetosan, os familiares calculam o valor necessário e dividem a despesa entre os membros da família envolvidos nessa relação.

Quando não tem dinheiro, pede emprestado. Em algumas ocasiões, o dinheiro que estava destinado à escola dos filhos acaba por ser utilizado para cumprir a contribuição. “Às vezes, num único mês, morrem duas pessoas seguidas. Temos de dividir o rendimento entre as necessidades da família e as responsabilidades culturais.”

O problema não é necessariamente o valor de uma única contribuição, mas a acumulação. Uma morte pode acontecer quando outra família ainda está a responder a uma cerimónia anterior e, quando várias obrigações surgem num curto período, famílias com poucos recursos podem ter de escolher entre diferentes necessidades.

Quando a pressão pesa sobre a saúde mental

Para o antropólogo e psicólogo Alessandro Boarccaech, esta é uma característica essencial da reciprocidade em Timor-Leste. “Uma família pode contribuir hoje com bens, dinheiro ou trabalho num casamento, e só receber algo anos mais tarde, quando realizar um funeral ou outra cerimónia.”

Mas Alessandro alerta para o facto de a reciprocidade não explicar tudo. “É importante não confundir o princípio da reciprocidade com fenómenos que hoje, por vezes, se misturam com ele, como a monetização das contribuições, a instrumentalização das obrigações sociais, ganhos pessoais ou a utilização destas práticas para afirmar prestígio e o estatuto de certos indivíduos ou famílias.”

Ou seja, contribuir pode significar ajudar, mas pode também significar cumprir uma obrigação, manter uma posição dentro da família ou evitar consequências sociais.

Segundo Alessandro Boarccaech, quando uma pessoa sente que não pode recusar uma obrigação, apesar de não ter capacidade financeira para a cumprir, a pressão pode ultrapassar a questão económica e atingir o bem-estar emocional.

O psicólogo chama a atenção para situações em que a pressão prolongada e a acumulação de obrigações podem estar associadas a ansiedade, depressão, esgotamento e dificuldades de sono.

Estas consequências não devem ser apresentadas como uma realidade generalizada entre as pessoas que participam nas cerimónias culturais. Alessandro refere-se a situações em que a obrigação é vivida de forma particularmente pesada e em que diferentes problemas económicos e familiares se acumulam.

A questão, explica, é que uma pessoa pode sentir simultaneamente duas coisas: reconhecer a importância da relação familiar e, ao mesmo tempo, sentir que já não consegue suportar aquilo que dela é esperado. “É essa contradição que torna a obrigação difícil de quebrar”, salienta.

No caso de Jacinto, a pressão assume ainda outra dimensão. Além do receio de ser criticado ou afastado pela família, diz temer as consequências que os mais velhos associam ao incumprimento das obrigações. “Tenho medo de doenças, azar ou maldições”, confessa.

“Continuo a tentar contribuir, mesmo quando a minha situação financeira não permite, porque tenho medo de que, se não contribuir, possam acontecer coisas indesejadas, como doenças, azar ou outros problemas.”

Jacinto explica que estas ideias fazem parte das crenças transmitidas na sua família. Segundo conta, os mais velhos dizem que o incumprimento das obrigações pode trazer consequências negativas — incluindo maldições — para a pessoa ou para a família.

Não há evidência científica de que uma doença, o azar ou uma maldição resultem de não participar numa cerimónia. Mas a crença tem uma consequência concreta: influencia a decisão de Jacinto.

Ele contribui mesmo quando não tem capacidade financeira para o fazer e teme também perder o lugar dentro da própria família. “Também tenho medo de que, se não contribuir, possa ser expulso da família. Por isso, apesar de ser difícil, continuo a tentar contribuir.”

A tradição não é estática

Romeo Soares da Silva, coordenador da Divisão da Cultura da Comissão Nacional de Timor-Leste para a UNESCO, chama a atenção para uma transformação económica que alterou o peso destas práticas.

Quando era criança, conta, as pessoas podiam contribuir com aquilo que tinham: arroz, milho ou outros produtos que produziam. Hoje, muitos desses bens têm de ser comprados.

“Hoje o valor económico é diferente. Antigamente, as pessoas podiam levar aquilo que tinham disponível, mas agora muitas necessidades precisam de ser compradas. Esta situação tem impacto na economia das famílias, sobretudo daquelas que ainda vivem em condições difíceis.”

A mudança parece pequena, mas altera profundamente o custo da participação. “Uma família que oferece aquilo que produz não precisa necessariamente de transformar essa contribuição numa despesa monetária. Uma família que precisa de comprar o que vai oferecer já está a retirar dinheiro de outro lugar”.

Os jovens não estão necessariamente a rejeitar as práticas tradicionais, mas alguns questionam a forma como determinadas obrigações são aplicadas. Jacinta Ferreira, de 20 anos, considera que a participação continua a existir, mas defende que as condições económicas das famílias também devem ser consideradas.

Natasya da Costa, de 22 anos, é mais direta. “Esta tradição realmente demonstra solidariedade, mas também precisamos de considerar a situação de cada família. Não devemos permitir que as pessoas tenham de pedir empréstimos ou sacrificar necessidades importantes apenas por causa da pressão social.”

Para Alessandro Boarccaech, esta posição não significa necessariamente uma rutura com a tradição. Os jovens podem continuar a valorizar a relação entre famílias, mas questionar os valores exigidos e a rigidez de algumas obrigações. A tradição, explica, “não é estática. Pode manter-se enquanto muda a forma como é praticada.”

Quando a reciprocidade se transforma em obrigação

Durante algumas cerimónias, existe um registo das pessoas que contribuíram e dos bens entregues. Mas não existe uma contabilidade financeira convencional que determine que uma família que deu 50 dólares terá obrigatoriamente de receber 50 dólares no futuro.

A chamada “contabilidade não escrita” está, por isso, menos nos números do que na memória da relação. A verdadeira conta prolonga-se no tempo e está também na memória de quem ajudou, de quem não ajudou, de quem esteve presente e de quem poderá ser chamado a ajudar amanhã.

Para algumas famílias, cinco dólares podem ser uma contribuição possível. Para outras, 50 dólares já representam uma dificuldade. Para Jacinto, que ganha cerca de 180 dólares por mês, 15 participações podem significar até 750 dólares num único ano. Para Anacleto, uma contribuição de 200 dólares pode significar recorrer a um empréstimo ou retirar dinheiro destinado à escola dos filhos. Para o entrevistado anónimo, significou pedir dinheiro emprestado e suportar durante meses as consequências sobre o orçamento familiar.

As lia mate e lia moris assentam em relações de ajuda entre famílias, mas essas relações não são vividas de forma igual por todos. Quem tem recursos pode contribuir sem comprometer as despesas essenciais, enquanto quem tem menos pode ter de pedir dinheiro emprestado, esconder o próprio salário, sacrificar outras necessidades ou contribuir por medo de perder o apoio da família e da comunidade. Em alguns casos, esse medo está também associado à crença de que a recusa pode trazer doenças, azar, outros problemas ou até uma maldição.

É neste ponto que a questão deixa de ser apenas cultural ou económica e passa a ser também uma questão de poder, pressão e saúde mental.

Porque, quando uma pessoa sente que não pode dizer “não”, mesmo quando não tem dinheiro para dizer “sim”, a reciprocidade deixa de funcionar apenas como uma rede de proteção. Pode tornar-se uma obrigação que pesa sobretudo sobre quem menos capacidade tem para a suportar.

É talvez essa a parte mais difícil de contabilizar: o preço de uma contribuição pode estar no recibo de uma dívida, no dinheiro que falta para a escola dos filhos, no salário que alguém esconde ou no medo daquilo que poderá acontecer se decidir não dar.

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