O mural “Jumping Dolphins”, criado pelo artista português em colaboração com a Arte Moris e financiado pelo BNU Timor, chama a atenção para a poluição e para o impacto dos hábitos de consumo no ambiente. O projeto inclui também um concurso dirigido a jovens artistas timorenses.
O Banco Nacional Ultramarino (BNU Timor) e a Fundação TasiFest inauguraram, a 7 de outubro, o mural “Jumping Dolphins”, uma obra criada com resíduos e materiais descartados, incluindo plástico e lixo eletrónico. A peça ocupa a fachada lateral da sede do banco, em Díli.
O artista português Artur Bordalo, conhecido como Bordalo II, desenvolveu a obra em colaboração com artistas timorenses da Arte Moris. A iniciativa procura mostrar como os resíduos podem ser transformados em arte e chamar a atenção para o impacto dos hábitos de consumo no ambiente.
“Num país tão ligado ao mar como Timor-Leste, os golfinhos têm um significado especial: a obra convida a refletir sobre a relação entre a cidade, os nossos hábitos de consumo e a saúde dos oceanos que nos rodeiam”, refere a Fundação TasiFest, em comunicado.
O mural pode ser visto na fachada lateral da sede do BNU Timor, na Avenida Cidade de Lisboa, nas proximidades do Museu da Resistência.
“Esta obra nasce de uma ideia de deixar um marco e um contributo, digamos, uma espécie de prenda à cidade de Díli”, afirmou Paulo Lopes, diretor-geral do BNU Timor, à margem da inauguração.
O edifício-sede do banco foi inaugurado em 1968 e era, à época, “um ícone, um marco da arquitetura modernista”, recordou o responsável. Quase seis décadas depois, o BNU quis voltar a destacar o edifício na paisagem urbana com uma obra duradoura, associada à responsabilidade social e à sustentabilidade.
A escolha de Bordalo II, artista com mais de 250 obras espalhadas por vários países e continentes, pretende também dar visibilidade internacional a Timor-Leste e incentivar os artistas locais. “Julgamos que esta obra, para além de constituir um incentivo para os artistas timorenses, também ajuda um pouco a colocar Timor no mapa, porque se trata de um artista conhecido no mundo inteiro”, sublinhou Paulo Lopes.
Para Luís Simões, presidente da Fundação TasiFest, os golfinhos convidam os timorenses a olhar para o oceano como “a nossa maior riqueza aqui em Timor, a nossa maior responsabilidade também”.
“Os golfinhos nasceram aqui, daquilo que descartámos, e hoje saltam para a parede de um banco, que ninguém imaginaria que podia ser a tela perfeita para uma peça de arte tão fora da caixa”, afirmou Luís Simões.
O embaixador da União Europeia em Timor-Leste, Thorsten Bargfrede, alertou para a quantidade de resíduos produzidos, tanto no mundo como em Timor-Leste, em particular os plásticos de utilização única. “O maior problema é o plástico de uso único”, afirmou, dando como exemplo as pequenas garrafas de água.
O diplomata destacou também a dimensão estética da obra, considerando que será uma presença marcante no centro da cidade: “Não se trata apenas da mensagem.”

BNU Timor aposta na arte sustentável
O BNU Timor tem desenvolvido iniciativas de cariz económico, social e ambiental. A obra foi financiada no âmbito da iniciativa “BNU Apoio à Arte Sustentável”, que pretende valorizar a criação artística em Timor-Leste, promover a consciência ambiental e contribuir para o embelezamento da cidade através da reutilização criativa de materiais.
A sustentabilidade, explicou Paulo Lopes, “é um tema muito caro ao BNU e até ao Grupo Caixa Geral de Depósitos”, que conta com uma equipa dedicada a estas matérias. O mural dá continuidade a iniciativas anteriores do banco com a Arte Moris: durante duas épocas natalícias consecutivas, foram construídos um presépio e uma árvore de Natal com resíduos urbanos. “Eu sempre dizia ao Luís que acho que precisamos de uma coisa mais marcante e duradoura. E é aí que surge a ideia de trazer o Bordalo”, contou.
O diretor-geral admitiu que teve de “vencer algum ceticismo interno” em relação ao projeto. “Confesso que, até ver a obra pronta, não sabia o que ia sair dali. Nestas coisas é preciso ter coragem, e tivemos coragem. E as coisas correram bem”, afirmou.
Luís Simões agradeceu o apoio do BNU e considerou que a iniciativa demonstra o contributo que o setor privado pode dar à cultura e ao ambiente de Timor-Leste. “Nada disso seria possível sem o BNU”, afirmou, agradecendo ao banco por ter disponibilizado a fachada da sede para a intervenção artística.
O embaixador de Portugal em Timor-Leste, Duarte Bué Alves, destacou a responsabilidade social do banco e o apoio que presta a empresas, instituições, escolas, artistas e à própria Embaixada.
O secretário de Estado da Arte e Cultura, Jorge Soares Cristóvão, agradeceu igualmente ao BNU por ter disponibilizado a fachada para a intervenção artística e pelo apoio a iniciativas dirigidas aos jovens nas áreas da música, do teatro, da pintura e das exposições.
O secretário de Estado da Arte e Cultura, Jorge Soares Cristóvão, agradeceu igualmente ao BNU por ter permitido transformar o espaço numa obra artística e pelo apoio que o banco tem prestado, como patrocinador, a iniciativas que dão aos jovens timorenses espaço para eventos, música, teatro, pintura e exposições.

Concurso leva a mensagem ambiental à comunidade
O BNU Timor quis alargar o projeto para além do mural. “Não queríamos que a obra fosse um projeto que terminasse na própria obra. Ela tem de se estender mais além, à comunidade”, explicou Paulo Lopes. O diretor-geral descreveu o concurso dirigido a jovens, desafiados a criar obras com materiais reciclados, como “a fase 2” do projeto.
O primeiro prémio foi atribuído a Oldegar Fátima Rodrigues, de 22 anos, estudante do sétimo semestre da Faculdade de Direito da Universidade Católica Timorense (UCT). O jovem criou uma coroa de Natal com resíduos recolhidos num rio perto de casa.
“O que me motivou a participar foi o problema do lixo que Timor-Leste enfrenta. Como faço parte da nova geração, quis procurar uma ideia que pudesse contribuir para reduzir o lixo através da arte que o BNU promoveu”, contou Oldegar.
O jovem explicou que conseguiu encontrar os materiais descartáveis em pouco mais de duas horas e gastou menos de dez dólares nos restantes materiais. Considerou que a experiência mostrou que é possível criar uma obra a partir de resíduos sem grandes custos e manifestou satisfação por poder inspirar outras pessoas a fazer o mesmo.
Oldegar Rodrigues recebeu um cartão pré-pago no valor de 250 dólares. Os outros dois premiados, Úrsula Sarmento Fernandes e Ronaldino Martins Carlos, receberam cartões no valor de 100 e 50 dólares, respetivamente.

Preparação do mural “Jumping Dolphins”
O mural integra o programa de artes visuais do Festival TasiFest 2026, mas a preparação do projeto começou muito antes. Segundo Luís Simões, a execução da obra demorou cerca de uma semana e meia, enquanto a preparação se prolongou por aproximadamente um ano e meio, devido à agenda do artista e à organização necessária antes da sua deslocação a Timor-Leste.
Antes da chegada de Bordalo II, foi necessário preparar a parede e os materiais, bem como alugar máquinas pesadas e outros equipamentos. “Tivemos algumas dificuldades, mas conseguimos concretizar o projeto porque o artista tinha realmente vontade de vir a Timor-Leste”, afirmou o presidente da Fundação TasiFest.
Luís Simões descreveu o projeto como “um investimento grande, mas não estamos a falar apenas de dinheiro”, considerando que a obra poderá tornar-se um ponto de interesse para quem visita Timor-Leste.
O processo incluiu a preparação e seleção dos resíduos, a escolha das cores, a formação das peças, o planeamento da instalação e a pintura da parede. As várias etapas e as parcerias envolvidas estão descritas numa placa de acrílico apresentada durante a inauguração.

Arte Moris e Bordalo II partilham técnicas
Esta é a segunda obra que Bordalo II realiza em Timor-Leste em conjunto com a Arte Moris. A primeira, um tigre, foi criada em Tasi Tolu durante o TasiFest, com chinelos recolhidos por estudantes das escolas CAFE de vários municípios.
A ideia de criar uma obra com chinelos surgiu durante essa primeira experiência no país. “No final do trabalho, nós descobrimos uma série de outros materiais que eu não costumo utilizar, nomeadamente chinelos e isqueiros, na praia, em todo o lado”, recordou o artista. A quantidade de chinelos encontrados levou-o a considerar a possibilidade de regressar para criar uma peça exclusivamente com esses materiais. O convite do TasiFest permitiu concretizar o projeto.
Bordalo II destacou também a participação da comunidade local, em particular dos jovens que recolheram os materiais e participaram nas limpezas das praias. “É uma colaboração com toda a gente daqui”, afirmou, agradecendo o apoio dos artistas timorenses. “Sem eles, provavelmente, esta peça não estaria de pé neste momento”, acrescentou.
O artista explicou ainda que, durante a montagem, nem sempre era fácil perceber a figura que os materiais formavam. A composição só se tornou claramente reconhecível quando foi possível observar a obra à distância ou através de imagens captadas por um drone.
A escolha do tigre esteve relacionada com a presença histórica deste animal na região asiática e com a ameaça de extinção que enfrenta em várias partes do mundo. Bordalo II estabeleceu também uma relação entre os resíduos, a destruição dos habitats e a sobrevivência das espécies.
Luís Simões explicou que a colaboração pretende permitir aos artistas timorenses aprender novas técnicas e trocar experiências. Na sua perspetiva, o país tem criatividade, mas continua a ser necessário valorizar os artistas e o seu trabalho e criar condições para uma maior profissionalização do setor.
Evang Pereira, artista da Arte Moris, trabalhou com Bordalo II durante cerca de uma semana na montagem das duas obras. Habituado a peças de menor dimensão, destacou a aprendizagem de trabalhar à escala monumental e a importância de observar a obra à distância para avaliar o resultado e identificar eventuais erros.
“Timor-Leste já entrou na ASEAN e há muitos países que querem conhecer a arte timorense. Por isso, esta é também uma oportunidade para levar e apresentar a nossa arte noutros países”, afirmou Evang Pereira, apelando aos jovens para não esconderem o seu talento.
Bordalo II considera igualmente importante criar oportunidades para os artistas desenvolverem as suas capacidades. No vídeo, manifestou satisfação por participar no início de um festival que espera que tenha continuidade, defendendo a importância de criar espaços para que os talentos locais possam ser desenvolvidos e apresentados ao público.
Paulo Lopes defendeu que os artistas timorenses devem inspirar-se em experiências como esta e ganhar confiança para apresentar o seu trabalho além-fronteiras.
Jorge Soares Cristóvão revelou que existe um plano para que artistas da Arte Moris participem em eventos em Portugal ainda este ano. O governante recordou a presença de artistas timorenses em iniciativas em França, Itália, Portugal e Indonésia, incluindo numa bienal, mas reconheceu que é necessário continuar a criar mercados para a arte nacional.
No final, Paulo Lopes recuperou uma frase associada ao trabalho de Bordalo II: “O lixo de um pode ser o tesouro de outro”. E concluiu que, com imaginação e criatividade, os artistas podem ultrapassar muitas limitações.
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