Estudantes protestaram em frente ao Parlamento Nacional de Timor-Leste, exigindo o fim da lei da pensão vitalícia e pedindo mais investimento nos setores produtivos para criar oportunidades e desenvolver o país/Foto: Diligente
Com poucas oportunidades de emprego e salários que muitos consideram insuficientes para construir uma vida estável, milhares de jovens timorenses continuam a olhar para o estrangeiro como uma oportunidade para mudar de vida. Outros preferem ficar e apostar no empreendedorismo, na agricultura ou em pequenos negócios.
Timor-Leste é um dos países mais jovens da região. De acordo com os Censos de 2022, cerca de 65% da população tem menos de 30 anos. Esta geração representa uma enorme reserva de energia e potencial para impulsionar o desenvolvimento do país.
No entanto, a transição para a vida adulta continua marcada por muitos desafios. Encontrar emprego, alcançar independência financeira e construir um projeto de vida estável permanece um objetivo difícil para muitos jovens. A reduzida oferta de trabalho, os baixos salários e a escassez de oportunidades levam muitos a questionar se conseguirão concretizar os seus sonhos sem sair do país.
Perante esta realidade, alguns optam por emigrar para países como a Austrália, a Coreia do Sul, Portugal ou o Reino Unido, na esperança de encontrar melhores condições de vida. Outros acreditam que é possível construir o futuro em Timor-Leste, apostando no empreendedorismo, na agricultura e na criação do próprio emprego.
O Diligente ouviu cinco jovens timorenses com percursos distintos. Entre histórias de emigração, desemprego, empreendedorismo e perseverança, todos partilham a mesma ambição: construir uma vida mais digna e contribuir para o futuro de Timor-Leste.
“Vir para a Austrália não representava apenas uma oportunidade de melhorar a minha própria vida, mas também uma forma de garantir melhores condições para os meus irmãos”
Octaviano Maya da Conceição, trabalhador timorense na Austrália / Foto: Arquivo pessoal
“A minha decisão de vir trabalhar para a Austrália surgiu numa fase em que a minha família enfrentava uma situação económica muito difícil. Perante essa realidade, decidi procurar melhores oportunidades no estrangeiro. Antes de vir para cá, trabalhei em várias organizações comunitárias, onde recebia uma pequena remuneração que ajudava a suportar algumas despesas pessoais e os meus estudos.
Optei por não continuar a trabalhar em Timor-Leste porque o rendimento que auferia não me permitia alcançar objetivos importantes, como construir uma casa ou apoiar a educação dos meus irmãos. Em 2017, perdi a minha mãe, uma situação que me afetou profundamente e me levou a interromper temporariamente os estudos universitários. Sendo o filho mais velho de uma família numerosa, senti a responsabilidade de procurar uma forma de apoiar os meus irmãos.
Foi nesse contexto que me candidatei ao programa de trabalho promovido pelo Governo de Timor-Leste, através da Secretaria de Estado da Formação Profissional e Emprego, em parceria com o Governo da Austrália. Depois de ultrapassar as várias fases de seleção, incluindo a análise documental, a prova escrita e a entrevista, fui selecionado e recebi um contrato para trabalhar na indústria da carne, onde permaneço há quatro anos.
Vir para a Austrália não representava apenas uma oportunidade de melhorar a minha própria vida, mas também uma forma de garantir melhores condições para os meus irmãos. Com o apoio que lhes tenho dado, conseguiram concluir o ensino secundário e frequentam atualmente a universidade. Além disso, envio regularmente dinheiro para a minha família, sobretudo para ajudar nas despesas básicas, como a alimentação. Também consegui comprar um terreno em Díli, onde estou a construir uma casa que está quase concluída, e estou a reabilitar a antiga casa do meu pai, situada nas montanhas.
Sem esta oportunidade de trabalho na Austrália, acredito que teria sido muito difícil concretizar estes objetivos. Em Timor-Leste, um salário mínimo de cerca de 115 dólares dificilmente permite responder às necessidades de uma família.
A realidade do país é conhecida por todos. Muitos jovens procuram trabalho no estrangeiro porque as oportunidades de emprego continuam limitadas. Mesmo aqueles que conseguem um emprego enfrentam, muitas vezes, dificuldades devido aos baixos salários, que nem sempre permitem melhorar de forma significativa as suas condições de vida. Na Austrália, pelo contrário, o rendimento de um único mês de trabalho pode representar uma mudança importante na vida de uma pessoa e permitir algum planeamento para o futuro.
Acredito que o Governo deve reforçar o investimento em áreas fundamentais, como a educação, a agricultura e o turismo. Apostar na educação é preparar melhor os cidadãos para o mercado de trabalho e incentivar a criação de novos negócios. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento da agricultura e do turismo pode gerar mais emprego e criar novas oportunidades para os jovens. Para isso, é essencial reforçar a colaboração entre o Estado e o setor privado.
Uma das maiores aprendizagens que tive na Austrália foi perceber que o tempo tem um enorme valor. Em Timor-Leste, por vezes, não damos a mesma importância à pontualidade e à gestão do tempo como instrumento para melhorar a nossa vida. Aqui existe uma cultura de maior disciplina: as pessoas respeitam os horários de entrada e de saída do trabalho, valorizando o compromisso e a responsabilidade.
A minha mensagem para os jovens é que o futuro depende das escolhas e do esforço de cada um. Devemos procurar aprender continuamente, aproveitar as oportunidades e desenvolver atividades que contribuam para melhorar a nossa vida. Trabalhar no estrangeiro ou permanecer em Timor-Leste são caminhos igualmente dignos; o mais importante é saber gerir os rendimentos e utilizá-los de forma responsável. Quando fazemos isso, conseguimos criar melhores condições para nós próprios e para as nossas famílias.”
“Através da agricultura, consegui construir a minha casa, apoiar os estudos dos meus irmãos e criar emprego para cerca de 30 jovens”
“Timor-Leste é um país jovem que continua em processo de desenvolvimento, tanto a nível económico como na melhoria das condições de vida da população. Enquanto jovem, acredito que podemos construir o nosso futuro no próprio país, embora reconheça que esse caminho apresenta muitos desafios.
Todos sabemos que as oportunidades de emprego em Timor-Leste ainda são limitadas. No entanto, acredito que, através do esforço, da criatividade e da iniciativa pessoal, podemos criar novas oportunidades, especialmente em áreas como o empreendedorismo e a agricultura.
Antes, trabalhava para outras pessoas, cuidando das suas hortas e terrenos agrícolas. Com o tempo, percebi que precisava de mudar a minha situação e criar a minha própria atividade, em vez de depender sempre de trabalhos oferecidos por terceiros. Foi então que comecei a procurar proprietários de terrenos abandonados e, depois de várias conversas, chegámos a um acordo que me permitiu iniciar o meu projeto na área da horticultura.
Atualmente, tenho dois centros de produção agrícola: um em Loes, no município de Liquiçá, e outro em Hera. Através desta atividade, consegui criar oportunidades de trabalho para cerca de 30 jovens. Também consegui construir a minha casa, apoiar os estudos dos meus irmãos e adquirir um carro. Sinto-me realizado com este percurso, porque a agricultura permitiu-me melhorar a minha vida e, ao mesmo tempo, contribuir para as comunidades, garantindo o fornecimento regular de produtos agrícolas.
Reconheço que existem oportunidades para os jovens melhorarem as suas condições de vida, embora ainda sejam reduzidas, sobretudo no acesso ao emprego formal. Por isso, acredito que devemos assumir uma atitude mais ativa e procurar criar as nossas próprias oportunidades através de pequenos negócios e de atividades produtivas, como a criação de aves, a produção agrícola, a pecuária ou outros projetos que possam beneficiar as nossas famílias e comunidades.
Se não dermos o primeiro passo, será difícil esperar que alguém venha resolver os nossos problemas. No meu caso, comecei sozinho e nunca solicitei apoio financeiro ao Governo. Ainda assim, como jovem, quero continuar a contribuir para o desenvolvimento do país sem depender exclusivamente do Estado. O Governo deve criar melhores condições de mercado, permitindo que os produtores consigam vender os seus produtos a preços justos e obtenham rendimentos sustentáveis.
Timor-Leste possui muitas terras férteis e com grande potencial para o desenvolvimento de atividades económicas. Como jovens, precisamos de ter coragem para assumir riscos, acreditar nas nossas capacidades e investir nos recursos que o nosso país possui. Só assim poderemos transformar os desafios em oportunidades e construir um futuro melhor.”
“Quando não conseguimos um emprego, não podemos desistir: temos de procurar outras formas de criar o nosso próprio futuro”
Ana Glória da Cruz Belo, estudante da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL) / Foto: Diligente
“Todos os anos, vemos muitos jovens timorenses procurar oportunidades de trabalho no estrangeiro. A principal razão apontada é a falta de emprego em Timor-Leste. No entanto, na minha opinião, essa ideia não corresponde totalmente à realidade, porque existem oportunidades. Muitas vezes, falta-nos iniciativa e determinação para as procurar ou criar.
Existem vários caminhos para melhorar as nossas condições de vida. Quando nos candidatamos a uma vaga de emprego e não somos selecionados, não podemos desistir. Podemos procurar alternativas, como criar pequenos negócios, desenvolver atividades agrícolas ou investir na criação de animais, como galinhas e porcos. Com iniciativa, responsabilidade e dedicação, é possível alcançar resultados positivos. Além de melhorar a nossa própria vida, estas atividades também podem gerar emprego para outros jovens.
Existem muitas oportunidades que nós, enquanto juventude, podemos aproveitar para desenvolver atividades produtivas, mas nem sempre conseguimos identificá-las. Um exemplo é o setor avícola: grande parte da carne de frango consumida em Timor-Leste é importada. Se houver mais investimento nesta área, podemos tornar-nos produtores nacionais e contribuir para reduzir a dependência das importações.
Muitas pessoas acreditam que, para iniciar um negócio, é necessário dispor de muito capital. No entanto, existem instituições financeiras que disponibilizam empréstimos a jovens com ideias e projetos empreendedores. O desafio é que, muitas vezes, não procuramos informação suficiente sobre essas oportunidades.
Por isso, considero que o Governo deve continuar a investir na educação e na formação profissional, preparando os jovens com conhecimentos e competências que lhes permitam desenvolver o seu potencial e criar as suas próprias oportunidades, sem dependerem exclusivamente do Estado.
Todos queremos construir uma vida melhor no futuro, mas esse futuro depende das decisões e das ações que tomamos no presente. Se não estivermos dispostos a trabalhar, a aprender e a enfrentar desafios, será difícil alcançar mudanças significativas. Quem deseja um futuro melhor deve procurar oportunidades, transformar ideias em ações e trabalhar com dedicação, contribuindo assim para o bem-estar da sua família e para o desenvolvimento de Timor-Leste.”
“O dinheiro que ganho chega para as despesas do dia a dia, mas não me permite construir o futuro que desejo”
“Todos conhecemos a realidade de Timor-Leste: as oportunidades de emprego continuam a ser muito limitadas, enquanto existe um grande número de jovens à procura de trabalho. Em muitas instituições são abertas apenas algumas vagas, mas o número de candidatos é muito elevado. Como resultado, muitos acabam por ficar desempregados.
Como podemos melhorar as nossas condições de vida quando não temos um emprego estável nem um rendimento fixo? Na minha opinião, para conseguirmos progredir, precisamos de ter uma fonte de rendimento que nos permita responder às nossas necessidades e planear o futuro.
Anteriormente, trabalhei na construção civil e, com o rendimento que recebia, consegui pagar os meus estudos universitários. No entanto, quando o projeto terminou, fiquei sem trabalho e sem uma fonte de rendimento regular. Para continuar a estudar, comecei a vender recargas telefónicas (pulsa), uma atividade que me ajudava a pagar as propinas da universidade e a renda do quarto onde vivo.
Apesar do esforço, sinto que esta atividade não é suficiente para melhorar significativamente a minha vida. O dinheiro que ganho serve sobretudo para cobrir as despesas diárias, como a alimentação, mas não me permite alcançar objetivos maiores, como construir uma casa ou garantir maior estabilidade para o futuro.
Muitos jovens continuam a vender cigarros e recargas telefónicas nas ruas, enquanto outros trabalham em lojas com salários que, por vezes, não chegam aos 115 dólares por mês. Embora o Governo tenha criado programas de emprego no estrangeiro, com oportunidades na Austrália, na Coreia do Sul e na Nova Zelândia, considero que o número de vagas continua a ser reduzido face à quantidade de jovens que procuram trabalho.
Tenho o grande desejo de trabalhar na Coreia do Sul, porque acredito que uma oportunidade no estrangeiro poderá ajudar-me a melhorar as minhas condições de vida e, ao mesmo tempo, apoiar os estudos dos meus irmãos e dar um melhor apoio aos meus pais. O meu objetivo é contribuir para o bem-estar da minha família e construir um futuro mais estável.”
“O salário mínimo já não acompanha o custo de vida e torna-se muito difícil construir um futuro em Timor-Leste”
Daniel Pinto, jovem desempregado/Foto: Diligente
“Considero que é muito difícil para os jovens construírem o seu futuro em Timor-Leste. O Governo tem criado oportunidades de trabalho, tanto na função pública como através de programas de emprego na Austrália e na Coreia do Sul. No entanto, o número de candidatos é muito elevado, com milhares de jovens a concorrer a um número reduzido de vagas. Além disso, existem jovens qualificados em diversas áreas que, por vezes, não conseguem uma oportunidade devido a práticas de favoritismo ou à influência de ligações familiares.
Existem também outras opções de trabalho, como em lojas, na área da segurança ou na construção civil. Contudo, muitos desses empregos não oferecem estabilidade, pois os rendimentos são suficientes apenas para cobrir as necessidades básicas do dia a dia. Com salários baixos, torna-se muito difícil alcançar objetivos como construir uma casa, apoiar os estudos dos irmãos ou melhorar significativamente as condições de vida da família.
Timor-Leste ainda precisa de criar melhores condições para que os jovens possam construir o seu futuro dentro do próprio país. Muitos continuam desempregados, enquanto outros dependem de trabalhos temporários ou precários, que não garantem segurança económica a longo prazo.
O Governo deveria apostar mais na criação de fábricas e no desenvolvimento da indústria nacional, criando novas oportunidades de emprego para os jovens que não conseguem aceder aos programas de trabalho no estrangeiro. Também considero importante rever e atualizar o salário mínimo, porque o valor atual já não acompanha o aumento do custo de vida. Com melhores rendimentos, os jovens teriam mais possibilidades de construir uma vida estável e digna.
Atualmente, frequento um curso de língua coreana e tenho como principal objetivo trabalhar na Coreia do Sul. Acredito que essa oportunidade poderá ajudar-me a construir o meu futuro. Tenho vários amigos que já trabalham naquele país e vejo que conseguiram melhorar as suas vidas: construíram casas, apoiaram os pais e os irmãos, compraram carros e até iniciaram pequenos negócios. O meu sonho é também conseguir alcançar esses objetivos e proporcionar melhores condições à minha família.”