»Pensava que aquilo era amor»: o aliciamento que continua invisível em Timor-Leste

"O grooming começa, muitas vezes, com gestos de carinho, atenção e confiança — não com violência."/Foto: Unsplash

Durante anos acreditaram que estavam a receber carinho e proteção. Só mais tarde perceberam que tinham sido vítimas de manipulação e abuso sexual. Em Timor-Leste, especialistas alertam para o grooming — um processo de aliciamento ainda pouco conhecido que dificulta o reconhecimento da violência sexual contra crianças e adolescentes.

“Segundo o meu pai, isto era uma forma de amor dele. Então, eu pensava que era tudo normal e que ter relações sexuais era uma forma de ele demonstrar que me amava como filha.”

Durante anos, acreditou que aquilo era amor. Só mais tarde compreendeu que tinha sido vítima de abuso sexual e de um processo de manipulação que lhe roubou a capacidade de distinguir o afeto da violência.

Hoje reconhece que nunca percebeu que estava a ser manipulada. O agressor era o próprio pai, a pessoa em quem mais confiava. Mas esta não é a única história.

Juliana viveu um percurso diferente, mas marcado pelo mesmo padrão. Tinha apenas 16 anos quando decidiu denunciar o marido da irmã. Antes dos abusos, vieram a atenção constante, as conversas, os presentes e a proximidade.

Na altura, Juliana acreditava que aqueles gestos eram apenas demonstrações de carinho entre familiares.

Nenhuma das duas reconheceu o perigo. E é precisamente isso que caracteriza o grooming.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, o aliciamento raramente começa com violência. Começa quase sempre com gestos que parecem normais: atenção, carinho, elogios, presentes ou proteção. A vítima sente-se especial. O agressor conquista a sua confiança. Só depois surgem os abusos.

No caso da primeira jovem, tudo começou depois do divórcio dos pais. Passou a dividir o tempo entre a casa da mãe e a do pai. O pai dava-lhe dinheiro, satisfazia os seus pedidos e fazia-a sentir que ocupava um lugar especial na sua vida. Nada daquilo lhe parecia estranho. Hoje, acredita que fazia parte de um processo de manipulação.

Juliana também demorou a perceber. “Eu respeito-te como irmão, mas isso não se faz”, recorda ter dito quando começou a sentir que alguns comportamentos do cunhado ultrapassavam os limites. Pouco depois começaram as violações. “Violava-me sempre quando não estava ninguém em casa.” Durante cerca de nove meses viveu em silêncio. Sempre que os abusos terminavam, fechava-se no quarto e chorava.

A outra jovem também permaneceu em silêncio. Não porque aceitasse o que estava a acontecer. Mas porque acreditava que era uma demonstração de amor. O caso só começou a ser descoberto quando regressou a casa da mãe. Ao ler várias mensagens enviadas pelo pai à filha, com declarações de saudade e afeto, a mãe estranhou o conteúdo e decidiu fazer perguntas.

Foi então que a jovem começou, pela primeira vez, a falar sobre o que estava a viver. Mesmo assim, continuava sem perceber que era vítima de abuso. Continuava convencida de que aquilo era amor.

Juliana também só conseguiu denunciar muito tempo depois. Em dezembro de 2015, descobriu que estava grávida. Foi então que pediu à irmã que a acompanhasse ao hospital e lhe contou tudo. A reação foi devastadora. “Se não fosses minha irmã, matava-te.”

Nem sequer depois da denúncia encontrou apoio dentro da família. Chegou a pensar em suicidar-se. Com a ajuda de um tio apresentou queixa às autoridades. O agressor foi detido, mas acabou por não ser condenado. O tribunal considerou que existira uma relação consentida.

Mais tarde foi acolhida pela Casa Vida. “Antes de sair de casa, queria abraçar a minha mãe e as minhas irmãs, mas elas recusaram. Chamei a minha mãe e ela virou-me as costas.”

As histórias destas duas mulheres nunca se cruzaram. Mas seguem exatamente o mesmo padrão. Primeiro nasce a confiança. Depois a dependência emocional. Só muito mais tarde as vítimas conseguem perceber que aquilo a que chamavam carinho era, afinal, uma forma de manipulação. É precisamente este processo que os especialistas designam por grooming.

Primeiro conquistam a confiança. Depois começa a manipulação

Para o psicólogo Alessandro Boarccaech, é precisamente esta a característica que torna o grooming tão difícil de identificar.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, o abuso sexual raramente começa com violência física. O agressor procura, primeiro, conquistar a confiança da criança ou do adolescente, criando uma relação de proximidade que faz com que a vítima se sinta segura.

“O agressor não começa pelo abuso. Começa por oferecer atenção, afeto, validação e, por vezes, presentes ou privilégios. Para uma criança, estes comportamentos podem ser interpretados como sinais de carinho ou amor”, explicou.

Segundo o psicólogo, este processo é normalmente lento e deliberado. “O agressor procura conhecer os interesses da criança, escuta-a, mostra-se disponível quando ela precisa de apoio e faz com que se sinta especial. Aos poucos, passa a ocupar um lugar importante na sua vida.”

Em muitos casos, acrescenta Alessandro, o agressor tenta também conquistar a confiança dos adultos que rodeiam a criança, apresentando-se como uma pessoa responsável, prestável e preocupada com o seu bem-estar.

“Quando o abuso acontece, já existe uma relação de confiança construída. É isso que dificulta o reconhecimento da manipulação.” Esta ligação emocional explica porque é que muitas vítimas não rejeitam imediatamente o agressor nem revelam o que está a acontecer.

O psicólogo explica que algumas desenvolvem afeto por essa pessoa. Outras têm medo de a perder, de a desiludir ou acreditam que também são responsáveis pelo que aconteceu.

Há ainda agressores que convencem a criança de que existe um “segredo” entre ambos, fazendo-a acreditar que contar a verdade destruirá a relação ou prejudicará outras pessoas da família.

Por isso, sublinha Alessandro, o facto de uma vítima defender o agressor ou demorar anos a denunciar os abusos não significa que estes não tenham existido.

“Muitas vítimas só conseguem compreender o que lhes aconteceu já na idade adulta. Durante a infância não têm maturidade emocional nem conhecimento suficiente para perceber que estavam a ser manipuladas, sobretudo quando o agressor é alguém da família ou uma pessoa de confiança.”

Segundo o psicólogo, esse reconhecimento tardio é uma consequência do próprio processo de aliciamento e da desigualdade de poder entre o agressor e a criança.

Os sinais que podem indicar uma situação de aliciamento

Embora cada caso seja diferente, Alessandro explica que existem comportamentos que podem servir de alerta para pais, professores e cuidadores.

Entre eles estão: um adulto que procura dar atenção excessiva a uma criança em particular; ofertas frequentes de presentes ou dinheiro sem uma razão clara; pedidos para manter determinados comportamentos ou conversas em segredo; tentativas de isolar a criança da família ou dos amigos; contactos persistentes através das redes sociais ou de aplicações de mensagens; pedidos de fotografias pessoais ou íntimas; alterações repentinas de comportamento da criança, como isolamento, medo, ansiedade ou rejeição de determinados locais ou pessoas.

O psicólogo sublinha que nenhum destes sinais, por si só, confirma a existência de grooming. No entanto, quando vários comportamentos surgem em simultâneo, é importante que os adultos conversem com a criança e procurem compreender o que está a acontecer.

“O mais importante é criar um ambiente em que a criança saiba que pode falar sem medo de ser julgada ou castigada. Quanto maior for a confiança entre a criança e os adultos que a protegem, mais difícil será para o agressor controlar a situação.”

Para Alessandro, ensinar desde cedo que todas as crianças têm direito a decidir sobre o seu corpo e que nenhum adulto pode pedir-lhes segredo sobre toques, fotografias ou comportamentos íntimos continua a ser uma das formas mais eficazes de prevenção.

Mas a responsabilidade não termina na família. Quem trabalha diariamente com vítimas de violência considera que toda a sociedade tem um papel na proteção das crianças.

“Muitas vítimas só percebem o que lhes aconteceu quando já é tarde”

Na Casa Vida, as consequências do aliciamento deixam de ser um conceito para passarem a ter rosto.

Alzira Pereira, diretora-executiva da instituição, acompanha regularmente crianças e mulheres que chegam depois de meses ou anos de manipulação e violência.

Segundo explica, muitos destes casos começam de forma aparentemente inofensiva. Uma conversa, um elogio, um presente ou uma promessa. Só mais tarde surgem os comportamentos abusivos.

“Dou um grande apreço a quem começou a trazer este tema para o debate público, porque isso pode aumentar o conhecimento das crianças, das mulheres e das comunidades. Quando as pessoas conhecem esta realidade, sentem-se mais encorajadas a falar e a procurar ajuda”, afirmou.

Na experiência da Casa Vida, muitas vítimas só compreendem que foram manipuladas quando os seus direitos já foram violados. “Na minha opinião, esta é uma questão muito importante, porque muitas vezes começa com pequenas ações consideradas normais, mas que acabam por abrir caminho para a violação dos direitos de uma pessoa.”

Segundo Alzira, a maioria das vítimas apoiadas pela instituição foi abusada por pessoas que já conhecia. Familiares. Amigos. Companheiros. Pessoas em quem confiavam.

“Na Casa Vida, recebemos vítimas que chegam com situações semelhantes, principalmente casos de violência cometida por familiares, amigos ou parceiros. Muitas vezes, tudo começa com promessas e com a criação de uma relação de confiança, mas, mais tarde, as vítimas percebem que aquilo que aconteceu não estava correto.”

Para a responsável, esta é precisamente uma das razões pelas quais tantas vítimas permanecem em silêncio durante tanto tempo. Quando o agressor faz parte da família ou do círculo de confiança, denunciar significa enfrentar o medo, a vergonha e, muitas vezes, a possibilidade de perder o apoio das pessoas mais próximas. Foi isso que aconteceu com Juliana.

Depois de denunciar o cunhado, não encontrou o apoio que esperava dentro da própria família. A experiência, explica Alzira, não é excecional. “Em muitos casos acompanhados pela instituição, as vítimas são inicialmente desacreditadas, culpabilizadas ou pressionadas para manter o silêncio.”

Falar sobre o corpo não deve ser tabu

Para Alzira Pereira, uma das maiores fragilidades continua a ser a falta de educação sobre os direitos das crianças e os limites do próprio corpo.

Segundo defende, muitas famílias evitam abordar estes temas por vergonha ou por motivos culturais. Essa ausência de diálogo dificulta que as crianças consigam reconhecer quando alguém ultrapassa os seus limites.

“Os pais e a comunidade não devem ter vergonha de explicar às crianças quais são as partes íntimas do corpo. Desde pequenas, elas devem aprender o que é permitido e o que não é permitido, para saberem proteger-se e procurar ajuda quando necessário.”

Na opinião da responsável, ensinar uma criança a dizer “não”, respeitar os seus limites e explicar-lhe que nenhum adulto pode pedir segredo sobre o seu corpo são medidas simples que podem prevenir situações de abuso.

Criar espaços seguros onde as crianças possam falar sem medo continua, por isso, a ser um dos maiores desafios. “Quanto mais falarmos sobre este tema, maior será a capacidade das crianças e das comunidades para reconhecer situações de violência e pedir ajuda.”

Mas o grooming já não acontece apenas dentro das famílias ou das comunidades. Cada vez mais, começa também através de um telemóvel.

Das redes sociais à chantagem: o crescimento do aliciamento online

O telemóvel tornou-se uma das principais portas de entrada para novas formas de aliciamento.

Se antes os agressores dependiam sobretudo da proximidade familiar ou comunitária, hoje basta um perfil numa rede social para iniciar um processo de manipulação que pode prolongar-se durante semanas ou meses.

A Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL) reconhece que esta realidade está a tornar-se cada vez mais frequente.

Embora o ordenamento jurídico timorense ainda não utilize especificamente o termo grooming, a Unidade de Pessoas Vulneráveis (UPV) identifica casos que apresentam muitas das características deste tipo de aliciamento.

O inspetor-chefe Ricardo da Costa, responsável pela Secção de Prevenção e Sensibilização da UPV, explicou que muitos agressores utilizam as redes sociais para estabelecer contacto com crianças e adolescentes. “O aliciamento online acontece através dos meios digitais. O agressor conhece a vítima nas redes sociais, aproxima-se gradualmente e tenta conquistar a sua confiança.”

Segundo o responsável, esta aproximação nem sempre desperta suspeitas. Os contactos começam com conversas aparentemente inofensivas. O agressor procura conhecer os interesses da vítima, mostra-se disponível para conversar e cria a ideia de que existe uma relação de amizade ou de confiança. Só mais tarde surgem os pedidos mais sensíveis.

“Depois de conquistar a confiança da vítima, alguns agressores pedem fotografias pessoais ou íntimas. Quando a vítima recusa, ameaçam divulgar essas imagens nas redes sociais para a obrigar a fazer aquilo que pretendem.”

Este tipo de chantagem, conhecido internacionalmente como sextorsão, pode prolongar o controlo do agressor durante muito tempo, levando muitas vítimas a permanecer em silêncio por medo da humilhação pública.

Perante este cenário, a Unidade de Pessoas Vulneráveis tem reforçado as ações de sensibilização nas escolas.

Embora a expressão grooming ainda não seja utilizada de forma sistemática nestas sessões, a polícia procura alertar crianças e adolescentes para os riscos da exposição nas redes sociais e da partilha de informações pessoais.

“Visitamos escolas para sensibilizar os jovens para a utilização segura dos telemóveis e das redes sociais. Queremos que saibam reconhecer comportamentos suspeitos e que procurem ajuda sempre que sintam que alguém está a ultrapassar os seus limites.”

Para Ricardo da Costa, a prevenção continua a ser a melhor forma de proteção. Mais do que proibir o acesso às tecnologias, defende que é essencial ensinar crianças e adolescentes a utilizá-las de forma crítica, responsável e segura.

Apesar deste esforço de prevenção, existe um obstáculo que continua a dificultar a resposta das autoridades. Em Timor-Leste, o grooming ainda não está previsto como um crime autónomo na legislação.

Timor-Leste ainda não tem uma lei específica para punir o grooming

Apesar de o aliciamento de crianças e adolescentes ser reconhecido internacionalmente como uma etapa que pode anteceder crimes de abuso sexual, Timor-Leste ainda não dispõe de uma legislação específica que criminalize o grooming.

Na prática, isso significa que muitos comportamentos de manipulação não podem ser punidos enquanto não derem origem a outros crimes previstos no Código Penal.

O jurista Sérgio Quintas explica que, atualmente, quando o aliciamento culmina em crimes sexuais, como a violação, a coação sexual ou outros atos previstos na lei, o agressor pode ser responsabilizado com base nesses crimes.

“No entanto, o processo de manipulação em si ainda não está previsto como um crime autónomo na legislação timorense”, afirmou.

Segundo o jurista, esta lacuna dificulta também o trabalho das autoridades de investigação criminal. “O grooming envolve, muitas vezes, manipulação psicológica, relações de confiança e comunicação através dos meios digitais. Sem uma definição legal clara, torna-se mais difícil investigar estes casos e recolher prova.”

Além dos desafios legais, Sérgio Quintas considera que continua a existir um reduzido conhecimento da população sobre este fenómeno. “Muitas famílias ainda não sabem reconhecer os sinais de aliciamento nem compreendem a importância de preservar mensagens, fotografias ou outras provas que podem ser essenciais para uma investigação.”

Na sua opinião, Timor-Leste deveria aprovar legislação específica que permitisse identificar e punir o grooming antes de ocorrer o abuso sexual, reforçando simultaneamente os mecanismos de prevenção e de proteção das crianças.

Reconhecer o perigo antes que seja tarde

As histórias que abriram esta reportagem mostram que o grooming raramente começa com violência. Começa com confiança. Com atenção. Com palavras de carinho. Com presentes. Com alguém que faz uma criança sentir-se especial. É precisamente essa aparência de normalidade que torna o aliciamento tão difícil de reconhecer e tão fácil de esconder.

Para as vítimas, perceber que aquilo a que chamavam amor era, afinal, manipulação pode demorar anos. Algumas só o compreendem quando já carregam marcas profundas da violência.

Especialistas ouvidos pelo Diligente defendem que a prevenção passa, acima de tudo, pela educação. Ensinar as crianças que o seu corpo lhes pertence. Explicar que nenhum adulto pode pedir segredo sobre toques, fotografias ou comportamentos íntimos. Criar relações de confiança onde possam falar sem medo.

E dar às famílias, às escolas e às comunidades ferramentas para reconhecer os sinais de alerta antes que o abuso aconteça. Porque, quando uma criança acredita que a violência é uma forma de amor, o agressor já conquistou aquilo de que mais precisava: a sua confiança.

aliciamento: processo em que alguém ganha a confiança de uma criança ou de outra pessoa para a manipular e, muitas vezes, a explorar ou abusar dela.

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