Entre flores feitas de papel e linhas de croché, Maria Natália constrói o próprio sustento e a própria dignidade. Aos 28 anos, concluiu a universidade apesar das tentativas do tio para a impedir de estudar, cuida de crianças para sobreviver e transforma a criatividade numa forma de resistência e autonomia.
“Corram com cuidado para não cair.” A frase repete-se numa varanda em Díli, onde Maria Natália acompanha duas crianças entre risos e passos inseguros. Aos 28 anos, é ali que garante o sustento. Mas o caminho que a trouxe até aqui foi feito de perdas, conflitos familiares e uma resistência silenciosa que se tece, todos os dias, entre flores de papel e fios de croché.
Cuidar das crianças passou a ser o seu sustento diário. O salário permite-lhe assegurar as despesas diárias, o arrendamento da casa e os custos associados ao judicium e à graduação. O valor que recebe está de acordo com o salário mínimo adotado pela Secretaria de Estado da Formação Profissional e Emprego (SEFOPE). Mas antes de se tornar cuidadora, Maria Natália sonhava com outro caminho.
Natural do Suai, Maria Natália concluiu, no ano passado, o curso de Parteira na Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL). Terminou a licenciatura contra expectativas e obstáculos. No entanto, apesar do esforço e da qualificação alcançada, ainda não conseguiu uma oportunidade profissional na sua área de formação.
Perante esta realidade, decidiu abraçar o trabalho de cuidadora de crianças, desempenhando-o com o mesmo compromisso e sentido de responsabilidade que aprendeu durante o seu percurso académico. Se a profissão ainda não chegou, a criatividade encontrou-a primeiro.
Transformar papel em esperança
Em setembro de 2024, quando se aproximava da conclusão do curso, Maria Natália descobriu uma nova forma de expressar a sua criatividade. Após assistir a vídeos tutoriais, aprendeu a transformar materiais simples — fitas, papéis de embrulho, caixas, pedaços de madeira e outros objetos — em flores artesanais, ideais para oferecer em ocasiões como judicium e graduações universitárias.
O investimento inicial para adquirir os materiais varia entre 10 e 15 dólares. Após a venda, pode obter pelo menos 60 dólares de lucro. “Quando decidi começar, o meu namorado emprestou-me 10 dólares para comprar os materiais. Depois de vender, devolvi-lhe o dinheiro. Ele também ajuda em algumas tarefas”, contou.
O processo começou de forma simples e simbólica. Juntamente com colegas, reutilizou folhas já usadas nas monografias, após a correção dos docentes. Papéis que antes representavam avaliações académicas ganharam uma nova vida através da imaginação e do trabalho manual.
“Este foi o nosso primeiro processo de aprendizagem com esses papéis. Depois pensei: porque não transformar esta criatividade numa forma de obter rendimento? Não queria depender financeiramente da minha irmã, sobretudo depois do falecimento da minha mãe. Então voltei ao YouTube para procurar exemplos de materiais e técnicas que me ajudassem a aperfeiçoar esta arte”, explicou.
No final de dezembro de 2024, decidiu vender as flores na Universidade Oriental (UNITAL). Chegou cheia de expectativa, acreditando que aquele seria o início do seu pequeno negócio. Contudo, ninguém comprou.
Mais tarde percebeu o motivo: as cores das flores não correspondiam às cores representativas das faculdades da universidade. “Preparei apenas flores azuis claras, como na Faculdade de Medicina da UNTL, mas na UNITAL a cor é amarela. Fiquei apenas cerca de 30 minutos e voltei para casa”, recordou, com um tom nostálgico.
Sentiu o peso da exposição e da comparação pela primeira vez. Ao mesmo tempo, sentiu orgulho por conseguir transformar materiais simples em peças criativas feitas pelas próprias mãos. “Observei que as flores de outras pessoas tinham melhor qualidade. As minhas ainda não estavam ao mesmo nível”, reconheceu.
Poucos dias depois, conseguiu vender flores durante a graduação da UNTL, realizada no Centro de Convenções de Díli (CCD), arrecadando 60 dólares. “Os preços variam entre 1 e 20 dólares, dependendo do tamanho, dos materiais utilizados e do nível de detalhe”, explica com orgulho.
No mesmo ano, vendeu também nas graduações do Instituto de Ciências da Saúde, obtendo valor idêntico. No final de 2025, comercializou as suas flores durante uma semana nas atividades de judicium da Universidade da Paz, onde conseguiu cerca de 300 dólares.
No momento da sua própria graduação, não conseguiu vender porque ninguém a ajudou na comercialização. “Mas, no mês passado, houve a graduação do Instituto Cristal e consegui vender. Agora já não é época de graduações, por isso torna-se mais difícil”, afirmou.
Fios que tecem autonomia

Desde criança que sabe fazer croché. Em 2024, aperfeiçoou a técnica após assistir a vídeos no YouTube e decidiu transformar a habilidade numa fonte de rendimento. “Faço carteiras, malas, mochilas e biquínis. Os preços variam entre 5 e 20 dólares”, explicou.
Enquanto cuida das crianças, promove os seus produtos no TikTok. Recebe encomendas para aniversários, Dia dos Namorados e outras datas especiais. “Depois de as crianças descansarem, aproveito o tempo para preparar as encomendas.”
Chegou também a preparar lanches, como amendoim transformado em diferentes produtos, que deixava no quiosque da mãe do namorado para venda. Atualmente, já não desenvolve essa atividade.
Mas a luta de Maria Natália não se trava apenas no campo profissional. Em casa, a batalha é mais antiga — e mais dolorosa.
Entre tradição e lei: a luta por aquilo que é seu
A vida da família mudou profundamente após a morte da mãe, em 2019. “O meu pai é idoso e doente, já não tem força para trabalhar. As minhas irmãs não o deixam trabalhar”, relatou.
Desde então, descreve a vida como “cheia de tristeza e traumas”. “De 2020 até agora, tem sido um inferno por causa das provações que surgem de várias maneiras, mas continuo a resistir.”
Enfrentou também obstáculos para continuar os estudos. “O meu tio estava zangado e queria que eu deixasse de estudar, alegando que não havia dinheiro para pagar as propinas. A minha avó materna e as minhas irmãs incentivaram-me a continuar e assumiram todas as despesas. Depois de concluir o curso, o meu tio reclamou, dizendo que tinha sido ele a pagar as minhas propinas, mas não é verdade.”
Recentemente, um dos tios reabilitou a casa dos pais. No entanto, tanto a casa como o terreno pertencem aos pais de Maria Natália. Segundo relata, o tio pretende ficar com o imóvel após o falecimento da mãe.
O caso ocorre no Suai, onde a tradição local atribui legitimidade às mulheres relativamente a determinados bens familiares. “Segundo a nossa tradição, o poder está nas mulheres. Mas, neste momento, o meu pai ainda é vivo e nós, os filhos, também existimos”, sublinhou.
Maria Natália afirma que não pretende apresentar queixa, a menos que haja agressão ou tentativa de usurpação forçada: “Se o meu tio agir de forma diferente ou nos agredir, então recorreremos à justiça.”
De acordo com o Código Civil de Timor-Leste, a sucessão legítima estabelece que “são herdeiros legítimos o cônjuge, os parentes e o Estado, pela ordem e segundo as regras constantes do presente título” (artigo 1999.º). A primeira classe de sucessíveis é composta por “cônjuge e descendentes” (artigo 2000.º, n.º 1, alínea a)), que têm prioridade face às classes seguintes (artigo 2001.º). Assim, quando uma esposa falece deixando marido e filhos, são estes os herdeiros prioritários, e não os irmãos da falecida, que apenas seriam chamados na ausência de cônjuge e descendentes.
Apesar de existirem práticas tradicionais de natureza matrilineal em algumas regiões, como em Suai, a lei civil atribui primazia ao cônjuge sobrevivo e aos filhos.
Uma história que reflete um país
A história de Maria Natália não é isolada. Ela inscreve-se num contexto nacional onde o acesso à educação continua a ser um desafio estrutural.
O Censo de 2022 revela que 20% das crianças entre os 6 e os 18 anos não frequentam a escola. Entre os 19 e os 29 anos, a taxa de abandono sobe para 70%. Além disso, 45% da população entre os 3 e os 29 anos não tem acesso à educação.
No caso de Maria Natália, apesar de um dos tios ter tentado impedi-la de continuar os estudos universitários, com o apoio exclusivo das irmãs e da avó materna conseguiu concluir a formação, ainda que continue sem exercer na sua área.
Um relatório da SEFOPE indica que, entre 2009 e 2024, mais de 19 mil timorenses emigraram para países como a Austrália e a Coreia do Sul — cerca de 13 mil para a Austrália e aproximadamente seis mil para a Coreia do Sul. Maria Natália, porém, optou por procurar oportunidades dentro do país.
A vida ainda não lhe deu o lugar na saúde materna que ambiciona. Mas Maria Natália aprendeu que flores não nascem apenas na terra certa — nascem onde alguém insiste em cuidar delas. Entre papéis reutilizados, fios entrelaçados e direitos por defender, continua a construir o seu caminho com as próprias mãos. E, contra todas as tentativas de a cortar, escolhe continuar a florescer.

