No Dia dos Namorados, enquanto muitos celebram o amor com flores e presentes, algumas mulheres em Timor-Leste vivem um silêncio invisível: o direito de decidir sobre o seu próprio corpo. Consentimento, prazer, autonomia e liberdade de expressão dentro do casamento ainda são questões complexas, atravessadas por cultura, religião e tradições patriarcais.
Quem decide sobre o corpo da mulher? O que significa consentimento fora e dentro do casamento? Há espaço para que as mulheres expressem o que realmente sentem nas suas relações íntimas?
Estas perguntas, embora fundamentais, permanecem muitas vezes sem resposta em Timor-Leste. Embora a Constituição garanta igualdade entre mulheres e homens em todos os domínios da vida — familiar, cultural, social, económico e político — o que acontece no espaço íntimo de cada casa ainda é cercado de silêncio e tabus.
No contexto do Dia dos Namorados, comemorado a 14 de fevereiro, enquanto muitos parceiros trocam flores, chocolates ou passeios românticos, a discussão sobre autonomia corporal e consentimento feminino permanece invisível. Por trás deste romantismo, existe uma questão raramente discutida abertamente: o prazer sexual feminino.
Durante as entrevistas realizadas, surgiram desafios significativos. Muitas das pessoas que tentamos entrevistar, tanto homens quanto mulheres, se sentiram envergonhadas ao abordar o tema, e algumas chegaram a rir de forma constrangida.
Houve, porém, quem aceitasse partilhar a sua experiência, desde que a identidade fosse preservada. Este comportamento evidenciou que o prazer sexual feminino continua a permanecer no silêncio.
Mulheres entrevistadas relataram sentir dificuldade em falar sobre o que lhes agrada ou desagrada nas relações sexuais, por vergonha, medo de julgamento ou pela perceção de que os homens simplesmente não ouviriam.
“Com o meu ex-parceiro, sentia timidez e faltava abertura. Muitas vezes não dizia, porque sabia que ele não ia querer perceber. Hoje sei que tenho de defender o meu direito e quero falar abertamente sobre o que sinto. Isso é importante para o meu bem-estar — e para o bem-estar de todas as mulheres”, disse uma entrevistada, que optou por manter o anonimato.
Acrescentou que o uso de brinquedos sexuais ajuda a explorar o prazer, embora nem sempre envolva sentimentos. “Acho que é normal e faz parte do ser humano. Os brinquedos ajudam, mesmo que não envolvam o sentimento de carinho. Para mim, a relação sexual não é apenas o ‘fazer’, mas também a intimidade. Mesmo assim, acho que as tecnologias também ajudam”.
No entanto, relatou experiências passadas em que nunca se sentiu dona do próprio corpo: “Nunca senti que o meu corpo me pertencia de forma plena. No fim do ato sexual com o meu ex-parceiro, sentia um vazio e pensava: ‘Não tenho direito a ser amada?’ Sabia que não podia explicar, porque ele não iria perceber, e ali, no silêncio, o meu corpo deixava de me pertencer.”
Estas narrativas individuais refletem desafios mais amplos enfrentados pelas mulheres timorenses, que ainda lutam para ter espaço de expressão, mesmo em relações conjugais, dentro de uma sociedade patriarcal e influenciada por normas culturais e religiosas.
Corpo, poder e controlo: direitos fundamentais em jogo
O respeito pelo corpo feminino, a autonomia e o consentimento não são apenas questões íntimas: são direitos humanos e constitucionais. O Artigo 17 da Constituição da República Democrática de Timor-Leste estabelece que mulheres e homens têm os mesmos direitos em todos os domínios da vida — familiar, cultural, social, económico e político. No entanto, na prática, a cultura patriarcal ainda influencia a perceção sobre quem deve ter controlo sobre o corpo e sobre a intimidade.
“O corpo é o primeiro território que cada pessoa deve proteger”, afirma Virgílio Guterres, Provedor dos Direitos Humanos e de Justiça. “Antes de defender o território de um país, cada cidadão tem o direito de proteger o seu próprio corpo e a sua dignidade. Qualquer negação ao direito à igualdade, ou qualquer ato de discriminação contra as mulheres, constitui uma violação dos direitos humanos.”
O psicólogo Alessandro Boarccaech alerta para o impacto direto da falta de conhecimento sobre sexualidade na autoconfiança das mulheres e na qualidade das relações. “A sensação de falta de controlo sobre o próprio corpo pode gerar ansiedade, frustração, insegurança e baixa autoestima. A longo prazo, limita a capacidade de estabelecer relações íntimas saudáveis e afeta a saúde mental, autonomia e bem-estar emocional.”
Emília Moniz, feminista, reforça que nas culturas patriarcais o corpo feminino é muitas vezes visto como objeto, não como ser humano com direitos, sentimentos e escolhas. “Quando falamos de satisfação durante a relação sexual, não se trata apenas de intimidade, mas também da dinâmica de poder — quem decide e quem é ouvido. O prazer feminino é frequentemente negligenciado e estigmatizado.”
Vozes femininas: silêncio, vergonha e conquista de autonomia
Para compreender melhor a realidade do corpo e do consentimento feminino em Timor-Leste, o Diligente ouviu mulheres de diferentes idades, de contextos urbanos e rurais, algumas mães e outras solteiras. Muitas relataram dificuldades em expressar o que sentem, seja por vergonha, medo de conflito ou falta de conhecimento sobre o próprio corpo.
“Às vezes, estou doente ou estou com o período, e mesmo assim ele não aceita um ‘não’. Grita comigo, bate-me, e insiste que tenho de lhe obedecer porque ‘pagou muito por mim’. Sinto-me presa dentro do meu próprio corpo.”
Contou que, nos dias em que recusa, a violência aumenta. “Quando digo que não quero, ele fica furioso. Uma vez, bateu-me e violou-me, dizendo que o dinheiro que gastou no barlaque me obriga a fazer tudo o que ele quer. Choro sozinha, tento não mostrar, mas a dor e o medo estão sempre comigo.”
A mulher, que preferiu manter o anonimato, explicou que não tem a quem recorrer. “Não posso contar à família, não posso pedir ajuda, porque sei que vão me culpar ou dizer que é normal. Às vezes penso: “Será que alguma vez poderei ser dona do meu próprio corpo?”.
Uma jovem de Díli, de 22 anos, confidenciou: “O meu corpo só é meu quando consigo dizer o que me agrada. Senão, sinto que estou a cumprir um papel, não a viver uma relação de verdade.”
Já uma mãe rural de 35 anos disse: “Ninguém me explicou como funcionava o meu corpo. Hoje, aprendi a reivindicar os meus direitos, mas ainda há mulheres que vivem com dúvidas e medos.”
As experiências pessoais refletem desafios mais amplos enfrentados pelas mulheres. A questão da comunicação dentro do relacionamento surge como um dos principais obstáculos: muitas sentem que não podem expressar o que gostam ou não gostam sexualmente, e acabam por internalizar a frustração e a vergonha.
Vozes masculinas: perceções e tradições
Fridolino Hornai partilhou a sua perspetiva sobre como as mulheres expressam o seu prazer durante as relações sexuais, dependendo da idade. “Quando são mais jovens, têm mais dificuldade em falar. As mulheres mais velhas conseguem comunicar melhor o que sentem. No entanto, a mentalidade da sociedade ainda limita o que pode ser discutido abertamente”, explicou.
Também comentou que falar sobre prazer na comunidade ainda é difícil, devido a barreiras culturais e sociais que tornam complicado discutir sexualidade feminina de forma aberta e honesta. “Mesmo quando algumas conseguem falar sobre o seu prazer, é muitas vezes limitado pela mentalidade timorense, que culturalmente ainda impede que estas questões sejam debatidas.
“De acordo com a tradição patriarcal de Timor-Leste, os homens valorizam as mulheres por servirem a família. Nesta situação, não se trata apenas de necessidades sexuais. Em vez disso, os homens desenvolvem uma mentalidade de que perderam muito para ganhar as suas esposas, pelo que estas precisam de satisfazer as suas necessidades sexuais.”
Uma fonte masculina, que preferiu não revelar a sua identidade, falou abertamente sobre a sua experiência e perceção. “Ninguém me explicou nada sobre o corpo da mulher. A gente aprende vendo ou então descobre sozinho… e muitas vezes é só na prática.”
Questionado sobre se sabia o suficiente sobre intimidade e prazer quando casou, respondeu que sabia o básico e que não era importante a mulher gostar. “Se ela gosta, gosta, se não gosta, paciência. É assim a vida”, disse, entre risos.
Sobre se a mulher pode dizer ao marido quando algo não lhe agrada, o entrevistado mostrou-se indignado. “Dizer que não gosta? A nossa cultura não é assim. A mulher tem de aceitar, ou então arranja confusão.”
Relativamente a masturbação feminina e brinquedos sexuais, foi perentório: “A minha mulher não precisa de nada disso! Mas cada um sabe de si.” Por fim, sobre o que poderia mudar para que as mulheres tivessem mais prazer nas relações, desvalorizou. “Talvez se os homens aprendem a ouvir mais, mas a mentalidade das pessoas é assim. E as mulheres até gostam que seja assim.”
Filomeno Martins, por sua vez, trouxe exemplos práticos que demonstram a importância de respeitar o prazer feminino: “Houve mulheres que me procuraram para ter relações porque não estavam satisfeitas com os seus parceiros. Terminam sempre a relação sexual rapidamente, mas percebi que o prazer feminino é importante e que os homens precisam de considerar este aspeto nas suas relações.”
Acrescentou que é fundamental aumentar o conhecimento da sociedade sobre igualdade, para que as mulheres possam expressar-se livremente e com dignidade. “Penso que é necessário disseminar conhecimento sobre o prazer feminino na sociedade, sobretudo entre os homens, para afirmar o princípio da igualdade e permitir que todos os indivíduos vivam de forma livre, igual e com dignidade, tendo direitos de tratamento, proteção e oportunidades.”
Nicodemos do Espírito Santo concorda e reforça que a sociedade ainda valoriza mais o prazer masculino. “A maioria da sociedade ainda mantém esta visão estereotipada. O prazer masculino é discutido e normalizado, enquanto o feminino é ignorado ou tratado como tabu. A educação sexual é essencial para ensinar respeito e compreensão do corpo feminino.”
Explicou que, de acordo com a tradição patriarcal, os homens valorizam as mulheres pelo papel familiar e tradicional, desenvolvendo ideias que reforçam a submissão: “Na tradição patriarcal, os homens acham que as mulheres têm de satisfazer as suas necessidades sexuais como parte da sua obrigação familiar. Isso precisa de mudar para garantir igualdade efetiva.”
Saúde sexual como direito e bem-estar
A discussão sobre prazer e autonomia feminina não é apenas cultural: é também uma questão de saúde pública. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a saúde sexual é parte fundamental da saúde e do bem-estar dos indivíduos, casais e famílias, além de contribuir para o desenvolvimento social e económico das sociedades e dos países. A saúde sexual não significa apenas ausência de doenças, mas inclui as condições físicas, emocionais, mentais e sociais relacionadas com a sexualidade.
A OMS afirma que a saúde sexual deve ser vista de forma positiva e respeitadora. Ou seja, as relações sexuais devem ocorrer de forma segura e prazerosa, livres de coação, discriminação e violência. Esta abordagem coloca os direitos, a dignidade e o consentimento como princípios centrais em qualquer relação sexual.
A capacidade de uma pessoa para alcançar a saúde e o bem-estar sexual depende do acesso a informação abrangente e de qualidade sobre sexualidade, da compreensão dos riscos e impactos das relações sexuais desprotegidas, da disponibilidade de serviços de saúde sexual, bem como de um ambiente que apoie e valorize a diversidade, incluindo a orientação sexual, a identidade de género, a expressão sexual, os relacionamentos e os aspetos do prazer.
Igreja, moralidade e cultura: limites e imposições
A sexualidade feminina em Timor-Leste também é mediada por interpretações religiosas e culturais. Emília Moniz alerta que, em muitas doutrinas religiosas, a mulher é ensinada a submeter-se ao marido, limitando a sua liberdade sobre o corpo e a sexualidade.
“A religião ensina as mulheres a submeterem-se aos homens, ensina-as a submeterem-se aos homens para que não possam rejeitar os seus maridos”, disse. Acrescenta que a cultura patriarcal e os legados coloniais também controlam o corpo feminino: “Falando da cultura timorense no passado, as mulheres não usavam roupa, mas ninguém sexualizava os seus corpos. A cultura que praticamos hoje deriva moralmente da religião.”
O Diligente tentou contactar representantes da Igreja Católica para ouvir a sua perspetiva sobre intimidade e prazer feminino, mas até ao momento não obteve qualquer resposta.
O psicólogo Alessandro Boarccaech explica que a cultura de Timor-Leste ainda molda como a sociedade vê o corpo e o prazer das mulheres, frequentemente de forma moralista e repressiva.
“Atualmente, a sexualidade tem um caráter moralizante e repressor. O corpo feminino é visto como propriedade do homem ou da família. O prazer da mulher é pouco discutido e, por vezes, invisibilizado, o que reforça a ideia de que o corpo e as vontades da mulher estão subordinados aos interesses sociais e familiares.”
Segundo Alessandro, a educação sexual ainda se concentra sobretudo em reprodução, casamento e moralidade, deixando lacunas importantes sobre o conhecimento do corpo feminino.
“Conversas sobre prazer são frequentemente silenciadas, e o ensino sobre o corpo e a sexualidade se concentram em reprodução, casamento e moralidade. Isso dificulta que meninas e mulheres tenham informações completas sobre seu corpo e direitos sexuais.”
Segundo o mesmo, a falta de informação fidedigna sobre a sexualidade pode fazer com que as mulheres se sintam envergonhadas ou inadequadas em relação ao seu próprio corpo. “Isso dificulta a comunicação com os parceiros, impacta a autoconfiança para reivindicar direitos e consentimento e prejudica tanto a satisfação quanto a segurança emocional nas relações”.
Também destacou a força das normas patriarcais na tomada de decisões relativas à contraceção, ao consentimento e às relações íntimas. Em muitos casos, os homens ainda são considerados como tendo um papel dominante, enquanto a autonomia das mulheres é limitada pelas expectativas familiares, religiosas e comunitárias.
O psicólogo referiu que há sinais de mudança na sociedade em relação aos direitos das mulheres ao prazer e à autonomia corporal, especialmente entre as mulheres jovens, urbanas, solteiras, instruídas e financeiramente independentes.
“Algumas delas reivindicam um maior controlo sobre o seu corpo e sobre as suas escolhas sexuais. Não é incomum encontrar jovens solteiras que dizem não querer casar com homens timorenses, pois não se sentem respeitadas”.
Papel do Governo: educação, sensibilização e mudança gradual
Além das barreiras culturais e religiosas, o Governo tem um papel ativo na promoção da igualdade de género e no apoio à educação e sensibilização sobre direitos e saúde sexual. Hermina Félix Maria de Moreira Gusmão, chefe do Departamento de Proteção Social para as Mulheres do MSSI, explicou ao Diligente que estão em curso campanhas de sensibilização e formação, envolvendo ONG’s e comunidades em municípios como Baucau e Lospalos.
“O MSSI, em colaboração com a Fundação Ásia, reviu os seus procedimentos operacionais padrão. Em 2024, realizámos campanhas de sensibilização sobre estes padrões entre os nossos membros, começando em Baucau e Lospalos, e continuaremos noutros municípios”, explicou.
Hermina salientou que, embora a luta pela igualdade de género seja difícil, é possível avançar um dia de cada vez. “Ainda estamos a sensibilizar as pessoas, mas isso depende de elas receberem a informação. Se queremos mudar a mentalidade da próxima geração, precisamos de começar em casa.”
A chefe de departamento reconhece que o sistema patriarcal ainda prevalente na sociedade é um desafio, mas isso não significa desistir da luta. “No entanto, quando está ligado à cultura, é um pouco mais difícil, mas acho que está a tornar-se possível aos poucos, porque este trabalho é árduo. Vemos que, no nosso país, o sistema patriarcal ainda é forte e continua a ser um desafio que enfrentamos, mas isso não significa que devamos parar de lutar.”
Desafios culturais e religiosos: entre submissão e respeito
Embora a igualdade esteja claramente garantida na Constituição, Virgílio reconheceu que os maiores desafios permanecem nos planos social, cultural e religioso. Citou barreiras estruturais e culturais que continuam a influenciar a perspetiva da sociedade sobre os direitos das mulheres.
“Depois da restauração, há movimentos, mas o desafio é que ainda temos um desafio de como derrubar o muro de Berlim, o muro, a barreira estrutural, cultural e religiosa que ainda servem de abrigos ou de razões pelas entidades culturais e religiosas para travarem ou para terem outra definição sobre a luta pela igualdade”.
Em algumas comunidades, persiste a perceção de que as mulheres casadas devem submeter-se aos seus maridos e seguir o sistema cultural da família do homem. Esta visão, disse, não é exclusiva de Timor-Leste, “mas também existe em muitos outros países com culturas patriarcais.”
No entanto, observou que a cultura timorense também contém valores que podem ser interpretados como respeito pelas mulheres. No casamento tradicional, por exemplo, a união de dois indivíduos significa também a união de duas famílias alargadas. Esta deve ser interpretada como uma forma de respeito e aceitação das mulheres como novos membros da família.
“Culturalmente, ainda tem esta perceção. Mesmo, na minha definição, a cultura timorense em si, há espaços, há interpretações que podem dar o significado que as relações socioculturais que vinculam duas famílias é para honrar a mulher, apreciar a mulher como nova, como novo membro da família”.
Virgílio realçou que o casamento não é um ato de submissão, mas sim um acordo entre duas partes para viverem juntas em igualdade e com respeito mútuo.
“Portanto, como Provedor, encorajo que os lutadores, os responsáveis do movimento de luta pela igualdade, continuem o esforço de consciencializar a sociedade para chegar a este entendimento de que casamento não é um ato de submissão”.
Apesar das garantias constitucionais, das iniciativas do governo e da voz de especialistas e feministas, a autonomia feminina e o prazer continuam a ser desafios quotidianos.
Pode haver amor quando o corpo da mulher não lhe pertence? Como transformar a Constituição em realidade nas relações íntimas diárias? De que forma a sociedade, a cultura e a religião podem apoiar, em vez de limitar, a liberdade feminina?
O debate sobre corpo, consentimento e prazer feminino em Timor-Leste está apenas a começar. As respostas dependem de mudanças sociais, educativas e culturais que envolvam homens, mulheres e instituições religiosas, construindo um espaço onde a igualdade de direitos e a dignidade das mulheres sejam realmente vividas no dia a dia.


