O barulho constante das máquinas, o pó que se espalha pelo vento e o cheiro intenso do alcatrão afetam diretamente as famílias que vivem junto às áreas de mineração em Beduku, levantando preocupações sobre a saúde pública e o equilíbrio ambiental. Apesar da gravidade da situação, as autoridades permanecem em silêncio.
Em Beduku, entre o suco de Comoro, em Díli, e o suco de Tibar, em Liquiçá, a paisagem antes marcada por colinas verdes e densamente arborizadas transformou-se em um cenário dominado por camiões, britadeiras e nuvens de poeira e fumo. O canto das aves desapareceu e a fauna local foi expulsa, dando lugar a um ambiente de constante barulho e exploração.
O dia a dia da comunidade é afetado pelo barulho das máquinas que quebram pedra, dos camiões carregados que entram e saem continuamente, das britadeiras e da produção de alcatrão. Nos dias de vento forte, a situação agrava-se: pó e fumo invadem casas, prejudicando a respiração e o conforto das famílias. Durante a época das chuvas, a humidade reduz temporariamente o pó, mas na estação seca, a situação torna-se crítica. Há mais de uma década, empresas locais extraem pedra, fabricam cascalho e produzem alcatrão, transformando profundamente a paisagem e causando impacto diretamente às comunidades vizinhas.
Mariazinha Soares de Fátima, de 33 anos, mãe de dois filhos, mudou-se para Beduku em 2023 e conta que a família sofre com a poluição e o barulho vindos do topo da montanha. “Quando as empresas quebram pedra, levanta muita pó. Na estação chuvosa ficamos até felizes, porque o pó diminui. Mas na seca, com vento forte, a situação é insuportável e não nos deixa descansar”, relata.
Os filhos da residente já tiveram de ser atendidos diversas vezes no Hospital de Comoro devido a problemas respiratórios provocados pelo pó. “A minha filha mais velha sofre de problemas respiratórios. Os médicos disseram que as crianças não devem ficar expostas, porque provoca tosse, coriza e dificuldade em respirar”, explica. Apesar do impacto, a comunidade não apresenta queixas às empresas, uma vez que estas atuam em terrenos privados. “Gostaríamos de nos mudar, mas os terrenos estão muito caros. Temos de continuar a viver aqui e ter paciência”, afirma.
No topo da colina, as escavações continuam. Durante chuvas mais intensas, a terra e as pedras soltam-se facilmente. “À noite, ouvimos a terra e as pedras a cair”, contou.
Outra moradora, Maria Elo, mãe de cinco filhos, reforça a preocupação com pó, fumo e barulho. “Os camiões transportam pedra a alta velocidade, levantando pó que cobre tudo e coloca as crianças em risco na estrada. O pó espalha-se pelas áreas de trituração e do alcatrão, obrigando-nos a recolher as crianças para dentro de casa”, relata.
António de Deus, que mora junto ao muro da empresa, afirma sentir-se inseguro diariamente. “O fumo das empresas que produzem alcatrão e o pó prejudicam seriamente a saúde da comunidade”, completa.
Um jovem residente acrescenta: “Beduku era conhecida pelas suas montanhas e beleza natural, mas agora vemos máquinas e camiões a destruírem tudo. Se os deslizamentos se tornarem frequentes, casas e pessoas poderão estar em risco. O Governo proíbe a população de cortar árvores nas montanhas, mas as empresas fazem-no sem qualquer sanção”, criticou.
A comunidade pede ao Governo que identifique locais adequados, longe das zonas residenciais, para que as empresas possam continuar a operar sem colocar vidas em risco. “Até agora, as empresas apenas destroem o terreno para explorar pedra. Nunca vi nenhuma plantar árvores para substituir as que foram destruídas”, lamenta.

Especialistas alertam para impactos ambientais e sociais
A mineração em Beduku e noutras áreas de Timor-Leste tem gerado preocupação entre comunidades e investigadores. Mariano Ferreira, da organização Lao Hamutuk, alerta que, se a exploração não for gerida com rigor, poderá gerar lucros para algumas empresas, mas comprometer recursos naturais e a qualidade de vida das populações a longo prazo. “Mesmo com licenciamento ambiental, a mineração em zonas montanhosas pode provocar erosão, deslizamentos e comprometer recursos essenciais como solo e água. Se não considerarmos estes impactos, teremos problemas graves, incluindo perda de árvores e contaminação das nascentes que abastecem Díli”, explica.
Ferreira defende que o Governo deve regular rigorosamente todas as empresas e manter comunicação constante com as comunidades, garantindo que não se tornem vítimas das operações. Sem fiscalização adequada, alerta, “todo o impacto recai sobre a população local, sem responsabilidades claras das empresas”. Embora a Lao Hamutuk não tenha realizado estudos específicos em Beduku, a organização já visitou outras áreas de exploração, como Lospalos e Turiskai, e reforça que sem monitorização eficaz é impossível medir corretamente os impactos ambientais.
O investigador sublinha que empresas que produzem pó de pedra ou alcatrão próximo de comunidades podem afetar a saúde pública. “A emissão de pó e partículas finas contamina o ar, o solo e pode chegar à produção agrícola e à água. A falta de equipamentos de controlo aumenta o risco para a população”, afirma. Ferreira acrescenta que a poluição do asfalto afeta não apenas Beduku, mas também Díli, tornando-se uma questão de saúde pública.
A Lao Hamutuk destaca ainda que projetos de exploração trazem pouco benefício ao Estado, sendo a maior parte dos lucros absorvida pelas empresas. “O investimento visa lucro, não apoio social à comunidade ou ao Governo. Algumas empresas oferecem apoio limitado, mas o que extraem do solo é muito superior”, explica.
Além disso, observa que o emprego local é limitado e a maioria dos trabalhadores de baixa qualificação vem de fora, contribuindo pouco para a economia nacional. “Recursos como árvores e minerais são explorados para benefício privado, enquanto a população sofre com degradação ambiental”, conclui.
O especialista cita experiências internacionais, como Sulawesi, na Indonésia, onde exploração sem recuperação ambiental causou inundações e destruição de infraestruturas. “As grandes empresas não devem explorar perto das cidades. Díli deve ser desenvolvida como uma cidade com montanhas, florestas e campos para atrair visitantes”, alerta.

Empresas defendem legalidade e medidas de mitigação
Rosantino Fátima Soares, diretor técnico da Boheek, Lda., afirma que a empresa opera legalmente, com licenças emitidas pela Autoridade Nacional dos Minerais (ANM), e que a pedra extraída serve principalmente para a construção de estradas e edifícios. “Para obras de maior qualidade, é necessário utilizar materiais resistentes, como a pedra ‘anesi’, atualmente explorada nesta área”, sublinha. A Boheek iniciou as operações em 2015 e renovou a licença ambiental em setembro de 2025, pagando taxas ao Estado conforme quantidade e qualidade da pedra extraída.
O engenheiro admite que a mineração provoca impactos ambientais, mas garante que são tomadas medidas para os mitigar, incluindo plantação de árvores e nivelamento do terreno. Quanto às queixas da comunidade sobre pó e barulho, defende que a responsabilidade deve ser coletiva, já que várias empresas operam na mesma área. “A estrada é pública e utilizada por todos. Não é possível que apenas uma empresa regue diariamente para evitar pó”, afirma.
A City Development Group, Lda. (CDG) também atua em Beduku e garante seguir normas legais e ambientais. Teresa Lay, diretora da CDG, explica que a empresa ajusta a exploração à procura do mercado e cumpre orientações da ANM, incluindo reflorestamento do terreno.
Embora algumas mudas tenham sido destruídas por animais soltos ou desaparecido, recentemente novas árvores foram plantadas e protegidas por cercas. A empresa realiza ainda a rega diária da estrada, especialmente durante a estação seca, para reduzir o pó.
A CDG atua mediante arrendamento legal de quatro hectares, fiscalizada pela Direção de Terras e Propriedades e pela ANM. Caso o Governo conceda a prorrogação da licença por cinco anos, a empresa pretende continuar a exploração até ao topo do monte; se a licença for suspensa, compromete-se a reflorestar a área. A pedra extraída é vendida a particulares e empresas para construção civil, com preços definidos pelo mercado.
A engenheira Hipólita Pinto Saldanha esclarece que a empresa não utiliza explosivos, apenas máquinas e britadores para rochas mais duras, evitando riscos à comunidade. Quanto à recuperação do terreno, “poderá ser usado futuramente para habitações, edifícios, hotéis ou piscinas. A torre da Eletricidade de Timor-Leste no topo do monte, dificulta operações seguras.”
A ANM realiza fiscalizações regulares, incluindo exigência de lavagem dos camiões antes de entrar na cidade. A CDG emprega atualmente dez trabalhadores locais, e um eventual encerramento da atividade afetaria diretamente esses postos de trabalho.
O Diligente tentou contactar o presidente da ANLA, Maximiano de Oliveira, e o presidente da ANM, Rafael de Araújo, mas não obteve resposta, uma vez que ambos estavam ocupados.
