Entre mosquitos e silêncio: dengue expõe sistema de saúde à beira do colapso

“Este é um país cuja liderança é elogiada internacionalmente, mas o povo enfrenta uma realidade diferente” /Foto: DR

Com cerca de mil casos e seis mortes registadas entre dezembro e janeiro, a dengue voltou a expor fragilidades no sistema de saúde timorense. A recusa do Ministério da Saúde em prestar informações detalhadas aos media está a gerar críticas no Parlamento e alertas da sociedade civil.

Todos os anos, com a chegada da estação das chuvas, os casos de dengue aumentam em Timor-Leste. Desta vez, além do crescimento das infeções e da pressão sobre os hospitais, a resposta do Governo está também no centro da polémica, devido às limitações impostas pelo Ministério da Saúde à comunicação com a imprensa.

Segundo dados apresentados pela própria Ministra da Saúde, Élia Amaral, entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 foram registados cerca de 1.000 casos de dengue, incluindo seis mortes.

Nos últimos anos, Timor-Leste tem enfrentado surtos recorrentes. Em 2022, o país registou mais de 5.500 casos, resultando em 58 mortes. Em 2023, os casos caíram para cerca de 2.000, enquanto em 2024 e 2025 registaram-se aproximadamente 1.500 casos por ano, com oito óbitos anuais.

Apesar deste padrão repetido e do impacto da doença, o Ministério da Saúde tem recusado prestar informações detalhadas à imprensa, gerando críticas no Parlamento e preocupações na sociedade civil.

Parlamento critica bloqueio à informação sobre dengue

Durante uma audiência na Comissão C do Parlamento Nacional, esta quinta-feira, 29 de janeiro, a deputada do PLP, Maria Angelina Sarmento, criticou a ministra Élia Amaral por limitar o acesso da imprensa às informações sobre a dengue. A parlamentar destacou que, muitas vezes, os dirigentes do setor da saúde não são autorizados a falar com os media.

“Atualmente, estamos na era digital, e o papel dos media é fundamental. No entanto, a própria ministra não autorizou os dirigentes da saúde a prestar informações. Este tipo de impedimento não deve acontecer num país democrático. É essencial que os media tenham acesso à informação para a partilhar com os cidadãos, ajudando na prevenção e tratamento da doença.”

O Diligente enfrentou esta situação na prática: ao solicitar uma entrevista com uma profissional da saúde sobre a dengue, recebeu a resposta de que “chefes e diretores anunciaram que não podemos dar entrevistas a nenhum órgão de comunicação social”.

Durante a audiência parlamentar, a Ministra da Saúde apelou à colaboração de todos para prevenir a dengue, enfatizando apenas que a proliferação do mosquito Aedes aegypti em Timor-Leste tem como principal causa o lixo espalhado pelo país. “Em Timor-Leste, o número de Aedes aegypti é elevado, e a sua principal causa é o lixo”, afirmou Élia Amaral.

Após a audiência, os jornalistas voltaram a questionar a ministra sobre o aumento recente dos casos e as medidas urgentes adotadas. Élia Amaral evitou fornecer respostas detalhadas, limitando-se a mencionar que o Ministério da Saúde está a preparar um espaço em Tasi-Tolu.

Quando questionada sobre ações concretas já implementadas, respondeu: “Hoje já falei, vocês acompanharam ou não?”, sem prestar mais esclarecimentos.

Sociedade civil denuncia falhas estruturais no sistema de saúde

O Coordenador do Fórum de Defesa dos Direitos Humanos (FADU, sigla em tétum), Shakely Mauma’a, alertou que os problemas no sistema de saúde em Timor-Leste permanecem graves e sem soluções concretas, apesar das sucessivas mudanças de Governo.

De acordo com Shakely Mauma’a, o Primeiro-Ministro comprometeu-se a reformar o sistema de saúde nos primeiros 120 dias de governação, mas os problemas persistem sem resolução.

“O Parlamento aprovou o orçamento de ratificação para 2023 e o Orçamento Geral do Estado para 2024, mas a falta de medicamentos nos hospitais e centros de saúde nacionais continua sem solução”, afirmou.

O responsável sublinhou que as falhas de planeamento e de coordenação do Ministério da Saúde, especialmente no atendimento a doentes com dengue, são estruturais e arrastam-se desde a restauração da independência do país.

Recordou ainda que, segundo o artigo 57.º da Constituição, cabe ao Estado garantir assistência médica e sanitária aos cidadãos.

Shakely Mauma’a alertou também para a desigualdade entre os setores público e privado. “As clínicas privadas oferecem bons serviços, instalações adequadas e médicos qualificados, mas apenas para quem tem recursos financeiros. Quem não tem dinheiro fica sem acesso”, criticou, enfatizando a necessidade urgente de reforçar a saúde pública.

O problema torna-se ainda mais visível no dia a dia das famílias. Uma mãe, que pediu anonimato, relatou que o seu bebé de 10 meses, infetado com dengue, apresentou os primeiros sintomas na terça-feira, dia 13, com febre alta. Inicialmente, administrou 2,5 ml de paracetamol, mas o estado da criança agravou-se, desenvolvendo inchaço e febre persistente durante quatro dias.

A família levou o bebé a um hospital público a 16 de janeiro, mas acabou por optar por uma clínica privada, por sentir maior segurança. “Há muitos doentes nos hospitais públicos, sentimos que os hospitais privados são mais seguros para os nossos filhos receberem tratamento”, explicou a mãe.

Shakely Mauma’a destacou que, apesar de programas do Ministério da Saúde com o Governo australiano e a Action on Poverty – World Mosquito Program (WMP), para a introdução de mosquitos Wolbachia desde agosto de 2025, os casos de dengue continuam a aumentar.

“Parece que o Ministério depende apenas de programas estrangeiros, sem uma política nacional clara e eficaz de combate à dengue. A falta de medicamentos e de infraestruturas torna as comunidades, sobretudo as crianças, ainda mais vulneráveis”, afirmou.

O coordenador do FADU denunciou graves deficiências nos centros de saúde em Díli, incluindo falta de camas, sobrelotação e insuficiente apoio técnico. Muitos doentes são obrigados a esperar sentados em condições indignas; no centro de saúde de Comoro, uma criança chegou a receber oxigénio numa cadeira inadequada.

“Este é um país cuja liderança é elogiada internacionalmente, mas o povo enfrenta uma realidade diferente. Os líderes ficam envergonhados porque não têm capacidade para resolver os problemas do país. Dar prioridade a interesses pessoais ou partidários em detrimento do bem-estar dos cidadãos é inaceitável”, concluiu Shakely Mauma’a.

Criticou ainda a utilização da saúde como instrumento político. “A vida das pessoas tornou-se um objeto de disputa política nas mãos dos poderosos. Apelamos para que não privatizem o setor da saúde para fins económicos ou partidários”, afirmou.

O responsável defendeu a adoção de medidas urgentes, incluindo o aumento do orçamento anual destinado à saúde, a melhoria das instalações hospitalares, a garantia de medicamentos de qualidade, a contratação de profissionais qualificados e o investimento em equipamentos médicos modernos.

“A vida das pessoas não é uma brincadeira. O povo confiou em vocês para liderar; devolvam esse poder através do reforço dos serviços públicos e do investimento no setor da saúde”, concluiu.

O presidente da Associação de Saúde Holística de Timor-Leste (ASH-TL), Tito da Costa Rangel, reconheceu os esforços do Ministério da Saúde, sobretudo através de ações de fumigação, da implementação do método Wolbachia e de campanhas de sensibilização, particularmente no município de Díli.

Contudo, alertou para a necessidade de reforçar a prevenção. “A prevenção também depende da sociedade: é fundamental limpar o lixo, eliminar água acumulada e cuidar de vasos de flores”, explicou.

Rangel alertou ainda para a falta de informação clara sobre as zonas abrangidas pelas ações de fumigação. “Não sabemos exatamente que áreas foram tratadas, o que significa que a dengue pode continuar a circular em locais não identificados”, afirmou.

O responsável defendeu a necessidade de acelerar a gestão urbana, reforçar o controlo do lixo e assegurar ações contínuas de educação para a saúde junto da população, como medidas essenciais para reduzir os riscos e evitar o agravamento da situação.

Hospitais enfrentam sobrelotação e procuram alternativas

No Hospital Nacional Guido Valadares (HNGV), o diretor dos Serviços de Apoio Diagnóstico e Terapêutico, Vidal de Jesus, admitiu a sobrelotação na emergência, com alguns pacientes a serem atendidos sentados em cadeiras devido à necessidade de os médicos trabalharem com tranquilidade para analisar exames e tratar cada caso.

“Se uma pessoa tiver dengue, precisa de ser internada. Mesmo com espaço limitado, tentamos sempre encontrar solução”, garantiu.

Vidal explicou que a emergência do HNGV tem capacidade para 62 camas, podendo chegar a 72 se forem usados corredores, distribuídas entre duas salas — uma para adultos e outra para pediatria.

Sobre prevenção, recomendou cuidados domésticos. “Limpar espaços com água acumulada, rodas e tanques com frequência. As crianças devem usar roupas que cubram braços e pernas, porque o mosquito Aedes aegypti gosta destes locais”.

Como alternativas à sobrelotação, o diretor mencionou a criação de condições de internamento no hospital de Lahane e a quarentena em Tasi-Tolu, procurando sempre soluções para acomodar os doentes de forma adequada e segura.

Em declarações recentes aos jornalistas, Narciso Fernandes, Diretor-Geral do Serviço Corporativo do Ministério da Saúde, afirmou que a elevada sobrelotação no Hospital Nacional Guido Valadares, provocada pelo aumento de casos de dengue, motivou a decisão de transferir alguns pacientes para o Centro de Internamento de Tasi-Tolu.

Recorde-se que, apenas nos primeiros 27 dias de janeiro deste ano, o número de casos confirmados de dengue já ultrapassou o total registado no primeiro trimestre de 2025. Segundo dados oficiais, no primeiro trimestre de 2025, Timor-Leste registou cinco mortes infantis entre 500 casos de dengue. Contudo, só no primeiro mês de 2026, o HNGV e o Serviço Municipal de Saúde de Díli já somaram cerca de 700 casos confirmados, dos quais seis resultaram em óbito.

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