A chegada do navio-biblioteca internacional Doulos Hope ao Porto de Díli transformou-se num verdadeiro fenómeno de adesão popular e numa demonstração clara do interesse da população timorense pela leitura. Durante vários dias, milhares de pessoas fizeram fila para entrar nesta biblioteca flutuante, num país que continua sem uma Biblioteca Nacional.
A visita do Doulos Hope, operado pela organização humanitária GBA Ships (Gute Bücher für Alle – Bons Livros para Todos), constitui um momento histórico para Timor-Leste. O navio chegou a Díli no dia 15 de janeiro de 2026 e permanece atracado até 29 de janeiro, numa segunda escala no país, depois da primeira visita em 2008.
O navio abriu ao público às 10h00, mas desde as 08h00 dezenas de pessoas já aguardavam na fila. O bilhete tem um custo simbólico de 20 centavos por pessoa, sendo a entrada gratuita para crianças e jovens com menos de 18 anos, o que facilitou ainda mais o acesso da população.
No interior do navio, os visitantes encontraram uma grande diversidade de livros, desde literatura infantil, livros de fé, culinária, negócios, desenvolvimento pessoal, educação e outros temas. Para além de livros, estavam disponíveis vários artigos como pins, canetas e porta-chaves, com preços entre 50 centavos e 20 dólares americanos, incluindo livros. O navio dispõe ainda de café, música ao vivo e espaços de convívio, o que contribuiu para atrair visitantes de todas as idades.
O ambiente acolhedor do Doulos Hope levou muitos visitantes a usufruírem de momentos de lazer, leitura e fotografia em praticamente todos os cantos do navio. Mais do que uma simples biblioteca, a embarcação funciona como um espaço cultural e recreativo único, evidenciando de forma clara o elevado interesse da população timorense por livros, leitura e literacia.
O gerente de Comunicação do Doulos Hope, Vale Rios, sublinhou que esta visita a Timor-Leste tem um significado especial, uma vez que passaram mais de dez anos desde a última escala de um navio da GBA Ships no país. Segundo explicou, o objetivo principal foi trazer o navio mais recente da organização para reencontrar a população timorense e observar o desenvolvimento do país ao longo dos anos.
“Estamos muito felizes por trazer o nosso navio mais recente aqui e ver como Timor-Leste tem evoluído ao longo do tempo”, afirmou Vale, acrescentando que a receção da população superou todas as expectativas. Durante os nove dias de abertura, mais de 28 mil visitantes passaram pelo navio, demonstrando um interesse expressivo por livros e atividades educativas.
Vale Rios destacou ainda que os livros mais procurados foram os de desenvolvimento pessoal, gestão e liderança, educação e literatura infantil. Quase todos os visitantes saíram do navio com pelo menos um livro. A maioria das obras disponíveis está em inglês, embora existam também títulos em tétum. Os livros de aprendizagem de inglês como segunda língua foram particularmente procurados.
“Adquiriram muitos livros sobre gestão e liderança, muitos livros infantis, bem como livros educativos, incluindo materiais sobre leitura e escrita. Livros de inglês como segunda língua também são muito procurados”, explicou.
Quanto ao impacto da visita, Vale Rios manifestou a expectativa de que o Doulos Hope contribua para facilitar o acesso a literatura de qualidade e gere um efeito positivo duradouro na cultura de leitura e na educação em Timor-Leste, elogiando também a resiliência e o entusiasmo da população pela aprendizagem. Após deixar Díli, o navio seguirá para Port Moresby, na Papua-Nova Guiné, antes de continuar a sua rota pela região do Pacífico.

Vários visitantes partilharam impressões positivas após visitarem a biblioteca flutuante Doulos Hope. Para muitos, trata-se de uma experiência inédita que traz benefícios concretos para a comunidade local, sobretudo no incentivo à leitura.
Relia Costa, moradora de Tasi Tolu, destacou a importância da presença do navio-biblioteca Doulos Hope para a comunidade local, especialmente tendo em conta que Timor-Leste ainda não dispõe de uma Biblioteca Nacional acessível a todos. Segundo afirmou, este espaço oferece aos leitores a oportunidade de aceder a livros e informações que, anteriormente, eram difíceis de obter, sobretudo para crianças, estudantes e famílias. “Esta biblioteca funciona como uma ponte que liga a comunidade ao vasto mundo do conhecimento, ao mesmo tempo que fortalece a cultura da leitura em Timor-Leste”, sublinhou Relia.
Acrescentou que a presença do Doulos Hope também evidencia o elevado interesse da população pela aprendizagem. Muitos visitantes, além de lerem no local, aproveitaram para comprar livros, abrangendo uma variedade de géneros, como obras educativas, de motivação, negócios e liderança. “Inicialmente, o meu objetivo era apenas explorar os livros trazidos pelo Doulos Hope, mas quando cheguei lá, fiquei fascinada pela diversidade da coleção disponível. Comprei nove livros, incluindo alguns para crianças e outros para mim mesma”, relatou.
Natalícia Maria Lourdes Cabral, residente em Bebonuk, contou que decidiu visitar a biblioteca por curiosidade em relação à coleção de livros disponível. Segundo afirmou, a biblioteca é muito importante para a comunidade, por oferecer livros a preços acessíveis e por disponibilizar espaços complementares como sala de estudo, café e locais para tirar fotografias.
“Durante a visita, encontrei livros que têm sido muito úteis na minha vida pessoal, como 12 Rules for Life, de Jordan P. Peterson, que oferece orientações no meio de uma crise dos 25 anos, e Things That Matter, de Joshua Becker, que já me ensinou bastante, mesmo tendo lido apenas até à página 29”, relatou.
Natalícia acrescentou que vê o Doulos Hope como um espaço de interação cultural, onde os visitantes podem conhecer outras culturas, novas pessoas e trocar ideias. Embora reconheça que alguns visitantes vão apenas para tirar fotografias, considera que a presença da biblioteca tem um impacto positivo e incentiva a leitura, mesmo entre quem anteriormente não tinha interesse em livros.
Já Névio Alves da Silva, residente em Manleuana, destacou a importância do navio Doulos Hope para a comunidade local, especialmente para a comunidade católica, uma vez que grande parte da coleção está relacionada com o contexto cristão, incluindo Bíblias, e que o navio oferece várias facilidades adicionais, como música ao vivo, café, venda de souvenirs e distribuição gratuita de Bíblias.
“Pessoalmente, gosto de livros de culinária, porque quero aprender a preparar pratos de qualidade seguindo padrões internacionais de chefs famosos, o que enriquece os meus conhecimentos gastronómicos. Infelizmente, durante a visita não encontrei o livro que procurava, mas a experiência foi inspiradora e permitiu-me descobrir outros livros interessantes”, afirmou.
Opinião semelhante foi partilhada por Márcia da Cruz, estudante residente em Becora (Au-Hun), que explicou ter visitado o Doulos Hope com o objetivo de adquirir conhecimento através da leitura e de procurar livros em inglês para levar para casa.
“Quanto mais lemos, maior é a expansão do conhecimento. A presença da Doulos Hope ajuda imenso a comunidade local, incluindo os estudantes, porque estimula o interesse e o entusiasmo pela leitura. Encontrei um romance em inglês, A Little Closer to Home, que aborda questões de saúde mental. A presença da Doulos Hope inspira-nos e esperamos que esta visita traga benefícios duradouros para a comunidade”, concluiu.
Biblioteca Nacional: uma história ainda por escrever
Apesar do entusiasmo popular, a visita do Doulos Hope expõe uma realidade preocupante: Timor-Leste continua sem uma Biblioteca Nacional. Esta ausência limita seriamente o acesso regular a livros, ao conhecimento e à educação contínua. A presença temporária de um navio-biblioteca, embora valiosa, não consegue abranger toda a população, sobretudo aqueles que não têm possibilidade de se deslocar ao porto durante o curto período da visita.
A situação torna-se ainda mais irónica quando se analisa o historial do projeto da Biblioteca Nacional de Timor-Leste, anunciado há vários anos mas nunca concretizado. Apresentada como um símbolo de progresso cultural e valorização do conhecimento, a Biblioteca Nacional permanece por construir, apesar de já terem passado oito anos desde a cerimónia simbólica de lançamento da primeira pedra.
De acordo com um comunicado do Governo de Timor-Leste, datado de 16 de agosto de 2017, a primeira pedra foi colocada em Hudi-Laran, Díli, com a previsão de conclusão da obra até 2019. No entanto, o projeto não registou avanços significativos. Em 19 de julho de 2022, o Governo voltou a realizar uma cerimónia simbólica no mesmo local, anunciando que a construção teria a duração de um ano e meio, com conclusão prevista para janeiro de 2024.
A futura Biblioteca Nacional está planeada para ocupar uma área de cerca de 27 mil metros quadrados, em Hudi-Laran, no Posto Administrativo de Dom Aleixo, Díli, e deverá funcionar como centro de preservação e promoção da cultura, literatura e história nacional de Timor-Leste.
O projeto resulta de uma cooperação entre o Secretariado de Estado para as Artes e Cultura (SEAC) e a Autoridade Nacional do Petróleo e Minerais (ANPM), com um financiamento inicial estimado em 10 milhões de dólares americanos, disponibilizados pela empresa multinacional italiana ENI, no âmbito de um acordo de exploração petrolífera no Mar de Timor. Apesar disso, até hoje, o projeto não apresenta progressos físicos visíveis.
O Ministro da Juventude e Desporto, Nélio Isaac, reconheceu que a presença do navio Doulos Hope despertou um grande entusiasmo e incentivou o hábito da leitura entre os cidadãos timorenses. Segundo o governante, esta realidade demonstra claramente que Timor-Leste tem a necessidade e a responsabilidade de dispor de uma biblioteca nacional própria.
“Quando o Doulos Hope chegou a Timor-Leste, muitos cidadãos demonstram entusiasmo em visitar o navio, ler e adquirir livros. Isto prova que a cultura da leitura existe e que é algo de que o país necessita. Significa que temos a obrigação de possuir uma biblioteca nacional”, afirmou.
Relativamente ao projeto da Biblioteca Nacional, o ministro esclareceu que já existe uma empresa chinesa responsável pela sua execução e que, no início do mês de março, será realizada novamente a cerimónia de lançamento da primeira pedra.
“O orçamento mantém-se e, no início do mês de março, será realizada novamente a cerimónia de lançamento da primeira pedra do projeto da Biblioteca Nacional”, concluiu.
Neste contexto, a presença do Doulos Hope funciona simultaneamente como presente e alerta. Por um lado, oferece acesso temporário a livros e conhecimento. Por outro, evidencia a urgência de Timor-Leste investir seriamente em infraestruturas culturais e educativas permanentes. Sem uma Biblioteca Nacional em funcionamento, o aumento da literacia e do desenvolvimento intelectual da população continuará dependente de iniciativas pontuais e de apoio externo.
Fiche Piedade, leitora ativa, destacou que uma das questões mais frequentemente apontadas é precisamente a falta de bibliotecas no país, uma situação que, segundo afirmou, não tem recebido atenção séria por parte do Governo.
“Na minha opinião, as bibliotecas existentes ainda são insuficientes, tanto pelas limitações de espaço como pela ausência de investimento sério do Governo. Eu nem sei exatamente onde essas bibliotecas se encontram, e também não vejo esforços concretos do Governo para as promover, seja em Díli ou nas escolas”, afirmou.
Por sua vez, Miguel Monsil sublinhou que a existência de bibliotecas em Díli poderia atrair muitas pessoas para a leitura, ao oferecer acesso a referências essenciais para os leitores.
“Isto é um sinal importante para nós e para os responsáveis pela tomada de decisões sobre a relevância dos livros, materiais de referência e literacia no processo de desenvolvimento nacional. Timor-Leste, como nação, deve ter uma Biblioteca Nacional adequada. Trata-se de uma necessidade básica para apoiar o desenvolvimento nacional, tanto administrativamente como Estado, quanto sociologicamente como sociedade. Ter uma sociedade com forte capital cultural pode ser um fator decisivo para impulsionar o desenvolvimento de Timor-Leste”, afirmou.
Segundo Miguel Monsil, até hoje Timor-Leste continua a enfrentar desafios semelhantes aos de outros países do chamado Terceiro Mundo, onde grande parte dos recursos é direcionada prioritariamente para o desenvolvimento físico, em detrimento do investimento estrutural na cultura e na leitura.
Quando o Doulos Hope deixar o Porto de Díli, levará consigo milhares de livros e deixará para trás uma pergunta que continua sem resposta: por quanto mais tempo continuará Timor-Leste a depender de bibliotecas temporárias para suprir uma necessidade estrutural e permanente?

